O Alfageme de Santarém
Cena Iii
Froilão Dias, o Alfageme a porta da sua casa, com a espada de
Nuno Álvares, depois Gil Serrão.
FROILÃO
Uma palavra, Fernão Vaz.
ALFAGEME
Já sou convosco: deixai-me dar ordem a esta espada que prometi de ter pronta esta noite, e já não sobra tempo. (Falando para dentro) Olá, Gil Serrão! (Aparece Gil Serrão à janela) Vós, que já não sois para rebuliços e que ficastes em casa; e não estais estropiado de saltar e gritar como essa gente toda que aí entrou agora, – vós ide-me trabalhar no corregimento desta espada, que daqui a duas horas tereis pronta de vosso trabalho. Eu por minha mão lhe virei depois dar o último fio: – que é obra de primor, e para quem... (como quem duvida e depois se resolve) para quem a merece; é verdade; merece.
FROILÃO (chegando-se e pegando na espada) Ou eu já estou tonto de todo, ou estou conhecendo esta espada.
ALFAGEME (dando-lhe)
Vede lá, vede lá.
FROILÃO
A mesma: não há outra em todo o Portugal como esta. De Rodes a trouxe quando lá foi servir suas comendas meu senhor D. Álvaro que Deus tem em glória, com ela foi ao Salado quando em suas vitoriosas mãos levava hasteado o lenho da Vera Cruz, com ela voltou triunfante. – Oh espada de meu santo amo, raio de Deus que tanto brilhaste naquelas mãos bem-aventuradas! Deixa-me te beijar, espada invencível, símbolo de glória e de justiça que nunca defendeste senão a honra e a virtude, deixa-me beijar a tua santa cruz por cuja cansa triunfaste sempre! – Relíquia preciosa de meu santo amo! – E como veio às tuas mãos este tesouro, alfageme?
ALFAGEME
Deram-me a correger e guarnecer.
FROILÃO
D. Nuno?
ALFAGEME
Esse foi.
FROILÃO
Providência de Deus! A espada querida do pai tocou ao filho mais querido! – Honrados são todos e cavaleiros; mas o do coração era este. Inda bem que lhe caiu em partilha. – Meu Deus, meu Deus, tenho fé que com esta espada ninguém ferirá sem justiça, ninguém poderá defender uma causa má e reprovada de vós. (Para o alfageme) Ter-lhe-eis pronta logo?
ALFAGEME
Para esta noite lhe prometi, e não faltarei. (Dá a espada ao oficial para dentro de casa)