O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 45 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena V

Os mesmos; Nuno Álvares e Cavaleiros entrando.

 

ALCAIDE

O Condestável!

POVO

Viva o Condestável, viva!

ALDA

Nuno!

MENDO (à parte)

Estou perdido!

NUNO ÁLVARES

Alda, Fernando! (Com os braços abertos) Falta-me aqui... ah!... vós, Froilão. (Observando a expressão dos circunstantes) Que é isto? Voltais-me o rosto! Ninguém me fala, ninguém me vem abraçar!... Alda, minha irmã... e tu, meu velho Froilão, tu também! – Triunfos, aclamações por toda a parte, e só aqui esta frieza, este...

MENDO

Senhor Condestável, senhor conde de Ourém, dignai-vos aceitar os sinceros emboras, os parabéns do coração...

NUNO ÁLVARES

Ah, ah! Vós aqui, Mendo! E só vós me recebeis com...

MENDO (com entusiasmo)

Bem sabeis que...

NUNO ÁLVARES

Oh sei, sei... – Parece-me que começo a perceber isto. Fernando, vós estais?...

ALFAGEME

Preso.

NUNO ÁLVARES

Preso! Vós! Quem vos prendeu?

ALCAIDE

Fui eu, senhor... Nuno Álvares – Um samarra preta, um alcaide, um homem de vara atrever-se a um dos meus! Como foi isto, dizei-me. – Porque o prenderam, por...

FROILÃO (fazendo um grande esforço) Por traidor...

ALDA

Meu tio, sossegai, por quem sois, lembrai-vos do estado em que estais.

FROILÃO

Deixa-me, já estou bom, já estou bom. Soltou-me o despeito a fala... o despeito, a vergonha... (Andando desembaraçadamente para Nuno Álvares, e pegando-lhe na mão com força) – Ouvis bem, Nuno Álvares Pereira? – Por traidor o Alfageme de Santarém, o marido de tua irmã!... E por ordem desse rei, que vós fizestes rei para nos libertar, para nos catar nossos foros, para nos guardar justiça! – Ouves isto, Nuno Álvares Pereira! – Ouvis, senhor Condestável do reino, senhor Conde de Ourém?... Quantos mais títulos e honras e senhorios e mercês e grandezas tendes, para vos eu chamar por eles todos, e voz dizer... para te envergonhar com eles todos, Nuno, e te dizer: “És tudo isso, Nuno; D. Nuno; olha agora o Alfageme, o homem do povo, e vê o que lhe fizeste”.

NUNO ÁLVARES

O que eu fiz?

FROILÃO

Tu ou os teus, tu ou teu rei: que importa?

NUNO ÁLVARES

Froilão, meu velho Froilão, tu abusas do direito que te dá...

FROILÃO

O quê, senhor Condestável? Este hábito, esta cruz (apontando para a cruz da Ordem que traz no peito), esta idade? – Não vos prendais com isso, valentes cavaleiros de D. João I. O que é isso para os vencedores, para os libertadores da pátria. – Eu não fui a Aljubarrota; não tinha pés que lá me levassem, nem mãos que pudessem com uma partazana... hei de ser traidor como este. (Apontando para o Alfageme) – Este Fernando?

FROILÃO

O marido de tua irmã, o homem que...

NUNO ÁLVARES

O Alfageme que me temperou esta espada, que lhe deu este fio que nunca embotou.

FROILÃO

E lembrais-vos disso, senhor! E nem sequer é esquecimento!

NUNO ÁLVARES

Esquecer-me eu! – de uma dívida que ainda não paguei! (Indo para o Alfageme com os braços abertos) Fernando, meu Fernando... meu irmão... nos meus braços.

ALCAIDE

Um traidor!

POVO

Um traidor! Nuno Álvares (levantando a voz) – traidor! O Alfageme de Santarém! – Quem se manchou com essa vil calúnia?

FROILÃO

O teu rei.

NUNO ÁLVARES

Mentes.

FROILÃO (sentido)

A mim, D. Nuno, a mim essa palavra!

NUNO ÁLVARES (com deferência) Perdoa-me, meu velho amigo... Oh, perdoa-me: bem sabes como te estimo, como respeito essas cãs tão honradas. – Mas dizes tais coisas... – Foste enganado. – El-rei, el-rei D. João I!... – Mas tu não sabes, Froilão, que este homem (pegando na mão do Alfageme), teu marido, Alda... o marido da tua escolha – este homem foi o nosso triunfo, a nossa glória? Estava preso, sem o eu saber, no castelo de Abrantes, por falsas informações que daqui mandaram traidores: (olha significativamente para Mendo Pais) mas conseguiu evadir-se da prisão...

ALDA

Oh meu Fernando! (Abraça-o)

NUNO ÁLVARES

E chegando a Aljubarrota, quando o exército castelhano já tinha rompido o centro da nossa linha, ele com os seus homens, com esta gente daqui das suas oficinas, de repente caíram sobre o inimigo e o aterraram, e o fizeram retroceder.

FROILÃO (rindo e chorando)

Fernão Vaz, Fernão Vaz, deixa-me te abraçar, quero-te abraçar, quero chorar, quero rir, quero morrer de contente. – Deixa-os agora; que te prendam, que te confisquem, que te infamem se quiserem... – Despreza-os, meu Alfageme, que é o que eles merecem.

NUNO ÁLVARES

Mereciam, se não confessassem o que lhe devem. Mas...

FROILÃO

Mereciam? – Bem, muito bem. – Ora... (Começa ajuntar os bocados rasgados do alvará que estão pelo chão) Ajuda-me, Joana, Serafina; ajudai-me a apanhar... (Ajudam-no elas, e Froilão vai dando os bocados a Nuno Álvares) Ide lendo, ide lendo.

NUNO ÁLVARES (lendo-os, como lhes dão) “Traidor, cismático, revel...”

FROILÃO (afirmando-se em um dos pedaços que não pode ler e dando-o a Alda)

Toma, toma, lê aqui, Alda.

ALDA (lendo)

“Todos os seus bens e haveres...”

FROILÃO (repetindo)

Todos os seus bens e haveres. (Tira o pedaço de pergaminho das mãos de Alda e o dá a Nuno Álvares) Lede vós. – Pagam assim os reis?

ALFAGEME

Sempre.

NUNO ÁLVARES

Fernando!

ALFAGEME

Sempre.

NUNO ÁLVARES

Aqui há mistério que eu não entendo. – Esperai, deixai-me ver.

FROILÃO

Não tem que ver, é como os príncipes pagam as suas dívidas.

NUNO ÁLVARES

Nem todos.

FROILÃO

Nem a todos: quereis dizer; aos senhores, aos fidalgos é noutra moeda; bem sabemos; mas aos credores que são do povo...

ALFAGEME

Não lhes devem nada a esses.

NUNO ÁLVARES

Não digas isso, homem, porque a vos...

ALFAGEME

A mim não me devem nada.

NUNO ÁLVARES

A vós, a quem el-rei deve!...

ALFAGEME

Nada.

NUNO ÁLVARES

Por quem fizestes!...

ALFAGEME

Por ele, nada. O que fiz – se alguma coisa é... quatro golpes de cimitarra, puxados de alma, nesses estrangeiros que vinham devassar a minha terra... Se eu nasci aqui!

NUNO ÁLVARES

Homem, dá-me um abraço, e vai descansar. Depois averiguaremos o que isto é; e ficai certo que havereis satisfação e reparo. – Alda, este homem foi quem tomou o estandarte real de Castela, e escondeu-se da ação como de uma vergonha – e foi pôr o estandarte onde o achou Antão Vasques que o trouxe a el-rei...

FROILÃO (sorrindo com desprezo) Dizendo que fora ele que o tomara?

NUNO ÁLVARES

Não, homem descrido, não disse tal; disse que não sabia, e disse a verdade. Sabia-o eu, mas não o pude dizer a el-rei, porque Fernando exigiu de mim...

 

ALFAGEME (atalhando-o com veemência)

E exijo.

NUNO ÁLVARES

Basta.

ALCAIDE

Senhor Condestável, permiti que vos diga.

NUNO ÁLVARES (secamente) Dizei.

ALCAIDE (tossindo e com importância) As formalidades da justiça são a mais segura fiança das liberdades...

NUNO ÁLVARES (interrompendo-o secamente) Basta, senhor Alcaide; sabemos essas coisas. Vamos ao que eu não sei. – Por que autoridade prendestes a Fernão Vaz?

ALCAIDE

Primeiramente apresentaram-me um alvará de el-rei nosso senhor, em que o declarava traidor e revel e mandava confiscar seus bens; eu ia dar-lhe devida execução, quando...

NUNO ÁLVARES

Onde está esse alvará? Vejamos.

ALCAIDE

Onde está, meu senhor? – Aí é que vai o crime maior, o crime de lesa-majestade de primeira cabeça. – Acreditareis, senhor, que teve a ousadia?...

NUNO ÁLVARES

Quem?

ALCAIDE

O Alfageme.

NUNO ÁLVARES

De quê?

ALCAIDE

De me rasgar na cara.

NUNO ÁLVARES

Vós, Fernando!

ALFAGEME (com serenidade) Eu. – Estamos quites. – Serviço e desserviço de parte a parte – ofensa contra ofensa. – Agora já lhe não fica mal: pode-me mandar enforcar cada vez que quiser.

NUNO ÁLVARES

Vós... rasgastes esse papel?

ALFAGEME

Eu. – Como quereis que vos diga?

(Silêncio longo e geral)

NUNO ÁLVARES (depois de meditar, alçando a voz) Fez muito bem o Alfageme.

TODOS (com grande espanto) Muito bem!

MENDO

Um alvará de el-rei!

NUNO ÁLVARES (firme)

Era falso

ALFAGEME

Falso!

ALDA (baixo a Nuno Álvares)

Tu és o que mentes, Nuno.

NUNO ÁLVARES (baixo a Alda) Minto: mas que ninguém o saiba senão tu. (À parte) Ah príncipes, príncipes! Nunca te fiz tamanho sacrifício, rei D. João: pela primeira vez na sua vida mentiu Nuno Álvares Pereira para te não desonrar! (Alto) Era falso: eu conheço a rubrica de el-rei. (Para Mendo, significativamente) Mendo Pais, vós... vós... O alvará é falso, Mendo: disse-o eu e basta. (Mendo vai a falar) Nem mais uma palavra. – Levai-o já preso para a Alcáçova. (Mais baixo a Mendo) Já vedes que sei tudo: amanhã verei se vos posso castigar sem infâmia. (Vai preso Mendo Pais) (Para o povo) O alvará era falso: tão falso que eu trago plenos poderes de el-rei. Meu senhor para declarar solenemente a Fernão Vaz de Santarém benemérito da pátria, e digno de toda a sua real contemplação. – E como a tal, eu, em seu nome (tira a espada) com esta espada... É aquela, Fernando – é a que está por pagar, Froilão – é a de meu pai, Alda! – com esta espada... Ajoelhai, Fernão Vaz, escudeiro.

ALFAGEME

Ajoelhar para quê?

NUNO ÁLVARES

Para te eu armar cavaleiro, D. Fernando.

UM DO POVO (murmurando para os outros) E o que ele queria. Não verão o senhor D. Fernando! São todos o mesmo, não há que ver.

ALFAGEME (sem afetação)

Cavaleiro eu, senhor!... um alfageme!

NUNO ÁLVARES

O Alfageme de Santarém. Quantas casas nobilíssimas começaram por mais baixo?

ALFAGEME

Muitas. – E muitas mais ainda são as que mais baixo vieram cair. – Senhor D. Nuno, vós sois um honrado e digno fidalgo, não descereis do que nascestes; não vós. – Eu sou filho de alfageme... dum alfageme honrado... e também não subirei, porque não quero descer.

UM DO POVO

O homem é capaz. Nunca cuidei. Este sim, isto é que é homem.

OUTRO DO POVO

Viva o Alfageme!

POVO

Viva!

NUNO ÁLVARES(comovido)

Meu irmão! Alfageme. (Enternecido e correndo a abraçá-lo) – Irmão! Oh senhor! Esse título sim: está-vos bem dar-me, e não me peja a mim aceitá-lo. – Quanto ao mais fiquemos como estamos, que estamos bem, senhor.

NUNO ÁLVARES

Recusar o que tantos ambicionam! – Aí anda também muito orgulho, meu alfageme.

ALFAGEME

Há algum! confesso. – Não vedes que eu assim sou o primeiro dos meus... e que ficava o derradeiro dos vossos?

NUNO ÁLVARES

Ah populares, populares!

ALFAGEME

Temos as nossas vaidades. E vós! Não tendes as vossas? – Desculpemo-nos, respeitemo-nos uns aos outros e poderemos viver em paz.

VOZES (fora)

Viva El-rei D. João I! viva o Alfageme!

(Ouve-se dentro marcha guerreira)

NUNO ÁLVARES

E a tua gente que entra.

ALFAGEME

Os meus companheiros, os meus bravos companheiros! – Alda, vamos abraçá-los.