O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 18 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena V

Nuno Álvares, continuando a ler a carta; Alfageme, Mendo Pais, Froilão Dias, Joana e mais donzelas, Brás Fogaça, Gil Serrão e

mais serralheiros do Alfageme que acodem aos brados deste.

ALFAGEME

Vinde; vinde, acudi todos a ouvir a boa nova. Morreu o traidor. Viva Portugal! Morreu o conde Andeiro... (Voltando-se para Mendo) – E dizei, Mendo: às mãos do povo?

MENDO

Às do Mestre de Avis, que no paço mesmo, e quase aos olhos da rainha, o cravou de punhaladas.

ALFAGEME (descontente)

Paciência: foi só meia justiça. – Mas contai-me: que sucedeu depois?

A rainha?...

NUNO ÁLVARES

O Mestre?

MENDO

Pouco mais sei do que isto. No instante que sucedeu o que vos contei, logo o Mestre me deu essa carta; saí de Lisboa e pouco descanso tomei no caminho, corri sempre até aqui chegar. Pelas ruas que passei já andava tudo alvorotado. Esperavam-se grandes coisas.

ALFAGEME

E grandes coisas haverá: eu vos prometo.

NUNO ÁLVARES (aos cavaleiros que o rodeiam) Senhores, estai prestes que esta alvorada partimos para Lisboa.

ALFAGEME (com intenção)

E por que não já, D. Nuno Álvares Pereira?

NUNO ÁLVARES

Porque... porque... (À parte a Froilão) – Esta madrugada parto; não vos esqueçais.

ALFAGEME (com intenção)

Perdereis todo este tempo daqui até amanhã?

NUNO ÁLVARES

São as ordens do Mestre, que saia daqui ao romper da alva amanhã, para estar em Lisboa, às portas de Santo Antão, a... (Pegando na carta como quem se afirma e lendo) – Eis aqui o que me diz o Mestre: “O honrado povo de Lisboa abraçou a nossa causa...”

ALFAGEME

Porque o Mestre de Avis tomou a dele. E enquanto o Mestre nos for fiel...

NUNO ÁLVARES

Pois quem é o Mestre de Avis, homem? De quem é a liberdade que ele defende, senão do povo?

ALFAGEME

Todos juram pela liberdade do povo quando precisam dele.

NUNO ÁLVARES

(Para o alfageme)

Sois desconfiado.

ALFAGEME

Sou. – Não era; fizeram-me.

NUNO ÁLVARES

Guardai para vós – ao menos por agora – essas desconfianças. A todo o tempo é tempo para ser ingrato.

ALFAGEME

Ingrato! Já! Cedo começa a acusação do costume.

NUNO ÁLVARES

Homem, por Deus, o que precisamos agora todos é de confiança e união para vencermos. Se nos desunimos já, vencerá o estrangeiro.

ALFAGEME

Boa palavra dissestes. Venha donde vier a razão é sempre razão. (Para a sua gente) – Viva a nossa liberdade e o infante D. João!

SERRALHEIROS e DONZELAS

Viva a nossa liberdade e o infante D. João!

NUNO ÁLVARES

E viva o Mestre de Avis!

CAVALEIROS

Viva o Mestre de Avis!

ALFAGEME (friamente)

Viva!

NUNO ÁLVARES (tornando a ler a carta) “O povo de Lisboa não deixou aclamar el-rei D. João de Castela. Investiu com a cavalgada que saiu dos paços do concelho para a aclamação, e o conde de Cea D. Henrique Manuel, que levava a bandeira, custou-lhe muito a escapar das mãos do povo amotinado.”

ALFAGEME

O povo de Santarém não há de ficar atrás. Esta tarde querem aclamar aqui também o tal rei de Castela. Nós lhe diremos logo. – Agora cantar, raparigas, e folgar, que este é dia de grande alegria. – Jornal dobrado a todos. – Joana, Serafina, então, raparigas, vamos a isto.

JOANA

Que trova quereis que cantemos?

ALFAGEME

Dizei a canção do Alfageme.

TODOS

A canção do Alfageme.

(Canção do Alfageme)

UMA VOZ

Assopra, assopra, ó Alfageme,

E não descanses de assoprar:

A quem tem alma, a quem não teme

Não pode este fogo queimar.

CORO

A quem tem alma, a quem não teme

O nosso fogo não pode queimar.

VOZ

É o fogo que a espada tempera

Que tempera nosso coração:

O Alfageme, se a pátria o espera,

Se ela arvora seu nobre pendão,

Deixa a forja – e à pátria, que espera,

Leva a espada! – Leva o coração!

CORO

Alfageme, a pátria te espera;

Deixa a forja! – leva o coração!

VOZ

O Alfageme, que faz a espada

Com que a glória se vai ganhar,

Também lhe pode a mão crestada

Levá-la ao campo a triunfar.

CORO

Oh! pode, pode a mão com a espada;

Levemo-la ao campo a triunfar!

VOZ

O Alfageme, que espadas tempera,

Queima o braço, caleja-lhe a mão.

Pela pátria que a vida lhe dera,

Como a forja, lhe arde o coração;

O Alfageme, se a pátria o espera,

Deixa a forja! – leva o coração!

CORO

Alfageme, a pátria te espera;

Deixa a forja! – leva o coração!

GIL SERRÃO

Viva o Alfageme!

TODOS

Viva!

BRÁS FOGAÇA

Morram os cismáticos!

TODOS

Morram!

ALFAGEME

Viva a nossa liberdade!

TODOS

Viva!

ALFAGEME

Os nossos vereadores estão vendidos; os nossos mesteres são uns covardes; hoje querem aclamar rei estrangeiro, querem-nos dar por senhor a el-rei D. João de Castela: havemos de sofrê-lo?

TODOS

Não, não.

ALFAGEME

Puseram as armas de Castela no pendão da nossa vila, e as de Portugal... as nossas Quinas, as santas Chagas de Cristo por baixo!

TODOS

Traidores!

ALFAGEME

Pois a eles, meus amigos que (ouve-se um sino ao longe) o bando não tarda a sair dos paços do concelho. Não ouvis o sino da torre das Cabaças? É o sino das Cabaças; é o bando que vai estrangeiro, um excomungado. A eles, e viva a nossa liberdade!

TODOS

Viva! viva!

(Continua a dobrar o sino ao longe. O Alfageme toma de seu armazém uma enorme acha de armas; todos os trabalhadores se armam, cada um com a primeira coisa que acha; fica tudo em grande desordem, armas pelo chão, etc. Saem em tumulto, dando vivas e repetindo o estribilho da canção do Alfageme)

Alfageme, a pátria te espera;

Deixa a forja! – leva o coração!