O Papa e Mussolini
Notas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
pp. 53, 62-65.
28. Para mais sobre o “fogli di udienza” de Pacelli, ver Pagano, 2010.
29. Charles-Roux, 1947, pp. 74-75, 197; Ottaviani, 1969, pp. 502-4.
30. Tornielli, 2007, p. 164.
31. Ibid., pp. 164-65.
32. ACS, MI, PP, b. 154, informatore n. 35 (= Bice Pupeschi), Città
del Vaticano, 5 marzo 1930.
33. O. Forbes, Annual Report 1930, 13 de fevereiro de 1931, C
1077/1077/22, em Hachey, 1972, p. 196, seção 147.
34. Citado em Ventresca, 2012, p. 288.
35. Martin, 1996, pp. 18-19.
36. Diz Wolf (2010, p. 138): “O papa tende a ser impulsivo e
irascível, algumas vezes nem um pouco cauteloso ao proferir
declarações injuriosas; seu secretário de Estado, o diplomata perfeito,
encontrava-se sempre controlado e equilibrado, com o intuito de
evitar qualquer coisa que pudesse piorar a situação.”
37. ACS, MI, FP “Gasparri”, informatore n. 42 (= Bianca
D’Ambrosio), Roma, 21 gennaio 1930.
38. ACS, MI, FP “Gasparri”, informatore n. 35, Città del Vaticano,
15 febbraio 1930.
39. ACS, MI, FP “Gasparri”, informatore n. 35, Città del Vaticano, 4
marzo 1930.
40. ACS, MI, FP “Cerretti”, informatore n. 35, Città del Vaticano, 29
maggio 1930. O monsenhor Spellman comenta, em uma carta que
enviou para a mãe em Berlim no outono de 1929, que Pacelli e
Pizzardo eram bons amigos; ver Ganon, 1962, pp. 66-67.
“Aproveitando-se da benevolência do papa para com ele, Pizzardo,
com uma habilidade que lembra a do cardeal Richelieu, trabalhou
para cair nas graças do pontífice de tal forma que tem carta branca para
fazer o que quiser.” Assim relatou um informante da polícia no
outono de 1929. Cria do Vaticano, Pizzardo, de acordo com o
informante, ganhou a proteção de cardeais importantes por “seus
modos agradáveis e seu fervor jesuítico”; ver Fiorentino, 1999, pp. 89,
224-25. Seus funcionários não eram de todo fascinados por ele. Em
1934, todas as principais figuras da Secretaria de Estado do Vaticano
foram convidadas para um almoço no Grand Hotel de Roma, em
homenagem ao bispo americano em visita. O monsenhor Domenico
Tardini, chefe-assistente de Pizzardo, estava presente, bem como
Ottaviani e Borgongini. Mas Pizzardo faltara, pois encontrava-se
ocupado fazendo um discurso para os assistentes eclesiásticos da Ação
Católica. “Se, em vez de ir fazer o discurso”, comentou Tardini, “ele
tivesse vindo para o almoço, teria sido melhor para ele (...) e para os
assistentes da Ação Católica.” Tardini, anotação em diário, ca. 1934,
citado em Casula, 1988, p. 87; a elipse consta do original.
41. “Italian State Gives Supplice to Pope”, NYT, 12 de fevereiro de
1930, p. 5.
42. De Vecchi, 1998, pp. 182-83 (30-31 maggio 1930).
43. Ibid., pp. 194-95 (11 giugno 1930). Na quinta-feira, 24 de junho,
enquanto participava de uma sessão do senado, Mussolini viu De
Vecchi e perguntou como estavam as coisas no Vaticano. O
embaixador respondeu que, no geral, iam bem, mas “o papa continua
a ser aquela pessoa difícil que sempre foi”. O Duce perguntou pela
saúde do pontífice, e De Vecchi contou que o embaixador francês lhe
dissera que Pio estava com problemas na próstata, mas que os médicos
não consideravam que uma operação seria de grande ajuda. Quando
Mussolini respondeu que sentia muito por isso, De Vecchi falou que,
caso o pior ocorresse, uma mudança de papa não seria ruim. O
ditador, aparentemente já a par dos relatos referentes à próstata
problemática do pontífice, ignorou o comentário de Vecchi e
perguntou se era verdade que Pio requisitara um equipamento para
usar durante as longas cerimônias na capela Sistina, a fim de poder se
aliviar ali mesmo. Ibid., pp. 209-10.
44. Ibid., pp. 212-14 (27 giugno 1930).
CAPÍTULO 12: O CARDEAL PACELLI AGUENTA FIRME
1.“Fascists Trample Portrait of Pope; Vatican Is Guarded”, NYT, 28
de maio de 1931, p. 1. No dia seguinte, The New York Times publicou
outra matéria sobre a crise na primeira página: “Mussolini contém
revoltas anticatólicas”.
2. Arnaldo Cortesi, “Catholic Meddling Charged by Fascisti”, NYT,
27 de maio de 1931, p. 1; Casella, 2009, p. 137.
3. ASV, AESS, b. 430a, fasc. 342, f. 37, 23 maggio 1931. O papa
tinha outro problema com que se preocupar também. No começo de
maio, Pacelli lhe disse que Hermann Göring queria encontrá-lo
durante a visita que faria a Roma. Na época, Göring era o líder da
delegação parlamentar nazista. O papa se recusou e disse que Pacelli
tampouco deveria encontrá-lo, mas Pacelli providenciou uma reunião
de Göring com seu subsecretário, Pizzardo. Wolf, 2010, pp. 148-49.
4. De Vecchi, 1998, p. 225. Relatórios dos prefeitos nos dias que se
seguiram narram o encerramento dos grupos de juventude da Ação
Católica e os protestos por parte dos bispos locais. ACS, CR, b. 33.
5. Falconi, 1967, pp. 201-2.
6. Arnaldo Cortesi, “Pius XI Charges Fascisti with Hate and Violence;
Four Bombings in Bologna”, NYT, 1o de junho de 1931, p. 1. Mais
adiante, o jornal do Vaticano noticiaria que mais de cinco mil clubes
locais de rapazes da Ação Católica e quase dez mil de grupos de moças
foram fechados, afetando oitocentos mil membros: “In margine alle
polemiche”, OR, 10 luglio 1931, p. 1.
7. Quando diversas paróquias do sul da Itália decidiram ainda assim
prosseguir com as celebrações do feriado, o papa ordenou que seus
padres suspendessem todas as funções públicas da Igreja até segunda
ordem. Arnaldo Cortesi, “Pope Shifts Leader of Catholic Action:
Punishes Parishes”, NYT, 11 de junho de 1931, p. 1.
8. ASMAE, AISS, b. 2, fasc. 6, Il segretario particolare di S.E. Il Capo
del Governo a De Vecchi, 13 aprile 1931. O “pro-memoria” presente
é datado de 9 de abril de 1931.
9. Martini, 1960a, pp. 578-79.
10. Coco, 2009, pp. 214-15.
11. O jornal também alegava que muitos cardeais se opuseram às ações
recentes do papa, citando quatro em particular, entre eles Pietro
Gasparri. Pio ficou furioso. Mandou que o monsenhor Tardini
entrasse em um carro na mesma hora e visitasse os quatro cardeais.
Cada um seria solicitado a redigir uma negação formal, a ser publicada
no jornal do Vaticano. “Sempre estive e sempre estarei com o papa”,
escreveu o cardeal Gasparri. Coco, 2009, pp. 217-18.
12. Ibid., pp. 222, 242-43.
13. Ele acrescentou: “E estava claro que o monsenhor Borgongini” —
também na reunião — “estava do outro.”
14. MAESI, vol. 266, 80-81, 10 juillet 1931.
15. Coco, 2009, pp. 241-42.
16. DDI, série 7, vol. 10, n. 322. Mais tarde, De Vecchi (1998, pp.
267-68) diria que, ao falar da intensificação do conflito com
Mussolini, Pacelli declarara: “Eu não queria. É o desejo do meu
superior” (anotação em diário, 11 de julho de 1931). O relato da
reunião de Pacelli com Talamo foi extraído do diário de Dino Grandi.
Coco, 2009, p. 239.
17. A edição foi liberada cinco horas antes do usual naquele dia e
praticamente esgotou antes que os agentes do governo percebessem o
que tinha acontecido e confiscassem as cópias; Binchy, 1970, pp. 522-
23. Binchy informa que várias centenas de cópias da encíclica foram
contrabandeadas de Roma em um avião pilotado pelo futuro cardeal
arcebispo de Nova York, Francis Spellman, com destino a Paris.
Morgan (1939, pp. 186-87) entrevistou Spellman para saber sobre o
episódio. Seu relato confirma que o papa o chamou à sua biblioteca,
lhe entregou as cópias da encíclica com a instrução de que garantisse a
publicação dela no exterior e que, então, passasse com elas pela
fronteira francesa e as levasse até Paris, onde Spellman entregou as
cópias para várias agências de notícia americanas. O diário de De
Vecchi (1998, p. 257) informa que, segundo o monsenhor Pizzardo,
“o papa está sofrendo por demais, não está se alimentando e dorme
muito pouco; vive ansioso e angustiado”.
18. Citado do texto da encíclica publicado em CC, 9 luglio 1931 III,
pp. 97-122.
19. Non abbiamo bisogno, encíclica do papa Pio XI, tradução oficial para
o inglês disponível em
http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/h
f_p-xi_enc_29061931_non-abbiamo-bisogno_en.html [não há
tradução oficial para o português]. Essa tradução omite a parte “e
regime”, encontrada no original italiano, o qual restaurei. O
esclarecimento entre parênteses do Partido “Fascista” aparece na
tradução oficial do Vaticano. Sobre o esforço do papa para deixar claro
que não estava se opondo ao regime fascista como tal, ver também
Moro, 2008, p. 423.
20. Garzonio, 1996, pp. 58-59.
21. Mussolini também estava ansioso para deixar o conflito para trás.
Com poucas exceções, os jornais fascistas abordaram a encíclica com
moderação e respeito. Il Lavoro fascista, afinado com a ala extrema
anticlerical do PNF, estava entre essas exceções, acusando o papa de
servir aos interesses do movimento internacional antifascista. Também
reproduziu rumores muito difundidos que diziam que a origem da
crise eram as ambições do monsenhor Pizzardo de substituir o cardeal
Pacelli como secretário de Estado. De acordo com esse ponto de vista,
Pizzardo — o funcionário responsável pela supervisão da Ação
Católica — estava trabalhando com o editor de L’Osservatore romano em
nome das forças antifascistas, ao passo que Pacelli apoiava a
colaboração entre o papa e o regime fascista; MAESI, vol. 266, ff. 64-
66.
22. Gentil, o encarregado de negócios francês no Vaticano, que estava
presente, fez um relato sobre isso para o Ministério do Exterior
francês, em MAEI, vol. 266, 110-12, 20 juillet 1931.
23. ASV, AESI, pos. 849, vol. 3, fasc. 519, f. 79r. Em meados de
julho, os dois lados trabalhavam para deixar o conflito para trás. Às
duas da manhã de 17 de julho, uma bomba explodiu no Vaticano. A
explosão acordou muitas pessoas na cidade — embora o papa não
tenha despertado — e milhares nas áreas vizinhas a Roma. Pacelli teria
ouvido a detonação enquanto ainda trabalhava em seu escritório. Um
funcionário do Vaticano encontrou uma bomba de fabricação caseira
na noite anterior dentro da basílica de São Pedro, escondida sob um
púlpito móvel. Os gendarmes papais inspecionaram o cilindro de
metal e, por não ouvirem nenhum tique-taque, concluíram que era
falso. Para garantir, antes de decidirem o que fazer, deixaram-no à
noite no meio de um campo nos terrenos do Vaticano. Foi então que
o artefato explodiu, deixando uma imensa cratera e lançando árvores a
dezoito metros de distância. A imprensa fascista atribuiu a bomba à
avidez dos antifascistas de piorar o conflito entre o regime e o
Vaticano, e a Santa Sé nada fez para contradizer esse ponto de vista.
Arnaldo Cortesi, “Bomb Roar at Night Alarms the Vatican”, NYT,
18 de julho de 1931, p. 1.
24. ASV, AESI, pos. 849, vol. 3, fasc. 519, ff. 80r-80v.
25. ACS, CR, b. 68, Tacchi Venturi a Mussolini, 25 luglio 1931. Na
véspera, o papa informou Pacelli sobre a mensagem que ele mandaria
para Mussolini através de Tacchi Venturi, lembrando ao Duce que o
pontífice se abstivera de condená-lo ou de condenar o fascismo como
tal, mas só queria uma saída satisfatória para o impasse. Até na França
maçônica, disse ele a Pacelli, as associações católicas gozavam de mais
liberdade do que na Itália. ASV, APAC, b. 430a, fasc. 343, f. 21.
26. Longe de estar convencido de que seu sucessor estava à altura da
tarefa, Gasparri incluiu um roteiro para ele usar ao falar com o papa.
Lia-se: “Pai Abençoadíssimo, venho como seu mais humilde filho
participar Vossa Santidade do que se passa em minha consciência.
Sinto-me extremamente insatisfeito no que concerne ao impasse a que
chegaram as negociações com Mussolini. Parece-me que Vossa
Santidade, que não desejaria humilhar ninguém, realizaria um ato
paternal ao dar ao padre Tacchi Venturi a ordem de não insistir nessa
conditio sine qua non e seguir em frente com a mensagem que levaria o
conflito a um desfecho definitivo.” ASV, AESI, pos. 849, vol. 3, fasc.
519, ff. 91r-92v.
Ao mesmo tempo em que tentava amansar o papa, Gasparri também
bombardeava Mussolini com conselhos não solicitados. Em 14 de
julho, declarando-se um “amigo e admirador” do Duce (frase que
reproduzia antes de sua assinatura), Gasparri rogava-lhe que não fizesse
algo que pudesse agravar o conflito. ASV, AESS, pos. 515, fasc. 530,
p. 83r, Gasparri a Mussolini, 14 luglio 1931. Depois, em uma carta
enviada aparentemente após seu encontro com Tacchi Venturi,
Gasparri contou ao Duce que acabara de ser informado sobre a missão
do jesuíta. Declarando-se um “admirador e amigo de Vossa
Excelência”, implorou a Mussolini que aproveitasse a nova
oportunidade de encerrar o conflito entre a Igreja e o Estado. ASV,
AESS, pos. 515, fasc. 530, pp. 80r– 80v, Gasparri a Mussolini, n.d.
Uma anotação de Domenico Tardini explica que a carta é datada do
fim de julho ou dos primeiros dias de agosto, mas não há provas de
que tenha sido enviada.
27. Curiosamente, o diplomata francês atribuiu a falta de influência de
Pacelli à fúria do papa com seu irmão. O papa culpava Francesco
Pacelli por não prever o movimento do regime contra a Ação Católica
e não assegurar que a concordata possuísse uma linguagem mais clara e
que protegesse a organização. MAEI, vol. 266, 122-24, 6 août 1931,
Gentil au Ministre des Affaires Étrangères. Boatos diziam que Pacelli
seria substituído como secretário de Estado assim que a crise com a
Ação Católica fosse solucionada. “Pacelli to Quit Soon, the Vatican
Indicates”, NYT, 13 de agosto de 1931, p. 8.
28. A versão datilografada nos documentos particulares de Mussolini
refere-se a “Pio IX” em vez de Pio XI; talvez tenha sido um ato falho.
ACS, CR, b. 68, Roma, 2 settembre 1931.
29. “L’Accordo fra la Santa Sede e il governo italiano per l’Azione
cattolica”, CC, 1931, III, pp. 549-52. O segundo parágrafo tratava da
objeção de Mussolini em relação à existência de grupos distintos da
Ação Católica ligados a profissões específicas: eles corriam o risco de
competir com as sociedades profissionais fascistas, que possuíam o
monopólio sobre a organização do trabalho. Os grupos de profissionais
da Ação Católica deveriam se limitar a seu escopo de atividades
religiosas e dar todo o seu apoio às organizações profissionais do
regime. O último quesito especificava que os grupos locais da Ação
Católica não deveriam se engajar em nenhuma atividade esportiva, já
que todos os esportes organizados estavam sob a autoridade de grupos
esportivos fascistas. Isso representava um grande problema, pois os
esportes tinham sido uma das mais importantes atrações para recrutar
meninos para as divisões locais da Ação Católica; ver De Felice, 1974,
p. 275.
30. De Felice, 1974, p. 263.
31. Francesco Ferrari citado em Malgeri, 1994, p. 57. O renomado
historiador italiano do fascismo chegou à mesma conclusão. “Parece-
nos”, escreve Renzo De Felice (1974, pp. 270-71), “que não resta
dúvida de que, naquela época, o acordo representava uma derrota para
a Igreja.”
32. MAEI, vol. 266, 153-55, Gentil au Ministre des Affaires
Étrangères, 8 septembre 1931. No entanto, ao voltar das férias de
verão, Fontenay relatou que, em 3 de setembro, o papa convocou
uma reunião secreta com onze cardeais, chamando Gasparri, que
estava em seu retiro de verão nas montanhas, de volta a Roma. Dos
onze, dez teriam expressado seu apoio ao acordo a que ele queria
chegar. MAEI, vol. 266, 174–80, Fontenay au Ministre des Affaires
Étrangères, 29 septembre 1931. Dada a personalidade impetuosa do
papa e as consequências que um cardeal sofreria ao se expor à sua ira,
não fica muito claro quão revelador esse “voto” é.
33. MAEI, vol. 266, 167-69, Gentil au Ministre des Affaires
Étrangères, 17 septembre 1931.
34. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 3, ff. 46r-48r, Borgongini-Duca,
memorando escrito à mão, “Dopo il conflitto”, n.d.
CAPÍTULO 13: MUSSOLINI TEM SEMPRE RAZÃO
1.De Vecchi a Mussolini, 18 de janeiro de 1933, citado em De
Vecchi, 1998, p. 53n60. Um informante descreveu Ciriaci como “um
homem inteligente, competente, flexível e condescendente nas
relações entre a mais alta organização católica do reino, a qual preside,
e os órgãos do Estado fascista”. ACS, MI, FP “Ciriaci”, informatore
no 390, “Orientamento in senso nazionale e verso il Regime da parte
del Comm. Ciriaci”, 18 gennaio 1933.
2. Moro, 1981, pp. 289-91. O regime fascista, escreve Moro,
encorajou essa campanha de moralização, mas, como argumentarei
neste capítulo, isso só é verdade em parte. Em vários casos, a
campanha de moralização da Igreja pressionou o regime fascista um
pouco mais do que ele desejava. A campanha, que convocou os
membros da Ação Católica local a relatar comportamentos ofensivos às
autoridades da polícia local, começou na década de 1920. Um livreto
de setenta e duas páginas, Per la difesa della moralità, publicado pela
Secretaria Central pela Moralidade da Ação Católica nacional, já estava
na quarta edição em 1928. Louvando os esforços do governo fascista
no combate aos “efeitos desastrosos da liberdade que se degenerou em
licenciosidade”, ele oferecia um texto-padrão para grupos locais
usarem ao enviar denúncias às autoridades. ASV, AESI, pos. 929, vol.
1, fasc. 615, f. 35.
3. A imprensa fascista, atenta, noticiou o que chamou de “santo
esforço contra a imoralidade da moda feminina” de Pio XI. “Il papa
contro la moda femminile”, Il Regime Fascista, 22 giugno 1926, p. 2.
4. Esse controle era exercido por meio de licenças concedidas aos
estabelecimentos à beira-mar. ARSI, TV, b. 7, fasc. 393, “Circolare
per tutti i prefetti dal Ministero dell’Interno, 18 giugno 1926;
Oggetto: bagni”. Em 27 de junho de 1926, o ministro enviou uma
cópia da ordem a Tacchi Venturi, acompanhada de uma carta
expondo a seriedade com a qual o governo tratava a preocupação do
papa. Em uma audiência com o grupo de meninas católicas daquele
mês, o papa convocou uma cruzada nacional contra a imoralidade da
indumentária feminina. Em audiências com grupos de mulheres, ele
denunciava com frequência a moda feminina da época. O papa alertou
a um dos grupos em junho que o mundo lá fora fez de tudo para
convencer as mulheres a se esquecerem até mesmo do mais elementar
senso de dignidade feminina. “Il papa contro la moda femminile”, Il
Regime Fascista, 22 giugno 1926, p. 2. Em 1928, Tacchi Venturi,
seguindo as instruções do papa, fazia lobby com ministros do governo
a fim de expandir a ação repressiva contra o vestuário das meninas na
escola e em público. A indumentária indecente, argumentou ele, era
uma grande fonte de depravação. Se o governo tornasse crime para
uma mulher usar um vestido que não ficasse bem abaixo do joelho,
como deveria, “seria de grande conforto para o Vigário de Cristo”.
ARSI, TV, b. 15, fasc. 1067, 26 novembre 1928. A nota de Tacchi
Venturi exibia a observação “presentato a S.E. il 26 novembre 1928”.
S.E., ou “Sua Eccellenza” (Sua Excelência), pode se referir a
Mussolini, mas também a um dos ministros do governo. Bressan
(1980, pp. 106-8) narra a atenção excessiva que as páginas do jornal
L’Osservatore romano dedicavam às questões de “imoralidade” e às
pressões exercidas sobre autoridades governamentais para que
tomassem medidas mais agressivas.
5. ACS, CR, b. 68, Tacchi Venturi a Mussolini, 3 febbraio 1929.
Uma cópia da carta de Tacchi Venturi é encontrada em seu próprio
arquivo: ARSI, TV, b. 16, fasc. 1.133.
6. Com o intuito de criar mulheres saudáveis, explicou La Civiltà
Cattolica (1928, II, p. 367-72), “não era necessário treiná-las para saltar
quatro metros”. Tanto a embaixada americana em Roma quanto a
britânica na Santa Sé sentiam que o protesto do papa em relação ao
evento de ginástica feminina era digno de ser relatado a seus governos.
NARA, M530, rolo 2, Henry Fletcher ao secretário de Estado, n.
1.691, 11 de maio de 1928; H.G. Chilton, Annual Report 1928, 9 de
maio de 1929, C 3397/3397/22, em Hachey, 1972, p. 142, seção 55.
7. CC 1930 I, pp. 460-61. Em uma reunião no fim de 1932, quando
Borgongini entregou a Mussolini um exemplar do último número de
La Civiltà Cattolica , o Duce a dispensou com um aceno, dizendo que já
sabia o que estava escrito, acrescentando “é uma revista que sempre
leio com muita atenção”. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 4, ff. 47r 48r,
Borgongini a Pacelli, 22 novembre 1932.
8. “Se eu fosse proibir a competição”, disse Mussolini voltando ao
assunto, “e as pessoas descobrissem que eu o fiz por ordens do Santo
Padre, seria uma confusão.” ASV, ANI, pos. 23, fasc. 3, ff. 28r-34r,
Borgongini a Pacelli, 14 febbraio 1931. Esse foi um pedido do papa
que ele rejeitou. Sobre os protestos anteriores do pontífice a respeito
de ginástica feminina e eventos esportivos, ver CC, 1928, II, pp. 367-
72; ASV, AESI, pos. 773, fasc. 317, ff. 77r-85r, 28 settembre 1929;
CC, 1930, I, p. 460. Na verdade, as políticas do regime referentes às
mulheres são controversas; algumas estão bem afinadas com os
ensinamentos da Igreja, como a oposição ao controle de natalidade e
as medidas para desencorajar as mulheres a trabalharem fora de casa;
outras apoiam atividades recreativas para garotas e mulheres que a
Igreja desaprovava. Ver, entre outras obras sobre o fascismo e as
mulheres, De Grazia, 1992.
9. ASV, AESI, pos. 902, fasc. 596, ff. 49r-50r.
10. Ibid., f. 51r, 16 settembre 1932.
11. Na vez seguinte que o bispo escreveu para convocar uma ação do
Estado, ele o fez diretamente para o monsenhor Giuseppe Pizzardo,
um dos homens mais próximos ao papa e funcionário do Vaticano
responsável pela Ação Católica: “Este ano está pior. Desde a manhã
até a noite, em qualquer rua e em pequenas piazze, diversas mulheres
(em especial estrangeiras e mulheres do norte da Itália) são vistas
vestidas de uma maneira tão indecente que chega a ser um espetáculo
nauseabundo (...) Poderia a Autoridade Central na Chefia do Governo
não ter sido obrigada a tomar parte nisso?” ASV, AESI, pos. 902, fasc.
596, f. 52r, 20 de agosto de 1933.
12. Em 23 de janeiro de 1933, Augusto Ciriaci, presidente nacional da
Ação Católica, escreveu diretamente para Mussolini a fim de elogiá-lo
por tudo o que fizera até então e para indicar áreas onde eram
necessários mais esforços. A Ação Católica continuaria a colaborar
com o regime, a contribuir com a grandeza da pátria, escreveu Ciriaci.
O governo deveria banir filmes e peças subversivos, confiscando
revistas e livros imorais. “Não estamos pedindo novas leis”, concluiu
Ciriaci. “Pedimos apenas que as excelentes leis atuais — que, na
verdade, existem em grande parte graças à sabedoria e à força de Vossa
Excelência — sejam respeitadas e aplicadas com bastante vigor.” ASV,
AESI pos. 929, vol. 1, fasc. 616, ff. 31r-36r. Nos anos 1930, a batalha
do papa contra roupas reveladoras foi compatível até certo ponto com
a campanha pró-fertilidade de Mussolini, que enxergava a liberação da
mulher de seu tradicional papel doméstico como uma causa para o
declínio da natalidade. Em julho de 1933, por exemplo, o governo
mandou os editores de jornais não publicarem fotos de mulheres nuas
“porque elas constituem um elemento antidemográfico”. Dois anos
depois, Ciano reclamou de revistas que haviam publicado fotos de
mulheres em trajes de banho reveladores, mais uma vez sob o
argumento de que eram “antidemográficas”. Tranfaglia, 2005, pp.
171, 177.
A batalha do papa pela decência pública também mirou o “escândalo”
da dança pública, na qual os corpos de homens e mulheres se tocavam.
Em junho de 1933, a pedido do pontífice, Pacelli escreveu a todos os
bispos do norte da Itália, onde achavam que o problema era mais
acentuado, pedindo-lhes que relatassem sobre as condições de suas
dioceses. Em resposta, o arcebispo de Milão expressou sua esperança
de que o ministro de Assuntos Internos pudesse ser persuadido “a
considerar a voz do episcopado do norte da Itália no que concerne a
esse assunto”. Para ilustrar a gravidade do problema, ele incluiu uma
carta que recebera pouco antes do bispo de Cremona, informando que
as organizações fascistas locais, em maior destaque os grupos sociais de
dopolavore (“após o expediente”), transformaram as danças públicas em
“uma indústria organizada”. A polícia nada fez, reclamou o bispo. Um
de seus párocos tentou persuadir o líder de um desses grupos a realizar
danças com menos frequência, mas ouviu em resposta que muitos
homens se filiavam por causa das danças. ASV, AESI, b. 935, fasc. 628,
ff. 2r-3v. A batalha do Vaticano contra a dança pública continuou
durante o fim do papado de Pio XI, para consternação da hierarquia
fascista. O lamento de Bonificio Pignatti, que em 1935 substituiu
Cesare De Vecchi como embaixador de Mussolini na Santa Sé, foi
simbólico: “Infelizmente, no que diz respeito às danças populares, à
atitude da Santa Sé, desde o papa até abaixo, é inabalável, e não há
esperança de se obter nenhuma mudança.” ASMAE, APSS, b. 42,
Pignatti a Starace, 10 settembre 1938.
13. ASV, AESS, pos. 430b, fasc. 360, f. 115, 14 marzo 1934. A
referência de De Vecchi ao silêncio do governo no que tangia aos
casos de imoralidade clerical deve ter sido, em parte, inspirada pelos
relatórios de seus espiões sobre os cardeais que teriam relações com
garotos, homens e meninas. “A pele exposta não precisa ser de
verdade para atrair a atenção do papa ou induzi-lo a agir.” Em
outubro de 1937, o pontífice soube que estátuas de nus haviam sido
recentemente expostas em um museu, por isso ele enviou Tacchi
Venturi para fazer algo a respeito. O curador, que ouvira falar da
objeção do papa, assegurou a Tacchi Venturi que as “quatro ou cinco
estátuas masculinas que lhe são tão deploráveis foram removidas de
imediato, para que uma abundante ramagem de folhas de figo possa ser
aplicada”. ASV, AESI, pos. 985, fasc. 669, ff. 4r-5r.
14. O papa fez seu pedido por meio de Tacchi Venturi. ACDF, S.O.,
1930, 1413/30i, Tacchi Venturi a Cardinale Donato Sbarretti, S.O.,
13 aprile 1933. No fim do mesmo ano, Tacchi Venturi apresentou ao
chefe de polícia, Arturo Bocchini, uma lista de revistas estrangeiras,
preparada pelo escritório central da Ação Católica, que ele queria ver
banidas. Ao terminar de ver a lista, Bocchini explicou que não poderia
confiscar todos os títulos, mas prometeu banir a maioria. Ao relatar o
assunto a Pizzardo, Tacchi Venturi destacou em especial a promessa
do chefe de polícia: se Tacchi Venturi chamasse a atenção dele para
outros títulos, seu escritório avaliaria com extremo cuidado os pedidos
de censura. “Ocasiões para tirarmos proveito dessa oferta,
infelizmente, não faltarão!”, concluiu Tacchi Venturi, permitindo-se,
em seu entusiasmo, um ponto de exclamação que não lhe era
característico. AESI, pos. 929, vol. I, fasc. 617, ff. 2r-3r. Para o papel
de Tacchi Venturi de assegurar que os artigos que tratavam de assuntos
do interesse da Igreja em sua influente Enciclopedia italiana fossem
aprovados da Igreja, ver Turi, 2002.
15. ASV, AESI, pos. 669, fasc. 132, ff. 34r-35r, Tacchi Venturi a
Gasparri, 23 gennaio 1929. O Vaticano também pressionou o governo
a evitar a educação sexual nas escolas públicas, como fica evidente em
um telefonema de Pizzardo à embaixada italiana na Santa Sé
interceptado em 25 de abril de 1935. ACS, MCPG, b. 165, n. 3.093.
Um trabalho teatral poderia ser banido por ofender o papa ou incitar
desdém pelo “sentimento religioso”. Talbot, 2007, pp. 148-49.
16. “Italy Bans Sex Appeal in Pictures”, LAT, 20 de março de 1931,
p. 4. Borgongini instava Mussolini, em 19 de janeiro, a adotar uma
censura rigorosa sobre filmes e peças teatrais; ele achou que o Duce
não foi muito receptivo. ASV, ANI, b. 23, fasc. 3, Borgongini a
Pacelli, 20 gennaio 1931.
17. Embora os casos que discuto abaixo tenham seu foco em
professores universitários, a maior parte das queixas papais a Mussolini
diziam respeito a ex-padres que passaram a lecionar em escolas
públicas, mais comumente em escolas primárias. O papa insistia para
que fossem demitidos.
18. Após uma breve reabilitação, foi excomungado em definitivo em
janeiro de 1926. Antes de tomar a decisão, o Santo Ofício pediu ao
padre Gemelli que o investigasse e desse sua opinião; ver Martina,
2003, p. 238; Zambarbieri, 1982a. O professor modernista, como
relatou Gemelli ao Vaticano, precisava de tratamento “não pelo
sacerdócio, mas por profissionais especializados em tratar pessoas
infelizes com desvios psíquicos”. Citado em Luzzato, 2010, p. 142.
19. Em abril de 1924, Tacchi Venturi encontrou-se com o então
ministro da Educação, Giovanni Gentile, com o intuito de que ele
afastasse Buonaiuti. Sale, 2007, p. 335.
20. ARSI, TV, b. 9, fasc. 527, Tacchi Venturi a Gasparri.
21. Ao relatar isso a Mussolini, Fedele o avisou de que se curvar à
pressão papal e sujeitar o corpo docente da universidade à aprovação
do pontífice seria um desastre. DDI, série 7, vol. 5, n. 11, Fedele a
Mussolini, 11 febbraio 1927. Ao longo daquele ano, como o papa
continuou a fazer pressões por Tacchi Venturi, Fedele por fim
chamou Buonaiuti, explicou a situação e pediu a ele que aceitasse
deixar o posto de professor e tirar uma licença para realizar pesquisas.
Buonaiuti, chateado, atentou para o fato de que não havia base legal
para impedi-lo de lecionar, mas concordou com relutância. “É uma
grande concessão feita pelo governo à Santa Sé!”, escreveu Fedele a
Mussolini, ao contar as novidades. ACS, CR, b. 68, Fedele a
Mussolini, 17 ottobre 1927.
22. Buonaiuti criticou duramente o fascismo enquanto promovedor
de uma adoração pagã do Estado. Zambarbieri, 1982a, p. 64; Goetz,
2000.
23. As negociações de 1931 eram conduzidas por Borgongini e Dino
Grandi, na época ministro do Exterior de Mussolini. ASV, ANI, pos.
23, fasc. 2, ff. 99r-101r, Borgongini a Pacelli, 4 giugno 1930;
ASMAE, APSS, b. 6, Borgongini a Grandi, 17 aprile 1931; a resposta
sem data de Grandi também é encontrada no mesmo arquivo. O
conselho do ministro da Educação sobre o caso de Saitta é encontrado
em um memorando publicado em DDI, série 7, vol. 10, n. 342, 19
giugno 1931.
24. Petacci, 2010, pp. 129-30; R. Mussolini, 2006, pp. 88-89.
25. Navarra, 2004, p. 52.
26. Mack Smith, 1983, p. 6.
27. Entrevista de C. Drexel, dezembro de 1934, em De Felice, 1974,
p. 866.
28. Entrevista de H. Massis, setembro de 1933, ibid., p. 854.
29. Aos cinquenta e um anos, quando conduziu uma série de
entrevistas com o Duce em março de 1932, Ludwig já era famoso por
entrevistar outros líderes mundiais, desde o fundador da Turquia
moderna, Mustafa Atatürk, a Joseph Stalin.
30. Ludwig, 1933, p. 62.
31. Ibid., pp. 126-27.
32. Cannistraro e Sullivan, 1993, pp. 383-84; Urso, 2003, pp. 193-94.
33. Cannistraro e Sullivan, 1993.
34. Ludwig, 1933, pp. 222-23.
35. Bosworth, 2002, p. 243.
36. Monelli, 1953, pp. 119-26. O poder sagrado que agora emanava
do ditador era tanto que seu assistente, Navarra, tinha dificuldade em
encontrar um barbeiro disposto a barbeá-lo. Um policial da segurança
de Mussolini narrou com detalhes que uma vez um barbeiro enfim
aceitara o trabalho, mas, ao aproximar a lâmina do rosto do Duce,
começara a tremer descontroladamente. Navarra, 2004, pp. 39-40.
37. Citado em Franzinelli e Marino, 2003, p. xi.
38. De Vecchi, 1983, pp. 223-24.
39. Citado em Franzinelli e Marino, 2003, p. xii.
40. Bosworth, 2002, pp. 44-46.
41. Citado em Navarra, 2004, p. 21.
42. De Felice, 1974, pp. 174, 300-3.
43. Gentile (1993, pp. 283-85) reproduz trechos extensos do artigo
publicado em 24 de março de 1932 no Il Popolo d’Italia. Para uma
análise dos aspectos ritualísticos dos discursos de Mussolini e do
impacto que causavam, ver Galeotti, 2000, pp. 49-50.
44. Franzinelli, 1995, pp. 171-72. O número da filiação é de 1934.
Em abril de 1928, Tacchi Venturi parabenizou o líder nacional do
PNF pela recente promulgação dos oito mandamentos para guiar
todos os grupos de juventude femininos fascistas (terceiro
mandamento: ame o Duce). Mas ele percebeu uma omissão muito
óbvia — não havia menção a Deus — e, para reparar isso, propôs que
fosse acrescentado um nono mandamento: “Tema e ame a Deus,
origem e fonte de todo o bem.” ARSI, TV, b. 13, fasc. 878, Tacchi
Venturi a Augusto Turati, 28 aprile 1928. Turati retrucou que o
acréscimo proposto era desnecessário, uma vez que já estava implícito:
“Todo o espírito que permeia essas normas é o espírito cristão e
católico.” Ibid., Turati a Tacchi Venturi, 2 maggio 1928.
45. Franzinelli (1995, p. 140) observa que o comportamento do padre
seria cômico se não ilustrasse o nível pavoroso de servilismo que
muitos clérigos mostraram diante de seu “santo Duce”.
46. Brendon, 2000, p. 133. A imagem do Duomo é reproduzida em
Gentile, 1993, p. 173.
47. ASV, AESI, pos. 812, fasc. 444, ff. 7r-13r, Pizzardo a Cazzani, 21
novembre 1932. Nesse caso, o bispo Giovanni Cazzani manteve seu
posicionamento, escrevendo que seria humilhante para um padre fazer
o que estava sendo sugerido.
48. Ver Wolff, 1985, pp. 239, 245; Bendiscioli, 1982.
49. Goetz, 2000; Falasca-Zamponi, 1997, pp. 110, 203-4.
50. Citado em Reineri, 1978, p. 183.
51. Noventa e seis por cento do total de eleitores votaram. Ver De
Felice, 1974, p. 313.
CAPÍTULO 14: O INIMIGO PROTESTANTE E OS JUDEUS
1.De acordo com De Vecchi, a visita quase fora cancelada no último
instante, já que no dia anterior Mussolini ficara furioso com o fato de
que L’Osservatore Romano não mencionara nem uma vez o evento
iminente. Foi só com a intervenção do monsenhor Pizzardo e a
publicação de uma edição especial vespertina do jornal do Vaticano
com a notícia que De Vecchi persuadiu Mussolini a ceder e prosseguir
com a visita. De Vecchi, 1983, pp. 219-21.
2. Na semana seguinte, uma matéria anunciava que a visita seria
“quase com certeza” naquela semana. Arnaldo Cortesi, “Mussolini’s
Visit to Pope Arranged (...) Event May Occur Today”, NYT, 17 de
setembro de 1931, p. 13. O embaixador francês relatou que o
encontro fora marcado para 19 de setembro, mas Mussolini desistira
no último momento, já que uma visita às vésperas da abolição do
feriado de 20 de setembro “poderia ser interpretada com uma
capitulação”. MAEI, vol. 266, 178, Fontenay au Ministre des Affaires
Étrangères, 29 septembre 1931.
3. MAEI, vol. 266, 209-11, Fontenay au Président du Conseil,
Ministre des Affaires Étrangères, 17 janvier 1932.
4. O cardeal Pacelli relatou isso em suas anotações de 27 de
novembro, com base em uma conversa com Tacchi Venturi. ASV,
AESS, pos. 430b, fasc. 357, f. 68. Em 19 de dezembro de 1931, uma
anotação classificada como “ditada pelo Santo Padre para o
Eminentíssimo Pacelli” levou Tacchi Venturi a informar a Mussolini
que o papa decidira — “depois de refletir um pouco” — aceitar a data
de 11 de fevereiro proposta para o encontro. Ele também deveria
dizer ao Duce que o pontífice podia interpretar isso como uma
expressão da redenção de Mussolini por infringir a concordata no que
dizia respeito ao recente tratamento dispensado à Ação Católica.
“Devo dizer isso porque, se Mussolini comparecer no dia, o Santo
Padre o receberá, fará com que se sente e então dirá, talvez com um
sorriso, que havia aceitado de bom grado a data (...) porque acredita
que [Mussolini] desejava, com um objetivo louvável, fazer, de forma
honrosa, retificações pela violação dos artigos 43 e 44 [os artigos que
permitem que a Ação Católica funcione livremente].”
5. Poucos dias antes, Borgongini tinha ido ao palácio Quirinal a
pedido do papa para entregar ao rei Vítor Emanuel III o Colar da
Ordem Suprema de Cristo. “Dopo il conferimento dell’Ordine
Supremo di Cristo a S.M. il Re d’Italia”, OR, 7-8 gennaio 1932, p. 1.
Depois, para completar a miscelânea, o núncio conferiu a Grã-Cruz da
Ordem Piano a Cesare de Vecchi e ao ministro do Exterior, Dino
Grandi. “La Gran Croce dell’Ordine Piano al Ministro italiano Grandi
e all’Ambasciatore De Vecchi”, OR, 12 gennaio 1932, p. 2. O
embaixador francês da Santa Sé foi avisado com antecedência sobre as
honras papais planejadas para o rei, Mussolini e os outros. Ele foi
levado a crer que Pio XI decidira distribuí-las em resposta à
manifestação de desagrado do governo em relação ao fato de as honras
que Mussolini conferira a Pacelli, Borgongini e Tacchi Venturi não
terem sido recíprocas. MAEI, vol. 266, 202-4, Fontenay au ministre
des Affaires Étrangères, 8 janvier 1932.
6. “Nostre informazioni”, OR, 12 febbraio 1932, p. 1. O incidente
com a mulher expulsa foi descrito por Morgan (1939, pp. 190-97),
que estava presente como convidado quando se deu o ocorrido, que
não foi noticiado nem pelo Vaticano, nem pela mídia italiana.
7. A ilustração apareceu na capa da edição de 21 de fevereiro de 1932
de La Domenica del Corriere. Quando a edição italiana do livro com capa
de couro de Emil Ludwig contendo as entrevistas realizadas com
Mussolini foi publicada, um dos parágrafos que mais ofendeu o papa
foi o da descrição que o Duce fez de como recusara se curvar ou beijar
o anel do pontífice. Esse e outros parágrafos que Pio considerou
censuráveis — incluindo um em que Mussolini dissera que as pessoas
deveriam decidir por si mesmas como adorar a Deus — foram
expurgados da edição italiana depois da primeira impressão. MAEI,
vol. 266, 255, Charles-Roux à président du Conseil, 29 juillet 1932;
ibid., 291-92, 27 ottobre 1932; Chiron, 2006, p. 293. Em julho, de
acordo com o vice de De Vecchi na embaixada italiana, Mussolini
dissera que, ao publicar seus comentários sobre a Igreja, “aquele judeu
me traiu”. ASV, AESI, pos. 887, fasc. 593, f.42r, 15 luglio 1932. Em
10 de novembro, Tacchi Venturi informou com satisfação que uma
nova edição da entrevista de Ludwig estava saindo — tinha cinco
páginas a menos; todas as passagens censuráveis na seção “Roma e a
Igreja” tinham sido deletadas. ASV, AESI, pos. 667, fasc. 128, f. 48r.
8. David Darrah, “Pope and Duce Clasp Hands in Friendship Pact”,
CDT, 12 de fevereiro de 1932, p. 10; Arnaldo Cortesi, “Pope and
Mussolini Show Warm Feeling in Vatican Meeting”, NYT, 12 de
fevereiro de 1932, p. 1.
9. O relato de Mussolini, escrito à mão e endereçado ao rei, sobre o
encontro com o papa pode ser encontrado em ACS, CV, b. 1, fasc.
34; uma cópia publicada está disponível em DDI, série 7, vol. 11, n.
205. A pompa em torno da visita é descrita em CC, 1932, I, pp. 480-
81.
10. “Sgr. Mussolini and the Pope”, [London] Times, 12 de fevereiro
de 1932, p. 11.
11. E. Mussolini, 1957, p. 135.
12. Mas Fontenay, o embaixador francês na Santa Sé, preocupou-se
com o fato de que a troca de honrarias tivesse deixado os católicos
com a impressão de “uma espécie de reconhecimento do fascismo pela
Santa Sé”. MAEI, vol. 266, 229-31, Fontenay à président du Conseil,
ministre des Affaires Étrangères, 4 mars 1932; e vol. 232-33, 10 mars
1932. A carta de Tacchi Venturi para Mussolini, agradecendo-lhe pela
honraria, encontra-se em ACS, CR, b. 68, 7 marzo 1932. Em uma
carta ao superior-geral da Ordem Jesuíta, Tacchi Venturi também
informou que De Vecchi lhe dissera que Mussolini queria prestar
honras aos jesuítas por tudo o que tinham feito para promover o
entendimento entre o governo italiano e a Igreja. ARSI, TV, b. 20,
fasc. 1534, Tacchi Venturi a Ledóchowski, 3 marzo 1932.
13. Esses comentários foram feitos no fim de 1932. MAEI, vol. 266,
298-99, Charles-Roux à président du Conseil, 15 decembre 1932.
14. ASMAE, AISS, b. 4, protocollo 24, De Vecchi a Mussolini,
Roma, 21 luglio 1929; De Vecchi, 1998, pp. 15-16.
15. Arnaldo Cortesi, “Pope Pius at 75: Scholar and Leader”, NYT
Magazine, 29 de maio de 1932, p. 3.
16. C. Wingfield, Annual Report 1934, 12 de janeiro de 1935, R
402/402/22, em Hachey, 1972, pp. 287-88, seções 138-40.
17. Tardini, 1988, p. 296 (entrada para 13 febbraio 1934); Charles-
Roux, 1947, p. 62.
18. Papin, 1977, pp. 56, 62; Confalonieri, 1957, p. 188; Ottaviani,
1969, pp. 504-5.
19. Pierre van Paassen, “A Day with the Pope”, BG, 11 de fevereiro
de 1934, p. C5.
20. Tardini, 1988, p. 313; Charles-Roux, 1947, p. 23. Sobre Tardini,
ver Riccardi, 1982 e Casula, 1988.
21. Tardini, 1988, p. 355.
22. Confalonieri, 1969, pp. 42-43.
23. o R.H. Clive, Annual Report 1933, 1 de janeiro de 1934, R
153/153/22, em Hachey, 1972, p. 259, seções 117, 118; Agostino,
1991, p. 19.
24. ARSI, TV, b. 8, fasc. 442, 446. Nos meses que se seguiram após a
assinatura dos acordos, Tacchi Venturi continuou a pressionar em
nome do papa. Em maio de 1930, ele enviou a Mussolini uma lista
com a localização de igrejas protestantes na Itália. RSI, TV, b. 19, fasc.
1.408, “Protestanti. La situazione in Italia nel 1930”, com um
rascunho de Tacchi Venturi a Mussolini, 3 maggio 1930.
25. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 2, ff. 129r-130r, 4 giugno 1930.
26. “O Santo Padre”, relatou o monsenhor Pizzardo ao núncio em
fevereiro de 1931, “revelou-me que o verdadeiro e grave perigo que
ameaçava a unidade religiosa e nacional dos italianos encontrava-se na
crescente propaganda protestante, sobre a qual o governo parece não
se preocupar de maneira adequada”. O zelo de Mussolini “por uma
defesa louvável da unidade espiritual da nação” deveria, argumentava
o papa, “ser direcionado com energia suficiente contra a supracitada
propaganda herética e estrangeira”. Borgongini passou esse pedido
papal adiante em seu encontro no dia seguinte com De Vecchi. ASV,
ANI, pos. 49, fasc. 2, f. 21r, 15 febbraio 1931.
No intervalo entre as duas guerras mundiais, o Vaticano lançou uma
agressiva campanha antiprotestante. Moro, 2003, p. 317. O papa
ajudou a estabelecer o espírito da coisa em sua encíclica de 1928,
Mortalium animos, proibindo os católicos de participar de organizações
ou encontros que encorajassem o diálogo entre diferentes grupos
cristãos: “Portanto, Venerável Brethren, está claro por que esta Sé
Apostólica nunca permitiu que seus indivíduos tomassem parte em
assembleias não católicas: pois a união dos cristãos só pode ser
promovida ao promover o retorno à única verdadeira Igreja de Cristo
daqueles que estão desligados dela, pois no passado tinham-na
abandonado, infelizes. À única verdadeira Igreja de Cristo, dizemos, a
qual é visível a todos e que vai permanecer, de acordo com a vontade
de seu Autor, exatamente como Ele instituiu.” O texto em inglês da
encíclica está disponível em
http://www.papalencyclicals.net/Pius11/P11MORTA.HTM. Ver
também Perin, 2011, p. 151.
27. ASV, ANI, pos. 49, fasc. 2, ff. 122r-122v, 14 maggio 1931,
Alanna. A Igreja se posicionou veementemente contra as tentativas
protestantes de estabelecer igrejas na Itália e pressionou oficiais do
governo a fim de evitar essas construções. Algumas são discutidas em
Rochat, 1990, pp. 218-22. Em 8 de abril de 1931, bem quando a crise
da Ação Católica estava se avolumando, Borgongini disse a De Vecchi
que o papa queria que o governo agisse “energicamente a fim de dar
um fim a essa propaganda insana”. De Vecchi tentara acalmar o
núncio, lembrando-lhe de que a concordata permitia que membros de
outras religiões conduzissem suas atividades religiosas em paz. Mas,
atento à irritação crescente de Pio com o tratamento recebido pela
Ação Católica, o embaixador viu uma nova maneira de fazer o
pontífice recuar. Uma vez que as relações entre as duas partes
voltassem “ao caminho certo”, disse ele ao núncio, o governo
encontraria uma maneira de satisfazer o desejo do papa de evitar essa
conversão protestante. AESI, pos. 794, fasc. 389, f. 55r, 9 aprile 1931.
Alguns meses depois, La Civiltà Cattolica seguiu nessa linha com um
artigo sob o título “O dever dos católicos em vista da propaganda
protestante na Itália”. Começava perguntando se a Itália enfrentava de
fato um “perigo protestante”, respondendo com um retumbante sim.
O protestantismo significa a “descristianização”, informou a revista
supervisionada pelo Vaticano a seus leitores. E conectava o inimigo
protestante com outro inimigo, o liberalismo, descrito como de
“origem puramente protestante”. A revista então publicou um
chamado à ação. Sob o título “Desmascare o Inimigo!”, alertava para
uma vasta conspiração protestante. Felizmente, informava a revista a
seus leitores, a Igreja Católica Romana tinha a seu lado o Duce, pois
ele também percebia o perigo à unidade nacional caso os italianos se
afastassem da Igreja com base em Roma. “Il dovere dei cattolici di
fronte alla propaganda protestante in Italia”, CC, 1932, IV pp. 328-
43. Em um artigo de 1932, L’Osservatore Romano descreveu a igreja
valdense, a maior comunidade protestante italiana, localizada no
nordeste do país, como “un’associazione a delinquere”, uma organização
criminosa, termo associado com a máfia hoje em dia. Spini, 2007, p.
133.
28. ASV, ANI pos. 23, fasc. 4, ff. 47r-47v, Borgongini, “Udienza del
Capo del Governo”, 22 novembre 1932.
29. ASV, ANI, pos. 23, fasc. 5, ff. 15r-19r, Borgongini a Pacelli, 18
marzo 1933. A reunião com Mussolini ocorreu em 14 de março.
30. A Igreja estava abertamente forçando essa teoria da conspiração
durante esses anos. Em maio de 1931, em resposta ao pedido do
Vaticano para que os bispos da Itália relatassem atividades locais
protestantes, o bispo de Monopoli, próximo a Bari (no sul da Itália),
lamentou a existência de um grupo de protestantes em sua diocese.
Eles eram liderados por imigrantes dos Estados Unidos, relatou ele.
Adotando a visão de que os protestantes buscavam subverter tanto a
Igreja Católica quanto o regime fascista, ele recorreu às autoridades
com o intento de pôr um fim a isso. Mas temia que o governo não
tomasse as medidas necessárias para não ofender os Estados Unidos,
sob o domínio de judeus e maçons, que estavam por trás das tentativas
protestantes de minar a Igreja Católica. Perin, 2010, pp. 147-48.
31. A omissão consta no original.
32. ASV, AESI, pos. 855, fasc. 548, ff. 38r-39r.
33. “La rivoluzione mondiale e gli ebrei”, CC, 1922, IV, pp. 111-21.
34. Na parte III, vou falar sobre o papel do Vaticano na preparação do
terreno para a introdução das “leis raciais” antissemitas da Itália.
35. “Il socialismo giudeo-massonico tiranneggia l’Austria”, CC, 1922,
IV, pp. 369-71.
36. O Vaticano havia muito enxergava a maçonaria como um de seus
inimigos mais perigosos. O primeiro grupo surgiu em Roma, em
1724, sete anos após o início da organização, em Londres. Começando
em 1738, sob o papa Clemente XII, aqueles que se juntavam aos
maçons eram excomungados e difamados por terem juntado os
católicos com os protestantes, os judeus e os sem credo. Os maçons,
vistos como a fonte da secularização e uma alternativa para a sociedade
centrada na Igreja, seriam responsabilizados mais adiante pela
Revolução Francesa, bem como pela unificação italiana e pelo
desaparecimento dos Estados Papais.
Em sua encíclica Humanum genus, de 1884, o papa Leão XIII lançou
uma nova campanha antimaçônica, tachando a maçonaria de
“sinagoga de Satanás”. Nas duas últimas décadas do século XIX, La
Civiltà Cattolica e outras publicações católicas alertavam
incessantemente sobre uma conspiração judaico-maçônica. Em breve
acrescentariam um terceiro inimigo, o socialismo, ao eixo do mal.
Uma vasta conspiração judaico-maçônico-socialista, segundo eles,
tinha o objetivo de destituir tudo o que era bom e cristão na Europa e
substituí-lo por uma ordem mundial dirigida por judeus. O novo
Código de Direito Canônico de 1917 confirmou a excomunhão dos
maçons. Vian, 2011, pp. 106-16. A primeira associação maçônica
nacional da Itália se originou com a unificação italiana, em 1859, e
rapidamente estabeleceu lojas por grande parte do país. Vendo a Igreja
como o principal bastião de regimes reacionários enraizados na Idade
Média, os maçons eram apoiadores ferrenhos do novo governo
italiano, que acabara de tomar o lugar dos Estados Papais. Defendendo
a igualdade entre todas as religiões, eles fizeram campanha para manter
os sacerdotes fora das escolas públicas. O membro mais proeminente
dos maçons foi o emblemático Giuseppe Garibaldi, herói da unificação