O Alfageme de Santarém
Cena Ii
Alda, Guiomar.
GUIOMAR
Lá isso!... Aquelas amizades com o conde Andeiro não há negá-las; e muito mal lhe fazem a ela e a todos nós que seguimos seu partido. Mas enfim ela é regente do reino, que lhe deixou el-rei no seu testamento, e o reino é de sua filha.
ALDA
Nessas coisas me não meto eu, que não entendo... – Vamos para baixo que está a manhã tão bonita. Mas aflige-me ouvir difamar uma pobre mulher, talvez inocente. (Vão descendo e falando, e ficam em baixo) Há de ser inocente. – E ver andar revolvendo o Povo com estes aborrecidos cantares... E este nosso vizinho que me parecia homem sério e de outros pensamentos ajudando também... Não o esperava dele. Dizei-lhe alguma coisa, senhora; fazei-lhe vergonha com isso, que vos há de atender decerto; e homem que foi criado em vossa casa... que vos deve tanto...
GUIOMAR
Aonde isso vai! – Aqui foi nado e criado certamente; aqui o teve meu pai como a filho, que por tal lhe queria; e com meu irmão se criou, que é seu colaço, e ao trato e usos de cavaleiro se acostumou. Ninguém teve mais altos espíritos. Mas desde que Deus levou meu pai, começou a enfadar-se da vida que levava e a dizer que não era para cavaleiro quem cavaleiro não nascera; que seu pai fora – alfageme, e ele alfageme havia de ser; que mais queria fazer armas para senhores e vender-lhes como mercador, do que vender-se ele a si, para lhes deixarem tratar como escudeiro e em dependência de senhores; – que era pobre e queria ser rico, para não comer o pão de ninguém, mas o seu. E um dito dele de todos os dias era que – vilão por vilão, antes em sua casa, que na de seu sogro não.
ALDA
Nobres espíritos tem. – Que pena!
GUIOMAR
Pena de quê? A sua fortuna foi essa teima em que persistiu. Foi-se as forjas e ferramentas do pai, deixou todo o uso e trato de cavaleiro, começou a trabalhar por seu ofício, e tanto lidou, que entrou a ganhar freguesia e crédito, e hoje é o mais perfeito, e também o mais rico alfageme de Portugal.
ALDA
Inda assim!
GUIOMAR
Vês aquelas casarias todas, com tanta forja a trabalhar, tanta gente ocupada, tantos armazéns cheios de armas de toda a sorte e valia? –
Pois tudo isso tem ele feito. A casita do pai era só aquilo que se vê lá no canto, no fim, com a portinha baixa e duas janelas estreitas, que o filho não quis mudar, nem pôr à feição do resto da casa, por honra e memória do pai, diz ele. – É um homem muito fora do trilho dos outros; faz soberba e vaidade do que a mais gente se envergonha.
ALDA
Já o veio com outros olhos. Parecia-me de um trato tão...
GUIOMAR
Grosseiro... não? – É fingido. Diz ele que para viver com os da sua igualha assim precisa. Não sei. Mas quando ele queria, não tinha a corte de el-rei D. Fernando mais guapo cavaleiro; nem se assenta, nas almofadas do estrado da rainha D. Lionor, dama a quem seu galanteio não agradasse e desvanecesse.
ALDA
Maravilhas me contais do alfageme. Cuidei que lhe queríeis mal: nunca lhe falais, e ele apenas vos saúda de longe.
GUIOMAR (estremecendo e corando) Eu!... Ele dantes vinha aqui mais vezes. Mas... e um homem muito às vessas dos outros; ia te disse. – Desde que meu irmão... a nossa casa entrou a cair de fortuna.
ALDA
Por isso foge de vos?... E tão brioso o dizíeis?
GUIOMAR
Como não conheço outro. – Meu irmão que está em Lisboa, como sabes, em requerimento de serviços de nosso pai há tantos anos, tem consumido, sem fruto, na dependência da corte o pouco resto de fazenda que nosso pai não perdera no serviço de el-rei... que assim o tem pago a seus filhos!... Entrou a valer-se dele meu irmão... hoje devemos-lhe muito, uma quantia que nem eu sei. De protegido passou a protetor. E se ainda moramos nesta casa e lhe chamamos nossa, é mercê do alfageme, Alda. Teu tio, quando para aqui veio para Santarém, que teu padrinho D. Álvaro lhe deu esta capelania de Santa Iria, por nos ajudar veio morar connosco. As rendas dessa pobre capelania (abençoadas são elas que para tanto chegam!) são quase o único rendimento de que hoje se sustenta esta casa, que já teve tanto e tanto deu. Tu estás aqui há poucas semanas, cuidavas talvez...
ALDA
Não cuido nada senão em vos servir, em vos agradecer de todo o meu coração o amparo que achei nesta casa quando, por morte de meu senhor D. Álvaro Gonçalves, o meu santo padrinho que está em glória, fiquei tão sozinha, tão sem abrigo.
GUIOMAR
Pois quê? Da Flor-da-Rosa, daquela casa tão benfazeja e tão rica, verdadeira casa de Hospitaleiros, te lançariam os filhos do Prior? Pedro Álvares Pereira, que é hoje o prior, em vez de seu pai, e todos eles, que são cavaleiros de tanto nome e de tão principal nobreza, te haviam de abandonar?
ALDA
Naquela casa em que nasci, morreria contente e satisfeita de minha situação humilde, ali passaria toda a vida sem desejar mais nem mais pretender, se... se... mas como havia de eu ficar numa família de mancebos, gentis-homens, e que o mais velho não tem trinta, anos? Não os terá Pedro Álvares, o prior, não.
GUIOMAR
O mais moço e D. Nuno: não é? que idade tem?
ALDA
Dois anos mais que eu. – Bem vedes que não podia ficar naquela casa. Enquanto viveu o santo Prior, – eu era criada em casa, filha do seu mordomo, ninguém reparava em que vivesse ali entre os bons cavaleiros do Hospital uma pobre órfã a quem o mesmo D. Álvaro Gonçalves tratava por filha, e todos os seus filhos, todos os seus cavaleiros por irmã; mas depois que ele morreu, era outra coisa; se não fôsseis vós e meu tio, ficava sem abrigo a triste órfã desvalida e dependente...
GUIOMAR
Dependente, filha! de quem? já te confessei, com toda a sinceridade, que aqui não há senão as paredes velhas desta casa, a que ainda chamamos nossa por mercê de Fernão Vaz o Alfageme, de quem já tudo é, Alda; de quem e dos seus populares em breve será tudo quanto era da gente nobre desta terra, que eles crescem e nós minguamos. Toda a riqueza vai passando a mãos de vilões...
ALDA
Se eles trabalham tanto...
GUIOMAR
E nós ficaremos a pedir. – Meu irmão custa-lhe a dever estas obrigações... pesa-lhe estar em dívida com um homem que já foi seu dependente. – Ele percebe-o, foge de o vexar, e por isso aqui não vem. – Eis aí está.
ALDA
Honrado homem!
GUIOMAR
Bem o podes dizer.