O Alfageme de Santarém
Cena Ii
O Alfageme aparece à porta última da sua casa no alto da cena,
Nuno Álvares vem descendo a escada da casa de Mendo; Froilão Dias atrás dele, mas fica no alto da escada; Coro das donzelas do
Alfageme, dentro.
FROILÃO (ajoelhando)
Senhor, meu senhor.
NUNO ÁLVARES (parando no meio da escada e voltando-se para trás)
Que fazeis!
FROILÃO
Estou de joelhos diante de vós, senhor, pedindo misericórdia. Tende dó destas cãs: lembrai-vos que ainda o outro dia as arrepeláveis ao pobre clérigo velho quando voz trazia ao colo. Lembrai-vos de vosso pai, D. Nuno! Lembrai-vos...
NUNO ÁLVARES
Não vos basta a minha palavra?
FROILÃO (erguendo-se)
Dai-me, e fico descansado.
NUNO ÁLVARES
Dou... dou a minha palavra.
FROILÃO
Fé e palavra de homem de bem?
NUNO ÁLVARES
Fé e palavra de homem de bem.
FROILÃO
De que nunca mais?...
NUNO ÁLVARES
De que nunca mais.
FROILÃO
Tomareis a falar-lhe?
NUNO ÁLVARES
Falar-lhe, falar-lhe... Entendamo-nos, meu bom Froilão, meu velho amigo Froilão. A minha palavra, dei-a, está dada: sou filho de quem sou, hei de cumpri-la. Que me custe a vida... custe o que custar, hei de cumpri-la. De hoje em diante, Alda é minha irmã, minha irmã como se nascesse da mesma mãe, como se nos gerasse o mesmo pai.
FROILÃO (correndo pela escada abaixo com os braços abertos) Meu filho, meu querido filho, meu Nuno!... D. Nuno Álvares Pereira, filho daquele grande homem que...
(No alvoroço em que vai, ao chegar a Nuno Álvares quase que o faz cair e ambos se precipitariam se Nuno Álvares se não firmasse de repente no guarda-mão da escada, segurando ao mesmo tempo a Froilão)
NUNO ÁLVARES
Tomai tento, Froilão, que ambos íamos caindo. Estais louco?
(Descem de todo a escada e vêm para o meio da cena)
FROILÃO
Louco! Doido, doido varrido de contente. Quero saltar, quero bailar, quero cair, e quebrar as pernas se for preciso... e a cabeça – e tudo... – Salta, Froilão, baila, Froilão. (Cantando e dançando) Que é um grande santo São Pascoal Bailão.
CORO DAS DONZELAS (dentro) É o nosso santo de mais devoção.
NUNO ÁLVARES
Estais alvoroçando a vizinhança: vede.
FROILÃO
Não é nada, não é nada. – As pequenas ali do alfageme. Isso é santa gente. (Falando para as janelas da casa do alfageme) Raparigas, logo; logo saltaremos e dançaremos e cantaremos. Agora quietas.
CORO DAS DONZELAS (dentro) Casai-me, meu padre, pela vossa mão
Que eu já não tenho...
FROILÃO (para dentro)
Então? Quietas. (Para Nuno Álvares) Mas como a trova diz bem: Que eu já não tenho nem pai nem irmão!
CORO DAS DONZELAS (dentro) E quero casar-me, padre capelão.
FROILÃO
Agora fui eu o culpado que lhes dei o alamiré. (Falando para dentro) Acabou-se; vejamos! (Para Nuno Álvares) Então, meu rico D. Nuno da minha alma?...
NUNO ÁLVARES
Já vos disse: é minha irmã. Fé e honestidade de irmão lhe guardei sempre. Desonradas veja eu mulher e filhas, quando as tiver, se a honra e a fama de Alda me não foram sempre mais caras do que a própria vida!
FROILÃO (chorando)
Nuno, meu querido Nuno! – Senhor D. Nuno, meu amo (ajoelha e beija-lhe as mãos muitas vezes), meu nobre amo!
NUNO ÁLVARES
Basta, homem; catai respeito a essa loba que arrastais pelo chão. Estas mãos não são ungidas como as vossas.
FROILÃO (erguendo-se direito e com solenidade) D. Nuno Álvares Pereira, vosso pai foi meu amo e meu benfeitor. O pão que como, este hábito que visto, o alto ministério que tão indignamente exerço, tudo lhe devo; e sei que é muito. O pobre velho tonto e folgazão sabe o alto lugar a que, por auxílio de vosso pai e mercê de Deus, foi subido. – E quando está diante do altar na presença do Senhor, na cadeira do Evangelho, ou no tribunal da Penitência... que apareçam aí os grandes do mundo, os reis da terra... Hei de lhes dizer: “Ajoelhai-vos diante do sacerdote do Deus vivo, humilhai-vos, beijai estas mãos, onde desce o cordeiro imaculado”. (Com humildade) Mas fora daí, meu filho, o sacerdote de Cristo é o servo de seus servos, deve ser humilde, submisso e manso de coração como seu divino mestre. – Já vos disse que devi muito a vosso pai, senhor D. Nuno: desde hoje muito mais é o que vos devo a vós. Não quereis que vos agradeça?
NUNO ÁLVARES
Não; faço o que manda a honra, não o que pede a vontade. – A honra!... Eu sei... mais honra seria...
FROILÃO (com ansiedade)
O quê, senhor?
NUNO ÁLVARES (com entusiasmo) Não deixar violentar de vãos respeitos humanos, de preconceitos ridículos e mesquinhos; buscar a felicidade onde o coração me diz que ela está, tomar nos braços a minha Alda, e dizer-lhe: Alda, vem, vem ser...
FROILÃO (com mais ansiedade) Vem ser?...
Á
NUNO ÁLVARES (resoluto)
Minha mulher.
FROILÃO (enternecido)
Quereis matar-me. – Que mal vos fez este pobre velho, senhor? (Encosta-se a uma árvore, como não podendo com o sentimento que se apoderou dele)
NUNO ÁLVARES (acudindo-lhe) Meu amigo, meu bom Froilão... então, então! – Em que vos ofendi?
FROILÃO (rompendo a chorar) Oh senhor, senhor... Não sei se agora, se quando me ofendestes mais. – O filho de meu amo, o filho de D. Álvaro Gonçalves, as ricas esperanças de uma família tão nobre, para quem nada há tão alto, nesta terra, a que não possa aspirar, por sangue, por virtude, pelos altos espíritos que Deus lhe deu e que tanto medraram na boa criação que tiveram!... E eu havia de consentir?... Antes morrer, antes. – Mas vós não haveis de fazer tal, senhor: estais desposado com aquela rica-dona de Entre Douro e Minho com quem vosso pai tanto gosto tinha de vos ver casado; senhora tão formosa, tão fidalga, tão rica dos bens da fortuna... Oh, senhor D. Nuno, e destes-me a vossa palavra.
NUNO ÁLVARES
Dei-vos palavra que de hoje em diante Alda seria para mim uma irmã – querida e adorada sempre! – mas sagrada como irmã até para o meu pensamento. Esta palavra hei de cumpri-la se...
FROILÃO
Se! – Condições ainda, D. Nuno?
NUNO ÁLVARES
Uma só. – Se ela não quiser ser... minha mulher.
FROILÃO
Aceito. A vossa mão.
NUNO ÁLVARES (dando-lhe a mão) Aqui está.
FROILÃO
Vitória! – Sei quem tenho na minha Alda; há de recusar. O seu nascimento, a sua pobreza, o mesmo amor que... a generosidade da sua alma!... Há de recusar.
NUNO ÁLVARES
Ela!
FROILÃO
Ela.
NUNO ÁLVARES
Veremos.
FROILÃO
Não temos que ver: já vimos.
NUNO ÁLVARES
Mas não haveis de usar da vossa autoridade.
FROILÃO
Não.
NUNO ÁLVARES
Não a haveis de prevenir, de lhe meter medos.
FROILÃO
Nem uma palavra.
NUNO ÁLVARES
Deixar-me-eis falar com ela à vontade.
FROILÃO
Deixarei.
NUNO ÁLVARES
Aqui neste lugar: eu aqui, Alda nessa escada.
FROILÃO
E eu em cima no patim.
NUNO ÁLVARES
Concedido.
FROILÃO
Pudera não!
NUNO ÁLVARES
Se recusar... partirei só, esta mesma noite.
FROILÃO
E ireis cumprir a vossa palavra, ireis ao Minho receber D. Leonor de Alvim que vos está esperando.
NUNO ÁLVARES
Irei... irei, se... – Primeiro me espera o Mestre de Avis em Lisboa, onde não falta que fazer, antes que... – Mas tudo isso é se eu for como dizeis. Mas sei que não hei de ir.
FROILÃO
E eu sei que haveis de ir.
NUNO ÁLVARES
Veremos.
FROILÃO
Veremos.
NUNO ÁLVARES
Pois veremos. Mas se Alda for fiel ao que... se ela não recusar, esta madrugada nos recebereis logo, aí nessa capela, e por noite partirei para Lisboa a servir meu amo, mas já esposo da minha Alda, já feliz e sossegado deste coração.
FROILÃO
Prometo. Mas sei que não teremos dessas alvoradas.
NUNO ÁLVARES
Ora muito me hei de eu rir do meu Froilão velho!
FROILÃO
Dito e concluído. Até à noite, meu senhor.
NUNO ÁLVARES
Dito e concluído. Até à noite.
(Froilão sobe a escada e vai para dentro da casa)