O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 3 de 46

Páginas do PDF

O Alfageme de Santarém

Ato I

CENÁRIO

É no subúrbio de Santarém, dito A Ribeira. À esquerda uma casa antiga, apalaçada, com vestígios de grandeza senhorial, mas muito arruinada, com escada exterior de pedra, descoberta e praticável, e colocada de modo que os atores, quando descem, ficam com a face para o espectador. No alto da escada, patim com parapeito e coberto com uma parreira. – À direita uma casa abarracada mas vasta e bem reparada, em que estão os armazéns e serralharias do Alfageme, cujas forjas acesas e trabalhando são visíveis para o espectador; a parte mais posterior da casa é mais antiga e acanhada, com só duas janelinhas agudas e porta no meio. No fundo Marvila ou parte alta de Santarém. – Em baixo corre o Tejo. – Da esquerda vem a estrada de Lisboa, pela direita se sobe Para Santarém. – No meio da cena, entro as duas casas, alguma árvore. – É de inverno. – A mesma vista em todos os atos.

 

ATO I

 

CENA I

Alda e Guiomar no patim, encostadas ao parapeito; o Alfageme às portadas de sua casa. Coro de serralheiros e donzelas do Alfageme dentro.

(Ao levantar do pano, continua a introdução na orquestra

acompanhando o tinir das bigornas e o assoprar das forjas)

ALFAGEME (dando a última demão a uma espada, canta em estilo de romance popular antigo)

Já lá vem o sol na serra,

Já lá vem o claro dia,

E inda o Conde de Alemanha Com a... (tosse) hum, hum, hum!... dormia. A trova diz: Alemanha;

Eu digo: Galegaria...

Onde chegou Portugal

Mais a sua bizarria!

CORO

Onde chegou Portugal

Mais a sua bizarria!

ALFAGEME

Mangas da minha camisa,

Não nas chegue eu a romper,

Se em vindo...

Se em chegando o nosso infante,

Não há aqui muito que ver!

CORO

Deus nos traga o nosso infante

Que tem muito que fazer!

ALFAGEME (falando)

Muito que ver e muito que fazer! Há como nunca houve, Galegos, Castelhanos, cismáticos apossados de tudo... Estrangeiros senhores do reino... do reino e da rainha! E para nós, tributos não faltam. –Veremos, veremos, que isto não está para muito, e não tarda o dia de juízo. (Canta)

Quem não deve, não deve, não teme;

Espadas e lanças faz o Alfageme.

CORO

Quem não deve, não deve, não teme;

Espadas e lanças faz o Alfageme.

ALFAGEME

E vamos a elas, rapazes; fazer bem espadas, bem lanças, bem achas, azevãs e partazanas, que hão de ser muito feiradas, e cedo. Ano de safra para o alfageme, meus amigos. Do modo que isto anda revolto!

– É trabalhar, rapazes.

ALDA (à parte para Guiomar)

Também me adivinha o coração, que cedo havemos de ter grandes alterações nesta terra. Quanto há que el-rei faleceu, Sra. D. Guiomar?

GUIOMAR

El-rei D. Fernando? Haverá... Estamos a 8 de dezembro. Ele morreu a 22 de outubro – e pouco mais de um mês. E já como esta gente anda solta e revolta! – A rainha D. Lionor por bocas do povo deste modo! Não há vilão ruim que se lhe não atreva. – Ah! Ah! quem pudera...

ALDA

É vilania. Uma mulher, uma senhora – rainha que ela não fosse – andarem-lhe com a vida por trovas e motetes! E Deus sabe quantos aleives, quantos falsos testemunhos por aí não andam...

(O Alfageme entra para a sua casa)