O Alfageme de Santarém

Almeida Garrett · Capítulo 9 de 46

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O Alfageme de Santarém

Cena Vii

Froilão Dias, Alfageme.

ALFAGEME

Que feitiço dais a estas moças, que assim morrem por vos, nem há mais alegria para elas do que ver-vos e folgar convosco? – Nem vos respeitam menos; que uma palavra que lhes digais, é Evangelho para elas... e para nós todos. Há três anos que aqui estais nesta capelania, e já todo o povo vos quer como a pai, a nós tendes a todos por

filhos.

FROILÃO (levantando-se)

Menos tu, que, se és filho, és mau filho.

ALFAGEME

Eu!

FROILÃO

Tu, sim. – Anda cá, anda cá, alfageme, que me não importam as tuas alfagemias... Anda, meu armeiro, meu espadeiro, que as tuas armas e as tuas espadas dou em todas com um trinco ao demo... Dize-me cá: tu não sabes que eu sou o pai destas raparigas todas?

ALFAGEME

Sei.

FROILÃO

Que há três anos, como ainda agora disseste, que estou nesta capelania que me deu o prior do Hospital, meu senhor, que Deus tem, e que já sou o tio Froilão, o mestre Froilão, o papa Froilão de toda esta pequenada? E que não sofro que ninguém mas desencaminhe – e ou me hão de casar honestamente com elas, ou ninguém mas há de endoidecer com tontarias, senão vai tudo com trezentos milheiros de belzebus?

ALFAGEME

Sei. Mas que tendes que me dizer a num nesse ponto? Mais de vinte moças de todas as idades aí trabalham nessas serralherias, e em minha vida não tive uma palavra leviana que dizer a uma delas. Antes sou tão rigoroso e severo com os meus oficiais, como sabeis. Com vossa ajuda e conselho, estas minhas oficinas, cheias de gente rude e popular, podiam servir de exemplo... e de confusão a muita casa de senhoras presumidas que nos olham com desprezo... e upa, upa, ao mais alto!... E falam, que a quem as ouvir...

FROILÃO

Deixemos lá essas contas: cada um faz o que deve, e deixa falar os outros. Má língua que muito fala, com sua vergonha por fim se cala. Não me caias, homem, no vício do tempo, que é andar a assoalhar as fraquezas do próximo... e sem se lembrarem que o sol que nelas da também dá em quem as põe ao soalheiro... Vamos a outro conto. – Pois sabeis que eu sou cá a meu modo cavaleiro andante de donzelas desvalidas... cavaleiro de garnacha sim – mas, por esta cruz de São João de Jerusalém que trago ao peito, que sou cavaleiro também! Por cima desta armadura negra visto, em lugar da sobreveste de paladim, uma sobrepeliz de clérigo; mas com ela vou destemido por esse mundo a endereçar tuertos de quanta dona dolorida e de humilde condição por mim chama.

ALFAGEME

Sei que muita mulher de bem vos deve honra e estado, muito homem feliz o sossego e quietação da vida em que vive; que a rir e a folgar tendes ganho mais almas para Deus e desviado mais pecadores da má vida, e feito mais felizes neste mundo do que todos os pregadores de São Domingos e todos os...

FROILÃO

Adeus, adeus! Deixemo-nos de comparações: cada um prega como sabe. Eu sou o padre Froilão, de meu natural folgazão, que não sei senão rir e brincar, e a rir e a brincar vou pregando. Se faço algum bem, e porque Deus me abençoa. E adiante. – Pois sabeis tudo isso, meu dom alfageme da má morte, e dizei-me cá, homem de grevas e arneses, ruim cabide de ruins armas, meu estafermo de não sei que diga, dizei-me cá, homem: que malito demo vos apertou o gorjel do pescoço, que vos fez arregalar os olhos para a minha Alda, a menina dos meus olhos, a filha do meu coração? – A minha Alda, sô alfageme remendão de más armas ferrugentas? (O Alfageme fica confundido e cabisbaixo) Anda cá, anda cá; que te hei de aqui correger e esfregar, como tu correges uma durindana emplastada de escudeiro velho.

ALFAGEME

Eu, senhor, confesso que... Mas era...

FROILÃO

Era o quê, sô Vulcano de aldeia? Não sabe que a minha Alda foi criada como senhora entre senhoras, com mais prendas que elas todas, com mais virtudes que nenhuma delas? Que é filha de pais honrados e limpos? já não falo em ser minha sobrinha. Que meu senhor D. Álvaro lhe queria como a filha, que com seus filhos se criou naquela honrada e virtuosa casa da Flor-da-Rosa? Que meu chorado amo só a morte o pôde apartar de sua querida afilhada? E que agora há umas semanas que veio para a minha companhia, depois que ele morreu, e aqui está comigo em casa destes nossos primos? primos arredados...

ALFAGEME

Tão arredados dantes quando eram ricos, e tão chegados agora que não têm.

FROILÃO

Quem lhe pergunta por isso? Vou-me eu agora casar com eles, para saber o grau de parentesco de que hei de tirar dispensa? Cale-se, e ouça. Sabe tudo isto, vê tudo isto, – vê como a trata meu senhor D. Pedro Álvares Pereira, seu irmão, D. Nuno, que aqui esteve ainda outro dia e aqui há de voltar cedo... D. Nuno, moço tão fidalgo e tão bizarro, não, vê como a trata? Como irmã sua...

ALFAGEME

É o pior parentesco que lhe conheço.

FROILÃO (à parte)

Meu Deus! Já aqui andara a calúnia! (Alto) Que dizeis, homem, que dizeis! D. Nuno Álvares Pereira!

ALFAGEME

O senhor D. Nuno Álvares Pereira é o mais gentil e mais benquisto cavaleiro moço que tem hoje Portugal. Assim ele seja pela boa causa! Mas isto cá...

FROILÃO

Que falais vós de boa causa e que sabeis vós de qual é a boa causa, homem dos meus pecados?