O Alfageme de Santarém
Cena Iii
Mendo Pais torna a descer; D. Guiomar o segue.
MENDO
Estamos salvos, Guiomar. Custou. Dois anos de lidas e perigos. Dois anos quase. Vejamos. Em 6 de dezembro foi a morte do conde de Ourém. A oito cheguei eu aqui, e foi...
GUIOMAR
Aquela famosa aventura da espada do Condestável.
MENDO
Já tu lhe chamas também Condestável.
GUIOMAR
Se todos lhe chamam!
MENDO
Mas nós não, que é reconhecer um título ilegítimo. Quem deu ao Mestre de Avis o direito de fazer Nuno Álvares Pereira Condestável dum reino que não é seu?
GUIOMAR
Pois sim: que me importa a mim com isso.
MENDO
Oh! importa-me a mim. – Mas vamos: 8 de dezembro... passou todo o ano seguinte; estamos a 8 de agosto deste ano. Há justamente vinte meses – inda não há dois anos; é verdade. Mas o que se tem passado! Ora vence o Mestre, ora el-rei de Castela. E um homem de bem sem saber por quem se há de resolver. Enfim, agora estou seguro.
GUIOMAR
Por quê? Estás certo que vencem os castelhanos?
MENDO
Creio que sim; mas nunca fiando. Para descargo de consciência e pelo que pode suceder, tenho servido a um e a outro, e com ambos tenho ganho. E quanto cá ao nosso alfageme e enorme dívida que lhe devemos, que é o mais importante – aqui estão os alvarás ambos. (Mostra dois pergaminhos com selos pendentes, um de fita azul, outro encarnada) Provavelmente há de servir este, o vermelhinho. Mas se não servir, cá está o outro que também não é feio. É azul: linda cor, boa cor igualmente! Todas as cores são boas, a falar a verdade.
GUIOMAR
Oh Mendo, Mendo, que não sei que te diga!
MENDO
Pois não digas nada, que é melhor. Agora o caso é resolver o alfageme a partir. Ele detesta os castelhanos – e isso bom é para nós; – mas está irresoluto na causa do Mestre, e é preciso decidi-lo. – Nuno Álvares e D. João estão em Abrantes: e se ele se resolver a ir para lá... tudo está feito. Tenho arranjado cá uma coisa que me parece que não falha. Deixa estar.
GUIOMAR
Coitado!
MENDO
Isso! vê agora se te chega a compaixão; a boas horas. Mulheres! Já te não lembra a injúria que sofreste de um vilão, Guiomar! Já te não lembra que a presença dele aqui, a sua vida, seja onde for, é um insulto, uma afronta para ti, para teu irmão... obrigado a devorá-la em silêncio por não difamar o nobre sangue da nossa família!
GUIOMAR (corando)
É verdade, meu irmão... Mas por que não mataste tu esse homem antes... antes de ele casar?
MENDO
Mulher, mulher!... ciúmes! O nome, a fama, a honra da sua gente, a sua, nada a moveu... e o ciúme, esse...
GUIOMAR
Que te importa o motivo, se eu consinto na infâmia de tão baixa vingança? – que é o que tu queres. – O indigno, o hipócrita, tenho-lhe ódio; a ela, à presumida da mulher, aborreço-a quase tanto como ao marido... parece-me que mais. E há dois anos que aí estão casados e vivendo felizes... – Feliz ele! oh não, que eu bem conheço Fernando. Ralam-no os ciúmes como a mim... Inda bem. . Mas não basta: preciso mais solene vingança. – Dizes tu que por esse modo, e partindo ele para o Mestre de Avis?...
MENDO
Ficarás vingada.
GUIOMAR
Vilãmente.
MENDO
Com vilão, vilão e meio. Querias tu casar com ele?
GUIOMAR (hesitando)
Eu!... Bem sabes que não quis. Um homem que se desonrou, que se fez mecânico, podendo ser...
MENDO
Um cavalheiro pobretão. Pois bem, não quiseste. Que lhe havia de eu fazer? Matá-lo, sabendo todos quanto lhe devo? Como ficava eu? Perdido no conceito público e sem me livrar da dívida. Assim é patriotismo, é lealdade; foi um sacrifício que fiz das minhas mais caras afeições no altar da pátria. – O partido que vencer o meu partido há de me aclamar um herói, que é o costume.
GUIOMAR
Podias tê-lo provocado a um duelo por qualquer pretexto – e matá-lo honrada e lealmente.
MENDO
Um vilão! Um duelo com um baixo mecânico! Metido Pais reptando a Fernão Vaz; cruzar a sua espada com a do alfageme!
GUIOMAR
Não teve esse escrúpulo o Condestável.
MENDO
Nuno Álvares Pereira? E achas que fez muito bem? Não sabes como Fernando joga a espada? – O que lhe valeu a Nuno Álvares foi que ele o não queria matar.
GUIOMAR
Ah!... entendo.
MENDO
Nada; isto assim é melhor. – E a minha bela Alda, a minha desdenhosa priminha... Ela é a nossa prima, arredada sim, mas... E agora é preciso valer-lhe, ampará-la.
GUIOMAR
Metido, esqueces-te que eu sou uma senhora e tua irmã?
MENDO
Não: nem de que essa senhora me deu o direito de a expulsar de minha casa, e declarar a todo o mundo...
GUIOMAR
Mendo, és um covarde.
MENDO
Sou.
GUIOMAR
Um espia, traidor...
MENDO
Sou.
GUIOMAR (desatando a soluçar e a chorar de repente) Meu irmão, perdoa-me pelo amor de Deus –, deixa-me ir, deixa-me ir já para um convento... o das Claras.
MENDO
E o dote?
GUIOMAR
Oh meu irmão, por alma do nosso pai; serei freira conversa, serei tudo... Mas vamos e já, já, senão morro... (Está de joelhos)
MENDO
Guiomar!... (D. Guiomar levanta-se) – Vamos. Um dia hei de fazer uma ação boa. Irás para as Caras. Está resolvido; mas primeiro, havemos de resolver este outro arrependido a partir para melhor destino. – Oh ei-los aí vêm por fim.
(Ouve-se tumulto dentro)
GUIOMAR
Quem?
MENDO
Agora verás. Vêm ótimos; bons tostões e boas canadas de vinho me custou.
(Sobem ambos a escada)