O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 5 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Iii

Alda, Guiomar, Alfageme.

(Coro de donzelas do Alfageme, dentro)

ALFAGEME (chegando porta da sua casa, vem cantando) Quem não deve... hão deve... (Vê-as, para de cantar e tira o barrete com muito respeito) Deus vos salve, senhoras.

(Guiomar corteja com a cabeça)

ALDA

Bons dias, vizinho. – Muito ocupado estais hoje.

ALFAGEME

Hoje e sempre: é o meu ofício, e a minha vida, é o para que vim a este mundo – para trabalhar. Já que é sina, quero cumpri-la alegremente.

ALDA

Bem alegre, que tanto cantais.

ALFAGEME

Cantar!... Música de alfageme, solfa de ferreiro: e acompanhar o tinir da bigorna. Que há de a gente fazer?

ALDA

Bem me agrada a música e a toada; e singela e de folgar. – As letras que hoje cantastes é que...

ALFAGEME

As letras! Nem eu sei o que foi: algum romance velho que já se não usará de cantar por saraus de senhores – coisas cá da gente do povo; é o que nós sabemos.

ALDA

Quereis que vos diga o que tenho no coração?

ALFAGEME

Para quê? – Bem o sei.

ALDA

Como sabeis?

ALFAGEME

Assim o não soubera!

CORO (dentro)

Só se for o Conde Alarcos,

E esse tem mulher e filha!

OUTRAS VOZES

Ai rico pai da minha alma,

Esse é o que eu queria!

ALDA (perturba-se e cora, disfarçando e encaminhando-se para a escada)

É um descante contínuo nesta vizinhança... Não se pode.

ALFAGEME (em ação de voltar para dentro) Já as farei calar...

ALDA (com enfado e subindo a escada) Para quê? que me importa? – Mas valha-me Deus! meu tio sem chegar! Vou ver se...

ALFAGEME

Aí vem ele descendo aquela encosta: não tardará aqui cinco minutos. Então não me dizeis o que tendes no coração?

ALDA (do meio da escada)

Se o sabeis...

ALFAGEME

Dizei embora.

ALDA

Outra vez será. – Meu pobre tio! Como ele há de vir tolhido com tanto frio que faz! Vou tratar de ter tudo pronto para o seu jantar.

(Entra para casa; Guiomar a segue, mas fica no meio da escada)