O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 11 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Ix

Froilão Dias, Alda.

ALDA

Ai, meu querido tio!

FROILÃO (arremedando-a)

Meu querido tio! Não sou o seu querido do; sou uma figa para você, se não tiver juízo.

ALDA

Pelejais comigo?

FROILÃO

Não pelejo, nem tu o mereces, filha. Mas olha, Alda; amores são amores... isto é, amores não são amores tal, quando... Sabes tu como diz a trova? (Canta por entre dentes)

Flores que não dão frutos, flores,

Não regues, jardineiro, não,

Que perdes o tempo em vão

Com essas flores.

ALDA

Que quereis dizer!

FROILÃO

Que leio em ti como em breviário aberto, Alda; sei o que tens nesse coração que o atormenta. Mas sei que, ao pé dessa desgraçada paixão que lá está, também está muita virtude e muita honra. E são as que hão de vencer. Não é assim, filha?

ALDA (com firmeza)

Sim, meu tio; decerto.

FROILÃO

Pois é ajudá-las com tempo, que são fortes batalhadoras ambas, mas querem-se auxiliadas com a firmeza da vontade e com... Sabes tu, Alda, como se diz entre o povo, que a mordedura do cão com o pelo do cão se cura? – Pois alegria, minha filha, que tristezas para nada aproveitam. Já tu reparaste como este nosso vizinho alfageme fez da sua forja uma capela de música, que até os foles lhe assopram o compasso, e a bigorna lhe afina em ut la sol re, como o hino de São João? Pois olha que é bonito. Adeus que eu já venho. (Vai para dentro entoando o hino latino)

Ut queant laxis – resonnare fibris

Mira gestorum – famuli tuorum,

Solve polluti – labii reatum,

Sancte Joannes!

(Torna para fora e diz)

Quer dizer, que o bem cantar

Nas cordas do coração

Tem a sua afinação.