O Papa e Mussolini
Notas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
“Loja judaica” foram colocadas nas janelas frontais das lojas com
proprietários judeus. Os fregueses católicos que tivessem a coragem de
ignorar o aviso eram forçados a usar uma placa nas costas que
proclama: “Eu sou um porco ariano.” O cônsul-geral italiano em
Viena relatou tudo isso para Ciano em 26 de abril. DDI, série 8, vol.
9, n. 10.
17. Mussolini percebeu que o papa poderia hesitar diante de tal
movimento, preocupado com o fato de que qualquer coisa que
minasse o governo nazista pudesse enfraquecer as forças
anticomunistas, e ele reconhecia que alguns inimigos da Igreja ficariam
animados com a excomunhão. Mas, ele acrescentou, “isso não tira a
necessidade de fazê-lo”.
18. O único relato que temos da conversa foi descoberto quando, após
a abertura dos arquivos de Pio XI no Vaticano em 2006, as anotações
escritas à mão pelo cardeal Pacelli de suas reuniões com o papa foram
encontradas. ASV, AESS, pos. 430a, fasc. 355, f. 41, 10 aprile 1938.
19. ASMAE, APSS, b. 39, Ministero degli Affari Esteri, Roma, a R.
Ambasciata presso S. Sede, “Contrasti fra Hitler e Vaticano”,
telespresso n. 200.305, 5 gennaio 1932.
20. Em meados de janeiro, o cardeal Pacelli comentou com ao
embaixador francês que o Vaticano até então não recebera nenhum
pedido por parte do governo alemão para marcar qualquer reunião.
Tendo em vista a tensão da relação, ele achou improvável que fosse
acontecer. Em uma conversa à parte, o monsenhor Tardini contou a
Charles-Roux que, caso Hitler solicitasse uma audiência com o papa,
ele não via de que forma o papa pudesse recusar-se a vê-lo. DDF,
série 2, vol. 8a, n. 5, Charles-Roux à Delbos, ministre des Affaires
Étrangères, 18 janvier 1938. No final de janeiro, Pignatti reiterou essa
impressão: se Hitler requisitasse uma visita ao papa, o Vaticano não
teria dificuldades em providenciá-la. ASMAE, AISS, b. 87,
“Riservato”, unsigned typed report, 24 gennaio 1938. Bergen, o
embaixador alemão na Santa Sé, relatou que Pacelli sondou a respeito
de uma visita de Hitler ao papa, se Hitler primeiro fizesse “uma
declaração de acordo a respeito do tratamento dispensado a católicos e
a Igreja Católica”. O papa, disse Bergen, “definitivamente tem
contado com uma vista do Führer.” Mas, “para as diversas sondagens”,
informou, “manifesto-me em concordância com minhas instruções e
não deixo margem para dúvidas de que uma visita está fora de
questão”. DGFP, série D, vol. 1, n. 708, Bergen a Weizsäcker, 18 de
maio de 1938. Mais tarde, relatou que o papa esperava que Hitler o
visitasse e “teve essa esperança até o último momento”. Ibid., 23 de
maio de 1938, n. 710.
21. ASMAE, AISS, b. 87, Pignatti a Regio Ministero degli Affari
Esteri, “Germania e Santa Sede”, 21 gennaio 1938.
22. Nas semanas anteriores à visita, o papa ainda ligava com
regularidade para o Duce pedindo que ele intercedesse em prol da
Igreja junto ao Führer. Em 16 de março, o cardeal Pacelli escreveu
para Mussolini para lhe informar sobre a gratidão do papa “por sua
ação moderada com o chanceler do Reich alemão, Signor Hitler, e por
sua intervenção na continuidade da política de perseguição religiosa na
Alemanha”. O papa, acrescentou Pacelli, estava grato pela intervenção
de Mussolini, ainda mais por ter ocorrido na véspera da visita de Hitler
a Roma. ASMAE, APG, b. 46, Pacelli a Mussolini, 16 marzo 1938. O
rascunho dessa carta escrita à mão por Pacelli, com correções, é
encontrada em ASV, AESG pos. 735, fasc. 353, f. 4r. Tacchi Venturi
disse a Mussolini que o papa ficara “contentíssimo” ao saber que o
Duce faria todo o possível para garantir que a perseguição católica —
ou seja, a perseguição à Igreja Católica — não tivesse início na
Áustria. ACS, CR, b. 68, n. 280.790, 17 marzo 1938.
23. O embaixador francês estava convencido de que, se Hitler quisesse
ir, o papa o receberia. “Uma consideração prevalece sobre todas as
outras na Santa Sé”, observou ele, “que é a de não se fazer nada para
piorar a situação dando ao governo nacional socialista o pretexto que
os extremistas parecem estar procurando.” DDF, série 2, vol. 8, n. 41,
Charles-Roux à Delbos, Ministère des Affaires Étrangères, 26 janvier
1938. Embora Mussolini quisesse que Hitler visitasse Pio XI — se
pudesse ter certeza de que tudo correria bem —, o Führer considerava
a perspectiva desagradável. O ministro das Relações Exteriores alemão
ficara em uma posição desconfortável ao explicar por que Hitler não
seguiria a tradição de visitar o papa. Em meados de fevereiro, o novo
ministro das Relações Exteriores alemão, Joachim von Ribbentrop,
sugeriu uma justificativa possível. Hitler estava indo a Roma a convite
do rei da Itália, argumentou, “e não tinha motivo para visitar outros
soberanos ou territórios não italianos nessa ocasião”. Ao oferecer essa
desculpa como justificativa, ele os aconselhou a não usarem o que
outros estavam sugerindo que eles dessem como explicação lógica: o
fato de que não tinham recebido convite algum do papa. “Parece-nos
desaconselhável chamar atenção para o fato de que, no fim das contas,
nenhum convite até então tenha vindo por envolver o risco de que o
Vaticano talvez faça um convite.” DGFP, série D, vol. 1d, n. 691,
“Memorandum”, assinado por Mackensen, com base em sua conversa
com Ribbentrop, 14 de fevereiro de 1938.
24. ASMAE, APSS, b. 39, Ciano a Pignatti, “Viaggio in Italia di S.E.
il Cancelliere Hitler”, 26 marzo 1938, e Pignatti a Ciano, “Viaggio in
Italia del Fuehrer”, 2 aprile 1938.
25. ASMAE, APSS, b. 39, Pignatti a Ciano, telegramma n. 2.022, 7
aprile 1938. O papa e seu secretário de Estado estavam ansiosos para
contar aos cardeais italianos que, se Hitler não visitasse o papa
enquanto estivesse em Roma, não seria porque o papa se recusara a
vê-lo, mas porque Hitler nunca solicitara um encontro. No dia da
chegada de Hitler a Roma, o cardeal Pacelli enviou uma mensagem
aos cardeais com esse propósito e anexou uma cópia do relatório de
Borgongini sobre seu encontro com Buffarini no começo de maio,
informando sobre a disposição do papa em se encontrar com Hitler.
ASV, AESG, pos. 735, fasc. 353, ff. 26r-27r, “Circa l’omissione di una
visita del Cancelliere del Reich Germanico al Santo Padre”, assinalado
“Sub secreto pontificio”, 3 maggio 1937. Embora o papa estivesse
disposto a receber Hitler, ele deixou claro que só o faria se Hitler
indicasse sua intenção de acatar os termos da concordata que ele
assinara.
26. As anotações de Pacelli sobre a reunião com Pignatti, 25 de março
de 1938, em Casella, 2010, pp. 210-11.
27. ASMAE, AISS, b. 87, Pignatti a Ciano, 28 aprile 1938; CC, 1938,
II, p. 368.
28. Confalonieri, 1957, p. 372.
29. Rauscher, 2004, p. 241.
30. Milza, 2000, p. 759; Gallagher, 2008, p. 71; Cerruti, 1953, p. 240.
O embaixador americano na Itália descreveu Vítor Emanuel III apenas
um pouco menos generoso, como “um homem magro e pequeno
com pernas curtas também, uma face feia e um bigode eriçado, mas
com certa dignidade, apenas de sua aparência insignificante. Phillips,
1952, p. 192. Foi Ciano (2002, pp. 86, 88-89) que, em seu diário,
narrou as visões particulares do rei sobre Hitler. Ciano alegou que o
rei fora “inútil e importuno” durante a visita do Führer. O
embaixador americano mais tarde repetiu — e atestou a exatidão da
— história que circulava por Roma de que, quando Hitler chegou ao
Palácio Quirinal e viu seu quarto, perguntou se a cama fora feita por
um criado ou uma criada. Ao saber que tinha sido um homem, ele
insistiu que encontrassem uma mulher para arrumá-la de novo. Ele
não dormiria em uma cama feita por um homem. Phillips, 1952, p.
214.
31. DDI, série 8, vol. 9, n. 53, Pignatti a Ciano, 5 maggio 1938.
32. O ânimo de triunfo da visita de Hitler foi exaltado pelas recentes
vitórias das forças de Franco na Espanha, que no mês anterior tinha
dividido a Espanha republicana em duas. De modo impressionante, foi
enquanto Hitler estava em Roma que a Santa Sé fez um anúncio
formal para nomear um núncio para o novo governo nacionalista na
Espanha, e Franco enviou um embaixador ao Vaticano pouco depois
disso. Kent, 1986, p. 457. A decisão de Mussolini de enviar tropas
para lutar por Franco custou quase quatro mil mortos à Itália. De
Felipe, 1981, p. 465.
33. Hitler despejou sua raiva por conta do constrangimento sobre
Ribbentrop, que havia despedido o chefe nazista de protocolo.
34. O cônsul americano acrescentou que os convites para o jantar de
gala tinham sido retirados de quatro mulheres por causa de seus
“antepassados ou conexões judaicas”. Uma delas, no entanto, “fez um
protesto tão veemente, provando que não era judia, que o pedido de
que não comparecesse ao jantar foi retirado em seu caso”. NARA,
LM192, rolo 5, John Putnam, U.S. cônsul-geral, Florença, a William
Phillips, 21 de maio de 1938.
35. Mussolini não era muito de visitar museus, comentando em 1922
que nunca visitara um museu em sua vida. Boswell, 21 de maio de
1938.
36. Ciano, 2002, p. 89.
37. NARA, LM192, rolo 5, William Phillips, embaixador americano,
Roma, a secretário de Estado americano, Roma, “Hitler’s Visit to
Italy”, doze páginas de relato mais anexos, 13 de maio de 1938. As
festividades em Florença são descritas no memorando “Memorandum
of Visit of Their Excellencies Adolf Hitler and Benito Mussolini, May
9, 1938”, do cônsul americano em Florença, 18 de maio de 1938,
apêndice para o relato de John Putnam, cônsul-geral, citado na nota
34 acima. A avaliação do corpo diplomático britânico chegou à
mesma conclusão: FCRSE, pt. 14, R 4789/43/22, p. 93, conde de
Perth ao visconde de Halifax, 9 de maio de 1938.
38. DDF, série 2, vol. 9, n. 346, Charles-Roux à Georges Bonnet, 15
mai 1938.
39. CC, 1938, II, pp. 376–77.
40. ASV, AESG, pos. 735, fasc. 353, ff. 59r-60r, Il delegato vescovile,
Curia ecclesiastica generale di Orte, alla segreteria di stato, Vaticano,
15 maggio 1938.
CAPÍTULO 22: UMA MISSÃO SURPREENDENTE
1.Provavelmente por meio de um artigo em Civiltà Cattolica que falou
sobre ele: M. Barbera, “Giustizia tra le ‘razze’”, CC, 1937, IV, pp.
531-38. LaFarge também ganhou destaque em um artigo publicado
em L’Osservatore Romano em 1932, falando sobre um trabalho que
escrevera para a America sobre as tentativas dos comunistas de
conquistar o apoio dos afro-americanos: “Diventeranno comunisti i
Negri?”, OR, 5 giugno 1932, p. 4. Detalhes sobre sua família são
encontrados em Eisner, 2013.
2. Ficamos sabendo sobre a reação do superior-geral por conta de um
documento encontrado nos arquivos que ainda não tinham sido
inventariados de La Civiltà Cattolica, citado em Sale, 2009, p. 37.
3. O primeiro tipo de antissemitismo, escreveu ele, não era cristão,
tendo por base ideias de diferenças raciais. Em contrapartida, “o
segundo tipo de antissemitismo é permissível quando combate, por
meios morais e legais, uma influência verdadeiramente prejudicial do
segmento judeu da população nas áreas de economia, política, teatro,
cinema, imprensa, ciência e artes”. Mais perigosos eram os judeus
liberais e mais inseridos, argumenta Gundlach, por “serem em sua
maioria dados ao niilismo moral e sem qualquer laço nacional ou
religioso, atuam no campo da plutocracia mundial assim como no
bolchevismo internacional, assim liberam os traços mais escuros da
alma do povo judeu expulso de sua pátria”. A Igreja, em sua
misericórdia, sempre se opusera a essa perseguição injusta dos judeus,
mas havia muito apoiava medidas destinadas a proteger a sociedade
europeia da influência prejudicial econômica e intelectual dos judeus.
A tradução para o inglês está em Passelecq e Suchecky, 1997, pp. 47-
49. Meu relato sobre os encontros de LaFarge com o papa e
Ledóchowski tem base no excelente estudo de Passelecq e Suchecky.
Ver também Eisner, 2013.
4. Citado em Starr, 1939, p. 118. Em 27 de maio, o La Stampa de
Turim citou as mesmas linhas do livro de Belloc, em um artigo
antissemita notável alertando sobre o perigo judaico. “Il numero e il
denaro”, La Stampa, 27 maggio 1937, p. 1. Foi recortado e salvo pelo
secretário de Estado do Vaticano. ASV, AESI, b. 1.031, fasc. 717, f.
88r.
5. A revista jesuíta então discutiu um livro recente e importante, Israel,
son passé, son avenir , de um distinto católico holandês, Herrmann De
Vries. Depois de seu exílio, escreve De Vries, os judeus historicamente
passavam por cinco fases que se repetiam de modo contínuo ao serem
expulsos de um país e fugirem para outro. Primeiro os judeus
recebiam as boas-vindas, depois eram tolerados. Na terceira fase,
enriqueciam, causando inveja nos outros. Isso resultava em uma reação
popular contra eles, o que levava ao quinto estágio, uma tentativa de
exterminá-los ou expulsá-los.
6. “La questione giudaica e il sionismo”, CC, 1937, II, pp. 418-31.
7. CC, 1938, I, p. 460. No mês seguinte, La Civiltà Cattolica tornou a
fazer seu alerta sobre o ímpeto judaico de dominar o mundo.
Contrastava o antigo judaísmo bom, de onde se ergueu o cristianismo,
com o judaísmo atual, “na realidade uma religião profundamente
corrupta”. Informava a seus leitores que “a mania fatal pela dominação
financeira e política (...) é a causa real e profunda que faz do judaísmo
uma fonte de desordem e um perigo permanente para o mundo”.
Uma ação defensiva era necessária. O melhor caminho seria seguir a
tradicional mistura do papa de caridade com “prudência e medidas
oportunas, isto é, uma forma de segregação apropriada para o nosso
tempo”. No mês seguinte, a revista lembrou aos leitores que “os
judeus ainda merecem a aversão das pessoas por seus frequentes abusos
de poder e por seu ódio direcionado ao próprio Cristo, sua religião e a
Igreja Católica”. “La ‘teoria moderna delle razze’ impugnata da un
acattolico”, CC, 1938, III, pp. 62-71, citado na p. 68.
8. O artigo do monsenhor Orlandi, “L’invasione ebraica anche in
Italia” (L’Amico del Clero, vol. 20, n. 3, 1938), é bastante citado em
Miccoli, 1988, p. 866.
9. Mario Barbera, “La questione dei giudei in Ungheria”, CC, 1938,
III, pp. 146-53. 12 de abril de 1938, o núncio papal em Budapeste
enviou a Pacelli um relatório sobre as novas leis, que determinavam
cotas para a participação judaica nas profissões, nas finanças e nos
negócios. Preocupado, notou que a nova lei tratava como judeus
todos aqueles que tinham sido convertidos ao catolicismo e tinham
sido batizados depois de 1919, assim como seus filhos batizados ao
nascer. A Associação de Estudantes Universitários, à qual a maioria dos
estudantes universitários católicos na Hungria pertencia, tinha
acrescentado uma cláusula a seu estatuto declarando que “não via
como incondicionalmente húngaros os judeus batizados e seus
descendentes”. No começo de maio, o cardeal Pacelli respondeu ao
núncio, compartilhando sua preocupação: “O julgamento
excessivamente geral que eles gostariam de conferir à insinceridade das
conversões do judaísmo para o cristianismo que ocorreram desde 1919
parece estranho, arbitrário e contrário ao espírito de generosidade do
povo húngaro.” Pacelli concluiu: “Em particular, é de se esperar que,
enquanto protegem os interesses da nação magiar, esse governo não se
curve a medidas de severidade excessiva contra judeus e que os
católicos húngaros nessas circunstâncias mostrem razoável moderação
nesse aspecto”. ASV, AESU, b. 77, fasc. 57, ff. 6r-9v, Angelo Rotta,
nunzio, a Pacelli, Budapest, 12 aprile 1938; ibid., ff. 10r-10v, Pacelli a
Rotta, 8 maggio 1938.
10. Maiocchi, 2003; Bottai, 2001, p. 125; Gillette, 2001, 2002a,
2002b.
11. Em um jantar diplomático em 18 de julho, Bottai (2001, p. 125)
levantou o assunto do manifesto com Mussolini, que explicou com
grande emoção: “Já estou farto de ouvir pessoas dizendo que uma raça
que deu ao mundo Dante, Maquiavel, Rafael, Michelangelo é de
origem africana.
12. Cannistraro e Sullivan, 1993, pp. 218-19. O principal biógrafo
francês de Mussolini retrata Sarfatti como a influência mais importante
em sua conversão pós-guerra à ideia de defender uma revolução
nacionalista liderada por veteranos de guerra jovens. Quando ele se
tornou primeiro-ministro, ela ajudou a convencê-lo de que ele
poderia ser o novo César da Itália. Milza, 2000, pp. 257, 354. Sobre a
influência de Sarfatti sobre Mussolini, ver também Urso, 2003.
13. Festorazzi, 2010, p. 96; Navarra, 2004, p. 68.
14. Ludwig, 1933, pp. 69-70. Mas, depois da visita de Mussolini à
Alemanha em setembro de 1937 e sua aliança firmada com o Führer,
os judeus italianos começaram a temer que ele pudesse tentar imitar as
campanhas antissemitas de Hitler. Ciano, ao receber pedidos
angustiados de judeus italianos, percebeu que os alemães nunca tinham
levantado a questão com ele. “Tampouco acredito que seria de nosso
interesse desencadear uma campanha antissemita na Itália. O problema
não existe aqui. Eles são poucos e, com algumas exceções, são bons.”
Ciano, 2002, p. 32. No final de fevereiro de 1938, Mussolini escreveu
uma mensagem para o ministro das Relações Exteriores italiano e
negou que o governo estivesse planejando uma campanha antissemita.
DDI, série 8, vol. 8, n. 162, “Nota n. 14 dell’informazione
diplomatica”, 16 febbraio 1938.
15. Grandi, 1985, pp. 443-44. Mas Rauscher (2004, p. 225) afirma
que, durante a visita de Mussolini à Alemanha em 1937, ele informou
Hitler de que logo estaria introduzindo medidas antissemitas na Itália.
16. Muitas obras discutem a questão de como a campanha antissemita
de Mussolini em 1938 aconteceu. Fabre (2005) argumenta que
Mussolini sempre fora antissemita. Mas De Felice (1981, pp. 312-13)
sustenta que ele nunca fora um antissemita; foi só na guerra na Etiópia
que ele ficou convencido de que uma conspiração judaica
internacional estava se organizando contra ele, ao que ele começou a
trilhar o caminho de um antissemitismo “político”. Para outras
perspectivas, ver Israel, 2010, pp. 159-70; Matard Bonucci, 2008; e
Vivarelli, 2009, p. 748.
17. CC, 1938, III, pp. 275-78.
18. O escritor de La Civiltà Cattolica era o padre Angelo Brucculeri.
Entre outras publicações católicas que reproduziram o elogio à nova
política racial de Brucculeri estava La Settimana religiosa, o semanário
diocesano de Veneza. Perin, 2011, pp. 200-1.
19. “Il fascismo e i problemi della razza”, OR, 16 luglio 1938, p. 2.
Sobre o artigo de Brucculeri, ver Miccoli, 1988, p. 871. Manzini foi o
editor de L’Osservatore Romano de 1960 a 1978; De Cesaris, 2010, p.
139. A aceitação da Igreja Católica Romana do antissemitismo é
debatida de forma acalorada. Muitos procuram desenhar uma linha
tênue entre o “antijudaísmo” com fundamentos religiosos e o
“antissemitismo” com fundamentos raciais da Igreja que levaram ao
Holocausto; falo sobre esse debate em Kertzer, 2001. Durante esses
anos, era comum La Civiltà Cattolica e o resto da imprensa católica
italiana se referirem aos judeus como uma “raça”. Como se poderia
esperar, em uma carta pastoral para a Páscoa de 1938, o patriarca de
Veneza, o cardeal Adeodato Piazza, estigmatizou os judeus como uma
“raça” coletivamente responsável pelo assassinato de Jesus.
Condenados a vagarem pela terra, clamou ele, estavam “envolvidos
nas seitas mais obscuras, desde a maçonaria até o bolchevismo”. Citado
em Perin, 2011, pp. 216-17.
20. Um grampo do governo apanhou essa ligação. ACS, MCPG, b.
166, grampo n. 5.102, Roma, 14 luglio 1938. A conversa era em
alemão.
21. Exemplos do entusiasmo da imprensa alemã com a nova campanha
racial italiana, relatados à mesa italiana da Santa Sé, são encontrados
em ASMAE, AISS, b. 102, “Servizio speciale”, Mônaco, 15 luglio
1938.
22. ACS, MCPG, b. 151, ministro di cultura popolare a Mussolini, 19
luglio 1938.
23. Curiosamente, em 1933, o entrevistador Emil Ludwig, ao ver
Mussolini de perto, pensou na semelhança que ele possuía com
Bórgia: “Agora ele está sentado diante de mim do outro lado da mesa.
O condottiero César Bórgia, a quem descrevi uma vez em um palácio
romano como o herói da Romanha, parece ter ressuscitado, embora
use um terno escuro e uma gravata preta.” Ludwig, 1933, p. 23.
24. As instruções do papa foram passadas para Borgongini por Pacelli.
O papa Bórgia tinha sido anteriormente o assunto de tentativas
vigorosas do Vaticano para censurá-lo. Em 1934, o papa ficou sabendo
que a peça Catarina Sforza, na qual toda a corrupção de Alexandre VI
era representada, ia estrear em Roma em abril. Ele despachou Tacchi
Venturi para impedi-la de ser encenada. O governo fez o dramaturgo
cortar por completo a primeira cena e fazer um corte radical em outra
que foi considerada ofensiva pela Igreja. ASV, AESI, pos. 855, fasc.
549, ff. 4r-24r.
25. ASV, ANI, pos. 47, fasc. 2, ff. 124r-129r.
26. Ibid., ff. 132r-134r, Tacchi Venturi a Tardini, 15 giugno 1938.
27. A carta de Pacelli, enviada a Borgongini, manifestou sua satisfação
ao receber notícias tão boas. ASV, ANI, pos. 47, fasc. 2, ff. 135r-136r,
Pacelli a Borgongini, 22 giugno 1938. A Ação Católica continuou
desempenhando o papel principal de avisar à polícia sobre livros,
revistas, peças e filmes que a Igreja considerasse censuráveis. A
organização nacional enviou instruções detalhadas para as secretarias
diocesanas de moralidade de como operar uma rede de informantes,
para garantir que nenhum obra ofensiva passasse despercebida pela
polícia. ASV, AESI, pos. 773, fasc. 356, ff. 104r-115r. Quanto ao
editor Rizzoli, ele sobreviveria e seguiria em frente para criar um
império de editora e livraria — e nos anos pós-guerra entraria em
conflito mais uma vez com o Vaticano. Em 1960, produziu um filme,
La Dolce Vita , dirigido por Federico Fellini, que seria condenado pelo
L’Osservatore Romano e a princípio censurado na Itália.
28. NARA, M1423, rolo 1, n. 991, William Phillips ao secretário de
Estado americano, Washington, “Physical Fitness Tests for High
Fascist Party Officials”, 7 de julho de 1938.
29. Petacci, 2010, pp. 131, 370.
30. Em particular, Pacelli disse a Pignatti, nada deveria ser feito para
evitar o casamento entre um católico convertido do judaísmo e outro
católico. Pacelli tinha razão para se preocupar, porque em 1935 as Leis
de Nuremberg instituíram essa medida na Alemanha. Pacelli citou o
texto da concordata que especificava que casamentos na Igreja eram
considerados válidos civilmente e lembrou a Ciano que “o Direito
Canônico reconhece como válido o casamento entre indivíduos
batizados, a despeito de qualquer outra consideração”. ASMAE, AISS,
b. 102, Pignatti al ministro degli affari esteri, 20 luglio 1938.
31. ASMAE, APSS, b. 40, Pignatti, “Notizie sulla salute del
Pontefice”, telespresso n. 1.818/678, 11 luglio 1938. Pucci baseou sua
descrição sobre a saúde do papa em sua conversa com o padre
Gemelli, que visitara o papa recentemente.
32. DDI, série 8, vol. 9, n. 336, Pignatti a Ciano, 26 luglio 1938.
33. Ibid., n. 337, Pignatti a Ciano, 26 luglio 1938.
34. “La parola del Sommo Pontefice Pio XI agli alunni del Collegio
di Propaganda Fide”, OR, 20 luglio 1938, p. 1, republicado em CC,
1938, III, pp. 371-76.
35. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 732, f. 19r.
36. Ciano, 2002, p. 113 (30 de julho de 1938). Borgongini disse ao
embaixador italiano na Santa Sé que a Igreja sempre desencorajara
casamentos inter-raciais, reconhecendo os “híbridos” que resultariam
“da combinação dos defeitos das duas raças”. Quanto à campanha
antissemita, o que chateava o papa não era a perspectiva da ação do
governo contra os judeus, mas sim que a Itália viesse a seguir o
tratamento alemão dispensado aos católicos convertidos, como se eles
fossem judeus. Pignatti não deu uma resposta direta, apenas reafirmou
para o núncio que uma campanha racial italiana seria diferente da
nazista. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 728, ff. 46r-48r, Borgongini a
Pacelli, 2 agosto 1938. No dia seguinte, Borgongini contou a conversa
diretamente para o papa.
37. ASMAE, AISS, b. 115, Pignatti a Ciano, 31 luglio 1938.
38. Citado em Papin, 1977, p. 62.
39. “De que se tem lembrança”, observou Ledóchowski, “não houve
um caso em que o papa perdesse a razão.” ASMAE, Gab. b. 1.186,
Pignatti a Ciano, 5 agosto 1938.
40. Ibid.
CAPÍTULO 23: O ACORDO SECRETO
1.CC, 1938, III, pp. 377-78.
2. ASV, AESI, pos. 1.007c, fasc. 695, ff. 70r-75r, “Progetto di una
lettera del S. Padre a Mussolini circa Ebrei e Azione Cattolica”, agosto
1938.
3. Ávido por aplacar Pignatti, Pacelli lhe contou que o papa acabara de
mandar Tacchi Venturi com uma mensagem para Mussolini. Na carta,
enquanto lamentava a recente violência contra a Ação Católica, o fazia
com respeito, com “expressões de grande admiração e deferência pelo
Duce”. ASMAE, AISS, b. 102, Pignatti a Ciano, 6 agosto 1938.
4. Do relatório de Pignatti, de 8 de agosto de 1938, citado por Casella,
2010, p. 268-69.
5. O artigo citava a justificação detalhada de Mussolini sobre a
campanha antissemita, incluindo suas observações de que “dizer que o
fascismo imitou alguém ou algo é simplesmente absurdo (...) Ninguém
pode duvidar de que o tempo é perfeito para o racismo italiano”. A
revista não fez comentários sobre as observações do Duce. CC, 1938,
III, pp. 376-78.
6. Os jesuítas trabalhavam melhor, aconselhou Pignatti, quando
podiam “exercitar aquela ação secreta na qual eram mestres”. ASMAE,
AISS, b. 102, Pignatti a Ciano, 7 agosto 1938.
7. Mas Ciano estava mais otimista, acreditando que aqueles ao redor
do papa estavam começando a falar com ele. “Quanto à questão da
raça, o papa, que agora sabe quais são os termos de fato do problema”,
escreveu ele naquele dia em seu diário, “está começando a gritar.”
Ciano, 2002, p. 113.
8. Farinacci fez a acusação de que foi o cardeal Pacelli que persuadiu o
papa a criticar a campanha racial. Em 3 de agosto, Farinacci repetiu a
acusação em uma carta para Mussolini. Ele concluía perguntando a
Mussolini: “Querido presidente, é verdade que a mãe do papa era
judia?” E acrescentou: “Se for, que piada!” ACS, CR, b. 44, Roberto
Farinacci, direttore, Il Regime fascista, Cremona, a Mussolini, 3
agosto 1938. Farinacci provavelmente apanhara a alegação de que o
papa era judeu da imprensa alemã, que na época estava circulando
essas histórias.
9. ASV, AESI, pos. 1.060, fasc. 749, ff. 14r-21r, Monsignor Giovanni
Cazzani, vescovo di Cremona, a Farinacci, 17 agosto 1938.
10. ASV, AESI, pos. 1.060, fasc. 749, ff. 22r-26r, Farinacci a Cazzani,
18 agosto 1938.
11. Fabre (2012, pp. 109-10) recentemente publicara e analisara seu
texto, encontrado nos papéis de Tacchi Venturi. ARSI, TV, f. 2143.
12. ASV, AESI, pos. 1.007c, fasc. 695, ff. 37r-39r, “Nota da me
presentato al Duce la sera di venerdì 12 Agosto”, Tacchi Venturi, 12
agosto 1938.
13. Sarfatti, 2006, pp. 19-41; Sarfatti, 2005, pp. 67-68. Em 1938,
aproximadamente 21 por cento dos judeus que viviam na Itália eram
refugiados de outros países, buscando escapar da perseguição.
14. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 730, ff. 40r-41r. Anos antes da
abertura dos arquivos do Vaticano para o papado, o padre Angelo
Martini, S.J., teve acesso e relatou a existência desse documento.
Embora tenha citado seu texto (Martini, 1963), ele ofereceu pouco
contexto e o julgou “desafortunadamente tão genérico que não
inspirava confiança”. Miccoli, (1988, pp. 847-48), ao relatar a
descoberta de Martini e seu comentário, e sem acesso ao arquivo na
época, observou sua importância e descordou da tentativa de Martini
de minimizá-la. Foi só na abertura dos arquivos do Vaticano em 2006
que o documento e aqueles que o cercavam ficaram disponíveis, e sua
total importância, visível. De Cesaris (2010, pp. 160-61) argumenta
que o documento deve ter sido rascunhado por Mussolini ou alguém
próximo a ele no governo, e não por Tacchi Venturi ou qualquer um
do Vaticano. Acho sua tentativa de distanciar o papa e o Vaticano da
proposta não convincente. O documento reflete principalmente as
propostas que o papa vinha fazendo a Mussolini nos dias anteriores.
15. “Gli Ebrei ed il Concilio Vaticano”, OR, 14 agosto 1938, p. 2.
Usei a tradução para o inglês oferecida pelo embaixador americano,
que lamentou o fato de que o Vaticano parecia ter decidido não se
opor à campanha racial na Itália. NARA, M1423, rolo 12, embaixador
William Phillips ao secretário de Estado, “Progress of Racial
Movement in Italy”, August 19, 1938. Para um exame da
correspondência entre o secretário de Estado americano e o
embaixador italiano no que diz respeito à reação do papa à campanha
antissemita italiana, ver Kertzer e Visani, 2012.
16. Fabre (2012, p. 119), que forneceu o estudo mais abrangente sobre
o acordo de 16 de agosto, chega à mesma conclusão sobre a razão da
explosão do papa.
17. ASV, AESI, pos. 1.007c, fasc. 695, ff. 41r-42r, memorando de três
páginas escrito à mão sem assinatura, 18 agosto 2011. No fim do mês,
discutindo o conflito com o governo sobre a Ação Católica em uma
conversa com membros da embaixada francesa, Tardini considerou
Mussolini irrepreensível. A culpa, argumentou, era da “ala esquerda”
do Partido fascista, em especial o líder do partido, Achille Starace.
MAEI, vol. 267, 126, Charles-Roux à Bonnet, 29 août 1938.
18. MAEI, vol. 267, 94, Charles-Roux, 17 août 1938; e ibid., 95-96,
18 août 1938.
19. MAEI, vol. 267, 97, Charles-Roux, 18 août 1938. O ministro
acrescentou que eles não deveriam se preocupar com as observações
do papa sobre a Propaganda Fide, já que elas não refletiam a posição
do Vaticano no que dizia respeito à campanha racial; eram apenas o
produto de um momento em que o papa ancião estava de mau
humor. Tranfaglia, 2005, p. 151.
20. MAEI, vol. 267, 102-3, Charles-Roux, 20 août 1938.
21. “Pope and Fascists Reach New Accord on Catholic Action”,
NYT, 21 de agosto de 1938, p. 1. Uma história parecida no Los
Angeles Times daquele dia começava com: “Por meio de Pietro Tacchi
Venturi, um mediador de 77 anos e padre jesuíta, premier Mussolini e
papa Pio XI mais uma vez amainaram as diferenças entre a Igreja
Católica e o partido fascista.” “Pope and Duce Renew Peace”, LAT,
21 de agosto de 1938, p. 2.
22. “Circa le relazioni tra l’Azione Cattolica Italiana e il Partito
Nazionale Fascista”, OR, 25 agosto 1938, p. 1. O recorte do Messagero
encontra-se em AESI, pos. 1.007c, fasc. 695, f. 64r. O alvoroço no
último minuto das negociações envolvendo o papa e o governo
italiano é narrado no relatório de Cossato. ASMAE, AISS, b. 102,
Cossato, 23 agosto 1938; e ibid., 24 agosto 1938.
23. ASV, AESS, pos. 430, fasc. 355, f. 70, 27 agosto 1938.
24. ASMAE, AISS, b. 102, Cossato, 22 agosto 1938.
25. Ele convocou Tacchi Venturi para dizer ao papa quão furioso
estava. O encontro de Mussolini com o jesuíta estava em seu
calendário, marcado para as 19h30 de 22 de agosto. ACS, CO, b.
3.136.
26. Ciano, 2002, pp. 117-18. Enquanto isso, Mussolini recentemente
introduzira a exigência de que todos os empregados do governo
usassem seu uniforme de trabalho, gerando uma porção de queixas.
Ao saber da insatisfação, respondeu: “Lembrem-se: o hábito faz o
monge!” Bottai, 1989, p. 131.
27. Os recortes são encontrados em ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 728,
ff. 19r, 20r.
28. Ciano, 2002, p. 119. O papa tinha na verdade 81 anos na época.
29. O próprio Mussolini escolheu seu diretor, Talesio Interlandi, que
o vinha pressionando havia anos para seguir o exemplo de Hitler e se
posicionar contra os judeus da Itália.
30. Guido Landra, “Concetti del razzismo italiano”, La Difesa della
Razza 1, n. 1 (1938), p. 10.
31. Lamento dizer que muitos, incluindo o autor do artigo
estarrecedor publicado na primeira edição, citada acima, eram
antropólogos italianos.
32. O governo exigiu que todas as universidades providenciassem
cópias de La Difesa della Razza para suas bibliotecas e convocou todos
os professores a lerem-na com atenção e compartilharem com seus
alunos a mensagem que ela transmitia. Jornais italianos eram
igualmente orientados a citar as histórias da revista e usar seu material
para os próprios artigos. Giuseppe Pensabene, “L’evoluzione e la
razza. Cinquant’anni di polemiche ne ‘La Civiltà Cattolica”, La Difesa
della Razza 1, n. 1, 5 agosto 1938, pp. 31-33. Ver também Mughini,
1991, pp. 145-46. Israel, 2010, pp. 203-4; Cassata, 2008, p. 116;
Tranfaglia, 2005, p. 152.
33. ASMAE, AISS, b. 102, Pignatti a Ciano, 29 agosto 1938.
CAPÍTULO 24: AS LEIS RACIAIS
1.“Os jornais diários citam a Civilità Cattolica ocupando uma posição de
honra na luta atual contra os judeus, em especial pelos três artigos que
publicou em 1890”, escreveram os jesuítas da revista. “Para falar a
verdade, devemos notar que a campanha vigorosa, inspirada pelo
espetáculo da invasão e da arrogância dos judeus, não pode levar
crédito por ter ‘sabido como impor de modo fascista a questão racial’
(...) como Il Regime Fascista (28 de agosto) faria.” CC, 1938, III, pp.
559-61.
2. Ibid.; ênfase no original.
3. Enrico Rosa, “La questione giudaica e ‘La Civiltà Cattolica’”, CC,
1938, IV, pp. 3-16.
4. Matard-Bonucci. 2008, p. 309; Onofri. 1989, p. 153.
5. ASV, AESI, pos. 985, fasc. 671, f. 47r, “Appunto”, 1 settembre
1938.
6. Pacelli também escreveu para o cardeal Schuster — que, por ser
arcebispo de Milão, tinha autoridade sobre o bispo de Como — e para
o próprio arcebispo de Dom Mauri, o arcebispo de Turim. ASV,
AESI, pos. 985, fasc. 671, f. 49r, Pacelli al Cardinale Schuster, 2
settembre 1938.
7. ASV, AESI, pos. 985, fasc. 671, f. 53r, Alessandro Macchi, vescovo
di Como, 15 settembre 1938; ibid., f. 54r, Sac. A. Negrini, Como, 15
settembre 1938. Em relatório posterior, Pacelli ficou sabendo que o
episódio inteiro poderia ser atribuído ao fato de que o líder do PNF
em Aprica era o proprietário de um hotel no local e travava um
conflito de longa data com as freiras que eram donas de uma
construção ali perto. Nesse relato, o fascista exagerou as observações
de Dom Mauri para constranger as freiras. ASV, AESI, pos. 985, fasc.
671, f. 60r, “Circa l’incidente sollevato in occasione del discorso
tenuto in Aprica”.
8. Gallagher, 2008, pp. 72-73.
9. Phillips também estava convencido de que Mussolini não
compreendia os Estados Unidos ou sua importância. Em suas
memórias, ele reproduz uma carta que recebeu do presidente
Roosevelt em 15 de setembro de 1938, na qual o presidente
compartilhou sua visão. Roosevelt disse que a ignorância por parte de
Mussolini e daqueles que o cercam em relação aos Estados Unidos o
fazia se lembrar de uma conversa que o filho mais novo, Johnny,
tivera com o ministro da Fazenda italiano. Quando o ministro sugeriu
que o presidente fizesse uma visita a Mussolini, o filho de Roosevelt
sugeriu que o Duce pudesse querer visitar seu pai em Washington.
Quando o ministro pareceu achar a ideia esquisita, “Johnny lhe disse
com toda a educação que os Estados Unidos tinham uma população
três vezes maior e os recursos dez vezes maiores que a Itália e que o
país inteiro caberia confortavelmente no estado do Texas”. Phillips,
1952, p. 219.
10. ASV, AESI pos. 1.054, fasc. 731, ff. 8r-10r, “Appunto”, Hurley, 3
settembre 1938.
11. Sale 2009, pp. 88-89; Fattorini 2012, p. 390. Para as implicações
da frase do papa referentes ao direito legítimo à autodefesa do estado
nesse contexto, ver Kertzer, 2001, pp. 279-80. No dia em que o papa
fez seu apelo contra as leis raciais, o padre radialista Charles Coughlin
escreveu para Mussolini oferecendo ajuda. Coughlin convidou o Duce
a escrever um artigo para sua revista, Social Justice, que tinha milhões de
leitores, na qual ele poderia “clarear” sua “atitude em relação aos
judeus”. Coughlin concluiu: “Desejo à Vossa Excelência as bênçãos
de Deus e boa saúde e rezo para que o Império Italiano sob sua
liderança esmague o comunismo.” Mussolini decidiu não escrever o
artigo. ACS, MCPR, b. 3, Coughlin a Mussolini, 6 settembre 1938;
ACS, MCPR, b. 3, stampa estera, telegrama n. 16.848 a R.
Ambasciata d’Italia, Washington, 18 ottobre 1938.
12. O jornal do Vaticano devotou apenas um parágrafo ao público,
sem fazer referência alguma aos comentários sobre raça ou
antissemitismo. “Il paterno elogio di Sua Santità ai pellegrini della
Gioventù Cattolica del Belgio”, OR, 9 settembre 1938, p. 1.
13. ACS, MCPG, b. 164, “Notizia fiduciaria”, Roma, 7 settembre
1938.
14. Bottai, 2001, p. 137 (7 ottobre 1938).
15. Ibid., p. 133 (8 settembre 1938).
16. Ciano, 2002, p. 124 (10 de setembro de 1938); Lamb, 1997, pp.
206-7. Dois dias depois o rei falou diretamente com Buffarini Guidi,
subsecretário de Assuntos Internos, em nome de seu médico. A
concordância covarde do rei com as leis raciais estava de novo em
pauta. O rei sentia-se desconfortável por conta do contato de vários
altos oficiais militares judeus que lhe procuraram para reclamar da
nova campanha antissemita. Quando Buffarini lhe contou que estavam
sendo tomadas providências para eximir esses homens das leis, o rei
respondeu: “Estou realmente feliz com o fato de que o presidente
[Mussolini] tenha a intenção de fazer essas distinções, reconhecendo os
méritos desses judeus, notáveis por sua lealdade à pátria.” E
acrescentou: “Eu tinha certeza de que a grande sensibilidade do
presidente, sua profunda intuição e vasta generosidade conduziriam a
esse modo de agir.” Citado em De Felice, 1981, p. 492.
17. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 727, f. 48r, 6 settembre 1938,
Consegnato dal P. Tacchi Venturi per riferire al S. Padre, 6 settembre
1938; ibid., f. 46r, 7 settembre 1938, Segreteria di Stato di Sua Santità,
7 settembre 1938.
18. A Igreja, acrescentou o papa, prega que cristãos e judeus
descendem da semente de Abraão, e que Abraão era o patriarca de
todos. O papa passou suas instruções pelo cardeal Pacelli. A página está
escrita à mão por Pacelli, do tipo encontrada nas anotações de suas
audiências com o papa, mas não junto com o resto de suas anotações
como secretário de Estado. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 727, f. 45r,
“Udienza del 9 settembre 1938”. A etiqueta da pasta do Vaticano que
guarda o registro dessas conversas é revelador. Embora o papa tenha
visto a questão por um ângulo diferente, sob as ordens de Pacelli a
Secretaria de Estado permaneceu ciente de seu foco: “Instruções
oficiais ao padre Tacchi Venturi para negociações com o chefe do
governo a respeito da questão racial. Questão dos judeus que se
converteram ao catolicismo”. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 727, f. 40r,
settembre 1938. No mesmo dia, enquanto Tacchi Venturi reunia-se
com Mussolini para discutir as leis raciais, Pignatti encontrava-se com
Pacelli. Eles falaram sobre as contínuas reclamações do papa sobre o
patrocínio do PNF às danças públicas das quais as garotas do
proletariado participavam. ASMAE, APSS, b. 42, Pignatti a Starace,
10 settembre 1938.
19. ASV, AESI, pos. 1.054, fasc. 727, ff. 41r, 43r, 20 settembre 1938.
20. Ibid., fasc. 732, ff. 48r-48v, Cardinal Fossati, arcivescovo di
Torino, a Domenico Tardini, 28 settembre 1938; ibid., f. 49r, Tardini
a Fossati, 1 ottobre 1938; Tardini a Tacchi Venturi, 1 ottobre 1938.
21. Primo Levi, The Periodic Table, citado por Cavarocchi e Minerbi,
1999, p. 483.
22. A referência é ao diário de Sylvia Lombroso (Nidam-Orvieto
2005), p. 162.
23. Ibid., pp. 162-63.
24. Lamb, 1997, p. 221.
25. André François-Poncet, embaixador francês em Berlim, deixou
uma descrição excelente da reunião; citado por De Felice (1981, p.
528). Édouard Daladier era o representante francês na conferência.
26. Lamb, 1997, figs. 12-13; Navarra, 2004, p. 38. Navarra
aparentemente achava que era sábio não mencionar o fato de que,
apesar de seus guarda-chuvas, os britânicos tinham fundado um
império sólido.
27. “Mentre Milioni”, 29 settembre 1938,
http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/speeches/documents/hf_
p-xi_spe_19380929_mentre-milioni_it.html. Pio XI não ficou
satisfeito com o acordo de Munique. Ele reclamou com Charles-
Roux sobre a falta de apoio francês à Tchecoslováquia e a vergonha
de França e Grã-Bretanha concordarem com o desmembramento do
país sem permitirem qualquer representação por parte da
Tchecoslováquia nas negociações. Em uma audiência em 30 de
setembro, o papa dividiu essa opinião com dois senadores italianos,
que a repassaram para Mussolini. O Duce explodiu de raiva. O Santo
Padre, observou ele, parece que não para de dar tiros no próprio pé.
MAESS, vol. 38, 209-10, Charles-Roux, 5 octobre 1938.
28. Milza, 2000, pp. 762-63, Rauscher, 2004, pp. 261-64; Grandi,
1985, pp. 452-53; De Felice, 1981, p. 530. Várias obras recentes têm
questionado a ideia de que as leis raciais eram impopulares na Itália e
levaram a uma queda no apoio ao regime: Rigano, 2008; Pavan,
2010; Israel, 2010. Miccoli (2004, p. 25) nega que as leis raciais
tenham minado o apoio católico italiano a Mussolini e estipula 1942
como data do declínio do apoio católico, quando a guerra começou a
ir mal.
29. Kershaw, 2000, p. 123.
30. ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, f. 98v, Tardini, diario, 2 ottobre
1938. Schuster era mais um entre vários padres que louvavam
Mussolini como homem enviado por Deus para salvar a Itália e a
Europa. Uma ode enfadonha em particular a Mussolini como o novo
Moisés foi o sermão feito pelo arcipreste da catedral de Campobasso
em 7 de outubro. Piccardi, 1995, pp. 218-20.
31. Bottai, 2001, p. 136. Bottai, cujo diário registra as observações de
Mussolini, era um proponente entusiástico das leis raciais.
32. Citado em Petacci, 2010, p. 421.
33. CC, 1938, IV, pp. 269-71.
34. DDI, série 8, vol. 10, n. 238, l’incaricato d’affari presso la Santa
Sede, Fecia di Cossato, al ministro degli affari esteri, Ciano, 7 ottobre
1938.
35. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 10r, 12r, 7 ottobre 1938.
36. Citado em Guasco, 2010, pp. 94-95.
37. DDI, série 8, vol. 10, n. 252, l’incaricato d’affari presso la Santa
Sede, Fecia di Cossato, al ministro degli affari esteri, Ciano, 10 ottobre
1938.
38. ASMAE, AISS, b. 102, l’incaricato d’affari presso la Santa Sede,
Fecia di Cossato, al ministro degli affari esteri, Ciano, 11 ottobre
1938. Ao citar seus relatórios anteriores informando Ciano sobre o
forte apoio dos jesuítas à campanha antissemita, Cossato menciona seus
relatórios de 5 e 17 de agosto. Essas datas são importantes porque,
durante aquelas semanas, Mussolini formulava sua primeira lei
antijudaica e estava ansioso para ter certeza de que a Igreja o apoiaria
em sua campanha.
39. ASV, ANI, pos. 24, fasc. 14, ff. 160r-163r, Borgongini a Pacelli,
10 ottobre 1938. Uma nota nos arquivos do secretário de Estado do
Vaticano, de 7 de outubro de 1938, faz uma referência de forma
similar ao acordo de 17 de agosto entre Mussolini e Tacchi Venturi,
tratando-o como em vigor. ASV, AESI, pos. 1.060, fasc. 747, f. 6r.
40. Tacchi Venturi a Monsignor A. Bernareggi, vescovo di Bergamo,
11 ottobre 1938, publicado em Presenti, 1979, p. 562.
41. “Tudo isso”, informou Tacchi Venturi ao papa no dia seguinte,
sempre ávido a fortalecer o Duce aos olhos do pontífice, “ele me disse
mostrando o quanto sentia pelo fato de a questão ter levado tanto
tempo, e queria proceder com o máximo de boa vontade.” ASV,
AESI, pos. 1.060, fasc. 747, f. 4r, Tacchi Venturi a Pio XI, 11 ottobre
1938.
42. ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, f. 107r, 10 ottobre 1938. O papa
instruiu Tardini a anunciar os substitutos do líder do partido de
Bérgamo e da Ação Católica dos membros do conselho da Ação
Católica rapidamente. Quando Tardini sugeriu dia 15, sábado, o papa
respondeu: “Não, é tarde demais! E é um fim de semana. Faça tudo na
sexta, dia 14.” ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, ff. 107v-108r, 11
ottobre 1938. O bispo de Bérgamo não estava satisfeito em remover
quatro dos mais valiosos e respeitáveis membros de seu conselho da
Ação Católica, homens que sem dúvida queriam fazer o que quer que
fosse mais benéfico para a Ação Católica. “Também penso que uma
pequena mudança na guarda (para usar a terminologia fascista) nunca
prejudicou nenhuma instituição”, acrescentou ele. Tacchi Venturi a
Monsignor A. Bernareggi, vescovo di Bergamo, 11 ottobre 1938, in
Presenti 1979, p. 562.
43. ASV, AESI, pos. 1.060, pos. 747, f. 17r, l’incaricato d’affari presso
la Santa Sede, Conte Carlo Fecia di Cossato, consigliere
dell’ambasciata d’Italia presso la Santa Sede, a Domenico Tardini, 12
ottobre 1938; ibid., 18r-19r, Tardini a Fecia di Cossato, 13 ottobre
1938; ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, f. 108v, 12 ottobre 1938.
44. Das anotações de Tardini. ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, f. 106r,
Tardini, 9 ottobre 1938. A frase do papa aqui é uma tradução livre;
agradecimento a Lesley Riva. O italiano diz: “Roba da frati! È proprio
vero che: cappuccio e cotta sempre borbotta! ”
45. ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, f. 109r, 14 ottobre 1938.
46. Ibid., f. 112r, 15 ottobre 1938.
47. Ibid., f. 114r, 16 ottobre 1938.
CAPÍTULO 25: A BATALHA FINAL
1.Passelecq e Suchecky, 1997, p. 69.
2. ASMAE, APSS, b. 39, fasc. 1, Cosmelli, R. Ambasciata
Washington, a Ciano, “Stati Unitie Cattolicesimo”, 20 ottobre 1938.
Discussão mais aprofundada em Kertzer e Visani, 2012.
3. Baruch, um ex-magnata de Wall Street, na época era um filantropo
e parte da “equipe de confiança” de conselheiros de Franklin
Roosevelt.
4. O embaixador americano informou tudo a Washington,
acrescentando que policiais em Trieste tinham impedido pessoas de
celebrarem o Dia de Colombo. Ele suspeitava de que eles tivessem
recebido ordens de Roma, motivados pela crença de que Colombo
era judeu e como uma maneira de sinalizar a insatisfação de Mussolini
com os protestos do governo americano referentes às leis raciais.
NARA, M1423, rolo 12, Phillips para o secretário de estado
americano, “Anti-Jewish measures in Italy”, n. 1.120, 21 de outubro
de 1938.
5. ASV, AESS, pos. 560, fasc. 592, f. 117r, anotações de Tardini, 19
ottobre 1938. “Um memorando oficial é necessário para assegurar que
há evidência de que a Santa Sé avisou o governo italiano sobre as
consequências das leis raciais”, escreveu Tardini. ASV, AESI, pos.
1.063, fasc. 755, f. 15r, Tardini appunti, 19 ottobre 1938.
6. Os comentários de Borgongini foram feitos a Tardini. ASV, AESS
pos. 560, fasc. 592, ff. 119r-119v, Tardini appunti, 20 ottobre 1938.
7. ASV, AESI, pos. 1063, fasc. 755, ff. 20r-21r, Borgongini,
Nunziatura Apostolica d’Italia, “Progetto di appunto”, n. 6.480, n.d.
8. Aqui, a lápis, Tardini inseriu “muito” antes de “heterogênea”.
9. Borgongini estava desesperado para chegar a um acordo. Se
nenhuma daquelas propostas fosse considerada aceitável pelo governo,
acrescentou ele, o Vaticano e o governo teriam que chegar a algum
entendimento antes que as novas leis fossem anunciadas. ASV, AESI,
pos. 1063, fasc. 755, ff. 22r-23r, Borgongini, Nunziatura Apostolica
d’Italia, “Progetto di appunto”, n. 6481, sem data.
10. Tardini deixou dois relatos escritos à mão um tanto diferentes
desse encontro: ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, f. 36r, 23 ottobre
1938; AESS, pos. 560, fasc. 592, ff. 123v-125r, 23 ottobre 1938.
11. ASV, AESI, pos. 560, fasc. 592, f. 125v, 23 ottobre 1938.
12. O monsenhor Francesco Bracci, secretário da Congregação para a
Disciplina dos Sacramentos, também estava presente.
13. O monsenhor Alfredo Ottaviani, até 1935 substituto do secretário
de Estado e depois assessor no Santo Ofício, também estava na
reunião. Os homens decidiram que, em qualquer discussão com o
governo, três pontos tinham que ser comunicados: (1) Casamentos
mistos — quer fossem entre católicos e não católicos ou entre dois
católicos de raças diferentes — eram raros e “para o futuro o Santo
Padre tinha planejado submetê-los a sua revisão”. (2) O governo
deveria concordar em reconhecer esses casamentos raros, se necessário
usando o caminho da licença real. (3) Em qualquer caso, o governo
deveria reconhecer que iria ofender gravemente o sentimento
religioso — e aqui, quando o papa revisou o texto, acrescentou “e a
lei natural” — se punisse aqueles que, por sentimentos conscienciosos,
celebrassem tais casamentos. SV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, f. 40r,