O Alfageme de Santarém
Cena Iii
Alda, Guiomar, Alfageme.
(Coro de donzelas do Alfageme, dentro)
ALFAGEME (chegando porta da sua casa, vem cantando) Quem não deve... hão deve... (Vê-as, para de cantar e tira o barrete com muito respeito) Deus vos salve, senhoras.
(Guiomar corteja com a cabeça)
ALDA
Bons dias, vizinho. – Muito ocupado estais hoje.
ALFAGEME
Hoje e sempre: é o meu ofício, e a minha vida, é o para que vim a este mundo – para trabalhar. Já que é sina, quero cumpri-la alegremente.
ALDA
Bem alegre, que tanto cantais.
ALFAGEME
Cantar!... Música de alfageme, solfa de ferreiro: e acompanhar o tinir da bigorna. Que há de a gente fazer?
ALDA
Bem me agrada a música e a toada; e singela e de folgar. – As letras que hoje cantastes é que...
ALFAGEME
As letras! Nem eu sei o que foi: algum romance velho que já se não usará de cantar por saraus de senhores – coisas cá da gente do povo; é o que nós sabemos.
ALDA
Quereis que vos diga o que tenho no coração?
ALFAGEME
Para quê? – Bem o sei.
ALDA
Como sabeis?
ALFAGEME
Assim o não soubera!
CORO (dentro)
Só se for o Conde Alarcos,
E esse tem mulher e filha!
OUTRAS VOZES
Ai rico pai da minha alma,
Esse é o que eu queria!
ALDA (perturba-se e cora, disfarçando e encaminhando-se para a escada)
É um descante contínuo nesta vizinhança... Não se pode.
ALFAGEME (em ação de voltar para dentro) Já as farei calar...
ALDA (com enfado e subindo a escada) Para quê? que me importa? – Mas valha-me Deus! meu tio sem chegar! Vou ver se...
ALFAGEME
Aí vem ele descendo aquela encosta: não tardará aqui cinco minutos. Então não me dizeis o que tendes no coração?
ALDA (do meio da escada)
Se o sabeis...
ALFAGEME
Dizei embora.
ALDA
Outra vez será. – Meu pobre tio! Como ele há de vir tolhido com tanto frio que faz! Vou tratar de ter tudo pronto para o seu jantar.
(Entra para casa; Guiomar a segue, mas fica no meio da escada)