O Alfageme de Santarém
Cena X
Alda no patim, Alfageme em baixo, Coro de serralheiros e donzelas
do Alfageme dentro.
ALFAGEME (saindo de sua casa e caminhando para junto do patim da escada)
Por aquelas regras do breviário de D. Froilão, não vos pode agradar a minha música, que a não sei afinar por essa entoação... Não sei ou não me atrevo, que tenho medo.
ALDA
De quê?
ALFAGEME
De quebrar as cordas todas ao pobre instrumento, grosseiro e mal construído, tosco e sem harmonia. E por fim para quê?... para se rirem das minhas vãs pretensões.
ALDA
Rir!... A mim nunca me faz rir a música. Nenhuma toada, por mais alegre, me causou nunca sendo tristeza.
UMA VOZ (dentro, o mesmo estilo antigo) Assomai-vos, minha mãe,
A essa janela do mar,
Vinde ver o conde Alarcos
Que aí vai a degolar.
CORO (dentro)
Conde Marcos... conde Andeiro,
Que aí vai a enforcar.
ALDA (descendo)
Que feias letras! É pena, Fernão Vaz, que há por aí tão bonitas coplas, tão gentis vilancetes, e vós e vossa gente, há dias a esta parte, désseis em cantar esses mal agourentos romances que não rezam senão de feias mortes e feios pecados que as trouxeram!
ALFAGEME
Que quereis, senhora! O cantar do povo anda com as ações de seus amos. O povo é como as crianças. Quando lhe cheira a guerra entre a gente grande, já vereis os rapazes pelas ruas a cavalo em canas e arrodelados de papei, gritando arma e guerra, e fingindo em seu folguedo os combates que deveras adivinham. O povo canta de mortes e castigos quando os espera da justiça de Deus, porque vê os grandes fazer por eles.
ALDA
Dobra-se o mal assim a esperar por ele, a antecipá-lo.
ALFAGEME
Quando o mal vem por castigo, é justiça.
ALDA
Pois deixai a Deus fazê-la quando e como lhe prouver; não tomeis em vossa mão vingar agravos de que Ele vos não fez juiz. – Sabeis vós, Fernão Vaz, que há muitas aparências falsas neste mundo; que o maior inocente passa às vezes por criminoso; que um erro involuntário, uma fraqueza leve e muito perdoável nas mãos da calúnia se erige em crime atroz? Sobretudo connosco, pobres mulheres, a quem uma palavra basta para perder, que um volver de olhos difama, um dito inconsiderado pode desonrar!
ALFAGEME
Sei, Alda. Mas sei também que a virtude e o mérito de uma mulher são a coisa mais difícil de ofuscar quando são verdadeiros. Queríeis-me ainda agora dizer o que tínheis no coração. Vou dizer-vos eu o que tenho no meu. Vós sois um anjo, Alda, em quem eu creio como numa coisa do céu. Que me dissessem de vós quantas infâmias pode inventar a calúnia mais negra, não as cria.
ALDA
Não?
ALFAGEME
Não.
ALDA
Olhai bem o que dizeis.
ALFAGEME
Não.
ALDA
Por quê?
ALFAGEME
Porque vos tenho estudado e vos conheço.
ALDA
Quem sabe?
ALFAGEME
Sei eu. Eu que vos amo na singeleza de meu coração, que toda a minha ventura seria fazer a vossa; eu que, se não receasse, se não visse que o trato grosseiro e humilde de um homem do povo desdizia tanto das vossas prendas e costumes...
ALDA
Tamanha senhora sou eu! Creio que zombais de mim, senhor Fernão Vaz: não vos mereço, que sou vossa amiga deveras. Basta o que meu tio Froilão vos quer e o bem que de vós diz, para vos eu estimar. – Eu sou uma pobre órfã desvalida que amparou a caridade de meu senhor e padrinho; em cuja casa me criei com mais mimo, é verdade, com mais regalo do que a minha condição cumpria.. mas por caridade. Sabeis o que valem estas palavras?
ALFAGEME
Não sei? Oxalá que o não soubera, e tão bem, e por mim!
ALDA
E agora não tenho outra proteção senão este meu pobre tio velho e enfermo... – E dizeis-me vós que!...
ALFAGEME
Digo-vos uma coisa só: podeis vós casar com um homem que não amais?
ALDA
Que não amo?
ALFAGEME
Que não amais.
ALDA
Ama-me ele a mim?
ALFAGEME
Como o entendeis?
ALDA
Se me tem amor?
ALFAGEME
Amor?... (hesita) não. Tem-vos amizade de pai, de irmão, tem por vós uma devoção, uma...
ALDA
Posso...
ALFAGEME
Imaginais que podereis vir a amá-lo?
ALDA
Crê ele que poderá chegar a amar-me?
ALFAGEME
Se não tendes outro amor...
ALDA
Eu!
ALFAGEME
Vós.