O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 44 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Iv

O Alfageme todo coberto de poeira e com a sua acha de armas;

Alda, Froilão, Mendo Pais, Alcaide e aguazis; Joana, Serafina e as

outras donzelas, povo

 

ALFAGEME

E eu serei bastante?

MENDO (à parte)

Estou perdido.

ALDA

Fernando!

FROILÃO (erguendo-se e balbuciando) Meu...

ALFAGEME

Alda, Froilão... (Mal os abraça, arredando-os) Quem me acusa aqui? Qual é o meu crime? Onde estão os meus juízes? E o meu acusador, o meu acusador quem é? (Silêncio geral) Ninguém responde! Eu sou o réu e todos se calam diante de mim! (Murmúrios entre o povo) Quem murmura lá? Quem é o covarde que só se atreve a murmurar baixo, a caluniar pelas costas? – Levante a voz e olhe bem para mim; levante a voz e diga: “Sou eu que acuso o alfageme de Santarém”.

ALDA (estendendo-lhe os braços) Oh meu esposo, meu querido esposo! Não imaginas o que esta gente...

ALFAGEME

Alda, minha adorada Alda!... – Oh! e o nosso filho? (Alda mostra-lhe o berço, ele abaixa-se e beija o filho) Deixa-me primeiro... (Repara em Froilão) Oh meu bom Froilão, dai-me a vossa bênção. (Toma-lhe a bênção, depois repara no Alcaide) Vós aqui, senhor Alcaide! E de vara na mão! Vindes em diligência do vosso ofício?

ALCAIDE (confuso)

Fui requerido; é minha obrigação... E muito me custa...

ALFAGEME

Custa-vos fazer vossa obrigação! Como assim, senhor Alcaide?

ALCAIDE

O senhor Mendo Pais apresenta aqui...

ALFAGEME

Mendo! – Senhor Mendo Pais, vós – pois vós é quê?...

MENDO (fazendo por mostrar resolução) Sou eu que vos acuso, é verdade. (Levantando a voz) O vosso procedimento duvidoso tem escandalizado todos os leais habitantes desta vila. Desde o princípio destas alterações fostes aqui o cabeça de motim; alvorotastes o povo contra os nobres e fidalgos, favorecendo assim a causa de Castela de que vos dizíeis contrário – e não seguistes as partes do Mestre de Avis (levantando a voz) , do nosso legítimo e vitorioso rei, o senhor D. João I! Privaste-lo do auxílio dos honrados homens desta vila que, por sugestões vossas, se não reuniram à sua sagrada bandeira. – Acuso-vos disto eu e todo o povo de Santarém. (Para o povo) Não é assim, meus amigos?

POVO

E assim, é assim.

UM DO POVO

Podíamos estar ricos e fidalgos como todos os mesteres e homens de ofício de Lisboa e do Porto.

POVO

É verdade, é verdade.

ALFAGEME (que tem estado com os braços cruzados deixando-os dizer, e olhando ora para Mendo, ora para o povo) E se o Mestre não vencesse?... Enforcados.

UM DO POVO

Lá isso também é verdade.

ALFAGEME

Calai-vos vós outros do povo, e deixai ouvir este fidalgo... o meu nobre acusador!

MENDO

Não tenho mais que dizer.

ALFAGEME

E não dissestes já pouco por certo. – Vós, Mendo, meu colaço!... Ia quase dizendo meu irmão! Meu senhor D. Mendo Pais, o filho do meu nobre protetor, o companheiro da minha infância... Ah! – E vós todos, o senhor Alcaide também! – Estáveis-me aqui julgando à revelia pela mera acusação deste fidalgo?

ALCAIDE (confuso)

Ausentastes-vos da vila numa ocasião..

ALFAGEME

E verdade; saí de Santarém na própria hora em que vós, senhor Alcaide, com os vereadores e mesteres, estáveis à porta da Atamarma entregando as chaves da nossa vila a el-rei de Castela.

ALCAIDE(confuso)

Estávamos coactos.

ALFAGEME

E eu, para o não estar, fui com a minha gente – com todos esses que arredei do serviço do Mestre, senhor Mendo Pais – apresentar-me em Abrantes ao Condestável do reino. – Não o sabíeis vós, Mendo? Não será verdade isto?

MENDO

E. Mas assim que lá chegastes, logo vos levaram, por espia, para o castelo de Abrantes, e...

ALFAGEME

Ah! Sabíeis vós isso! (À parte) Já sei quem fez a denúncia falsa para Abrantes. E o empenho que ele punha em que eu fosse!

ALDA

É verdade, aquilo, Fernando?

ALFAGEME

E verdade.

ALDA

Prenderam-te a ti por espia, a ti?

ALFAGEME

Por espia, a mim: não há dúvida. (Amargamente) E não quiseram atender aos meus rogos, insultaram as minhas lágrimas!... De joelhos e com as mãos postas os supliquei, pedi-lhes que me deixassem ir morrer o primeiro na vanguarda das batalhas portuguesas... – Chamaram-me castelhano, cismático, traidor, rebelde... espia!... – E eu não morri, Alda! e tive força para os ouvir, tive ânimo para suportar tantas injúrias... e para esperar ainda em Deus e na Justiça!

ALDA

Justiça?... Oh Fernando, justiça não torna a haver nesta terra.

ALFAGEME

Quando a houve entre os homens, filha? Mas Deus ainda está no céu. – E se homens me julgassem...

MENDO

Já estais julgado, e sem apelação. Agravai-vos para Deus, se quiserdes; que da sentença que aqui está (tocando no pergaminho que está na mão do Alcaide) para outro tribunal não podereis. – Senhor Alcaide!

ALCAIDE

O senhor Mendo Pais tem razão: nem eu nem justiça alguma do reino tem poder para...

ALFAGEME

Para quê, senhor Alcaide?

ALCAIDE

Para embargar a execução deste alvará.

ALFAGEME (arrebata o papel das mãos do alcaide, lê com grande comoção, ora baixo ora alto, algumas palavras truncadas) O zelo... os serviços... de Mendo Pais... fidalgo de minha casa... – revel, traidor... o Alfageme... (Falando) Eu!... Sou eu. – Este alvará é de...

ALCAIDE (tirando a gorra)

De el-rei nosso senhor.

ALFAGEME

Do Mestre de Avis? De el-rei D. João?... – El-rei... mandou passar este alvará!... E assinou Rei neste papel infame... que o desonra!... O Mestre de Avis por quem eu, eu... – Mentes, Alfageme, que não foi por ele. – Não foi, é verdade; mas nem por isso me deve ele menos.– El-rei assinar esta vilania... – Eu desagravo assim a honra de el-rei.

(Rasga o alvará e o calca aos pés)

ALDA

Que fizeste, Fernando!

POVO

Oh! Oh!

MENDO

Traição, nova traição! O alvará de el-rei!... Traição!

POVO

Traição!

ALCAIDE

Fernão Vaz; este crime foi público, e cometido na minha presença, diante de todo este povo. Entregai-vos às justiças de el-rei.

MENDO (à parte)

Estou salvo.

ALCAIDE

Entregai as vossas armas.

ALFAGEME

As minhas armas! – Esta que ainda está tinta no sangue de. . A vós, a nenhum dos que aqui estão! – Não sois vós que lhes poreis as sujas mãos. – Esta arma (quebra nas mãos a acha e a atira com grande arremessão para longe) ficará de troféu no fundo do Tejo sobre a sepultura da nossa Santa protetora. Caluniada como ela, mártir, pura e imaculada como ela, também não há de cair em mãos de infiéis.

ALCAIDE (para os aguazis)

Prendei esse homem.

(Os aguazis não se atrevem)

ALFAGEME

Fazei o que vos mandam. Não me vedes desarmado? Nem assim vos atreveis!

ALCAIDE

Levai-o ao Castelo, para Marvila; que o metam na torre de menagem.

ALFAGEME

A mim me levarão eles? – Nobre e justiceiro Alcaide, o Alfageme de Santarém não se leva assim. Vai ele quando quer e porque... quer.

ALDA

Oh Fernando, Fernando!– E eu, eu é que sou a culpada, a causadora de tudo isto! Se te eu não resolvesse a ir... Antes tu não foras.

ALFAGEME

Tal não digas, Alda; tu foste o anjo da minha guarda: ainda bem que segui a tua inspiração, que fui, que adquiri o direito de os desprezar, de lhes chamar ingratos, de...

ALDA

Pois tu foste, alcançaste por fim?... Não ficaste no castelo de Abrantes?... o Condestável?...

ALFAGEME

O Condestável...

MENDO (ao povo)

E este homem há de estar aqui a zombar de nós todos, do povo?

UM DO POVO

Prendam o traidor. Viva o nosso rei D. João. Povo – Viva!

ALFAGEME

Qual deles é hoje, meus bons amigos – o de Portugal ou o de Castela?

MENDO

Insultou o povo.

UM DO POVO

Insultou o povo, o traidor! Morra.

(Querem apedrejá-lo: Alda abraça-se com o marido)

POVO

Morra!