O Alfageme de Santarém
Cena Viii
Alda, Alfageme.
ALFAGEME
Oh! Alda, se tu soubesses como essas palavras, essa voz do coração com que as disseste, me entraram aqui na alma, e o bem que me fizeram! – Oh! venha a pobreza agora, venha a morte, a ignomínia.
ALDA
Pois quê, Fernando! tu duvidavas de mim?
ALFAGEME
De ti, não, Alda. De ti, da tua virtude, nem um momento. Mas o teu amor... oh! se eu o soubera, se eu o adivinhasse... – Di-lo-ei?... Digo. – Alda, esta aversão, esta repugnância invencível que eu tinha ao Mestre de Avis, não adivinhas o que me inspirava?
ALDA
Não.
ALFAGEME
Era o ciúme; ciúme que me ralava as entranhas, que me consumia a vida, que me seguia por toda a parte como a minha sombra, que era uma voz de agouro que nos instantes mais felizes, quando te abraçava – ainda quando te via tão alegre e satisfeita a cuidar da tua casa, a tratar do nosso querido filho. . a funesta voz me dizia: “E resignação, é virtude, mas não te ama!” – Se um instante te via triste, logo eu dizia: “Suspira por ele”. – Se falavas na tua vida passada: “Eram saudades!” – Se não falavas: “Era disfarce, era por me não afligir!” – Oh que tormento, Alda!
ALDA
Por que não me dizias tu, por que me não abrias o teu coração, esposo? Há muito viverias sossegado. – Mas ainda bem que o não fizeste! A tua confiança, a firmeza que cm mim punhas, a mesma ignorância em que eu estava do teu funesto duvidar, plantaram em meu coração este amor fervoroso com que agora te amo, e que apagou até a derradeira imagem dessa inclinação de infância que todos nos comprazemos a exagerar tanto, que tu mesmo cuidavas que ainda podia reverdecer no coração de tua mulher... Ah Fernando, tinha vontade de te não perdoar. – Eu amei a D. Nuno, e amei-o muito...
ALFAGEME (com ânsia)
Amaste?
ALDA (com serenidade)
Amei; e cuidei que me fosse impossível amar outro homem. Cuidei-o sempre até àquele momento – lembras-te? – que me disseste: “Alda, não abraças a teu irmão?” Foram palavras mágicas, de encanto, reviraram-me o coração. Não sabes o poder que tem numa mulher a generosidade e a confiança.
ALFAGEME
Basta, Alda: vou para o Mestre de Avis. Já sei o que hei de dizer ao Condestável.
ALDA (com gentileza)
A ver se eu adivinho?
ALFAGEME (sorrindo)
Dize.
ALDA (com solenidade)
O alfageme de Santarém tem coração de português: não queria servir o rei estrangeiro, nem o natural que não era legítimo. A sua causa não era... não e a vossa, senhores cavaleiros. Ele queria os foros e as liberdades do povo; vós quereis sim a liberdade do reino, mas com a grandeza e o poder, o poder todo para vós. O alfageme não vos queria ajudar. – Hoje porém que os estrangeiros vêm com tanta arrogância sobre vós, que a vossa causa parece desesperada, a vossa causa é a minha, é a do alfageme, é a do povo. Sede grandes embora; nós vimos ajudar-vos a vencer, ajudar-vos a morrer... – E morrer sabemos nós, podemos nós melhor, que menos temos porque estimar a vida... Morreremos por vós, que ao menos sois portugueses. (Mudando de tom e graciosamente) Adivinhei, Fernando? (Com seriedade e paixão) Conheço o teu coração; amo-te eu deveras que assim leio nele?
ALFAGEME
Sim, Alda; sim, minha mulher, minha esposa adorada!
ALDA
Parte, Fernando: não tenhas cuidado em mim. Já vês que a minha alma está temperada pela tua. – O nosso querido filho, o nosso bom tio ficam com a minha proteção... A minha proteção! pois? Não sou eu a mulher do Alfageme? – Vai que hás de vencer: diz-me o coração. Outros te aconselham que partas porque nisso veem a tua perdição: mas Deus confundirá os projetos dos maus. Vai e vence.