O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 15 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Ii

O Alfageme aparece à porta última da sua casa no alto da cena,

Nuno Álvares vem descendo a escada da casa de Mendo; Froilão Dias atrás dele, mas fica no alto da escada; Coro das donzelas do

Alfageme, dentro.

FROILÃO (ajoelhando)

Senhor, meu senhor.

NUNO ÁLVARES (parando no meio da escada e voltando-se para trás)

Que fazeis!

FROILÃO

Estou de joelhos diante de vós, senhor, pedindo misericórdia. Tende dó destas cãs: lembrai-vos que ainda o outro dia as arrepeláveis ao pobre clérigo velho quando voz trazia ao colo. Lembrai-vos de vosso pai, D. Nuno! Lembrai-vos...

NUNO ÁLVARES

Não vos basta a minha palavra?

FROILÃO (erguendo-se)

Dai-me, e fico descansado.

NUNO ÁLVARES

Dou... dou a minha palavra.

FROILÃO

Fé e palavra de homem de bem?

NUNO ÁLVARES

Fé e palavra de homem de bem.

FROILÃO

De que nunca mais?...

NUNO ÁLVARES

De que nunca mais.

FROILÃO

Tomareis a falar-lhe?

NUNO ÁLVARES

Falar-lhe, falar-lhe... Entendamo-nos, meu bom Froilão, meu velho amigo Froilão. A minha palavra, dei-a, está dada: sou filho de quem sou, hei de cumpri-la. Que me custe a vida... custe o que custar, hei de cumpri-la. De hoje em diante, Alda é minha irmã, minha irmã como se nascesse da mesma mãe, como se nos gerasse o mesmo pai.

FROILÃO (correndo pela escada abaixo com os braços abertos) Meu filho, meu querido filho, meu Nuno!... D. Nuno Álvares Pereira, filho daquele grande homem que...

(No alvoroço em que vai, ao chegar a Nuno Álvares quase que o faz cair e ambos se precipitariam se Nuno Álvares se não firmasse de repente no guarda-mão da escada, segurando ao mesmo tempo a Froilão)

NUNO ÁLVARES

Tomai tento, Froilão, que ambos íamos caindo. Estais louco?

(Descem de todo a escada e vêm para o meio da cena)

FROILÃO

Louco! Doido, doido varrido de contente. Quero saltar, quero bailar, quero cair, e quebrar as pernas se for preciso... e a cabeça – e tudo... – Salta, Froilão, baila, Froilão. (Cantando e dançando) Que é um grande santo São Pascoal Bailão.

CORO DAS DONZELAS (dentro) É o nosso santo de mais devoção.

NUNO ÁLVARES

Estais alvoroçando a vizinhança: vede.

FROILÃO

Não é nada, não é nada. – As pequenas ali do alfageme. Isso é santa gente. (Falando para as janelas da casa do alfageme) Raparigas, logo; logo saltaremos e dançaremos e cantaremos. Agora quietas.

CORO DAS DONZELAS (dentro) Casai-me, meu padre, pela vossa mão

Que eu já não tenho...

FROILÃO (para dentro)

Então? Quietas. (Para Nuno Álvares) Mas como a trova diz bem: Que eu já não tenho nem pai nem irmão!

CORO DAS DONZELAS (dentro) E quero casar-me, padre capelão.

FROILÃO

Agora fui eu o culpado que lhes dei o alamiré. (Falando para dentro) Acabou-se; vejamos! (Para Nuno Álvares) Então, meu rico D. Nuno da minha alma?...

NUNO ÁLVARES

Já vos disse: é minha irmã. Fé e honestidade de irmão lhe guardei sempre. Desonradas veja eu mulher e filhas, quando as tiver, se a honra e a fama de Alda me não foram sempre mais caras do que a própria vida!

FROILÃO (chorando)

Nuno, meu querido Nuno! – Senhor D. Nuno, meu amo (ajoelha e beija-lhe as mãos muitas vezes), meu nobre amo!

NUNO ÁLVARES

Basta, homem; catai respeito a essa loba que arrastais pelo chão. Estas mãos não são ungidas como as vossas.

FROILÃO (erguendo-se direito e com solenidade) D. Nuno Álvares Pereira, vosso pai foi meu amo e meu benfeitor. O pão que como, este hábito que visto, o alto ministério que tão indignamente exerço, tudo lhe devo; e sei que é muito. O pobre velho tonto e folgazão sabe o alto lugar a que, por auxílio de vosso pai e mercê de Deus, foi subido. – E quando está diante do altar na presença do Senhor, na cadeira do Evangelho, ou no tribunal da Penitência... que apareçam aí os grandes do mundo, os reis da terra... Hei de lhes dizer: “Ajoelhai-vos diante do sacerdote do Deus vivo, humilhai-vos, beijai estas mãos, onde desce o cordeiro imaculado”. (Com humildade) Mas fora daí, meu filho, o sacerdote de Cristo é o servo de seus servos, deve ser humilde, submisso e manso de coração como seu divino mestre. – Já vos disse que devi muito a vosso pai, senhor D. Nuno: desde hoje muito mais é o que vos devo a vós. Não quereis que vos agradeça?

NUNO ÁLVARES

Não; faço o que manda a honra, não o que pede a vontade. – A honra!... Eu sei... mais honra seria...

FROILÃO (com ansiedade)

O quê, senhor?

NUNO ÁLVARES (com entusiasmo) Não deixar violentar de vãos respeitos humanos, de preconceitos ridículos e mesquinhos; buscar a felicidade onde o coração me diz que ela está, tomar nos braços a minha Alda, e dizer-lhe: Alda, vem, vem ser...

FROILÃO (com mais ansiedade) Vem ser?...

 

Á

NUNO ÁLVARES (resoluto)

Minha mulher.

FROILÃO (enternecido)

Quereis matar-me. – Que mal vos fez este pobre velho, senhor? (Encosta-se a uma árvore, como não podendo com o sentimento que se apoderou dele)

NUNO ÁLVARES (acudindo-lhe) Meu amigo, meu bom Froilão... então, então! – Em que vos ofendi?

FROILÃO (rompendo a chorar) Oh senhor, senhor... Não sei se agora, se quando me ofendestes mais. – O filho de meu amo, o filho de D. Álvaro Gonçalves, as ricas esperanças de uma família tão nobre, para quem nada há tão alto, nesta terra, a que não possa aspirar, por sangue, por virtude, pelos altos espíritos que Deus lhe deu e que tanto medraram na boa criação que tiveram!... E eu havia de consentir?... Antes morrer, antes. – Mas vós não haveis de fazer tal, senhor: estais desposado com aquela rica-dona de Entre Douro e Minho com quem vosso pai tanto gosto tinha de vos ver casado; senhora tão formosa, tão fidalga, tão rica dos bens da fortuna... Oh, senhor D. Nuno, e destes-me a vossa palavra.

NUNO ÁLVARES

Dei-vos palavra que de hoje em diante Alda seria para mim uma irmã – querida e adorada sempre! – mas sagrada como irmã até para o meu pensamento. Esta palavra hei de cumpri-la se...

FROILÃO

Se! – Condições ainda, D. Nuno?

NUNO ÁLVARES

Uma só. – Se ela não quiser ser... minha mulher.

FROILÃO

Aceito. A vossa mão.

NUNO ÁLVARES (dando-lhe a mão) Aqui está.

FROILÃO

Vitória! – Sei quem tenho na minha Alda; há de recusar. O seu nascimento, a sua pobreza, o mesmo amor que... a generosidade da sua alma!... Há de recusar.

NUNO ÁLVARES

Ela!

FROILÃO

Ela.

NUNO ÁLVARES

Veremos.

FROILÃO

Não temos que ver: já vimos.

NUNO ÁLVARES

Mas não haveis de usar da vossa autoridade.

FROILÃO

Não.

NUNO ÁLVARES

Não a haveis de prevenir, de lhe meter medos.

FROILÃO

Nem uma palavra.

NUNO ÁLVARES

Deixar-me-eis falar com ela à vontade.

FROILÃO

Deixarei.

NUNO ÁLVARES

Aqui neste lugar: eu aqui, Alda nessa escada.

FROILÃO

E eu em cima no patim.

NUNO ÁLVARES

Concedido.

FROILÃO

Pudera não!

NUNO ÁLVARES

Se recusar... partirei só, esta mesma noite.

FROILÃO

E ireis cumprir a vossa palavra, ireis ao Minho receber D. Leonor de Alvim que vos está esperando.

NUNO ÁLVARES

Irei... irei, se... – Primeiro me espera o Mestre de Avis em Lisboa, onde não falta que fazer, antes que... – Mas tudo isso é se eu for como dizeis. Mas sei que não hei de ir.

FROILÃO

E eu sei que haveis de ir.

NUNO ÁLVARES

Veremos.

FROILÃO

Veremos.

NUNO ÁLVARES

Pois veremos. Mas se Alda for fiel ao que... se ela não recusar, esta madrugada nos recebereis logo, aí nessa capela, e por noite partirei para Lisboa a servir meu amo, mas já esposo da minha Alda, já feliz e sossegado deste coração.

FROILÃO

Prometo. Mas sei que não teremos dessas alvoradas.

NUNO ÁLVARES

Ora muito me hei de eu rir do meu Froilão velho!

FROILÃO

Dito e concluído. Até à noite, meu senhor.

NUNO ÁLVARES

Dito e concluído. Até à noite.

(Froilão sobe a escada e vai para dentro da casa)