O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 41 de 46

Páginas do PDF

O Alfageme de Santarém

Ato V

 

CENA I

Froilão Dias está sentado em uma cadeira de braços antiga, com os

pés sobre um banquinho; Alda concertando-o e arranjando-o com

muito 119

carinho; Joana e Serafina sentadas no chão aos pés do padre,

fiando em rocas; Coro de donzelas do Alfageme que fazem o

mesmo; algumas estão ainda em pé, outras vêm chegando.

 

JOANA (canta)

Padre capelão!

Casai-me, meu padre, pela vossa...

(Froilão faz sinal de que o aflige esse cantar)

ALDA

Aflige-vos? – Coitado, lembra-se de...

JOANA

Então não, não: cantaremos outra coisa pata o divertir. (Canta) Quem não deve, não deve, não teme;

Espadas e lanças...

(Sinal mais expressivo ainda de impaciência em Froilão)

ALDA

Também a mim me aflige essa canção; faz-me saudades. (Froilão acena que sim) Cantai outra coisa.

JOANA

Outra coisa! Que há de ser? – Ah sim; desta haveis de gostar. A xácara do Conde Arcos.

ALDA

Como é essa?

JOANA

E a do rei que mandou chamar o conde, que matasse a mulher e casasse com sua filha; e que depois...

ALDA

Ai, credo, que feia coisa!

SERAFINA

Então a da Bela Infanta. Sim? (Froilão faz sinal de que aprova) Pois vá a da Bela Infanta.

ALDA (para Froilão)

Também me lembra saudades do outro tempo, mas que estão bem apagadas por estas mais vivas e que entraram mais fundas na alma. Não me importa avivá-las: já não tem perigo. (Para as Donzelas) Deixai-me ir buscar o meu Álvaro, e as minhas coisas todas. (Entra em casa, traz um berço com uma criança, depois uma roda de fiar, senta-se em um banquinho ao pé de Froilão e diz à parte) Estou numa inquietação, num desassossego! Não sei como hei de encobrir. (Para Froilão) Já sabeis que ontem veio um homem das bandas de Aljubarrota, que dá os dois exércitos a encontrar-se um com o outro? No dia treze deste mês de agosto; foi antes de ontem... véspera de Nossa Senhora, estavam em termos de dar batalha.

(Froilão levanta as mãos para o céu e como que diz: O que Deus quiser – Alda em sua roda e embala o berço)

SERAFINA

A cantiga da Bela Infanta é como a nossa gente que foi para a guerra. E quando eles voltarem que lhe havemos de perguntar: (Entoando) Dize-me é cavaleiro...

JOANA

Tal e qual. E a pela Infanta no seu jardim assentada que é esta; e nós, como quem diz, as suas donzelas que estão à roda. – Vês como te eu dizia: “Ela está só, a nossa patroa que é tão boa para nós: vamos lhe fazer companhia a fiar para ao pé dela, e cantaremos”. – Então vês como é bonito?

SERAFINA

Isso é. – E mais vamos aprendendo para quando eles voltarem. Diz que há na nossa gente, no exército do nosso rei, uns senhores – não sei se é companhia se é terço, mas são muitos... que se chama a Ala dos Namorados e outros da Madressilva... Que lindos nomes tomaram! – E diz que cantam e concertam eles mesmos as mais lindas cantigas de aventuras e de amores e de princesas encantadas, que é um feitiço ouvi-los. (Para Alda) É verdade, senhora?

ALDA

É sim.

JOANA

Ó senhora, então aqui a senhora D. Guiomar que está no convento das Claras? Que foi aquilo, senhora?

ALDA

Foi servir a Deus, filha: mais sossegada estará que nós. – Canta a tua canção.

JOANA

Então vamos. (Froilão esfrega as mãos como quem é contente de ouvir e amima Joana no rosto como para lhe agradecer) Gostais? Inda bem, coitado! (Para Serafina) Vamos: quando chegar às falas da infanta com o cavaleiro, eu sou a infanta e tu és o cavaleiro.

SERAFINA

Pois sim.

JOANA

Toada popular bem conhecida

Estava a bela Infanta

No seu jardim assentada,

Com o pente de ouro fino

Seus cabelos penteava.

Deitou os olhos ao mar,

Viu vir uma nobre armada;

Capitão que nela vinha

Muito bem que a guiava.

CORO

Capitão que nela vinha

Muito bem que a guiava.

JOANA

Dize-me, ó cavaleiro,

Pela cruz da tua espada,

Se encontraste meu marido

Na terra que Deus pisava?

CORO

Encontraste meu marido

Na terra que Deus pisava?

SERAFINA

Anda tanto cavaleiro

Naquela terra sagrada!

Mas dize-me tu, senhora,

Os sinais que ele levava...

CORO

Dize-me tu, ó senhora,

Os sinais que ele levava.

JOANA

Levava cavalo branco,

Selim de prata doirada,

No seu peito de aço fino

A cruz de Cristo levava.

CORO

No seu peito de aço fino

A cruz de Cristo levava.

SERAFINA

Pelos sinais que me deste

Lá o vi numa estacada...

Morrer morte de valente;

Eu sua morte vingava.

ALDA (estremecendo)

Boas novas vieram à pobre da infanta.

JOANA

Esperai, tende paciência, que ouvireis agora o resto: nem sempre o pior é certo.

ALDA (suspirando)

Mas do susto já ninguém a livra.

JOANA

Esse teve ela muito grande; e entrou-se a carpir e a lastimar que fazia dó ouvi-la, e vê-la arrancar seus loiros cabelos, e magoar suas lindas faces, e dizia com muitas lágrimas: (Canta) Ai triste de mim coitada,

Triste que tudo perdi!

Três filhas que me deixaste,

Como as casarei sem ti!

Ai, esposo da minha alma,

Ai triste de mim sem ti!

CORO

Ai, esposo da minha alma,

Ai triste de mim sem ti!

SERAFINA (falando)

E então o cavaleiro da armada, meio sorrindo, meio com dó dela, lhe tornou: (Canta)

Que darias tu, senhora,

A quem no trouxera aqui?

JOANA

Dera-lhe ouro e prata fina,

Quanta riqueza há por aí.

SERAFINA

Não quero ouro nem prata,

Não no quero pata mim.

Que darias mais, senhora,

A quem te trouxera aqui?

JOANA

De três moinhos que eu tenho,

Um mói cravo e gergelim, outro...

SERAFINA

Os teus moinhos

Não nos quero para mim.

CORO

Que darias mais, senhora,

A quem no trouxera aqui?

JOANA

As telhas do meu telhado

Que são de ouro e marfim...

SERAFINA

As telhas do teu telhado

Não as quero para mim.

Que darias mais, senhora,

A quem lhe trouxera aqui?

JOANA

De três filhas que eu tenho,

Escolherás para ti:

Uma é loira como o sol,

Outra alva como o al-héli;

Tem quinze anos a mais velha,

Corada como um rubi'.

SERAFINA

Não é assim, não é assim. A Eiria Martins do pé do rio, que sabia essa xácara como ninguém, sempre lhe ouvi cantar doutro modo. E reza assim:

De três filhas que eu tenho,

Todas três te dera a ti;

Uma para te calçar,

Outra para te vestir,

E a mais formosa de todas

Para contigo...

JOANA

As cachopas do rio cantam como tu dizes; mas a trova verdadeira é como a eu cantei, que me ensinou Mestre Froilão: e é como ela se canta entre senhores, e é mais bonita assim. – Não é, padre capelão?

(Froilão faz sinal que sim e bate com mimo na face de Joana)

ALDA

Tens razão, Joana; é como tu dizes. E que não fosse, era mais bonito: assim se deve dizer. – Como foi a resposta do cavaleiro, Serafina? Se ele recusa também essa oferta!...

SERAFINA

Oh se recusa! – Não que ele... Ora escutai: (Canta) As tuas filhas, infanta,

Não são damas para mim:

Dá-me outra coisa, senhora,

Se queres que o traga aqui.

JOANA

Não tenho mais que te dar,

Quanto tinha ofereci...

SERAFINA

Tudo, não, senhora minha,

Que inda te não deste a ti.

JOANA

Cavaleiro que tal pede,

Que tão vilão é de si...

Por meus vilões arrastado

O farei andar aí

À cauda do meu cavalo,

À roda do meu jardim.

CORO

Por meus vilões arrastado

A roda do meu jardim.

SERAFINA

Olha lá os teus vassalos

Se estão bem certos por ti,

Que eu, erguendo esta viseira,

Me não obedeçam a mim.

CORO

Se eu tirar esta viseira,

Hão de obedecer-me a mim.

SERAFINA

Este anel de sete pedras

Que contigo reparti...

Que é dela a outra metade,

Pois a minha está aqui?

CORO

Do anel de sete pedras

Minha metade está aqui.

JOANA

Tantos anos que chorei,

Tantos sustos que tremi...

Deus te perdoe, marido,

Que me ias matando aqui!

JOANA e SERAFINA

Tive mais medo à ventura,

Não sei como não morri.

CORO

Assustou-se com a ventura

Que a ia matando aqui!

ALDA

Linda xácara!

JOANA

Oh senhora, o Condestável diz que gosta tanto de romances, que está sempre a ler num livro que trata dos Cavaleiros da Távola Redonda. Se nós lhe cantarmos este romance quando ele por aqui vier depois da batalha?

ALDA

Pois há de vir, Joana?

JOANA

Há de sim, senhora; tenho fé que há de vir triunfante e com toda a nossa gente.

ALDA

Deus te ouça, filha! – Podes-lhe cantar a tua xácara que é linda. E que linda acaba!