O Alfageme de Santarém
Cena X
O Alfageme e Nuno Álvares, sem se verem um ao outro.
ALFAGEME (entrando)
Não é possível! Este alvoroto, estes tumultos que tanto excitei, já me não podem excitar a num. Este favor do povo, que por toda a parte me acolhe, que era o alvo de todos os meus desejos, já me não move, já me não satisfaz, não me distrai deste fatal, deste insuportável tormento que se me apossou da alma. – O povo que faça o que quiser, que sirva aos Castelhanos ou ao Mestre de Avis. Que me importa! Que reine D: João o legítimo ou D. João o bastardo, D. Leonor ou D. Beatriz, católicos ou cismáticos, que se me dá a mim! Quebrou-se-me o pulso para a espada, quebrou-se-me o coração para o ódio. – Mataram-te, alfageme... Pois mataram um homem! – Disputai entre vós esta pobre terra de Portugal... combatei à vontade, que o terreiro é vosso. – Por mim... já agora... (Entra para sua casa sem ver Nuno Álvares, e atira violentamente com a porta)
NUNO ÁLVARES (ouvindo bater a porta) Quem vai aí! quem é? – Enganei-me, não é ninguém. (Corre a cena observando) Está tudo só.