O Papa e Mussolini
Notas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
italiana e crítico mordaz do Vaticano e do poder clerical. Conti, 2006.
Adriano Lemmi, chefe nacional da principal ordem maçônica italiana
no fim do século XIX, chamou o fim do poder territorial do papa de
“o evento mais memorável na história do mundo”. Povoada em
grande parte pela classe média, a organização tinha, entre seus
membros, alguns dos políticos mais importantes do final do século
XIX. Na época da Primeira Guerra Mundial, a principal organização
maçônica nacional tinha cerca de vinte mil membros em quatrocentas
e oitenta e seis lojas. Embora a maioria dos membros viesse de famílias
católicas, a pequena população de protestantes e judeus da Itália estava
fortemente representada. Conti, 2005.
37. A variante mais comum de acusação de ritual de libelo de sangue
dizia que o Talmude exigia que os judeus matassem crianças cristãs
para usar o sangue delas a fim de fazer matzás de Páscoa.
38. A revista da Ação Católica da Romanha é examinada por Nardelli
(1996, pp. 40-50), em que baseei minha descrição.
39. Um desses artigos, publicado em 1927 no semanário da diocese de
Pádua, rejeitou os protestantes americanos por não possuírem uma
religião verdadeira, acrescentando que os ministros protestantes
“seriam mais sinceros se, como os judeus, adorassem o bezerro de
ouro”. Perin, 2011, p. 185.
40. O relato do cardeal Merry del Val sobre as palavras do papa em sua
reunião, citado em Deffayet, 2010, p. 97.
41. Aqui o papa provou-se presciente, pois os defensores papais logo
depois mencionaram o decreto que dissolvia os Amigos de Israel como
prova de que o pontífice se opunha ao antissemitismo. Wolf (2010, p.
121) retrata a tática de Pio como “uma espécie de defesa preventiva na
forma de uma condenação do antissemitismo moderno”, o qual Wolf
chamou de “uma marca do empobrecimento moral porque é fácil
condenar o ódio dos judeus pelos outros enquanto não se muda a
própria conduta antissemita”.
42. “Il pericolo giudaico e gli ‘Amici d’Israele’”, CC, 1928, II, pp.
335-44.
43. Entre as últimas cartas que o jesuíta recebeu, havia uma que
Sarfatti lhe enviara um mês antes de sua morte, em 1956, na qual ela
assinou: “Devotadíssima por Cristo, Margherita Sarfatti”. Maryks
(2011, pp. 309-10) encontrou-a no arquivo de Tacchi Venturi, junto
a uma nota escrita por um dos arquivistas jesuítas, que identificava
Sarfatti como “amante de Mussolini: uma judia convertida e batizada
por T[acchi] V[enturi], bem como seu filho [Amedeo] e sua filha
[Fiametta]”. Ver também Cannistrato e Sullivan, 1993, pp. 344-45.
44. Liguria del Popolo, 1 luglio 1933, citado em Starr, 1939, p. 113.
45. Kent, 1981, pp. 128-29.
46. O termo mania é encontrado em MAESS, vol. 37, 36-38, Charles-
Roux à Monsieur le Président du Conseil, 16 octobre 1932. Outras
referências à obsessão do papa com a ameaça bolchevique são
encontradas nos relatos de Charles-Roux de 19 de julho (MAESS,
vol. 37, 12-13) e de 23 de julho (MAESS, vol. 36, 14-15).
47. ASV, AESS, pos. 474, fasc. 476, ff. 58r-58v, Pacelli a Monsignor
Pietro Fumasoni-Biondi, 2 gennaio 1933.
48. Num esforço de convencer o ministro da seriedade e do escopo
do problema, Borgongini entregou-lhe um livreto que tinha
preparado, intitulado Proselitismo protestante na Itália. Explicava o motivo
pelo qual o protestantismo era o inimigo em comum da Igreja
Católica e do Estado fascista. “As facções protestantes”, começava o
livreto, “são anti-hierárquicas. Seu preceito é que cada indivíduo é o
intérprete da revelação divina e, portanto, é livre para fazer a própria
interpretação ao ler a Bíblia. Esse preceito é a base de todo erro
democrático, do liberalismo ao socialismo e ao anarquismo.” ASV,
ANI, pos. 49, fasc. 2, ff. 281r-282r, Borgongini a Pacelli, 22 marzo
1935. O livreto está disponível em ibid., 284r; a citação é da p. 25. O
livreto dedica vinte páginas à listagem de cada uma das igrejas
protestantes na Itália.
49. Pacelli acrescentou: “Tenho plena fé, no entanto, de que seu
apoio irá querer afastar esse mal.” AISS, b. 21, Pacelli a De Vecchi, 22
marzo 1933.
50. ASMAE, AISS, b. 21, De Vecchi a Pacelli, 7 aprile 1933.
51. “Deixe que De Vecchi fique sabendo”, disse o papa a Pacelli,
“que o Santo Padre viu essas notícias com grande prazer.” ASV,
AESS, pos. 430a, fasc. 348, f. 25, 8 aprile 1933.
CAPÍTULO 15: HITLER, MUSSOLINI E O PAPA
1.Mussolini, 1957, p. 143; Kershaw, 1999, p. 343. Poucos dias depois
da Marcha sobre Roma, Hermann Esser, um dos principais tenentes
de Hitler, disse a uma tropa apinhada: “O Mussolini alemão chama-se
Adolph Hitler.” Kershaw, 1999, p. 180.
2. DDI, série 7, vol. 13, n. 61, Renzetti a Chiavolini, 31 gennaio
1933.
3. DBFP, 1919-1939, série 2, vol. 5, n. 444, Graham a Wellesley, 11
de outubro de 1933; DDF, série 1, vol. 4, n. 293, Chambrun à Paul-
Boncour, 11 octobre 1933.
4. As anotações de Pacelli sobre sua conversa com o embaixador
francês Charles-Roux encontram-se em ASV, AESS, pos. 430b, fasc.
359, f. 35, “L’Ambasciatore di Francia”, 1 febbraio 1933. O chefe de
gabinete de Mussolini relatou de modo indireto uma conversa na qual
Pacelli disse que Hitler “realizara um grande serviço para a Alemanha
porque admitiu um governo sólido”, mas acrescentou que achava que
Hitler, por si só, não duraria. DDI, série 7, vol. 13, n. 13.
5. Em 1931, La Civiltà Cattolica noticiou algumas preocupações
expressadas por muitos bispos alemães sobre a ideologia
ultranacionalista do nazismo: “Il ‘Nazionalsocialismo’ in Germania”,
CC, 1931, II, pp. 309-27.
6. ASV, AESS, pos. 430b, fasc. 359, f. 55, “L’Ambasciatore di
Germania”, 24 febbraio 1933.
7. O papa disse essas palavras a Fontenay em sua última visita ao
embaixador francês. MAESS, vol. 37, 3-4, Fontenay à président du
Conseil, 14 juin 1932.
8. MAESS, vol. 37, 63-66, Charles-Roux à ministre des Affaires
Étrangères, 7 mars 1933.
9. “O presente papa é da opinião de que o perigo mais sério e
imediato que ronda a Igreja é a propagação do comunismo. Sua
principal preocupação é combater essa ameaça, e assim fará em todos
os países com todas as suas forças.” FCRSE, C2887/2887/22, sr.
Kirkpatrick, diplomata britânico na Santa Sé, a Sir John Simon,
Londres, 20 de março de 1933.
10. Kent, 1981, pp. 154-55. Wolf (2010, pp. 155-68) examina a
evidência por trás da decisão do papa de fazer com que os bispos
alemães apoiassem Hitler, em março de 1933.
11. MAESS, vol. 37, 70-77, Charles-Roux à ministre des Affaires
Étrangères, 20 mai 1933.
12. Wolf, 2010, pp. 174-75.
13. Católico orgulhoso, Von Papen tornara-se amigo de Pacelli anos
antes na Alemanha. Ele fora seu anfitrião com frequência no Guards
Cavalry Club, onde o apresentou a muitos líderes conservadores. CC,
1933, IV, p. 89; Wolf, 2010, pp. 174-75; Ventresca, 2013, p. 62.
14. Ventresca, 2013, pp. 75-79.
15. Wolf, 2010, p. 178.
16. Ibid., pp. 227-28.
17. ASMAE, AISS, b. 77, “Il punto di vista cattolico di fronte al
sistema Tedesco di concepire la Chiesa”, 19 ottobre 1933.
18. Como está registrado nas anotações de Pacelli. ASV, AESS, fasc.
430a, fasc. 349, ff. 27r-27v, 30 dicembre 1933. O embaixador italiano
na Alemanha também relatara em dezembro o crescente conflito entre
a Igreja Católica e o governo alemão, em especial no que dizia
respeito aos jovens. ASMAE, APG, b. 13, “S. Sede e Governo
germânico”, 27 dicembre 1933.
19. De acordo com o embaixador italiano em Berlim, o monsenhor
Orsenigo chegara a um entendimento com os líderes nazistas. Ele fazia
o possível para frustrar os que se opunham à colaboração entre o
Vaticano e os nazistas, tanto aqueles dentro da hierarquia nazista
quanto os que eram do Vaticano. ASMAE, AISS, b. 35, ff. 70-71,
ministero degli affari esteri a De Vecchi, 25 gennaio 1934.
20. Giorgio Angelozzi Gariboldi citado em Biffi, 1997, p. 99.
21. ACS, MCPG, b. 157, 19 maggio 1928.
22. Os detalhes biográficos sobre Orsenigo foram extraídos de Biffi
(1997). Ver também Godman, 2004, pp. 30-31.
23. Pacelli se opôs ao movimento, temendo que pudesse causar mais
dano do que benefício. Wolf, 2010, pp. 245-52; Godman, 2004, pp.
48-50.
24. Em dezembro de 1934, Mussolini, criticando sem medo os
nazistas, gabou-se para a revista francesa Le Figaro de sua relação íntima
com o Vaticano e culpou o regime nazista pela má orientação de suas
políticas religiosas. MAESI, vol. 267, 49-53, Charles-Roux au
Ministère des Affaires Étrangères, 26 décembre 1934.
25. Em 25 de maio, o papa instruiu Pacelli a dizer a Mussolini que o
pontífice rezava por ele dia e noite. Pio queria que o Duce
convencesse Hitler a reconhecer o direito da Igreja de prover
educação moral e espiritual para os jovens. ASV, AESS, pos. 430a,
fasc. 350, f. 29.
26. ASMAE, AISS, b. 35, “Udienza dal Cardinale Segretario di Stato
— Venerdì 1 giugno 1934”, “Udienza da S.E. il Capo del governo —
Lunedì 4 giugno 1934”, “Udienza dal Cardinale Pacelli — Martedì 5
giugno 1935”. A passagem de Goebbels foi extraída de seu romance
Michael (Steigmann-Gall, 2003, pp. 20-21). O relato de Faulhaber é
citado em Wolf (2010, pp. 162-63). Em 15 de junho, dia da reunião
entre os dois ditadores, De Vecchi encontrou-se com Pacelli para
reafirmar que Mussolini promoveria vigorosamente os argumentos do
papa. ASV, AESS, pos. 430b, fasc. 361, ff. 32/33, “L’Ambasciatore
d’Italia”, 15 giugno 1934.
27. Mussolini também estava preocupado com a população de origem
alemã da região de Alto Adige, na Itália, que o país adquirira logo após
a Primeira Guerra Mundial e cuja lealdade era duvidosa.
28. DDI, série 7, vol. 14, n. 112, “Colloqui fra il capo del governo,
Mussolini, e il cancelliere federale austriaco Dollfuss, Riccione”, 19-
20 de agosto de 1933; Lamb, 1997, pp. 100-1.
29. DDI, série 7, vol. 14, n. 246, “Appunto”, 3 ottobre 1933.
30. Kershaw, 1999, p. 282. Sobre o uso político do corpo de
Mussolini, ver o excelente livro de Luzzatto (1998).
31. Rauscher, 2004, pp. 193-94.
32. De Felice (1974, p. 494) contesta a visão comum de que Mussolini
não dominava muito bem a língua alemã para entender Hitler, citando
o intérprete italiano do Führer: “O Duce em geral falava alemão com
um sotaque forte, muito devagar, articulando com cuidado cada sílaba,
e era evidente que estava falando de bom grado.”
33. Milza, 2000, pp. 694-96.
34. De Felice, 1974, p. 505.
35. ASV, AESS, pos. 430b, fasc. 361, ff.52/53, “L’Ambasciatore
d’Italia”, 6 luglio 1934.
36. DDI, série 7, vol. 15, n. 469, “Colloquio fra il Capo del Governo
e De Vecchi”, 2 luglio 1934.
37. ASMAE, AISS, b. 35, Mussolini a De Vecchi, 22 giugno 1934.
38. Lamb, 1997, pp. 106-7.
39. ACS, MCPG, b.158, “Riservato, da fonte Vaticana”, Roma, 26
luglio 1934.
40. Ventresca, 2013, p. 85.
41. Citado em Fattorini, 2007, p. 110n8. De acordo com Orsenigo, os
bispos não se opuseram à reivindicação de Hitler. Duce, 2006, pp. 22-
33, com base no relato de Orsenigo a Pacelli, feito em 7 de março de
1933. O bispo de Osnabrück contou que, no encontro, Hitler “não”
disse “uma palavra contra a Igreja, apenas sua estima pelos bispos”. Os
tópicos abordados pelos nazistas para difamar os judeus (Herf, 2006,
pp. 37-41) eram basicamente os mesmos que a revista não oficial do
Vaticano, La Civiltà Cattolica, instigava. Desde a década de 1920, Hitler
e seu aliado Goebbels vinham alertando para uma conspiração judaica
contra a civilização ocidental e para o controle judeu das grandes
finanças, da imprensa e do bolchevismo. Tudo isso com o intuito de
reduzir os cristãos a servos dos judeus.
42. ASV, AESG, pos. 643, fasc. 158, ff. 14r-19r. Ver também a
discussão do caso de Hubert Wolf (2010, pp. 184-90).
43. Wolf, 2010, p. 190.
44. “A luta antissemita assumiu um caráter governamental oficial. A
Intervenção Representativa da Santa Sé equivaleria a um protesto
contra uma lei governamental.” ASV, AESG, pos. 643, fasc. 158, f. 5r.
E poucos dias depois: “Infelizmente, o preceito antissemita foi aceito e
sancionado por todo o governo, e esse fato infelizmente permanece
como uma mancha ignóbil nas primeiras páginas da história que o
Socialismo Nacional Alemão — não sem méritos — está escrevendo.”
ASV, AESG, pos. 643, fasc. 158, 6r-6v, 11 aprile 1933.
45. A notável correspondência entre o embaixador Vittorio Cerruti e
Mussolini no fim de março e no começo de abril registra essas
tentativas frenéticas. ASMAE, Gab., b. 668. O telegrama do Duce
para Cerruti é reproduzido em DDI, série 7, vol. 13, n. 327,
Mussolini a Cerruti, 30 marzo 1933. A correspondência com a
mensagem do Duce a Hitler é encontrada no arquivo do ASMAE,
identificado como “prioridade absoluta, particular a Sua Excelência
Cerruti”. A esposa de Cerruti, a quem ele conheceu em Viena, era
húngara e, embora ela não discuta isso em suas memórias, ao que
parece vinha de uma família de judeus. Cerruti, 1953. Pacelli sabia
que o Duce expressava essa desaprovação, assim como, muito
provavelmente, o próprio papa.
46. ASV, AESG, pos. 643, fasc. 158, f. 5R, Orsenigo a Pacelli, 9
aprile 1933. A nota (sem data) sobre o protesto de Mussolini está em
AESG, pos. 643, fasc.158, f. 8R. Mussolini reuniu-se com Chaim
Weizmann, o líder sionista, no fim de abril. Weizmann descreveu-lhe
a campanha de perseguição aos judeus pelos nazistas naquelas primeiras
semanas do governo de Hitler e disse que seu plano era tentar obter
permissão para que um grande número de judeus da Alemanha
migrasse para a Palestina. DDI, série 7, vol. 13, n. 480, “Colloqui fra il
capo del governo Mussolini e Chaim Weizmann”, 26 aprile 1933. No
mês seguinte, um enviado italiano na Alemanha informou a Mussolini
que os líderes nazistas estavam começando a reconsiderar sua
campanha antissemita, dada a publicidade negativa que estava gerando.
Ele escreveu: “Assim, o Duce, cujo pensamento expus com clareza a
Hitler, tanto no passado quanto recentemente, começa a se mostrar
certo.” Se, como ele provavelmente pensou, Hitler estava prestes a
suavizar as restrições sobre os judeus, logo os judeus teriam que ser
gratos a Mussolini. DDI, série 7, vol. 13, n. 595, Renzetti q
Chiavolini, Berlim, 14 maggio 1933.
Notavelmente, reagindo aos apelos de Mussolini, Franz von Papen,
vice-chanceler alemão, em uma reunião com o Duce em Roma, em
10 de abril, assegurou-lhe que reconhecia “que a campanha contra os
judeus foi um erro”. Mussolini também aproveitou o encontro para
enfatizar como era importante para o novo regime nazista manter boas
relações com a Santa Sé. DDI, série 7, vol. 13, n. 401, “Colloquio fra
il Capo del Governo e Ministro degli Esteri, Mussolini, e il Vice
Cancelliere del Reich, Papen”, Roma, 10 aprile 1933. No dia
seguinte, Von Papen e Hermann Göring, respectivamente o escudeiro
de Hitler e o presidente do Reich, reuniram-se com o papa no
Vaticano. Não temos relato algum do que foi dito. L’Osservatore
Romano apenas informou que a reunião aconteceu, sem que houvesse
qualquer comentário ou explicação. “Nostre informazioni”, OR, 13
aprile 1933, p. 1.
47. Nem o Vaticano, nem a organização dos bispos alemães
protestaram contra as Leis de Nuremberg; tampouco expressaram
qualquer oposição à renovada campanha nazista para demonizar os
judeus. Wolf, 2010, p. 217.
48. Ao mencionar esse assunto no Comício de Nuremberg de 1935,
Joseph Goebbels falou dos planos secretos dos judeus para a
“dominação mundial judaica”.
49. Ledóchowski endereçou a carta a Pacelli, esperando que ele
conseguisse convencer o papa da necessidade de uma encíclica. Na
época, o governo nazista estava organizando um julgamento muito
divulgado, acusando-os de exportar ilegalmente fundos para o
exterior, mas de modo impressionante o líder jesuíta estava
defendendo Hitler. Em julho, em uma conversa com Pignatti,
Ledóchowski culpou Goebbels e Rosenberg — inimigos notáveis da
Igreja Católica — pelos problemas, dizendo ao embaixador italiano
que ele achava muito possível que Hitler não tivesse aprovado a
campanha em curso contra as ordens religiosas. ASMAE, APG, b. 33,
fasc. 1, Pignatti al ministero degli affari esteri, “Processi antireligiosi in
Germania”, 14 luglio 1936.
50. Ferdinand Lassale foi um dos fundadores do movimento socialista
em meados do século XIX na Alemanha.
51. Fattorini, 2007, pp. 64-69.
52. Como explicar a aparente contradição de que os judeus
controlavam tanto o capitalismo quanto o comunismo? A revista
jesuíta argumentava que ambos tinham se desenvolvido a partir de
“uma concepção econômica materialista de mundo, de origem
judaico-puritana”. Mas algo de nefasto estava em vigor, pois, apesar de
todas as aparências, o socialismo nada mais era do que uma ferramenta
que os judeus usavam como “um braço e um meio de destruição que
favorece o cenário financeiro internacional”.
53. “La questione giudaica”, CC, 1936, IV, pp. 37-46.
54. CC, 1936, IV, pp. 83-85.
55. Herf (2006, pp. 95-96) cita a importância do trabalho de Pinkus
(1988) sobre esse tema. Ver também AJC, 1939, pp. 56-59. Membros
dos órgãos do governo da União Soviética são relacionados numa lista
em The Statesman’s Year Book em 1935 e em 1938. Uma vez que Hitler
estava se erguendo contra a ameaça judaico-comunista no fim de
1936, La Civiltà Cattolica recomendou aos seus leitores a obra Ebrei,
cristianesimo, fascismo [Judeus, cristianismo, fascismo], de Alfredo
Rosmanini, elogiando essa influente diatribe antissemita como “escrita
com a sinceridade e o fervor da fé”. Ela “pode fazer o bem entre as
pessoas”. “Uma coleção de artigos e ensaios sobre o perigo destrutivo
do comunismo e do ateísmo, no qual o judaísmo representa um papel
importante, e sobre os méritos do fascismo na defesa da ordem
religiosa e social”, começa sua resenha entusiasmada. E continua:
“Notamos que a influência de diversos judeus como exploradores é
bem conhecida.” Aqui, a revista acrescentou uma referência a seu
próprio artigo mais recente sobre o assunto. CC, 1936, IV, p. 252.
Calimani (2007, p. 235) descreve a obra de Rosmanini como o
primeiro livro intensamente antissemita a ser publicado durante a
campanha antissemita do regime fascista.
CAPÍTULO 16: ATRAVESSANDO A FRONTEIRA
1.O embaixador francês, François Charles-Roux, relatou em 15 de
fevereiro de 1935 que Dalla Torre lhe falara sobre a preocupação do
papa com relação a uma possível invasão. Na época, Charles-Roux
não pensou que Mussolini seria impetuoso a ponto de fazer isso. DDF,
série 1, vol. 9, n. 226.
2. Quando Mussolini enviou duas divisões do Exército para a
Somalilândia, em março, com a bênção de vários cardeais italianos em
sua partida, o encarregado de negócios francês no Vaticano relatou
que as bênçãos suscitaram vários comentários. DDF, série 1, vol. 9, n.
400, Truelle à Laval. Sobre a preparação militar, ver Del Boca, 2010,
pp. 90-92.
3. ACS, MCPG, b. 172, Zanetti, 25 giugno 1935.
4. Bosworth, 2011, p. 171.
5. Tardini, 1988, p. 332; C. Wingfield, Annual Report 1934, 12 de
janeiro de 1935, R 402/402/22, em Hachey, 1972, pp. 287-88,
seções 138-40.
6. ACS, MCPG, b. 172, Zanetti, 19 giugno 1935.
7. McCormick, 1957, pp. 69-76.
8. DDF, série 1, vol. 11, n. 348, Charles-Roux à Laval, ministre des
Affaires Étrangères, 24 juillet 1935. Meses antes, em fevereiro, Dalla
Torre, editor de L’Osservatore Romano, falara ao embaixador francês
sobre as preocupações do papa em relação aos planos de Mussolini
para a guerra na Etiópia. DDF, série 1, vol. 9, n. 226, Charles-Roux à
Laval, 15 février 1935. No fim de junho, o encarregado de negócios
publicou o artigo do Avennire, que ele disse que refletia as opiniões do
papa em relação à situação na Etiópia. DDI, série 8, vol. 1, n. 450,
Talamo a Mussolini, 27 giugno 1935.
9. Ceci, 2008, p. 297; Ceci, 2010, p. 43. Ceci (2010) oferece uma
excelente análise da evolução do posicionamento do papa sobre a
guerra da Etiópia.
10. “Ele é muito amigável e cortês”, escreveu o enviado britânico no
Vaticano algum tempo depois em uma curta descrição de Pizzardo,
“mas muito sobrecarregado e não muito habilidoso.”
R5802/5802/22, FCRSE, pt. 14, p. 155, Osborne a Halifax, 21 de
junho de 1938.
11. Talamo ficou sabendo das novidades por Augusto Ciriace, chefe
nacional da Ação Católica, que correu para lhe contar logo cedo pela
manhã, num esforço de evitar maiores danos. Desde que Cesare de
Vecchi fora apontado ministro da Educação, no começo daquele ano,
Talamo estava fazendo as vezes de embaixador.
12. Tardini, 1988, p. 385.
13. Ibid., pp. 385-86.
14. The Times de Londres chamou atenção para as observações do papa
de que “uma guerra de conquista, uma guerra ofensiva e injusta, seria
indizivelmente horrível”. “Views of the Pope on Abyssinia”, Times, 2
de setembro de 1935, p. 11. The Washington Post, no mesmo dia, exibiu
um artigo de primeira página intitulado “Pontiff Plans Plea to Il Duce
to Avert War” [O pontífice planeja apelar ao Duce para evitar a
guerra], curiosamente realçando o papel-chave que Tacchi Venturi
representaria ao levar a mensagem de Pio XI a Mussolini. No dia
seguinte, o jornal dedicou um editorial ao apelo do papa por paz,
atribuindo uma citação bastante dúbia a Tacchi Venturi. “Pope to
Emperor”, WP, 3 de setembro de 1935, p. 8.
15. ASMAE, AISS, b. 56, fasc. 1, sf. 1b, Pignatti a Mussolini, 30 de
agosto de 1935.
16. Relato de Verdier em Papin, 1977, p. 63.
17. Ibid., pp. 56, 62.
18. Bosworth, 2002, pp. 304-5.
19. MAEI, vol. 266, 269-71, Charles-Roux à président du Conseil,
17 septembre 1932. No entanto, ele se recusou a receber crianças
fascistas usando suas camisas pretas e seus uniformes militares, pois a
visão de crianças vestidas para a guerra lhe era repulsiva. De Rossi
dell’Arno, 1954, p. 46.
20. “Per la celebrazione del decennale in Italia”, OR, 3 novembre
1932, p. 1; debatido em MAEI, vol. 266, 29.497, Charles-Roux à
président du Conseil, 3 novembre 1932. Há uma curiosa história por
trás do artigo. Giuseppe dalla Torre, editor do jornal e talvez o único
leigo que se sentia à vontade para usar roupas informais ao visitar o
papa, aparentemente recusou um pedido do secretário de Estado para
escrever o tributo. Agostino, 1991, p. 153. Mussolini estava bem
convencido, com razão, de que Dalla Torre lhe era hostil. Charles-
Roux fiava-se em Dalla Torre para obter informações privilegiadas
sobre a visão do pontífice, e, durante a crise da Etiópia, Dalla Torre
expressou sua opinião de que os dois emissários de Pio a Mussolini,
Borgongini e Tacchi Venturi, estavam nas mãos do Duce e filtravam
muitas das críticas do papa na tentativa de ganhar as graças do ditador.
DDF, série 2, vol. 1, n. 107, Charles-Roux à Flandrin, ministre des
Affaires Étrangères, 27 janvier 1936. Sabendo do entusiasmo de
Augusto Ciriaci pelo regime, Pacelli voltou-se a ele a fim de que
elaborasse o artigo. Ciriaci assim o fez. Então Pio XI acrescentou
bastante coisa por contra própria, concluindo o artigo. ASMAE, AISS,
b. 21, fasc. 8, De Vecchi a Mussolini. Nem todos na Igreja apreciaram
o panegírico a Mussolini, incluindo alguns dos colegas de Dalla Torre
do L’Osservatore Romano. Eles se perguntavam o que viria a seguir. Será
que o L’Osservatore Romano substituiria o seu emblema da tiara papal
pelo símbolo fascista? ASMAE, AISS, b. 21, f. 8, Città del Vaticano, 3
novembre 1932.
21. ASMAE, AISS, b. 56, fasc.1, sf. 1c, Pacelli a Mussolini, 14
settembre 1935. De acordo com o relato de um informante, o papa
enviou Tacchi Venturi à Inglaterra em uma missão secreta para fazer
lobby com os católicos locais a fim de conseguir apoio ao governo
italiano, por conta da forte oposição britânica aos planos de guerra de
Mussolini. Mas ainda não foi encontrada nenhuma evidência que
sugira que a viagem aconteceu. ACS, DAGR, b. 1320, informatore n.
52, Roma, 12 settembre 1935.
22. ASV, AESS, pos. 430a, fasc. 352, f. 49, 20 settembre 1935.
23. ASV, AESI, pos. 967, vol. 1, ff. 156r-159r. Nessa reunião com
Charles-Roux, em 27 de setembro, o papa falou mais uma vez sobre
seus medos de que um desastre acontecesse com a Itália e com
Mussolini se o Duce fosse adiante com o plano de invasão. Ele se
oferecera para encontrar-se secretamente com o ditador a fim de
discutir como poderia ajudar a negociar uma saída da guerra, contou
ele ao embaixador francês, mas Mussolini recusara. DDF, série 1, vol.
12, n. 254, Charles- Roux à Laval, 27 septembre 1935.
24. Citado em Milza, 2000, p. 724.
25. ACS, CR, b. 68, Tacchi Venturi a Mussolini, 3 ottobre 1935.
26. DDF, série 1, vol. 12, n. 412, Charles-Roux à Laval, 10 octobre
1935 (nota de rodapé 1).
27. Os originais do envelope e da carta de Pacelli ao rei são
encontrados não no arquivo real em Londres, mas no do Vaticano.
Esse fato conta a história. Uma mensagem escrita à mão no arquivo do
Vaticano explica: “Carta assinada pelo cardeal Pacelli ao rei da
Inglaterra em 3 de outubro de 1931. Nota: A carta foi a princípio
aceita, e depois devolvida pelo diplomata britânico.” ASV, AESI, pos.
967, vol. I, ff. 201r-208r. O primeiro-ministro britânico viu a
tentativa do papa de se comunicar diretamente com o rei sobre uma
questão relativa à política externa como uma brecha no protocolo
diplomático.
28. Del Boca, 2010, pp. 104-7.
29. Federico, 2003, p. 590.
30. ACS, MCPG, b. 159, 1 febbraio 1935. Ao deixar seu cargo, De
Vecchi foi reverenciado pelo papa, que o presentou com uma medalha
dourada e um louvor esmerado. CC, 1935, I, pp. 423-24, 647. De
acordo com um informante, Pio era afeiçoado a De Vecchi, e foi ele
que mandou o jornal diário do Vaticano publicar um artigo laudatório
sobre a partida do embaixador. ACS, MCPG, b. 159, informatore,
Roma, 5 febbraio 1935. Ainda em 1932, o cardeal Pacelli já ouvia
rumores sobre a substituição de De Vecchi e começou a especular
quem poderia ser seu substituto. Ele deixara claro que achava De
Vecchi um tipo um tanto medíocre. MAEI, vol. 266, 250-54,
Charles-Roux au président du Conseil, 25 juillet 1932.
31. ASV, AESI, pos. 985, fasc. 658, ff. 23r-27r. Sobre a experiência
diplomática de Pignatti, ver Casella, 2010, p. 185n1. Rumores sobre
quem seria o substituto de De Vecchi corriam por toda parte em
Roma. Muitos dos nomes mais ilustres do regime foram mencionados,
de Federzoni a Alfredo Rocco, passando pelo genro de Mussolini,
Galeazzo Ciano. Antes de nomear Pignatti, o Duce buscara a
aprovação do papa. O pontífice, por sua vez, contatou o monsenhor
Luigi Maglione, seu núncio na França, que lhe garantiu que o conde
era uma boa escolha, um católico praticante, bom pai, inteligente,
modesto e honesto. ACS, MI, PP, b. 168, informatori, relazioni, 3
marzo, 22 marzo, 27 marzo.
32. Em suma, concluiu o novo embaixador, “o Santo Padre falou
como um bom italiano”. ASMAE, APSS, b. 25, fasc. 2, 13 ottobre
1935; Casella, 2010, p. 189.
33. H. Montgomery, Annual Report 1935, 9 de janeiro de 1936, R
217/217/22, em Hachey, 1927, pp. 322-23, seções 161-64; MAESS,
vol. 37, 188-89, Charles-Roux, télégramme, Affaires Étrangères, 17
décembre 1935.
34. Garzonio, 1996; Rumi, 1996, pp. 38-39; De Vecchi, 1983, p.
219.
35. O informante advertiu que o comportamento do arcebispo era
mais oportunista do que ideológico, acrescentando: “É melhor não
confiar demais, já que o padre será fascista apenas enquanto lhe for
interessante.” ACS, MI, FP “Schuster”, informatore n. 52, Milano, 3
gennaio 1935.
36. Saresella. 1990, p. 460.
37. Ceci, 2010, pp. 86-87.
38. Citado em Baudrillart, 1996, pp. 193-94 (5 mai 1936).
39. Em uma reunião em 24 de outubro — diante do fracasso dos
esforços diplomáticos para evitar as sanções econômicas —, Mussolini
disse a Tacchi Venturi que as esperanças do papa em relação à
intervenção francesa para ajudar na mediação da disputa eram
equivocadas. “Diga ao papa”, falou o Duce, “que nossa amizade com
a França acabou. Apenas a Alemanha nazista permanece amiga da
Itália. Quem poderia imaginar”, acrescentou Mussolini, “que nossos
amigos há vinte anos (...) se tornariam nossos inimigos, e que
travaríamos amizade com nossos inimigos na época (...) Sabe lá Deus o
que está acontecendo.” ASV, AESI, pos. 967, vol. 2, ff. 80r-80v,
“Udienza col Capo del Governo”, 24 ottobre 1935, P.T.V.
40. DDI, série 8, vol. 2, n. 664, Pignatti a Mussolini, 19 novembre
1935.
41. Diggins, 1972, pp. 279-82. O editorial do The New York Times data
de outubro de 1937. Diggins, 1972, pp. 276-78, 290-91, 317.
42. A demonstração ocorreu em 10 de novembro. Ceci, 2012, p. 95;
Diggins, 1972, p. 107.
43. Em uma carta a Dino Alfieri, então subsecretário de imprensa e
propaganda, o secretário fascista ítalo-americano da Unione Italiana
d’America em Nova York enfatizou a importância dos esforços do
padre Coughlin por lá. Enquanto a maioria dos americanos se opunha
à guerra na Etiópia, os ítalo-americanos davam-lhe grande apoio, o
que, somado aos esforços de Coughlin, teria impedido Roosevelt de
conseguir aprovar suas sanções. Para seu imenso desgosto, disse ele,
quando um cinejornal sobre a guerra foi exibido nos cinemas, as
pessoas zombaram e assobiaram quando Mussolini apareceu na tela,
mas aplaudiram as imagens dos etíopes. ACS, MCPR, b. 21.
Reunindo-se com Pacelli em 22 de novembro, Pignatti enfatizou
como foi crucial o fato de o petróleo não ter sido adicionado às
sanções — como proposto por alguns na Grã-Bretanha e em outros
lugares — e a importância de os Estados Unidos não se unirem às
sanções. Ele tornou a pedir a Pacelli que acionasse a rede diplomática
da Santa Sé para ajudar no esforço de guerra. Ao chamar atenção para
o bem que a Igreja poderia fazer nos Estados Unidos, ele elogiou o
trabalho do padre Coughlin. Pacelli reafirmou ao embaixador italiano
que o Vaticano estava fazendo tudo o que podia, mas acrescentou que,
como Coughlin “já tinha se posicionado fortemente contra a
Inglaterra e as sanções, não havia necessidade de incitá-lo mais”. ASV,
AESS, b. 430a, fasc. 362, f. 136. A notícia de que Coughlin
desempenhara um papel útil ao convencer o clero americano católico
a apoiar a guerra na Etiópia foi transmitido ao subsecretário de
imprensa e propaganda em 28 de novembro. ACS, MCPR, b. 21,
“Appunto per S.E. il Sottosegretario di stato”. Ao se encontrar com
Pacelli mais uma vez, em 6 de dezembro, o embaixador italiano
observou com satisfação tudo o que o padre Coughlin estava fazendo
para influenciar o movimento americano a se opor às sanções. ASV,
AESS, pos. 430b, fasc. 362, ff. 145/146. Sobre a história de Coughlin
e as relações do padre com a Santa Sé, ver Fogarty, 2012.
44. Em 1935, o cardeal Dougherty, arcebispo da Filadélfia, queixou-se
dizendo que Coughlin estava “agora bastante fora de controle”.
Acrescentou que o padre tinha se tornado “um herói na cabeça do
proletariado e em especial dos membros daquela turba, que são de
origem ou pertencem aos socialistas ou comunistas”. Tendo em vida a
inclinação antissemita de Coughlin, essa era uma caracterização um
tanto quando peculiar. Fogarty, 2012, pp. 108-10. Uma parte da
minha descrição é baseada no relato enviado a Roma pela embaixada
italiana em Washington. ASMAE, AISS, b. 33, “Oggetto: Padre
Coughlin”, 22 ottobre 1936.
45. Luconi, 2000, pp. 11-12. A exaltação à guerra na Etiópia estava
bem difundida pela comunidade ítalo-americana. Em abril de 1936, o
vice-cônsul italiano em Providence, Rhode Island, vestiu uma camisa
preta, distribuiu mais de setecentas alianças de aço. As doações de
alianças de ouro naquela cidade foram tantas que o vice-cônsul
entregou mais quatrocentas alianças de aço depois. Ceci, 2012, pp. 95-
96.
46. Citado em Franzinelli, 1995, pp. 311-12.
47. De Felice, 1974, p. 761. As observações foram publicadas em Il
Popolo d’Italia, 19 dicembre 1935.
48. De Rossi dell’Arno, 1954, pp. 69-70. No mês seguinte, o bispo de
Ventimiglia dirigiu-se às mulheres da sua diocese, identificando “os
inimigos da Itália, os inimigos de sua grandeza e seu futuro” como “o
bolchevismo russo, comunismo, maçonaria internacional,
protestantismo inglês” (pp. 105-8).
49. ASV, AESI, pos. 967, vol. 2, ff. 187r-88v, Tacchi Venturi,
“Relazione dell’udienza avuta col Capo del Governo”, 30 de
novembre de 1935. Renzo De Felice (1981, p. 291n85) concluiu que
era provável que Tacchi Venturi tenha conduzido Mussolini a se
submeter a teoria da conspiração “judaica internacional” contra o
esforço de guerra na Etiópia.
50. ASV, AESI, pos. 967, vol. 2, ff. 257r-260r, Tacchi Venturi,
“Relazione dell’udienza avuta con S.E. Mussolini”, 14 dicembre
1935.
CAPÍTULO 17: INIMIGOS EM COMUM
1.Citado em Franzinelli, 1998, p. 137; Franzinelli, 2008, p. 258.
2. ASV, AESI, pos. 967, vol. 5, f. 186r, “Memoria d’archivio”, 28
novembre 1935.
3. Brendon, 2000, p. 426.
4. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 7, ff. 24r-27r, Borgongini a Pacelli, 18
dicembre 1935. A reunião acontecera no dia anterior.
5. ASV, AESI, pos. 967, vol. 5, f. 201r, “Istruzioni per Monsignor
Roveda da impartire verbalmente ai vescovi d’Italia”, 30 novembre
1935.
6. O cardeal Nasalli Rocca, arcebispo de Bolonha, encontrava-se entre
aqueles que se sentiam desconfortáveis. “Além do fato de que me
desfazer dos meus anéis de ouro não me é nem um pouco
satisfatório”, escreveu a Pacelli, “a questão está aparentemente
resolvida, e só me resta pedir instruções para a bênção.” Pacelli trouxe
a carta de Nasalli para o papa, que disse estar tudo certo para a bênção
das alianças pelos párocos, mas que o próprio cardeal deveria evitá-la.
ASV, AESI, pos. 967, vol. 5, ff. 217r-218r.
7. Ceci, 2010, p. 97. Em Mântua, o jornal local comunicou: “Àqueles
que dão à Pátria dão a Deus!” Com muita fanfarra, Augusto Ciriaci,
presidente nacional da Ação Católica, deu a Achile Starace, líder do
Partido Fascista, seu relógio de ouro, o qual a organização dos homens
da Ação Católica lhe deram de presente em seu décimo aniversário.
Terhoeven, 2006, p. 102. Para mais detalhes, ver Terhoeven, 2006 e
Ceci, 2010, pp. 94-101.
8. O papa não poderia estar satisfeito com Schuster, já que a ideia de
um arcebispo doando símbolos sagrados do santo ofício ao Estado
ofendia seu senso de posicionamento legítimo da Igreja. De acordo
com um informante da polícia, o Vaticano apoiou a arrecadação das
alianças de ouro e “as ofertas de ouro pelos bispos também é encarada
de maneira positiva (...) Onde a restrição começa é no que diz respeito
às cruzes peitorais, acreditando-se que (...) elas constituem algo
sagrado”. ACS, MCPG, b. 172, informatore, 11 dicembre 1935.
9. Terhoeven, 2006, pp. 102, 104, 105; Ceci, 2012, p. 92. Nobili,
(2008, pp. 271, 275-76) dá outros exemplos de doações de objetos
sagrados de ouro por bispos na Lombardia. Um cartão-postal popular
de comemoração pelo Dia da Fé exibia a imagem de um Jesus de
túnica, barbudo e de cabelo comprido, flutuando no céu sobre duas
mãos enormes, uma tirando a aliança da outra. Acima, as palavras:
“Pela santidade da Causa”. Falasca-Zamponi, 1997, fig. 20.
10. O rei e a rainha foram na frente, colocando seus ornamentos de
ouro no túmulo do Soldado Desconhecido no Monumento Nacional
a Vítor Emanuel em Roma. O dramaturgo Luigi Pirandello deu sua
medalha de ouro do prêmio Nobel, e outros membros da elite cultural
da Itália seguiram seu exemplo. Milza, 2000, p. 731.
11. Terhoeven, 2006, pp. 118-19. Buscando fazer uma doação
dramática, o Duce ofereceu a medalha de ouro comemorativa que o
papa lhe dera quando o Tratado de Latrão foi assinado. Na verdade,
um exame da medalha papal revelou que não era feita de ouro, mas
sim de um metal barato revestido de dourado. As novidades
provocaram uma crise no escritório do PNF romano, onde seus
membros discutiram, preocupados, se Mussolini deveria ser
informado. Eles decidiram perguntar ao líder nacional do partido,
Starace, que aparentemente informou de fato ao Duce. Terhoeven,
2006, p. 82.
12. O semanário diocesano de Turim, por exemplo, fez um alerta
sombrio sobre uma conspiração maçônica aliada com o bolchevismo e
o protestantismo, “ferozmente unidos contra a Itália, querendo fazer
um ataque em conjunto contra a Itália e também a Santa Sé e o
catolicismo”. Citado em Reineri, 1978, pp. 170-71. Em 25 de abril,
Pizzardo avisou mais uma vez a Pignatti sobre uma “campanha
judaico-maçônica (...) que se movia paralelamente contra a Igreja e
contra o fascismo”. ASMAE, AISS, b. 81, fasc. 1, sf. 1, Pignatti,
“Congresso dei ‘Senza Dio’ in Praga”.
13. Como os Estados Unidos e por razões similares — a oposição da
maioria dos protestantes —, o Canadá não possuía nenhum laço oficial
diplomático com o Vaticano e, por isso, não tinha um núncio.
14. ASV, AESI, pos. 967, vol. 5, ff. 129r-131r, Pizzardo a Monsignor
Andrea Cassulo, delegato apostolico, Ottawa, 26 dicembre 1935;
ibid., ff. 132r-134r, Cassulo a Pizzardo, 11 gennaio 1936. Pizzardo
compartilhou o relato do enviado canadense com Pignatti em 1o de
fevereiro, ansioso para mostrar o tanto que o Vaticano estava
trabalhando nos bastidores para ajudar no esforço de guerra de
Mussolini. Ele relembrou ao embaixador italiano que o Vaticano
instruíra previamente seu enviado ao Canadá a “apoiar o movimento a
nosso favor entre esses católicos”. Em seu relato posterior sobre a
conversa, Pignatti correu para contar a Mussolini algo que ele achava
que seria de seu interesse. O líder da ordem dos capuchinhos em
Ottawa recebeu um relatório de seus companheiros capuchinhos na
Etiópia, alegando que seus esforços para obter apoio para a invasão
italiana estavam sendo frustrados pela “propaganda anti-italiana dos
judeus e maçons”. DDI, série 8, vol. 3, n. 158, Pignatti a Mussolini, 1
febbraio 1936. Pouco depois de receber o relatório de seu enviado
canadense, o secretário de Estado do Vaticano recebeu outra
mensagem de Ottawa a respeito da conspiração que mirava a Igreja e a
Itália, mas o remetente era uma fonte surpresa. Mackenzie King,
primeiro-ministro canadense, recebera uma carta de “certo E. Pound
de Rapallo”, informando-lhe que “as sanções são o trabalho de um
grupinho judeu internacional e foram um meio que eles encontraram
de provocar uma guerra europeia”. Até então, disse o primeiro-
ministro canadense, não dera muita atenção à questão da influência
judaica no Canadá, mas, dada a nova informação, agora examinaria a
questão com cautela. Ele acrescentou, de acordo com uma nota do
Vaticano, sua crença “de que o judaísmo possui elementos muitíssimo
poderosos na Inglaterra e nos Estados Unidos, ambos em círculos
governamentais e na opinião pública em geral”. SV, AESI, pos. 967,
vol. 2, f. 396r, “Appunto”, Roma, 4 febbraio 1936. Não fica claro
pelos comentários do primeiro-ministro canadense se ele estava ciente
de que “E. Pound” era o famoso poeta Ezra Pound.
15. Como foi reportado pelo embaixador da Itália em Berlim e
copiado pelo ministro das Relações Exteriores para a embaixada
italiana na Santa Sé. ASMAE, APSS, b. 27, fasc. 1, 9 dicembre 1935.
O enviado britânico no Vaticano estava também chateado. “Um dos
resultados da seleção dos novos cardeais”, ele relatou a Londres, “e
muitos vão achá-lo infeliz (...) é que reajusta o equilíbrio da
nacionalidade dentro do Sacro Colégio de um modo muito favorável
à Itália.” E acrescentou: “As poucas esperanças que resistiam,
acalentadas vez ou outra com a possibilidade de o sucessor do papa ser
estrangeiro, devem ser, deste modo, enfim descartadas.” H.
Montgomery, Annual Report 1935, 9 de janeiro de 1936, R
217/217/22, em Hachey, 1972, p. 322-23, seções 161-64.
16. Montgomery, Annual Report 1935, seções 161-64, 347; MAEI, vol.
267, 61-63, Charles-Roux à Flandrin, 14 mars 1936. Nesse relato
sobre a nomeação dos vinte cardeais novos, Pignatti também notou a
evidente ausência do arcebispo de Westminster, atribuindo-a ao
descontentamento do Vaticano com as críticas do arcebispo aos
esforços de guerra italianos e comentários que ele fizera sobre o papa.
ASMAE, APSS, b. 25, Pignatti al ministro degli affari esteri,
“Concistoro”, telespresso n. 7.748/26, 22 novembre 1935. O Sacro
Colégio tinha sido anteriormente reduzido a apenas quarenta e nove
cardeais; com as novas introduções, restaria um para alcançar o limite
máximo, setenta.
17. ACS, MCPG, b. 172, Roma, 21 novembre 1935. O governo
brasileiro enviara seu embaixador para reclamar com Pacelli a respeito
da falta de cardeais brasileiros, embora o Brasil tivesse o dobro dos
católicos que havia nos Estados Unidos, que possuía quatro cardeais.
Pacelli respondeu que não aceitaria o pedido do governo de transmitir
seu argumento para o papa, já que o pontífice “enciumado com razão
resguarda seu direito e sua liberdade exclusivos na escolha dos cardeais
e, por isso, não poderia admitir que falassem de “desilusão” ou
“pedidos” nessa questão nem fazer comparações com outros Estados”.
ASV, AESS, pos. 430b, fasc. 363, ff. 2/3, 3 gennaio 1936. O papa
usara seu amplo número de nomeações para incluir uma que havia
muito ele buscara conseguir, mas não queria chamar atenção para ela:
o monsenhor Caccia Domimioni, companheiro milanês e assistente de
longa data que ficara literalmente a seu lado por 30 anos, enfim
ganhava seu chapéu cardinalício.
18. Pio não disse a ele que Ledóchowski incitara o papa a não realizar
a nomeação. O superior geral jesuíta estava chateado com o fato de o
prestígio de Tacchi Venturi estar eclipsando o dele e não poderia
tolerar que seu colega jesuíta possuísse um status tão elevado. Martina,
1996, pp. 103-8; 2003, pp. 271-72.
19. ACS, MI, PS, Polizia Politica, b. 210, informatore n. 35, Città del
Vaticano, 26 novembre 1929. O informante, Bice Pupeschi, alegou
ter ouvido as queixas de Caccia em uma conversa com ele na noite
anterior.
20. ACS, MI, PS, Polizia Politica, b. 210, informatore n. 52, Città del
Vaticano, 21 ottobre 1930.
21. Ibid., informatore n. 293, Città del Vaticano, 27 marzo 1931.
Caccia culpou Pizzardo por seus problemas, acreditando que ele era o
informante do papa. No verão de 1931, uma nova rodada de
recriminações seguiu-se às críticas de Caccia sobre a liderança de
Pizzardo na Ação Católica. Em contra-ataque, Pizzardo desenterrou
uma velha história em que Caccia — aparentemente católico em seus
interesses sexuais, se ao menos esse relato for digno de confiança —
tivera um filho com uma mulher, dona de uma loja na cidade. Como
prova da declaração, Pizzardo alegou que o menino tinha um tique
nervoso em seus olhos idêntico ao de Caccia. ACS, MI, PS, Polizia
Politica, b. 210, informatore n. 40, Città del Vaticano, 30 agosto
1931.
22. ACS, MI, PS, Polizia Politica, b. 210, informatore n. 40, Roma,
12 settembre 1933. No ano seguinte, o “célebre informante do
Vaticano” observaria, como mais uma evidência da impopularidade do
papa em Roma, que, sendo “frio”, ele quase nunca fazia algo para
demonstrar preocupação com os prelados que sabia estarem doentes.
ACS, MCPG, b. 158, luglio 1934.
23. De acordo com o relato de um informante, fora Pacelli que
persuadira o papa a promover o voluntarioso monsenhor. ACS, MI,
PS, Polizia Politica, b. 210, informatore n. 40, Città del Vaticano, 12
agosto 1934.
24. ACS, MI, PS, Polizia Politica, b. 210, informatore n. 390, Milano,
15 ottobre 1934.
25. FRSCE, n. 350, Osborne a Halifax, 21 de junho de 1938.
26. O papa fizera a sugestão por seu núncio. Em uma carta para
Mussolini, de 28 de dezembro, Pignatti relatou que, em sua recente
visita ao secretário de Estado do Vaticano, lhe fora garantido que o
Vaticano estava fazendo tudo a seu alcance para encorajar a luta da
Igreja na Irlanda e nos Estados Unidos a fim de fazer lobby a favor da
Itália na guerra da Etiópia. Um dos funcionários do Vaticano — mais
provavelmente Pizzardo — explicou que a única razão pela qual a
maioria dos irlandeses apoiou Mussolini na guerra da Etiópia foi seu
“senso de contraste em relação à propaganda inglesa protestante”
contra a guerra. ASMAE, AISS, b. 56, Pignatti al ministro degli affari
esteri, “Cattolici in Irlanda Stati Uniti e Canadà”, n. 8.048/126.
27. Mussolini também pediu a Borgongini que dissesse ao papa que os
maçons tinham se tornado os inimigos declarados do Duce, furiosos
por ele ter destruído suas lojas e ocasionado a Conciliação com a
Igreja. “Eles querem vingança”, comentou Mussolini, “primeiro
contra mim, para que possam depois voltar-se contra a Igreja.” Mas
“eles não vão ganhar”. ASV, AESI, pos. 967, vol. 2, ff. 343r-346r,
Borgongini, “Relazione dell’udienza avuta con S.E. Il Capo del
Governo”, 3 gennaio 1936.
28. “Coughlin Berates League of Nations”, Ludington Daily News, 25
de novembro de 1935, p. 1. Mussolini foi avisado sobre o valor de
Coughlin e, de forma mais geral, sobre o papel positivo que os
católicos nos Estados Unidos desempenhavam opondo-se às sanções
por meio de uma carta, em meados de novembro, enviada pelo
presidente da Unione Italiana d’America. ACS, MCPR, b. 21,
Casagrande di Villaviera, New York, a Dino Alfieri, 15 novembre
1935.
29. Em sua resenha sobre a biografia bastante crítica de Mussolini
escrita por George Seldes, Sawdust Caesar, Gerar Francis Yates
concluiu: “Deveria ser lido por todos aqueles que, por preguiça
mental ou desgosto pela zombaria dos nossos parlamentares, suspiram
por uma ditadura (seja fascista ou proletária) como se fosse uma cura
para todos os seus males.” America 54, n. 16, (25 de janeiro de 1936),
p. 382.
30. “New Jesuit Head Is a Russian Pole”, NYT, 12 de fevereiro de
1915, p. 11; Pagano, 2009, pp. 401-2n.
31. Von Bülow, 2007, pp. 279-80. Outra indicação da visão geral do
grande poder do líder da ordem jesuíta é o fato de que o superior geral
dos jesuítas era comumente chamado de “papa negro”, referindo-se
tanto ao traje preto dos jesuítas e ao contraste — pelo menos na
cabeça daqueles com uma inclinação à conspiração — entre o papa
branco e puro com o papa conspirador negro.
32. Muñoz, 1942, pp. 5-6.
33. Convém lembrar que Ledóchowski deixara claro seu
descontentamento para o editor da Civiltà Cattolica, Enrico Rosa, em
outubro de 1922, quando Rosa escrevera o artigo em que atacava o
fascismo. No verão de 1929, como consequência imediata do Tratado
de Latrão, quando o papa estava chateado com Mussolini, o superior
geral jesuíta estava mais uma vez furioso com Rosa por ele ter incitado
críticas do papa. De acordo com um relatório secreto da polícia, ele
enviou Rosa para um congresso na Espanha em uma tentativa de tirá-
lo do caminho e dar tempo para ele se acalmar. ASMAE, AISS, b. 2,
“Roma, 12 agosto 1929” e “Roma, 7 agosto 1929”.
34. O homem que foi demitido a pedido de Mussolini, Wilfrid
Parsons, S. J., tinha sido editor do semanário jesuíta por onze anos. Ele
era inimigo de Charles Coughlin. Parsons foi substituído por Francis
Talbot, S. J., um partidário de Coughlin e incentivador do fascismo.
Gallagher, 2012.
35. Ledóchowski continuou a avisar que Anthony Eden, o ministro
das Relações Exteriores, estava “nas mãos dos judeus, em especial
aqueles Rothschild”. ASMAE, AISS, b. 102. Uma cópia do mesmo
relatório, assinada por Pignatti, é encontrada em ASMAE, APSS, b.
30. Logo depois da cerimônia de abertura da exposição da imprensa
católica mundial no Vaticano em 12 de maio de 1936, Pignatti
encontrou por acaso Ledóchowski, que estava encantando porque em
suas observações o papa enfatizara a ameaça comunista. “Padre
Ledóchowski”, relatou Pignatti, “encara o judaísmo, aliado ao
bolchevismo, como a origem de todo o mal que há e um grande
perigo para nossa civilização.” ASMAE, APSS, b. 33, fasc. 1, 13
maggio 1936.
36. De Felice, 1974, p. 701.
37. Ventresca, 2013, p. 104.
38. Mockler, 2003, pp. 74-85.
39. Brendon, 2000, p. 324. Em 7 de fevereiro, Borgongini encontrou
o Duce em um “humor péssimo”, furioso com a França. “Sim, a
Inglaterra também é inimiga da Itália,” disse ele, mas a França era pior,
pois os traíra. Logo após a recente vitória eleitoral da esquerda, o novo
ministro francês das Relações Exteriores “foi recebido pelos maçons
na loja daquele porco Mandel, que, para evitar se chamar Jereboam de