O Alfageme de Santarém
Ato Iii
As forjas do alfageme estão apagadas
CENA I
Froilão Dias encostado à varanda do patim no alto da escada, olhando tristemente para os serralheiros e donzelas do Alfageme que entram aos dois e aos três, e como que vêm muito cansados. Depois de algum espaço que dura esta cena muda, o Alfageme entrando com a sua acha de armas às costas.
ALFAGEME
Tornem para cá a aclamar rei estrangeiro às barbas de portugueses! – Inda que o mais povo do reino se deixe quebrantar, aqui está o de Santarém para pôr pé atrás – pé de boi, português velho – que não há movê-lo! – Foi como em Lisboa, foi melhor que em Lisboa; não o aclamaram e fugiram com a cabeça quebrada alguns dos tais fidalguinhos!
FROILÃO
Valha-me Deus!
ALFAGEME (reparando em Froilão) Que é isso? estais triste! Não vos alegrais de nos ver contentes, não tomais parte na nossa alegria?
FROILÃO
Meu amigo, Deus vo-la conserve, – e as não faça mudar em tristezas essas alegrias! Em toda a sinceridade do meu coração lhe peço: mas quando elas vêm tão alvoroçadas, não duram.
ALFAGEME
Pois quê! achais que fazemos mal em renegar dos estrangeiros e punir por nossos direitos?
FROILÃO
Se fosse isso só!
ALFAGEME
E meter medo aos traidores para que nos não vendam?
FROILÃO
Andai, andai. Deus, que o permite, bem sabe porquê: altos são os seus juízos. Mas eu gosto de alegrias mais quietas e pacíficas. Há muito tinir de espadas nessa solfa: não me agrada, não sei afinar por ela. Sou homem de paz, filhos, sou muito de paz.
ALFAGEME
A paz já não é possível. Sobre quem acendeu a guerra, caia todo o mal que dela vier, todo o sangue que se derramar! Nós somos inocentes.
FROILÃO
Oh Fernão Vaz! Na guerra civil não há inocentes nem culpados. E um flagelo da ira divina que desafiam os pecados dos reis – e dos povos também. Todos são executores e todos são vítimas: os que vencem por fim, são às vezes os que perdem mais. Mas... seja feita a vontade de Deus. Já que as coisas chegaram a isto!... – Para mim... acabou o rir e o folgar.
JOANA
Pois não! E nós que havemos de fazer, sem o nosso padre capelão, sem o nosso bom Froilão? Venha para baixo, venha o nosso... (Cantando)
Venha o nosso padre, padre capelão.
CORO DAS DONZELAS (querendo dançar, mas tibiamente) Que é o nosso santo de mais devoção!
FROILÃO (tristemente e descendo a escada) Vou, filhas, vou, mas é rezar por vós, e pedir àquele Senhor em cuja mão está o coração dos reis – e o dos povos – que a todos o assossegue, e nos mande paz e quietação.
ALFAGEME
E justiça.
FROILÃO (já em baixo)
E justiça é justiça – que nunca andou senão abraçada com a paz. E verdade, é verdade.
ALFAGEME
Bem, bem. Deus disporá como for sua vontade: nós ponhamos de nossa parte. Que bem sabeis. Quem se fia na Virgem e não corre... Enfim, tenho dito: o povo de Santarém não há de ficar atrás do de Lisboa!