O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 36 de 38 · parte 2/7

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O Papa e Mussolini

Notas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

relacionada à inclusão, há alguns meses, de seu nome logo depois do

nome de Mussolini numa lista de pessoas a serem eliminadas. Diz-se

que a lista foi compilada na França, nos círculos compostos por

maçons e exilados italianos. Eles o culpam, como membro da Ordem

dos Jesuítas, por ter sugerido ao Duce que tomasse medidas de

repressão contra a maçonaria e, por isso, presumivelmente ordenaram

sua morte.” ACS, MI, DAGR, b. 1320, informatore, Roma, n.d.

11. O chefe de polícia também achou curioso que, depois que a

polícia expressou sua descrença ao encontrar o nome do jesuíta em

segundo lugar na lista de alvos, o relato secreto de Tacchi Venturi

tenha oferecido uma explicação: Salvemini disse ao informante que “a

Ordem dos Jesuítas é completamente fascista e um grande pilar no

qual o fascismo se apoia”.

12. “O documento”, escreveu o chefe de polícia, “era claramente

uma construção extravagante e tosca de fatos e notícias que revelavam

de modo paradoxal uma ignorância das mais básicas circunstâncias

políticas.” ACS, MI, DAGR, b. 59, pp. 15-16. Mais tarde, Salvemini

iria para os Estados Unidos, onde em 1934 receberia uma cadeira em

Harvard.

13. Dois anos antes, quando Violet Gibson tentara assassinar

Mussolini, o homem fizera uma tentativa de convencer a polícia de

que a irlandesa era parte de uma trama sobre a qual ele sabia tudo. Ele

estivera na cadeia em Florença na época, por fraude, e a polícia sem

dúvida suspeitava de que ele inventara a história para poder ser

libertado. Mas nenhuma pista poderia ser ignorada num caso como

esse. Interrogado pela polícia, ele alegou que a tentativa de assassinato

foi tramada antes por uma sociedade política secreta comandada por

uma irlandesa desconhecida, aliada a exilados italianos antifascistas na

França. A polícia não ficou impressionada. O homem se

comprometeu em mais ainda ao tentar vender uma arma secreta ao

Exército francês. Ele alegou que o dispositivo pararia os motores dos

aviões no meio do voo. Não parou.

14. ACS, MI, DAGR, b. 1320, Roma, 20 marzo 1928.

15. Ibid., Roma, dal direttore, Capo Divisione Polizia Politica, 30

marzo 1928, p. 29.

16. O chefe de polícia também observou que, na tentativa de impedir

que a polícia identificasse seu agressor, Tacchi Venturi dera uma

descrição dele muito diferente da que fora passada pelo porteiro. O

jesuíta atribuiu a discrepância ao fato de que o porteiro estava ficando

velho e demente. Mas, na visão do chefe de polícia, o homem “não

era aquele pobre cabeça de vento confuso que o padre Tacchi queria

que acreditássemos que fosse”. ACS, MI, DAGR, b. 1320,

informatore, n.d.

17. “Naturalmente”, escreveu o chefe de polícia em seu relatório

final, “para creditar outro absurdo, sem contar pareceres ultrajantes

dada a respeitabilidade do Homem, a saber, das relações imorais entre

a vítima e o agressor”. ACS, MI, DAGR, b. 59, p. 13.

18. Se Tacchi Venturi teve de fato um caso amoroso, ou se abusou

sexualmente do garoto ou rapaz, é algo que permanece no reino da

especulação. Os indícios, embora tentadores, estão longe de ser

conclusivos. Muitos anos mais tarde, um relatório de um informante

policial regular contou que Tacchi Venturi “tem grande afeição por

um jovem que não é seu parente. Pode ser seu jovem secretário (...)

Foi-me confirmado que esse é seu único amor verdadeiro”. ACS, MI,

DAGR, b. 1320, informatore n. 590 (= Eduardo Drago), Roma,

maggio 1936. Para a identificação dos informantes policiais por seu

número codificado, fiei-me em Canali, 2004a.

19. ACS, CR, b. 68, 4 maggio 1928.

20. No uso da época, pederasta se referia a um homem que tivesse

relações sexuais tanto com meninos quanto com jovens rapazes.

21. Os dois homens achavam que eram merecedores de um chapéu

cardinalício, e, de acordo com o “célebre informante no Vaticano” de

Mussolini, ambos usavam sua posição ao lado do papa para envenená-

lo contra o cardeal Gasparri, a quem culpavam por ter virado o

pontífice contra eles. Se Pio estava excluindo seu velho secretário de

Estado das decisões mais importantes que vinha tomando, isso se devia

em parte à influência de que Samper e Caccia gozavam. ACS, MCPG,

b. 155, noto informatore vaticano, 1926. A nota foi provavelmente

escrita no fim de junho, já que faz referência à decepção de Samper

por não fazer parte da lista mais recente de novos cardeais apontados, e

o consistório ocorrera em 21 de junho de 1926.

22. ACS, MCPG, b. 157, noto informatore vaticano, 23 luglio 1928.

De fato, Samper não era italiano, mas colombiano. O informante

tinha previamente se referido à investigação secreta papal em seus

relatos de 22 e 30 de junho. A misteriosa suspensão de Samper é

mencionada em The Cardinals of the Holy Roman Church, Biographical

Dictionary (1902-2012). Em suas memórias dos anos em que foi o

emissário francês não oficial do Vaticano, entre 1914 e 1918, Charles

Loiseau (1960, p. 102) recorda-se de Samper, então mordomo de

Bento XV, de modo afetuoso, descrevendo-o como “um prelado

jovem e opulento, de bela presença, que gozava da generosidade

íntima de Bento XV”. Foi apenas muito mais tarde que ele soube que

Samper “caíra em desgraça e que o retiraram do Vaticano por razões

um tanto delicadas. (...) Quaisquer que tenham sido”, acrescentou

Loiseau, “preservo uma boa lembrança dele”. O embaixador francês,

Fontenay, também discutiu sobre a dispensa misteriosa num relatório a

Paris em 17 de dezembro de 1928, citado em Chiron, 2006, 152n57.

23. O “célebre informante no Vaticano” também relatou que Caccia

utilizou o negociador do papa, Francesco Pacelli, para defendê-lo.

ACS, MCPG, b. 157, noto informatore vaticano, 30 giugno 1928.

24. Canali, 2004a, p. 288.

25. De Felice (1968, p. 464) salienta isso, apontando que nesse sentido

Bocchini se diferenciava de suas contrapartes nazistas, Heydrich e

Himmler, homens sádicos. No entanto, ambos tinham Bocchini em

alta conta e solicitavam seus conselhos técnicos. De acordo com o

jornalista americano Thomas Morgan, que o conhecia, Bocchini

estava insatisfeito com a aceitação cada vez maior dos nazistas por

parte de Mussolini. Quando Bocchini morreu, em novembro de

1940, ainda chefe de polícia e gozando de uma saúde excelente, as

suspeitas recaíram sobre os alemães. Morgan, 1941, p. 236.

26. De Felice, 1968, p. 465.

27. Canali, 2004a, pp. 283-84.

28. Ibid., p. 766n840. Muitas das informações que Pucci enviou foram

relatadas por meio de Pupeschi, que aparece como informante de n o

35 nos relatórios secretos. Em 1929, Pupeschi viria a declarar que,

quando um cardeal pleiteou com o papa para mandar Pucci embora

do Vaticano, o pontífice respondeu que ele era muito valioso na lida

com a imprensa, mas não seria requisitado para nenhuma missão

confidencial — “e nós”, acrescentou o papa, “saberemos como vigiá-

lo”. ACS, MI, FP “Cerretti”, informatore n. 35 (= Bice Pupeschi),

Roma, 25 ottobre 1929.

29. O bem-apessoado e robusto prelado, cuja dignidade era

engrandecida por suas túnicas coloridas de monsenhor e sua voz

melíflua, também era famoso para os correspondentes estrangeiros que

faziam a cobertura do Vaticano, oferecendo a eles informações (por

um preço) e entretendo-os com um repertório inesgotável de

histórias. Ver Alvarez, 2002, pp. 156-57; Canali, 2004a, p. 195;

Franzinelli, 2000, pp. 259-60, 701-3. Morgan (1944, pp. 31-36)

oferece um retrato enfadonho do popular e bondoso Pucci, que

jogaria as agências de notícia americanas umas contra as outras no

intuito de aumentar seus ganhos.

30. Doses cavalares de ceticismo são necessárias na interpretação desses

relatos fascinantes, noticiosos, fofoqueiros e não confiáveis, pois seu

autor tinha muito interesse próprio nisso. Como mencionei, a

identidade do “célebre informante do Vaticano” permanece um

mistério. Há certa especulação de que se tratava de monsenhor Enrico

Pucci, o assessor de imprensa não oficial do Vaticano, que possuía

acesso irrestrito no Vaticano e mantinha boas relações com muitos dos

altos oficiais do lugar. Mas tenho minhas dúvidas. O primeiro relato

atribuído a ele data de antes da nomeação de Bocchini como chefe de

polícia, e até 1934 o informante forneceu um imenso fluxo de relatos,

por vezes longos e morosos, sobre os níveis mais altos do Vaticano. Às

vezes, ele descreve Pucci de maneiras que fazem com que pareça

improvável que ele se refira a si mesmo; e.g., ACS, MCPG, b. 155, 20

marzo 1926, e ibid., ca. aprile 1926, informando sobre os Cavaleiros

de Colombo. O “célebre informante do Vaticano” constantemente

procurava desacreditar o cardeal Gasparri. Num relatório de abril de

1927, ele citou Gasparri insultando Mussolini de modo vulgar, ao

dizer sem parar que “ele deveria ir cagar”. ACS, MCPG, b. 156, 12

aprile 1927. Mas Gasparri, em suas memórias, expressa afeto por

Pucci, então parece estranho que Pucci estivesse determinado a minar

a visão que o Duce tinha dele.

31. ACS, MCPG, b. 157, noto informatore vaticano, 22 e 30 giugno

1928. Para manter Caccia afastado até que o escândalo arrefecesse, Pio

o enviou como representante papal ao Congresso Eucarístico na

Austrália. Mas quando o monsenhor retornou, meses depois, os

rumores logo recomeçaram; ACS, MI, PS, Polizia Politica, b. 210,

informatore n. 35, Roma, 27 settembre 1929. Um bilhete escrito à

mão nesse relatório registra que uma cópia foi enviada a Dino Grandi,

então ministro das Relações Exteriores.

 

CAPÍTULO 8: O PACTO

 

1.Conto a história dos esforços do papa para retomar Roma em

Kertzer, 2004. Depois da Primeira Guerra Mundial, Bento XV tentou

chegar a um acordo com o governo italiano, mas sem sucesso. O

primeiro-ministro italiano envolvido nas negociações de Paris escreveu

um relato; ver Orlando, 1937, pp. 140-46. O representante do papa

também escreveu seu próprio relato; ibid., pp. 177-86. A reação

negativa de Vítor Emanuel III ao acordo está registrada em Margiotta,

1966, pp. 56-58.

2. Mais tarde, quando matérias sobre a comissão começaram a surgir

nos jornais, o papa fez L’Ossertvatore romano, o periódico do Vaticano,

clamar que “a Autoridade Eclesiástica nada tinha a ver com a

nomeação ou a escolha dos três consultores eclesiásticos legais ou com

o trabalho da comissão”. Uma cópia do memorando, assinada por

Mussolini e endereçada a seu ministro da Justiça, narra a história: “Em

relação a acordos prévios”, começa o Duce, “informo a Sua

Excelência que o Santo Padre designou as seguintes pessoas para fazer

parte da Comissão para a Reforma da Legislação Eclesiástica”. Os

nomes e as posições de dois altos oficiais do Vaticano e um professor

de direito do Seminário Pontifical Romano vêm a seguir: “A mesma

Santa Sé me forneceu o memorando anexo, no qual estão anotados os

principais pontos que ela gostaria de ver incorporados à reforma.”

Mussolini anexou um memorando que Tacchi Venturi lhe entregara

em nome do papa, listando seis medidas que o pontífice queria que

fossem adotadas. ASV, AESI, pos. 628, fasc. 56, ff. 91r-93r, 3 de

agosto de 1924. De Felice (1995, pp. 106-10) escreveu um relato

sobre esses eventos antes de os documentos ficarem disponíveis nos

arquivos do Vaticano; ele está bastante de acordo com o que sabemos

agora. Ver também Margiotta, 1966, 131-33.

3. A carta do papa escrita à mão é encontrada em ASV, AESI, pos.

702, vol. 1, ff. 14r-16v.

4. DDI, série 7, vol. 4, n. 308. Em 16 de maio de 1926, Tacchi

Venturi escreveu a Mussolini contando as novidades que se seguiram à

sua reunião com o Duce alguns dias antes; ele falara com Gasparri e

ficara sabendo que o Vaticano estava pronto para travar diálogo

diretamente com o ditador a fim de acertar a questão romana; DDI,

série 7, vol. 4, n. 312.

5. NARA, M530, rolo 2, U.S. embaixador Henry F. Fletcher, Roma,

para o secretário de Estado, 4 de outubro de 1927, n. 1.410.

6. Nenhuma oportunidade era pequena demais para ser explorada.

Logo depois do funeral de um padre de renome, os membros da

família visitaram Mussolini e o presentearam com a cruz peitoral do

monsenhor, explicando que guardava uma relíquia da Santa Cruz. O

Duce a beijou — o que deve ter sido um esforço para o famoso

agitador anticlerical da Romanha — e lhes disse que a manteria

sempre consigo. O papa, ao ouvir a história, ficou satisfeito. “Bene,

bene ”, “bom, bom”, disse ele. ACS, MCPG, b. 155, 5 luglio 1926.

7. “La parola di Merry del Val”, Il Regime fascista, 7 ottobre 1926, p. 1;

Franzinelli, 1998, p. 54.

8. Franzinelli, 1998, p. 68.

9. “Aristocrazia nera”, Il Secolo XX, 20 febbraio 1929, p. 11, exibe

uma foto de Francesco Pacelli como um exemplo da categoria.

Bosworth, 2011, p. 26.

10. O jornal de Chicago era o Chicago Daily News. Em novembro de

1926, um arquivo policial secreto relatou que os Cavaleiros de

Colombo americanos estavam levantando fundos para o terreno; ACS,

MI, DAGRA, b. 113, n. 52.199.

11. O jesuíta contatou o ministro do Interior, Luigi Federzoni. O

relatório policial revelou que as sedes das duas organizações ficavam

no mesmo prédio e que o líder de longa data do Partido Popular local

era um padre.

12. Era especialmente ultrajante, acrescentou ele, que o Partido

Popular se opusesse aos fascistas enquanto estava aberto à possibilidade

de se aliar com os socialistas, “inimigos jurados de cada princípio

cristão”. Tacchi Venturi a Gasparri, AESI, pos. 611, fasc. 46, ff. 23r-

23v; os relatórios policiais estão em ff. 25r-30r.

13. ASV, AESI, pos. 734, fasc. 241, ff. 4r-5v, Tacchi Venturi a

Gasparri, 8 gennaio 1926. O jesuíta acrescentou uma nota à visão de

Federzoni a respeito do bispo de Bréscia. “Ainda que ele respeite as

virtudes pastorais do monsenhor Gaggia, assim como seu aprendizado

acerca da religião e sua cultura religiosa, acha que, por conta de sua

idade avançada, ele não percebe que, enquanto se escondiam por trás

da máscara ou do nome da Ação Católica, muitos de seus membros

estavam liderando uma campanha secreta contra o governo, buscando

de um jeito ou de outro envolver a autoridade eclesiástica nesse

conflito.”

14. Balilla é o sobrenome de um jovem que diziam ter dado início à

revolta popular contra as tropas austríacas em Gênova, em 1746.

Gibelli, 2003, p. 267.

15. ASV, AESI, pos. 667, fasc. 129, ff. 68r-69r.

16. ACS, MCPG, b. 157, noto informatore vaticano, 29 aprile 1928.

17. Coco, 2009, pp. 164-65.

18. Rhodes, 1974, p. 41. Este relato é baseado no testemunho do

embaixador alemão em Roma.

19. o Pacelli, 1959, p. 99, grifo no original. Poucos meses antes, em 1

de março, o papa ficara indignado quando Francesco Pacelli

retransmitiu a sugestão de que ele tinha abandonado seu desejo de ver

Villa Doria Pamphili considerada parte das terras do Vaticano. Na

época, Pio XI insistiu que preferia não chegar a um acordo a ter a

propriedade excluída. Ibid., p. 82.

20. “Não aceitar”, acrescentou Barone, “seria o equivalente a dizer

que (...) eles não queriam que o conflito chegasse ao fim, mas posso

assegurar que Mussolini pensa diferente”. Ibid., p. 100. “Barone me

contou também, em caráter confidencial”, narra Pacelli em seu diário,

“que em várias ocasiões o rei demonstrara falta de entusiasmo pela

resolução da questão romana”.

21. R. Mussolini, 1974, p. 154; Bosworth, 2002, pp. 347-49; Milza,

2000, p. 537.

22. Navarra, 2004, p. 16.

23. O não comparecimento do papa ao jubileu de Gasparri e seu

impacto são discutidos em uma série de relatórios de 1926 do “célebre

informante do Vaticano”. ACS, MCPG, b. 155.

24. ACS, MCPG, b. 157, noto informatore vaticano, 1 gennaio 1928;

ibid., 5 gennaio 1928; ibid., 12 gennaio 1928.

25. DDI, série 7, vol. 7, n. 240; Arnaldo Cortesi, “Only 9 to See Pact

Signed in Rome Tomorrow”, NYT, 11 de fevereiro de 1929, p. 3.

26. Citado em Gannon, 1962, p. 62. Dois dias depois, o monsenhor

Spellman diria que o papa estava “encantado com tudo”. Ibid., p. 63.

Borgongini, um dos dois subsecretários de Gasparri, convocara

Spellman três anos antes para ajudá-lo com o material em inglês e com

a Igreja americana. O principal informante de Mussolini no Vaticano

na época, nem um pouco fã de Borgongini, alegou que o núncio

queria se vangloriar com os Cavaleiros de Colombo nos Estados

Unidos, um grupo que se tornara uma importante fonte de fundos

para o Vaticano. No fim de 1926, depois de tanto ouvir falar sobre o

jovem padre americano, para não mencionar sua inexaurível

habilidade de aparecer com fundos oriundos dos Estados Unidos, o

papa pediu que Spellman o encontrasse em uma audiência particular.

Em pouco tempo, o pontífice começou a se referir a ele como o

“monsenhor Prezioso”, o monsenhor valioso. ACS, MCPG, b. 155,

noto informatore vaticano, 1926 (não há informação de mais datas

específicas); e MCPG, b. 155, noto informatore vaticano, 5 gennaio

1927. Com grande deleite, Spellman contou para sua mãe o apelido

que o papa lhe dera. Gannon, 1962, pp. 57-59.

27. A contenda mais recente envolvia o status do palácio do Santo

Ofício da Inquisição. A imponente construção do século XVI situava-

se ao longo da muralha do Vaticano, à esquerda de quem estivesse

diante da basílica de São Pedro, mas sua porta da frente dava para uma

rua pública. O papa queria que tanto a construção quanto a rua em

frente fossem consideradas parte da nova Cidade do Vaticano. Mas o

rei se opôs a dar qualquer território adicional à Igreja, e, por fim, Pio

mostrou-se disposto ao acordo. A rua permaneceria fora do controle

papal e, ainda que o palácio em si não estivesse tecnicamente nas terras

do Vaticano, ele receberia, como várias outras construções da Igreja

em Roma, status jurídico especial. ASMAE, Gab., b. 718, Roma, 10

febbraio 1929.

28. Ainda que essa estipulação estivesse no estatuto do Estado de

Savoyard de 1848, que foi depois adotado pelo jovem Estado italiano

em 1861, na época ela foi inserida no contexto da doutrina de “uma

Igreja livre em um Estado livre”.

29. Toschi, 1931.

30. Bosworth, 2011, p. 171.

31. Com base no valor de câmbio da lira italiana em 1929 e do dólar

encontrado em Nenovsky et al., 2007.

32. Grandi, 1985, pp. 254-55.

33. Martini, 1960b, p. 113. Mais tarde, Gasparri contou a Charles-

Roux que ele chorara cinco vezes naquele dia: duas ao entrar e sair do

estúdio do papa, uma ao chegar ao palácio de Latrão para a assinatura,

outra durante o ato na assinatura e uma última ao relatar o dia ao papa.

Charles-Roux, 1947, p. 48.

34. Reese, 1996, p. 11.

35. Spellman para sua mãe, 10 de fevereiro de 1929, em Gannon,

1962, p. 63.

36. Uma foto de Mussolini descendo de seu carro é encontrada em Il

Secolo XX , 20 febbraio 1929, p. 7.

37. “Signing in Constantine’s Palace”, NYT, 11 de fevereiro de 1929,

p. 2.

38. “Informazioni Stefani sul Trattato e Concordato”, OR, 13

febbraio 1929, p. 2.

39. Arnaldo Cortesi, “Vatican and Italy Sign Pact Recreating a Papal

State; 60 Years of Enmity Ended”, NYT, 12 de fevereiro de 1929, p.

1; Casella, 2005, p. 24. A saudação de Pizzardo foi narrada em

NARA, M530, rolo 2, n. 2140, 15 de fevereiro de 1929. Alexander

Kirk, encarregado de negócios provisório da embaixada americana em

Roma, noticiou ao secretário de Estado americano em Washington, p.

5.

40. Grandi 1985, p. 255.

41. As várias ações que Mussolini tomara para beneficiar a Igreja

alguns anos antes não foram o único motivo dessa esperança do papa;

Moro afirma que a visão de Mussolini de usar a Igreja como um

instrumentum regni , um instrumento de seu governo, também contribuiu

para isso. Seria um retorno — ou pelo menos assim esperava o papa

— ao arranjo conveniente de que a Igreja gozara com vários outros

governos absolutistas no antigo regime, antes que conceitos de

democracia e separação da Igreja e do Estado transformassem a Europa

ocidental. Não menos importante era o fato de que os princípios

básicos que Mussolini adotou e os princípios defendidos pelo papa

estavam em amplo acordo no que dizia respeito à necessidade de

ordem, disciplina e hierarquia, além da rejeição de ambos à ideia de

que o povo deveria decidir o que era melhor com base na própria

consciência. A virtude se encontraria nas pessoas que agiam não em

prol do próprio interesse, mas pelo bem maior, e esse bem maior era

determinado por uma autoridade. Moro, 1981, pp. 192-93. Moro se

baseia no trabalho de Giovanni Miccoli (1973, 1988). De Felice

(1995, pp. 382-83), autor da biografia definitiva de Mussolini,

argumenta que foi apenas depois da assinatura do Tratado de Latrão

que o regime fascista foi plenamente estabelecido.

42. Citado em Confalonieri, 1957, p. 215.

43. Os relatos do prefeito são encontrados em ACS, MI, DAGRA, b.

187, 11 febbraio 1929.

44. De acordo com o relato de uma revista comemorativa, o acordo

foi um milagre “produzido pela perfeita coincidência (...) entre as

diretrizes da Igreja e do Estado fascista ao levantar o moral e o nível

espiritual no povo. Aquilo sem dúvida não teria dado certo em um

regime parlamentar”. Giuseppe Bevione, “La portata dell’accordo fra

l’Italia e il Vaticano”, XX Secolo, 15 febbraio 1929, p. 7. L’Osservatore

Romano , jornal do Vaticano, citado na ampla cobertura do evento em

La Gazzetta del Popolo , ao anunciar o fato de que “o regime fascista

conseguira resolver a questão romana porque tinha liberado a Itália de

todas as mentiras democráticas do anticlericalismo e do

parlamentarismo”. “Dopo la firma dei trattati fra la Santa Sede e

l’Italia”, OR, 15 febbraio 1929, p. 1.

45. Arnaldo Cortesi, “280,000 Cheer Pope”, NYT, 13 de fevereiro

de 1929, p. 1; H. G. Chilton, Annual Report 1929, 27 de março de

1930, C 2470/2470/22, em Hachey, 1972, p. 165, seção 99; “La

dimostrazione al Quirinale”, OR, 14 febbraio 1929, p. 1. Relatos de

outras celebrações similares fora de Roma são encontrados em

“L’esultanza delle città italiane per il fausto evento della

conciliazione”, L’Avvenire d’Italia [o jornal católico de Bolonha], 12

febbraio 1929, p. 4, e todas as questões de L’Osservatore romano sobre os

vários dias que se seguiram.

46. A manchete do New York Times era previsível: “Sessenta anos de

inimizade chegam ao fim (...) Multidões comemoram nas ruas”.

Arnaldo Cortesi, “Vatican and Italy Sign Pact Recreating a Papal

State”, NYT, 12 de fevereiro de 1929, p. 1.

47. As palavras são de Domenico Tardini (1988, p. 294), que na época

estava abaixo de Francesco Borgongini na Secretaria de Estado do

Vaticano.

48. NARA, M530, rolo 2, n. 2.140, 15 de fevereiro de 1929, p. 8;

Caviglia, 2009, p. 94.

49. ACS, CR, b. 6, 13 febbraio VII [1929]. O relatório de três páginas

exibe a anotação escrita à mão com caneta “da Rosati”.

 

CAPÍTULO 9: O SALVADOR

 

1.Morgan, 1939, p. 174.

2. Arnaldo Cortesi, “Mussolini Cheered by Papal Audience”

[Mussolini exaltado por público papal], NYT, 18 de fevereiro de

1920, p. 5. A aristocracia de Roma passou pela transição para o

governo fascista sem maiores dificuldades. De modo revelador, de

1926 até a queda de Mussolini em 1943, o Duce estipulou uma série

de quatro príncipes para servirem como governadores de Roma; a

linha aristocrática foi quebrada apenas por um breve período em

1935-1936, quando Giuseppe Bottai assumiu esse papel. Insolera,

1976, p. 119.

3. O parlamento aprovou o novo sistema eleitoral em 1928; Milza,

2000, p. 415. O procedimento incluía um primeiro passo no qual o

Grande Conselho recebia mil nomeações de “uma lista de pessoas de

inquestionável fé fascista”, providenciada por vários grupos

controlados pelo governo; a decisão final sobre os candidatos seria

tomada pelo Grande Conselho, que também poderia adicionar

candidatos que não estivessem entre os nomeados. De Felice (1995, p.

437) debate a terminologia de “plebiscito” usada pelo regime.

4. O apelo publicado no jornal do Vaticano foi assinado pelo conselho

executivo nacional e é citado em Scoppola, 1976, pp. 195-96. Ver

também De Felice, 1995, p. 445.

5. Em 17 de fevereiro, Mussolini recebeu um ultimato surpreendente

em uma carta do cardeal Gasparri, enviada através de Francesco

Pacelli: “A Santa Sé, ainda que admire e louve com grande satisfação o

trabalho realizado pelo Ilustre Mussolini para enorme proveito da

religião, sente o intenso desejo de que as eleições políticas vindouras

tenham o grande valor, como foi dito, de um plebiscito, um valor de

louvor e apoio ao Duce e ao regime que ele criou e que está

incorporado nele.” A Santa Sé estava ansiosa pelas eleições a fim de

apresentar “uma prova eloquente e solene do consenso total dos

católicos italianos em relação ao governo do Ilustre Mussolini”. Pacelli

enviou a carta com uma nota de apresentação, descrevendo-a como

uma mensagem de Gasparri, embora oferecida na transcrição “fiel” de

Pacelli. ACS, CR, b. 68, Roma, 17 febbraio 1929.

6. O papa deu as instruções ao cardeal Gasparri, que então ditara a

carta para Francesco Pacelli. Foi Pacelli que a levou a Mussolini. ACS,

CR, b. 68

7. A citação é do relato de Tacchi Venturi. SV, AESI, pos. 630a, fasc.

63, ff. 88r-89v, Tacchi Venturi a Gasparri, Roma, 21 febbraio 1929.

Ao que parecia, foi revelado que o emissário jesuíta do papa tinha o

poder de acrescentar católicos leais à lista de candidatos de Mussolini.

Seus arquivos contêm cartas de várias pessoas alardeando suas

referências de serem “bons católicos” e perguntando se podiam figurar

na lista. Gasparri enviou a Tacchi Venturi outros nomes para a lista.

ARSI, TV, fasc. 1.037.

8. Em fevereiro de 1923, o Grande Conselho fascista identificou a

maçonaria como uma ameaça ao fascismo e declarou que a filiação a

esta entidade era incompatível com a associação ao Partido Fascista.

Squadristi saquearam e incendiaram lojas maçônicas em todo o país. La

Civiltà Cattolica elogiava o Grande Conselho fascista por sua atitude,

enquanto alertava que a conspiração judaico-maçônica, que havia

muito era difamada pela publicação, tinha como alvo não apenas a

Igreja Católica, mas também Mussolini. O governo deveria agir

também contra os judeus da Itália, acrescentou, acusando-os de

exercer uma influência maior do que seus números minúsculos

aparentavam. CC, 1923, I p. 464, citado em Sale, 2007, pp. 42-43.

Ver também Molony, 1977, p. 152.

9. Uma amostra dessa mobilização da hierarquia da Igreja italiana é

oferecida por uma circular que um bispo central italiano enviou a

todos os seus párocos. Era o “dever sagrado de todos os católicos, sem

exceção”, votar no “Homem providencial”, que trabalhara tanto junto

ao papa “para dar Deus de volta à Itália e a Itália de volta a Deus”. Os

padres deveriam fazer tudo o que pudessem, escreveu o bispo, para

persuadir seus paroquianos a ir às eleições e votar. Monsenhor Alberto

Romita, bispo de Campobasso, citado em Piccardi, 1995, p. 50. Luigi

Colombo, presidente nacional da Ação Católica, também publicou

uma convocação para que todos os membros das organizações

votassem sim. “Un discorso del Comm. Colombo”, OR, 13 marzo

1929, p. 4.

10. Binchy, 1970, p. 199.

11. CC, 1929, II, pp. 184-85.

12. Isso parece ter sido baseado nas Confissões de Santo Agostinho, cap.

11.

13. O relato de Jacini sobre sua visita ao papa é reproduzido em Fonzi,

1979, pp. 676-78. Para mais informações sobre Jacini, ver Ignest,

2004.

14. Nesse breve comentário sobre o discurso, La Civiltà Cattolica (1929,

II, p. 473) citou essa passagem com desaprovação.

15. Os textos de Mussolini dirigidos aos parlamentos foram publicados

como um livro (Mussolini, 1929).

16. Logo depois da assinatura, Gasparri leu o conteúdo de um

telegrama do papa endereçado a Vítor Emanuel III, que dizia: “O

primeiro telegrama que enviamos da Cidade do Vaticano é para dizer-

lhe que a troca de ratificações do Tratado de Latrão acaba de ser,

graças a Deus, concluída (...) Também para oferecer uma bênção

apostólica sincera, profunda e paternal a Vossa Majestade, à vossa

respeitável esposa, a toda a Família Real, à Itália, ao mundo. Pio XI.”

A mensagem era histórica. Pio IX havia excomungado o rei Vítor

Emanuel II e, desde então, nenhum papa enviara uma bênção — ou

até mesmo uma carta — a um rei italiano. Pacelli, 1959, pp. 144-54;

“Gli accordi lateranensi tra la S. Sede e l’Italia”, CC, 1929, II, pp.

544-45.

17. ACS, CR, b. 4, Roma, 1 maggio 1923, Mussolini a De Vecchi.

Entre os arquivos do secretário particular de Mussolini encontram-se

cópias da ficha militar de De Vecchi. Durante a guerra, seus superiores

deram a ele a maior honraria por seu espírito militar e por suas

habilidades como oficial da artilharia.

18. Grandi, 1985, p. 175 (25 ottobre 1922).

19. “Não é verdade que De Vecchi seja um tolo”, começava uma

piada. “Pelo contrário, ele era uma criança precoce. Com cinco anos

pensava da mesma maneira que aos cinquenta.” Uma década depois da

nomeação de De Vecchi para o posto no Vaticano, o general Enrico

Caviglia, ocupante da mais alta posição militar italiana, marechal da

Itália, e membro de longa data do senado, o expôs de maneira incisiva.

De Vecchi, observou, era um “esquisitão presunçoso”. De Begnac,

1990, pp. 232, 469; Bosworth, 2002, pp. 182-83; Innocenti, 1992, p.

154; Caviglia, 2009, p. 301; Romersa, 1983, p. 5.

20. NARA, M530, rolo 2, n. 2.362, Roma, 27 de junho de 1929,

Henry P. Fletcher, embaixador americano ao secretário de Estado,

Washington; CC, 1929, III, pp. 170-72; De Vecchi, 1983, pp. 136-

37.

21. De Vecchi, 1998, p. 141.

22. Citado em Casella, 2009, pp. 74-75.

23. De Vecchi, 1998, pp. 23-25.

24. A verdadeira expressão italiana é mais pitoresca: o papa aveva un

diavolo per capello , literalmente o papa “tinha um demônio no cabelo”;

Casella, 2009, p. 82.

25. A audiência aconteceu em 15 de novembro de 1929. ASMAE,

APNSS, b. 7, De Vecchi a Dino Grandi, Ministro per gli Affari Esteri,

22 novembre 1929. Ver também o relato em De Vecchi, 1983, pp.

162-64.

26. De Vecchi, 1983, p. 141. O papa informou os cardeais da Cúria

sobre as negociações por volta da época em que elas foram iniciadas,

mas, até que estivessem praticamente concluídas, não se falou mais

sobre o assunto. Mostrando mais coragem — e menos prudência —

do que seus colegas, o monsenhor Giuseppe Bruno, secretário da

Pontifícia Comissão encarregada da interpretação do direito canônico,

decidiu levar suas queixas ao próprio Pio XI. Em uma audiência

particular, disse ao papa que, se tivesse pedido seu conselho para

negociar a concordata, ele teria se certificado de incluir uma série de

garantias importantes que não haviam sido mencionadas. O papa

respondeu secamente, dizendo que fora necessário passar por cima de

muitas coisas a fim de se chegar a um acordo em relação à questão

romana. Ainda chateado, Bruno foi ver o cardeal Sbarretti, um dos

membros mais influentes da Cúria, na esperança de conseguir seu

apoio. Mas Sbarretti sabia que era melhor não se opor ao papa e

aconselhou Bruno a esquecer o assunto. Não havia nada que pudesse

ser feito. Como disse o informante que relatou tudo isso para a polícia:

“Ninguém se atreve a compor qualquer oposição real por medo de se

indispor com o papa Ratti.” ASMAE, AISS, b. 2, fasc. 6, Roma, 14

luglio 1929.

27. Relatório de um informante da polícia citado por Coco (2009, p.

168). Os termos usados pelo cardeal Cerretti não são fáceis de serem

traduzidos: “Il papa si è fatto mangare da Mussolini la pappa in testa.”

28. ASMAE, AISS, b. 2, fasc. 6, Roma, 14 luglio 1929. Sobre Pompili

e sua disputa, ver Fiorentino, 1999, pp. 131-33.

29. De Vecchi, 1983, p. 141.

30. ASMAE, AISS, b. 2, fasc. 6, Roma, 10 de agosto de 1929. Uma

cópia é encontrada em ACS, MI, FP “Pompili”. Identifica o

informante como no 39 e exibe a nota “Cópia de Sua Excelência

Grandi para o embaixador”. ASMAE, AISS, b. 2, f. 6, Roma, 12

novembre 1929.

31. ACS, MI, FP “Pompili”, Città del Vaticano, 19 novembre 1929.

A fonte desse relato, de acordo com o informante da polícia, é o

monsenhor Pascucci, secretário pessoal de Pompili.

32. ACS, MI, FP “Pompili”, informatore n. 35, Città del Vaticano, 30

marzo 1930.

33. Pouco antes da morte de Pompili, enquanto o clero romano, que

servira por muito tempo sob o comando do irascível cardeal,

preocupava-se com sua saúde, o papa, segundo um informante,

expressou sua gratidão porque em breve ficaria livre de um pesadelo.

ACS, MI, FP “Pompili”, informatore n. 40 (= Virginio Troiani di

Merfa), Città del Vaticano, 25 aprile 1931. Ver também Fiorentino,

1999, pp. 131-38.

34. ACS, MI, FP “Pizzardo”, informatore n. 40, Città del Vaticano, 9

luglio 1931.

35. Quatro anos depois, outro informante relatou que Pizzardo era

bastante conhecido no Vaticano por seu apelido “Rasputin”. ACS,

MI, FP “Pizzardo”, informatore n. 35, Roma, 13 de agosto de 1929;

ACS, MI, FP “Pizzardo”, informatore n. 390, Milano, 6 giugno 1933.

Como sublinhei antes, esses relatos de informantes da polícia precisam

ser tratados com cuidado.

36. ACS, MI, FP “Pizzardo”, informatore n. 52 (= Filippo

Tagliavacche), Roma, 21 luglio 1933; Casella, 2000, pp. 176-77.

37. O. Russell, Annual Report 1924, 28 de fevereiro de 1925, C

3342/3342/22, em Hachey, 1972, p. 71, seção 60. Na época, a Grã-

Bretanha só possuía dois cardeais. Pollard (2012) detalha como o

financiamento americano ao Vaticano foi importante durante esses

anos. Para os motivos da nomeação de Mundelein como cardeal, o

primeiro nos Estados Unidos fora da costa leste, ver Kantowicz, 1983,

pp. 165-66.

38. Fogarty, 1996, p. 556.

39. ACS, MI, FP “Pizzardo”, informatore n. 40, Roma, 14 novembre

1929. Durante muitos anos, rumores constantes correriam pelo

Vaticano sobre como Pizzardo estava perto de ser nomeado para uma

nunciatura no exterior. Vez ou outra, Alemanha, Estados Unidos e

Polônia eram mencionados como possíveis destinos. Ver ACS, MI, FP

“Pizzardo”. Mas todas as vezes Pizzardo convencia o papa a deixá-lo

permanecer no Vaticano.

40. A descrição do próprio Borgongini de sua nova função é

impressionante: “Aqui tudo escrito é ditado. O Santo Padre dita ao

cardeal [secretário de Estado]; o cardeal dita para mim, e eu, para o

meu assistente.” Citado em Guasco, 2012. De maneira similar, o padre

Martina (2003, p. 237) descreve as competências de Borgongini como

“modestas” e aponta que, quando precisava de um intermediário mais

“autoritário” para lidar com Mussolini, o papa se voltava a Tacchi

Venturi.

41. FCRSE, parte XIV, p. 72, Perth a Halifax, 26 de abril de 1938, R

4359/280/22.

42. ACS, MI, PP, b. 154, informatore n. 40, Città del Vaticano, 20

ottobre 1930. Em uma reunião com o monsenhor Pizzardo em junho

de 1990, De Vecchi reclamou que estivera na posição durante quase

um ano, mas o papa ainda não decidira lhe dar nenhuma honra papal.

Ele registrou em seu diário que levantaria a questão com Borgongini

no dia seguinte; ver De Vecchi, 1998, pp. 216-17.

43. Mas Borgongini não seria descartado, considerando a profunda

infelicidade do papa diante da recente apreensão de diversos jornais

católicos realizada pelo governo. O argumento que ele adotou com

Mussolini foi o mesmo que Tacchi Venturi utilizava havia muito

tempo. De fato, era um argumento que, como o núncio disse ao

Duce, ele tinha “ouvido muitas vezes do Santo Padre: os inimigos da

Igreja são inimigos do fascismo, e aqueles que lutam contra a Igreja

não podem ser simpatizantes do fascismo”. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 1,

ff. 8r-18r. Logo após o anúncio do Tratado de Latrão, figuras mais

antigas na Igreja advertiram a todos que quisessem ouvir que várias

“seitas” nefastas eram dedicadas a destruir tanto a Igreja Católica

Romana quanto o regime fascista. Duas semanas depois da assinatura

em 11 de fevereiro, por exemplo, o bispo de Pádua, Elia Dalla Costa

(que dois anos mais tarde seria nomeado cardeal por Pio XI),

agradeceu a Deus por Mussolini ter “grande inteligência e grande

coragem”. Em seu sermão na catedral de Pádua, em 24 de fevereiro,

ele disse a seu rebanho que Mussolini precisava de toda a força “para

enfrentar a fúria da conspiração de todas as seitas que são inimigas

tanto de Deus quanto da Itália”. Citado em Perin, 2010, p. 152.

 

CAPÍTULO 10: COMER UMA ALCACHOFRA

 

1.ASV, ANI, pos. 22, fasc. 10, ff. 2r-3r, Borgongini a Mussolini, 12

settembre 1929.

2. ASMAE, AISS, b. 2, Mussolini a Borgongini, 15 settembre 1929.

3. Enquanto Mussolini alegava que o 20 de setembro se provara bom

para todos, argumentou Borgongini, “todos os papas, de Pio IX a Pio

XI, sempre acreditaram no oposto, assim como todos os católicos”.

ASMAE, AISS, b. 2, Borgongini a Mussolini, 18 settembre 1929.

4. Cannistraro e Sullivan, 1993, p. 328.

5. E. Mussolini, 1957, pp. 40-50, 103; De Felice, 1974, pp. 19-20; De

Felice, 1981, p. 274n38; Morgan, 1941, pp. 109-11, 138-39;

Festorazzi, 2010, pp. 80-81; Motti, 2003, pp. 198-99; E. Mussolini,

1957, p. 39.

6. CC, 1929, IV, pp. 548-52; “La solenne visita dei Sovrani d’Italia al

Santo Padre”, OR, 6 dicembre 1929, p. 1. O cardeal Merry del Val

receava que Borgongini — “que é capaz de qualquer coisa” —

pudesse se curvar à pressão do governo e fazer o papa retribuir a visita

real, algo que o ex-secretário de Estado achava estar muito aquém da

dignidade do pontífice. Tardini, 1988, p. 450n32. Na semana

seguinte, assinalando o primeiro aniversário do Tratado de Latrão, o

OR relembrou o evento como o produto “da caridade de um Padre,

da sabedoria de um Rei e da genialidade de um Estadista”; “XI

Febbraio”, OR, 11 dicembre 1929, p. 1.

7. E. Mussolini, 1957, p. 135.

8. Confalonieri, 1957, p. 160; CC, 1930, I, pp. 80-81. Embora

diversos cardeais tenham ido a Roma para as últimas celebrações do

Ano Santo, incluindo dois americanos, nenhum ficou sabendo da

visita, portanto ninguém a testemunhou. NARA, M561, rolo 1, John

W. Garrett, embaixador americano em Roma, para o secretário de

Estado, 20 de dezembro de 1929; “475 mil visitam Roma para o

Jubileu do Papa”, CDT, 19 de dezembro de 1929, p. 35.

9. Baudrillart, 2003, pp. 381-83 (6 décembre 1929), citado em

Durand, 2010, p. 44.

10. R. Mussolini, 2006, p. 97.

11. Moseley, 1999, p. 5.

12. E. Mussolini, 1957, pp. 122-24.

13. Tomás de Kempis, 1982, pp. 102-5; Innocenti, 1992, p. 14;

Moseley, 1999, pp. 4, 7, 11; Morgan, 1941, p. 114.

14. CC, 1930, II, p. 284. “Esse assunto do presente do papa para os

recém-casados é terrível para a opinião pública não só na Itália, mas

também no resto do mundo”, escreveu De Vecchi (1998, pp. 147-48)

em seu diário naquele dia. Mais tarde, naquele ano, pouco antes de

Ciano e Edda partirem para a China, onde Ciano assumiria um novo

posto diplomático, Pio XI concedeu a eles uma audiência particular e

os presenteou com uma edição com capa de couro de Imitação de

Cristo , de Tomás de Kempis, com o autógrafo do papa. “Genro e filha

do Duce conversam com o papa”, CDT, 9 de setembro de 1930, p.

31.

15. Moseley, 1999, p. 15.

16. DDI, série 7, vol. 9, n. 231, 26 de agosto de 1930. O rascunho da

carta de Borgongini, com correções, é encontrado em ASV, ANI, pos.

23, fasc. 2, ff. 165r-169r.

17. O Duce ordenou a destruição de palácios e igrejas históricos, nas

palavras de um historiador, “como se eles fossem uma corrente de lava

estéril que invadiu Roma, em vez da Pompeia, em seus dias de

glória”. De Felice, 1974, pp. 52-53; Insolera, 1976, pp. 128, 132-33;

Painter, 2005, pp. 22-23.

18. Navarra, 2004, pp. 17, 44; De Felice, 1968, pp. 55-56; Festorazzi,

2010, p. 94; Cannistraro e Sullivan, 1993, p. 298; ASV, ANI, pos. 22,

fasc. 10, ff. 23r-34r, 4 settembre 1930.

19. R. Mussolini, 1974, p. 97.

20. “Você está perfeitamente correto de um ponto de vista lógico”,

disse Mussolini ao núncio, referindo-se a seu argumento de que, com

a Conciliação, faria sentido pôr fim ao feriado contestado. “Mas não

estou de todo errado sob o ponto de vista da opportunità.”

21. “Não, o senhor é um crente”, respondeu o núncio, “e o Senhor

está claramente ajudando Vossa Excelência”. Ver o extenso relato de

Borgongini sobre a reunião em sua carta para o novo secretário de

Estado, Eugenio Pacelli. ASV, ANI, pos. 22, fasc. 10, ff. 23r-34r, 4

settembre 1930.

22. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 10, ff. 53r-62r, Borgongini a Pacelli, 15

settembre 1930.

23. As duas reuniões entre Borgongini e Mussolini são descritas em

ASV, ANI, pos. 23, fasc. 2, ff. 204r-213r, Borgongini a Eugenio

Pacelli, segretario di stato, 15 settembre 1930.

24. Diversos historiadores sustentam que Mussolini estava construindo

uma religião civil na Itália. Os próprios fascistas utilizaram esse termo:

em 1930, um dos homens mais próximos a Mussolini descreveu o

fascismo como uma “religião civil e política (...) a religião da Itália”.

No fim da década de 1920, Augusto Turati, líder do Partido Fascista,

elaborou um sistema de ritual e mito, seguindo os modelos da Igreja

Católica. Ele convocou todos os italianos a acreditarem no Duce e no

fascismo, sem questionamentos, “da mesma maneira que se acredita na

divindade”. Depois do Tratado de Latrão, Turati publicou um

catecismo fascista; um de seus principais itens de fé era “a

subordinação de todos à vontade do Chefe”. Mussolini, assim como o

papa, seria considerado infalível no que dizia respeito à fé, e seu

julgamento, como o do pontífice, não deveria ser questionado. O

“homem da Providência” sabia o que era melhor para o seu rebanho.

Gentile, 1995, pp. 144-45; Gentile, 1993, pp. 124, 293-94.

25. Mack Smith, 1982, p. 168. Em fevereiro de 1933, o líder do PNF,

Achille Starace, anunciou que dali em diante todos os atos oficiais do

governo conteriam o nome DUCE apenas em letras maiúsculas.

Falasca-Zamponi, 1997, p. 61.

26. Gentile, 1995, pp. 144-45; Gentile, 1993, pp. 124, 293-94. Um

repórter enviado à China pelo jornal de Mussolini, Il Popolo d’Italia,

entregou um pedido especial. Os missionários católicos em Wei Chou

queriam uma fotografia do Duce, e tinham esperanças de que fosse

autografada pelo ditador. O jornalista explicou: “Trata-se de um povo

que está enfrentando dificuldades e perigos desconhecidos, mas está

elevando a voz da Itália ao falar para os chineses sobre Mussolini como

se fosse um Deus.” Mais tarde, ao receber uma foto autografada, o

líder dos missionários, profundamente agradecido, expressou sua

gratidão pelo “nosso Duce, a quem Deus escolheu para guiar o grande

destino de nossa fraternidade”. Franzinelli e Marino, 2003, p. xii.

27. MacKinnon, 1927, p. 81.

28. Ibid., p. xv.

29. Navarra, 2004, p. 65.

 

CAPÍTULO 11: A VOLTA DO FILHO NATIVO

 

1.Mais tarde, pensando naqueles anos, o enviado britânico se mostraria

surpreso com o fato de que Gasparri, muito mais experiente, tenha se

adaptado tão bem às “maneiras autocráticas” do papa. C. Wingfield,

Annual Report 1934, 12 de janeiro de 1935, R 402/402/22, em Hachey

1972, p. 286, seção 133.

2. Ottaviani, 1969, pp. 502-3.

3. Rhodes, 1974, p. 40.

4. Morgan, 1944, p. 137. A famosa frase, também vista na manchete

de L’Osservatore romano, vem de Matheus 16:18, onde Jesus diz “e sobre

esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não

prevalecerão contra ela”.

5. ACS, MI, DAGRA, b. 113, 8 novembre 1926; ACS, MCPG, b.

155. Esses relatos devem ser lidos com alguma cautela, pois o “célebre

informante do Vaticano” era claramente um crítico de Gasparri. De

acordo com um relatório da polícia secreta de dezembro de 1927,

Gasparri também desconfiava de Tacchi Venturi, a quem acusava de

fazer jogo duplo ao dividir informações confidenciais do Vaticano

com o Duce; ACS, MI, DAGR, b. 1320. Na época da comoção

gerada pela suposta tentativa de assassinato contra Tacchi Venturi,

Gasparri tentou colocar o papa contra ele, sugerindo que o episódio

fora inventado pelo jesuíta por algum motivo obscuro. ACS, MI,

DAGR, b. 1320, 5 settembre 1928. Mais uma evidência dos esforços

de Gasparri para destituir Tacchi Venturi se encontram em um

relatório da polícia para Mussolini em 1928, informando ao ditador

sobre a oposição de Gasparri ao envolvimento dos jesuítas nas

negociações a respeito da questão romana; ACS, CR, “Appunto”,

relatório sem data sobre o príncipe Pignatelli. O informante da polícia

também contou que os monsenhores Caccia e De Samper, o mestre

de cerimônias do papa e seu mordomo, culparam Gasparri por não

terem sido nomeados cardeais e estavam envenenando o pontífice

contra ele.

6. A carta foi publicada em Martini, 1960b, pp. 129-30.

7. ACS, MI, FP “Pietro Gasparri”, Città del Vaticano, 8 ottobre 1929.

Pouco tempo antes, com a nomeação de Borgongini como núncio da

Itália, Pizzardo foi designado para substituí-lo como secretário da

Congregação dos Assuntos Eclesiásticos Extraordinários.

8. De Vecchi, 1983, p. 144. Quando o embaixador português no

Vaticano foi vê-lo em outubro, Gasparri segredou-lhe que havia

oferecido sua demissão, mas o papa ainda não aceitara. Ele acrescentou

que Mussolini tinha se tornado um “terrível pesadelo” para o

pontífice, que, enfurecido pelas pressões que os grupos de juventude

da Ação Católica vinham sofrendo, o chamara de “perseguidor de

jovens católicos”. ACS, MI, FP “Pietro Gasparri”, Città del Vaticano,

23 ottobre 1929.

9. Em novembro de 1928, The New York Times já estava noticiando

não apenas os rumores de que Gasparri seria substituído, mas também

que o substituto seria Eugenio Pacelli. “Say Nuncio Will Be Raised”,

NYT, 19 de novembro de 1928, p. 2.

10. Informatore n. 35, Rome, 2 ottobre 1929, in Fiorentino 1999, p.

238.

11. Coco, 2009, pp. 176-77. O papa também deve ter levado em

consideração outro fator para sua decisão: diziam que Cerretti,

enquanto estava em Paris, era visto com frequência acompanhado de

mulheres.

12. ACS, MI, FP “Cerretti”, informatore n. 35, Roma, 14 dicembre

1929.

13. Não seria fácil, concluiu o embaixador, encontrar uma pessoa do

mesmo calibre para substituí-lo em Berlim. ASMAE, AISS, b. 4, n.

6.361, Berlino, 10 dicembre 1929.

14. Coppa, 2011, pp. 20-21; O’Shea, 2011, p. 81.

15. Coppa, 2011, p. 1; O’Shea, 2011, pp. 74-80.

16. Wolf (2010, p. 36) encontra sólidas evidências de que, nesses anos,

Pacelli estava ligado à notória rede de informantes de Umberto

Benigni, mas foi esperto o bastante para evitar ser “desacreditado por

se associar muito abertamente com Benigini e seu ‘serviço secreto’”.

17. Coppa, 2011, p. 30.

18. Noel 2008, pp. 38-39.

19. Wolf, 2010, p. 74. Entre as práticas não ortodoxas na Igreja alemã

que Pacelli lutou para erradicar, encontra-se a permissão de que as

mulheres cantassem nos coros durante a Missa Solene; ibid., p. 61.

20. Ibid., pp. 75-79.

21. Ventresca, 2013, p. 55. Em setembro de 1929, o monsenhor

Spellman visitou Berlim; Eugenio Pacelli encontrou-se com ele na

estação de trem e o hospedou durante sua estadia. O padre americano

ficou impressionado com seu charme. “Sete entre dez pessoas”,

escreveu Spellman para sua mãe em 8 de setembro, “o consideram o

mais provável sucessor do Santo Padre”. Essa premonição foi bastante

impressionante, já que Pacelli, com 52 anos, ainda não era cardeal.

Gannon, 1962, pp. 66-67.

22. Papin, 1977, p. 42.

23. Charles-Roux, 1947, pp. 74-77.

24. Ibid., p. 77.

25. Papin, 1977, pp. 42-43.

26. McCormick, 1957, p. 75.

27. Pacelli pediu a Pascalina que fizesse seu melhor para reproduzir

fielmente o alojamento simpático a que ele se acostumara na

Alemanha. Quando soube que os bispos alemães, em honra à sua

nomeação como secretário de Estado, planejavam dar-lhe uma cruz

peitoral, fez com que soubessem que preferia ganhar mobília alemã.

Pascalina tomou as providências para que os móveis fossem

selecionados e enviados da Alemanha. Na nova mesa do secretário de

Estado, os visitantes viam uma pequena placa prateada com os nomes

de todos os bispos alemães que haviam pagado por ela; Schad, 2008,

Continuar: parte 3 de 7