O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 33 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Iii

Mendo Pais torna a descer; D. Guiomar o segue.

MENDO

Estamos salvos, Guiomar. Custou. Dois anos de lidas e perigos. Dois anos quase. Vejamos. Em 6 de dezembro foi a morte do conde de Ourém. A oito cheguei eu aqui, e foi...

GUIOMAR

Aquela famosa aventura da espada do Condestável.

MENDO

Já tu lhe chamas também Condestável.

GUIOMAR

Se todos lhe chamam!

MENDO

Mas nós não, que é reconhecer um título ilegítimo. Quem deu ao Mestre de Avis o direito de fazer Nuno Álvares Pereira Condestável dum reino que não é seu?

GUIOMAR

Pois sim: que me importa a mim com isso.

MENDO

Oh! importa-me a mim. – Mas vamos: 8 de dezembro... passou todo o ano seguinte; estamos a 8 de agosto deste ano. Há justamente vinte meses – inda não há dois anos; é verdade. Mas o que se tem passado! Ora vence o Mestre, ora el-rei de Castela. E um homem de bem sem saber por quem se há de resolver. Enfim, agora estou seguro.

GUIOMAR

Por quê? Estás certo que vencem os castelhanos?

MENDO

Creio que sim; mas nunca fiando. Para descargo de consciência e pelo que pode suceder, tenho servido a um e a outro, e com ambos tenho ganho. E quanto cá ao nosso alfageme e enorme dívida que lhe devemos, que é o mais importante – aqui estão os alvarás ambos. (Mostra dois pergaminhos com selos pendentes, um de fita azul, outro encarnada) Provavelmente há de servir este, o vermelhinho. Mas se não servir, cá está o outro que também não é feio. É azul: linda cor, boa cor igualmente! Todas as cores são boas, a falar a verdade.

GUIOMAR

Oh Mendo, Mendo, que não sei que te diga!

MENDO

Pois não digas nada, que é melhor. Agora o caso é resolver o alfageme a partir. Ele detesta os castelhanos – e isso bom é para nós; – mas está irresoluto na causa do Mestre, e é preciso decidi-lo. – Nuno Álvares e D. João estão em Abrantes: e se ele se resolver a ir para lá... tudo está feito. Tenho arranjado cá uma coisa que me parece que não falha. Deixa estar.

GUIOMAR

Coitado!

MENDO

Isso! vê agora se te chega a compaixão; a boas horas. Mulheres! Já te não lembra a injúria que sofreste de um vilão, Guiomar! Já te não lembra que a presença dele aqui, a sua vida, seja onde for, é um insulto, uma afronta para ti, para teu irmão... obrigado a devorá-la em silêncio por não difamar o nobre sangue da nossa família!

GUIOMAR (corando)

É verdade, meu irmão... Mas por que não mataste tu esse homem antes... antes de ele casar?

MENDO

Mulher, mulher!... ciúmes! O nome, a fama, a honra da sua gente, a sua, nada a moveu... e o ciúme, esse...

GUIOMAR

Que te importa o motivo, se eu consinto na infâmia de tão baixa vingança? – que é o que tu queres. – O indigno, o hipócrita, tenho-lhe ódio; a ela, à presumida da mulher, aborreço-a quase tanto como ao marido... parece-me que mais. E há dois anos que aí estão casados e vivendo felizes... – Feliz ele! oh não, que eu bem conheço Fernando. Ralam-no os ciúmes como a mim... Inda bem. . Mas não basta: preciso mais solene vingança. – Dizes tu que por esse modo, e partindo ele para o Mestre de Avis?...

MENDO

Ficarás vingada.

GUIOMAR

Vilãmente.

MENDO

Com vilão, vilão e meio. Querias tu casar com ele?

GUIOMAR (hesitando)

Eu!... Bem sabes que não quis. Um homem que se desonrou, que se fez mecânico, podendo ser...

MENDO

Um cavalheiro pobretão. Pois bem, não quiseste. Que lhe havia de eu fazer? Matá-lo, sabendo todos quanto lhe devo? Como ficava eu? Perdido no conceito público e sem me livrar da dívida. Assim é patriotismo, é lealdade; foi um sacrifício que fiz das minhas mais caras afeições no altar da pátria. – O partido que vencer o meu partido há de me aclamar um herói, que é o costume.

GUIOMAR

Podias tê-lo provocado a um duelo por qualquer pretexto – e matá-lo honrada e lealmente.

MENDO

Um vilão! Um duelo com um baixo mecânico! Metido Pais reptando a Fernão Vaz; cruzar a sua espada com a do alfageme!

GUIOMAR

Não teve esse escrúpulo o Condestável.

MENDO

Nuno Álvares Pereira? E achas que fez muito bem? Não sabes como Fernando joga a espada? – O que lhe valeu a Nuno Álvares foi que ele o não queria matar.

GUIOMAR

Ah!... entendo.

MENDO

Nada; isto assim é melhor. – E a minha bela Alda, a minha desdenhosa priminha... Ela é a nossa prima, arredada sim, mas... E agora é preciso valer-lhe, ampará-la.

GUIOMAR

Metido, esqueces-te que eu sou uma senhora e tua irmã?

MENDO

Não: nem de que essa senhora me deu o direito de a expulsar de minha casa, e declarar a todo o mundo...

GUIOMAR

Mendo, és um covarde.

MENDO

Sou.

GUIOMAR

Um espia, traidor...

MENDO

Sou.

GUIOMAR (desatando a soluçar e a chorar de repente) Meu irmão, perdoa-me pelo amor de Deus –, deixa-me ir, deixa-me ir já para um convento... o das Claras.

MENDO

E o dote?

GUIOMAR

Oh meu irmão, por alma do nosso pai; serei freira conversa, serei tudo... Mas vamos e já, já, senão morro... (Está de joelhos)

MENDO

Guiomar!... (D. Guiomar levanta-se) – Vamos. Um dia hei de fazer uma ação boa. Irás para as Caras. Está resolvido; mas primeiro, havemos de resolver este outro arrependido a partir para melhor destino. – Oh ei-los aí vêm por fim.

(Ouve-se tumulto dentro)

GUIOMAR

Quem?

MENDO

Agora verás. Vêm ótimos; bons tostões e boas canadas de vinho me custou.

(Sobem ambos a escada)