O Papa e Mussolini

David I. Kertzer · Capítulo 36 de 38 · parte 5/7

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O Papa e Mussolini

Notas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Rothschild, se chama de Mandel. Mas ele é um judeu, vendido para a

Inglaterra, inimigo declarado da Itália”. O Duce continuou a

vociferar: “O governo é constituído por catorze maçons e três judeus.

A maçonaria judaica — que, segundo os Protocolos dos Sábios de

Sião, ‘corrompem até os cachorros’, isto é, os católicos — conseguiu

transformar os franceses em idiotas.” ASV, ANI, pos. 23, fasc. 8, ff.

4r-8r.

40. DDF, série 2, vol. 1, n. 447, Charles-Roux à Flandin, 17 mars

1936.

41. Milza, 2000, pp. 726-27. O mais fascista dos fascistas e praga do

Vaticano, Roberto Farinacci teve concedido seu pedido de se juntar às

forças aéreas na Etiópia. Sua chegada deu-se em fevereiro, mas ele não

durou muito. Em abril fez uma pausa nos bombardeios às tribos

indefesas e foi pescar em um pequeno lago. Sem equipamento de

pesca, ele e seus camaradas decidiram usar as suas granadas de mão.

Talvez distraído com as brincadeiras dos amigos, ele segurou a granada

por tempo demais, e ela explodiu em sua mão. Farinacci retornou à

Itália algumas semanas depois para ser recebido como um herói e

experimentou sua nova prótese de metal. O governo divulgou a

história de que o bravo líder tinha sido ferido durante um exercício

militar. Fornari, 1971, p. 161; Bottai, 2001, p. 102.

42. Mockler, 2003, pp. 133-42.

43. Mais tarde, naquela semana, Charles-Roux informou que Tacchi

Venturi era um “ami personnel”, um amigo pessoal, do ditador. DDF,

série 2, vol. 2, n. 185, Charles- Roux à Flandrin, 8 mai 1936.

44. ACS, CR, b. 68, Tacchi Venturi a Mussolini, Roma, 6

maggio1936.

45. Ojetti, 1939, pp. 116-20; Morgan, 1941, pp. 188-91.

46. DDF, série 2, vol. 2, n. 287, Chambrun à Delbos, 10 juin 1936.

47. “Pope Gives Up All Exercise as 80th Year Approaches” e

“Vatican Easter Quietest in Years”, BG, 13 de abril de 1936, p. 2.

48. ASMAE, APSS, b. 31, Mussolini a Ambasciata presso la Santa

Sede, Roma, telegramma in partenza, 14 maggio 1936.

49. ASV, AESS, pos. 430b, fasc. 363, f. 57, “Il Ministro d’Inghilterra”,

15 maggio 1936.

50. DDI, série 8, vol. 4, n. 78, Pignatti a Mussolini, 19 maggio 1936.

Pignatti conclui: “Eu também vou ficar de olho nas ações da Santa Sé

para ser capaz, se for preciso, de direcioná-las a entrar em

conformidade com a informação e as instruções do Ministério Real.”

DDF, série 2, vol. 2, n. 287, Chambrun à Delbos, ministre des affaires

etrangères, 10 juin 1936.

51. De Felice, 1974, pp. 756-7.

52. DDI, série 8, vol. 4, n. 40, Pignatti a Mussolini, 14 maggio 1936.

53. Navarra, 2004, p. 86.

54. Citado em De Felice, 1974, p. 759.

55. O ditador também estava ficando cada vez mais cínico. Qualquer

um ou qualquer coisa que ficasse em seu caminho tinha quer ser

superada. Italianos precisam de música e bandeiras para mexer com

eles, disse o Duce a um entrevistador estrangeiro em maio de 1936.

“A multidão é desorganizada e dispersa como um rebanho, até que

seja instruída e guiada”, disse ele, usando uma de suas imagens

favoritas. “Não precisam saber, precisam de fé, pois a fé move

montanhas (...) A verdade é que a inclinação do nosso homem

moderno a crer é absolutamente incrível!” Citado em De Felice,

1974, p. 799.

56. Galeotti, 2000, pp. 29-30.

 

CAPÍTULO 18: SONHOS DE GLÓRIA

 

1.Chiron, 2006, p. 371.

2. Citado por Pacelli em seu livro de notas, ASV, AESS, pos. 430a,

fasc. 352, f. 81, 30 dicembre 1935. Sobre a campainha, ver Charles-

Roux 1947, p. 13.

3. DGFP, C 4b, n. 482, embaixador Bergen ao ministro das Relações

Exteriores Neurath, Roma, 4 de janeiro 1936. Pacelli estava ávido

para evitar enfurecer Hitler e por isso sempre mostrou-se solícito ao

lidar com o embaixador alemão. Mas, para os outros, de vez em

quando deixava sua raiva aflorar. Em 1936, Anton Mussert, líder do

partido nazista holandês, fora encontrá-lo e, na tentativa de cair nas

graças de Pacelli, disse-lhe que duas forças estavam opondo-se

efetivamente ao avanço do bolchevismo na Europa: Mussolini e

Hitler. Pacelli atacou-o dizendo rudemente que, enquanto

compartilhava a visão que tinha de Mussolini, não sentia a mesma

admiração por Hitler. Mais tarde, ao apenas recontar essa conversa,

Pacelli ficou tão enfurecido que as veias saltaram em seu pescoço.

DDI, série 8, vol. 4, n. 316, Pignatti a Ciano, 19 giugno 1936.

4. DDF, série 2, vol. 3, n. 114, Charles-Roux à Delbos, ministre des

affaires étrangères, 9 août 1936.

5. Em meados de agosto, em Madri, as igrejas que não tinham sido

queimadas ou saqueadas estavam ocupadas por “milícias vermelhas”.

Canosa, 2009, pp. 63-69.

6. Entre outras ações, o governo adotou novas medidas de controle

público sobre as posses da Igreja, expulsou os jesuítas do país e deu fim

ao envolvimento das ordens religiosas na educação pública.

7. Kent, 1981, pp. 140-41. L’Osservatore Romano publicou muitos

artigos lamentando os vários elementos da campanha anticlerical na

Espanha.

8. Em reconhecimento do “excesso” ocorrido, o embaixador

argumentou que em vários casos as armas dos rebeldes estavam sendo

armazenadas em igrejas e mosteiros, e que a rebelião militar não

deixou alternativa ao governo a não ser armar a população civil para

que ela pudesse se defender, criando muitas das condições que o

cardeal lamentava. ASV, AESS, pos. 340b, fasc. 363, f. 102, appunti di

Pacelli, 12 agosto 1936. Ver também Brendon, 2000, pp. 374-75.

Poucos dias depois, Pacelli recebeu um relatório do núncio em Madri.

Nenhuma igreja tinha condições de funcionar, e as forças republicanas

tinham ocupado a sede do arcebispo, o seminário e as imprensas de

todos os jornais católicos. O arcebispo voara para um destino

desconhecido, e os padres se refugiaram na casa de amigos e parentes,

movendo-se constantemente “para evitar cair das mãos dos

vermelhos”. Muitos padres, considerados inimigos do povo, foram

assassinados de forma brutal. O famoso monumento do Sagrado

Coração de Jesus foi profanado e destruído. As poucas casas

particulares onde missas eram celebradas em sigilo o faziam correndo

um grande risco. ASV, AESE, pos. 889, fasc. 263, ff. 30r-32r, Silvio

Sericano, Madri, 20 de agosto de 1936.

9. ASV, AESE, pos. 889, fasc. 264, ff. 74r-6r, Borgongini a Pacelli, 28

novembre 1936.

10. De Felice, 1981, pp. 358-89.

11. De Felice, 1981, pp. 390-91.

12. Em outubro, o papa, parecendo cansado e derrotado, disse a

Charles-Roux que achava que Mussolini estava brincando com fogo

ao ameaçar atar o destino da Itália ao da Alemanha em seu jogo de

diplomacia arriscada com a França e Grã-Bretanha. MAESS, 38, 28-

34, Charles-Roux à Delbos, ministre des Affaires Étrangères, 22

octobre 1936.

13. Micheler, 2005, pp. 113-14. Pacelli, enfurecido, disse ao

embaixador italiano que, se os jesuítas fossem levados a julgamento, as

repercussões seriam enormes e “a Alemanha inteira estremeceria”.

DDI, série 8, vol. 4, n. 613, Pignatti a Ciano, 24 luglio 1936. O papa

queria que Mussolini intercedesse em prol dos jesuítas. No dia

seguinte à sua reunião, o cardeal Pacelli chamou Pignatti para repassar

instruções que acabara de receber do papa: Mussolini não deveria saber

que ele estava agindo a pedido do papa. DDI, série 8, vol. 4, n. 636,

Pignatti a Ciano, 27 luglio 1936. No mês seguinte, quando o

embaixador italiano em Berlim, seguindo instruções de Roma, fez um

apelo em nome das freiras austríacas e dos jesuítas, Pacelli agradeceu.

DDI, série 8, vol. 5, n. 150, L’Incaricato d’affari presso la Santa Sede,

Cassinis, a Ciano, 2 ottobre 1936.

14. “Os alemães”, escreveu Grandi (1985, pp. 410-11), fizeram de

Ciano “seu testa de ferro flexível”. Ver Innocenti, 1992, pp. 14-16;

Moseley, 1999, pp. 4-9; Morgan, 1941, p. 265; De Felice, 1974, p.

804; Brendon, 2000, p. 559. No entanto, o comentário de Grandi

deve ser lido com cautela, já que ele achava que estava perdendo seu

poder de influência sobre o Duce para Ciano. Sobre esse conflito, ver

também o prefácio de Renzo De Felice para o diário de Ciano (2002,

p. xiv).

15. Rauscher, 2004, p. 220.

16. Mais tarde, o repórter americano Thomas Morgan (1941, p. 265)

escreveu sobre Ciano: “Na época em que ele estava engordando — o

que era um perigoso augúrio, pois seu pai e sua mãe era um tanto

monstruosos —, ele adotou a dieta da fruta, peixe e ave do Duce.”

17. Milza, 2000, p. 737. Mas era difícil levar Ciano a sério, observou

Phillips (1952, p. 188), pois “era impossível prender sua atenção por

mais de uns minutos”; seus olhos vagavam constantemente buscando

mulheres bonitas. Elisabetta Cerruti, esposa do embaixador italiano na

Alemanha, retratou-o bem: “Embora não fosse atraente, sendo gordo

demais para a idade e de alguma forma doentio, ele possuía certa

beleza sem sofisticação e achava-se muito irresistível para as mulheres

(...) As mulheres mais bonitas o perseguem sem pudor, competindo

umas com as outras por um dos sorrisos dele. Era doloroso de ver.”

Citado em Moseley, 1999, p. 30.

18. Phillips, 1952, pp. 189-91.

19. Citado em De Felice, 1981, p. 273.

20. Bottai, 2001, pp. 109-10.

21. Baratter, 2008.

22. A descrição dramática de Giuseppe Bastianini sobre o rito é citado

em De Felice, 1981, p. 283.

23. Navarra, 2004, pp. 64-65, 97.

24. Na Itália, a fé no Duce rivalizava com a fé em Jesus Cristo. A

federação fascista de Ascoli Piceno, por exemplo, na edição de 22 de

agosto de 1936 de seu periódico, Eja, recomendou: “Sempre tenha fé.

A fé que você tem dedique a Mussolini, porque é algo sagrado (...)

Tudo o que o Duce afirma é verdade. Ninguém contesta a palavra do

Duce (...) Após recitar o “Credo” em Deus toda manhã, recite o

“Credo” em Mussolini.” Citado em Gentile, 1993, p. 127.

25. Bottai, 2001, p. 115; De Felice, 1981, p. 267.

26. Em 1938, sozinha, ela escreveu 1.810 páginas, rabiscadas em folhas

soltas. Seus relatos dos telefonemas com Mussolini são tão cheios de

detalhes que, quando o inspetor-geral do Arquivo Italiano do Estado

os examinou mais tarde, suspeitou que ela havia instalado um gravador

em seu telefone. Petacci, 2010, p. 5; Festorazzi, 2012, p. 308.

27. Milza, 2000, p. 528; Monelli, 1953, pp. 153-56; Petacci, 2011, p.

423.

28. Aqui, compartilho diversas perspectivas articuladas primeiro por

De Felice (1981, p. 277).

29. Estava levando um tempo para que Roma se acostumasse com a

importância da Igreja americana, pois a Santa Sé por muito tempo

considerava os Estados Unidos com um quê de atrasado. Havia apenas

algumas décadas que as relações entre o Vaticano e a Igreja nos Estados

Unidos eram conduzidas não pelo secretário de Estado, como em

todos os países europeus, mas pela Congregação para a Propagação da

Fé, que lidava com essas áreas — na maior parte Ásia e África —,

consideradas remotas, o lar das missões em vez de igrejas instituídas.

Pelos anos 1930, os Estados Unidos tinham solidificado seu lugar não

só como o centro principal e próspero para romanos católicos e a

Igreja como a única e maior fonte financeira de apoio à Santa Sé.

Pollard, 2012.

30. Arnaldo Cortesi, “Papal Secretary of State Coming Here; Rome

Speculates on Subject of Mission”, NYT, 1o de outubro de 1936, p.

1; Cortesi, “Pacelli Reported Seeking Aid of U.S. in Anti-Red

Drive”, NYT, 2 de outubro de 1936, p. 1. A embaixada italiana em

Washington relatou essas causas conjecturadas para a viagem a Ciano,

mencionando que o próprio representante apostólico do Vaticano

estava surpreso, perplexo e um tanto alarmado pela visita. DDI, série

8, vol. 5, n. 151, L’Incaricato d’affari a Washington, Rossi Longhi, al

ministro degli esteri, Ciano, 3 ottobre 1936; e ibid., n. 160, Rossi

Longhi a Ciano, 6 ottobre 1936. Para a especulação de Pignatti sobre

as ambições papais de Pacelli, ver DDI, série 8, vol. 5, n. 170, Pignatti

a Ciano, 7 ottobre 1936. Em novembro de 1934, Pacelli tinha sido o

representante do papa no Congresso Eucarístico Internacional em

Buenos Aires, onde atraíra multidões enormes. A caminho de casa,

parou no Brasil, onde discursou, em português, para Assembleia

Nacional e Suprema Corte. Blet, 1996, p. 202.

31. Entre os diplomas honorários estão o de Georgetown (“Pacelli

Urges World Peace, Blesses Many”, WP, 23 de outubro de 1936, p.

1), Univerdade Fordham e Notre Dame (“Papal Aide Gets Notre

Dame Honor”, NYT, 26 de outubro de 1936, p. 18).

32. O partido político de Coughlin, o National Union of Social

Justice [União Nacional da Justiça Social], estava concorrendo com

um candidato contra Roosevelt — ou “Franklin Traidor Roosevelt,

como o padre o chamava. Fogarty, 2012, p. 110.

33. Em setembro, Coughlin exigiu o uso de “balas” contra o

presidente — algo pelo que, mais tarde, sob pressão, ele se desculpou

— e acrescentou que Roosevelt era um “ditador” pró-comunista.

D’Alessio (2012, pp. 133-34) faz citações de duas cartas de Cicognani

a Pacelli, escritas em 9 e 10 de outubro.

34. Joseph Kennedy — um magnata dos negócios católico e pai de

um futuro presidente — ajudou a organizar o encontro e participou

dele. As preocupações de Pacelli com a ameaça comunista eram

provavelmente intensificadas por seu foco na guerra civil na Espanha.

O relato de Roosevelt a Florence Kerr em um jantar no Hyde Park,

em 1943, é citado em Gallagher, 2008, pp. 87-88.

35. Observações sobre a viagem de Pacelli aos Estados Unidos são

oferecidas por Gannon, 1962, pp. 106-16; Fogarty, 2012, p. 115; e

D’Alessio, 2012, pp. 131-35. Irmã Pascalina acompanhou Pacelli aos

Estados Unidos, assim como fora com ele para Buenos Aires dois anos

antes. No entanto, em nome do decoro, ela viajara em um navio

diferente e ficou em segundo plano. Schad, 2008, pp. 81-87.

36. ASMAE, APSS, b. 36, Ciano al ministero dell’interno, telespresso

n. 69.1938, 7 dicembre 1936; Falconi, 1967, p. 226; Confalonieri,

1957, pp. 334-38.

37. Baudrillart, 1996, p. 364 (6 décembre 1936). O antigo amigo do

papa Agostino Gemelli fazia visitas frequentes, uma vez realizando

pessoalmente um eletrocardiograma. Venini, 2004, p. 201. Segundo

Lazzarini (1937, pp. 142-43), em uma visita padre Gemelli ouviu o

papa reclamar sobre a comida. O “terror magnifico”, como Gemelli

era conhecido, perguntou, em seu dialeto milanês, se ele poderia

preparar-lhe uma refeição. Os olhos do papa brilharam. Gemelli, que

diziam ser um excelente cozinheiro assim como excelente médico,

encontrou uma cozinha por perto e logo reapareceu com um prato de

risoto à la Milanese, feito com açafrão e cozido al dente. “O melhor”,

disse o papa ao devorar com alegria o risoto, “ainda é o que é feito em

casa.”

38. A nota à margem de Tardini nas anotações de Pacelli sobre seu

encontro com o papa fala sobre essas visitas ao leito. ASV, AESS, b.

560, fasc. 592, f. 16r, 9 dicembre 1937.

39. Venini (2004, pp. 182-87) e Baudrillart (1996, pp. 364, 371, 378-

79) discutem esses eventos em seus diários.

40. CC, 1937, I, pp. 182-83; OR, 4-5 gennaio 1937. O enviado

britânico narrou todos os boletins de saúde prévios anunciados pelo

Vaticano: D. G. Osborne, Annual Report 1936, 1o de janeiro de 1937,

R 57/57/22, em Hachey, 1972, p. 365, seção 101.

41. Confalonieri, 1957, pp. 349-50.

 

CAPÍTULO 19: ATAQUE A HITLER

 

1.ACS, MCPG, b. 172, ff. 57-59, 28 gennaio 1937.

2. Nas palavras de Pignatti, “os cardeais alemães, boa parte dos norte-

americanos e ingleses e quase todos os franceses não votarão em um

cardeal que mostrou empatia pelo regime fascista. DDI, série 8, vol. 6,

n. 456. Num relatório a Paris em meados de março, Charles-Roux, o

embaixador francês, relembrou que desde o “breve, mas violento”

conflito sobre a Ação Católica em 1931, as relações entre a Santa Sé e

o Estado fascista estavam mais brandas, pois os funcionários do

Vaticano eram “com raríssimas exceções, totalmente italianos”, e o

clero italiano era quase unânime em seu entusiasmo por Mussolini.

MAEI, vol. 267, 78-79, Charles-Roux à Ministre des Affaires

Étrangères, 19 mars 1937. Charles-Roux dedicou o tamanho de seu

extenso relatório à ânsia de que tanto o Sacro Colégio quanto a

equipe principal administrativa e diplomática da Santa Sé se

internacionalizassem e que o Vaticano se afastasse da dominação

deslumbrada dos italianos. Sobre a imprensa católica, ver Conway,

1968, p. 171.

3. Como de costume, na missa de Páscoa em São Pedro, o corpo

diplomático do Vaticano estava todo lá, com a notável exceção do

embaixador alemão na Santa Sé, que boicotou a cerimônia.

Baudrillart, 1996, pp. 456, 464-65 (22 mars 1937; 28 mars 1937);

“Pope in Tears at St. Peter’s”, BG, 29 de março de 1937, p. 1.

4. Confalonieri, 1957, pp. 367-68; Venini, 2004, pp. 203, 208-9;

Chiron, 2006, p. 414.

5. De Asvero Gravelli, citado em Bosworth, 2002, p. 339.

6. MAEI, vol. 70, 64-70, Charles-Roux à Delbos, ministre des

Affaires Étrangères, 17 mars 1937.

7. Na América, ele escreveu: “Há uma forte antipatia difundida pelo

regime nazista, do qual os judeus — que possuem posições

importantes na mídia, na política, nas finanças — estão naturalmente

tirando vantagem.” DDI, série 8, vol. 6, n. 126, Suvich a Ciano, 4

febbraio 1937.

8. Luconi, 2004, p. 159. O caso do cardeal Schuster, chefe da

arquidiocese mais importante da Itália, Milão, foi emblemático pela

força e pelo amparo de alto nível que a Igreja deu ao regime fascista.

Ao fazer tudo a seu alcance para angariar apoio à guerra na Etiópia,

Schuster continuou, no ano seguinte, a cultivar relações íntimas com

os fascistas milaneses, e muitos habitantes locais achavam que o líder

fascista da cidade se consultava com o cardeal antes de tomar qualquer

decisão importante. ACS, MI, FP “Schuster”, Milano 7 gennaio 1937.

Em fevereiro, em um discurso ao qual estavam presentes os maiores

fascistas e líderes militares de Milão, Schuster louvou Mussolini mais

uma vez como o homem enviado por Deus, comparando-o a

Constantino, o primeiro imperador romano a adotar o cristianismo.

ACS, MI, FP “Schuster”, Milano, 27 febbraio 1937.

9. A entrevista com Mussolini apareceu na primeira página do

Völkischer Beobachter, 17 de janeiro de 1937. William Dodd, embaixador

americano na Alemanha, enviou uma tradução para o inglês dos

trechos para o secretário de Estado, NARA, LM192, rolo 6, 23 de

janeiro de 1937, n. 3265.

10. ASV, AESI, pos. 855, fasc. 551, ff. 38r-39v, Tacchi Venturi a Pio

XI, 2 marzo 1937.

11. Godman, 2004, pp. 133-54. Mit brennender Sorge foi precedido,

uma semana antes, por uma encíclica denunciando o comunismo,

Divini redemptoris.

12. Com o interesse de tentar manter-se em paz com Hitler, escreve o

historiador Peter Godman, “o papa foi contra falar sobre o racismo,

direitos humanos e questões aliadas nas formas diretas e detalhadas

preparadas pelo Supremo Tribunal [da Inquisição]. Enfatizando seu

desejo de ‘reestabelecer a verdadeira paz na Alemanha’, Pio XI

sacrificou, em nome da concordata, o ataque imediato aos nazistas

que, em 1937, Roma deveria ter lançado”. Godman, 2004, pp. 146-

47. As traduções oficiais para o inglês e o alemão da encíclica estão

disponíveis em www.vatican.va. A versão italiana é encontrada em

CC, 1937, II, pp. 216-30.

13. Godman, 2004, p. 149; Fattorini, 2007, p. 132.

14. Em sua carta a Pacelli, na qual relatava a decisão dos bispos de

Berlim e Breslau de queimar os documentos, Orsenigo escreveu que

quando outros bispos lhe perguntaram se eles deveriam fazer o

mesmo, ele respondeu que eles deveriam fazer o próprio julgamento.

Na margem da carta de Orsenigo, Pacelli rabiscou uma observação:

“O Santo Padre julga esta uma resposta fraca (...) Ele instrui que, em

vez disso, você responda que eles devem queimar sem questionamentos

tudo que puder causar problemas.” Citado em Fattorini, 2011, pp.

123, 236n; ênfase por Pacelli no original.

15. Pignatti transmitiu a mensagem; seu memorando não cita

diretamente Pacelli como a fonte, mas sugere: “A Santa Sé não quer

que nenhum comentário na imprensa italiana enfatize que essa carta

reflete a oposição do Vaticano ao nazismo.” ASMAE, APSS, b. 35,

Ministero degli Affari Esteri, “Appunto”.

16. Pignatti disse que Pacelli, com quem ele encontrava com

frequência, “não queria uma quebra nas relações e que andava

animada ultimamente, depois de ver que o outro lado também

hesitava em levar o embate para o próximo nível”. ASMAE, AISS, b.

67, fasc. 9, Pignatti a Ciano, “Le tre Encicliche Pasquali,” 1 aprile

1937. O encarregado de negócios italiano analisou a reação alemã à

encíclica em um memorando enviado no dia seguinte a Ciano. Em 17

de abril, Ciano relatou ao embaixador italiano em Berlim os

comentários de Pacelli sobre não querer que Hitler encarasse a

encíclica como um ataque ao nazismo; ele anexou uma cópia do relato

de Pignatti detalhando sua conversa com Pacelli. Ciano observou que

os bispos alemães pressionaram o papa a preparar a encíclica, e o

pontífice foi em frente “sem se preocupar com as consequências”.

Mussolini e seu genro estavam mais preocupados com as

consequências que o repúdio do papa aos nazistas teria em seus

próprios planos de aproximar a Itália mais ainda do Terceiro Reich.

Mas continuaram convencidos de que o papa aprovava Mussolini e

poderiam contar com ele para resistir àqueles na Igreja fora da Itália

que queriam que denunciasse o fascismo junto com o nazismo. Como

Pignatti disse: “Sei de uma fonte fidedigna que alguns conselheiros do

pontífice teriam achado bom que o documento papal atacasse todos os

regimes totalitários. Pio XI rejeitou as sugestões.”

“O cardeal secretário de Estado”, relatou Pignatti na carta que Ciano

enviara a Berlim, “não pediu explicitamente por uma intervenção em

Berlim da parte de Sua Excelência, mas ele não escondeu de mim o

grande desejo de que a Santa Sé seja auxiliada, nesse momento, a

evitar uma ruptura e a facilitar uma acomodação.” Ciano então foi ao

ponto, dizendo a seu embaixador em Berlim: “Rezo para que Sua

Excelência queira considerar a oportunidade de tomar uma atitude

com esse governo no que diz respeito aos e dentro dos limites

sugeridos pelo cardeal secretário de Estado.” ASMAE, APG, b. 38,

Ciano a Regia Ambasciata, Berlino, telegramma in partenza n. 740, 7

aprile 1937. Ao relatar o papel do Duce de incitar Hitler a não arriscar

uma ruptura com o Vaticano por conta da encíclica, o Boston Globe

estranhamente noticiou que Tacchi Venturi “levou o apelo do

primeiro-ministro italiano para apreciação de Hitler”. “Duce Aids

Nazi in Vatican Row”, BG, 16 de abril 1937, p. 11. Chenaux (2005)

oferece vasta evidência para mostrar que o cardeal Pacelli nesse

período “nunca parou de martelar a mesma mensagem”, isto é, que

Mit brennender Sorge não implica uma condenação do Estado nazista ou

do Partido Nazista como tal, e que “a busca por um modus vivendi com

o regime permanece sendo a primeira meta das políticas da Santa Sé

no que diz respeito à Alemanha” (p. 264). Em 30 de abril, Pacelli

enviou uma longa carta a Bergen rejeitando a interpretação hostil que

o governo alemão fizera da encíclica. DGFP, série D, vol. 1b, n. 649.

17. DGFP, série D, vol. 1b, n. 650, “Memorandum by the Foreign

Minister, Baron von Neurath”, Roma, 4 de maio de 1937.

18. “Conversation between the Duce and Herr Frank, Palazzo

Venezia”, 23 de setembro de 1936, citado em Muggeridge, 1948, pp.

47-48.

19. “Mundelein Rips into Hitler for Church Attacks”, CDT, 19 de

maio de 1937, p. 7.

20. Mundelein nasceu e foi criado em Nova York; o pai vinha de uma

família de origem alemã, a mãe, irlandesa-americana. Foi nomeado

arcebispo de Chicago em 1914 quando tinha apenas 42 anos. Viajou

para Roma em 1924 para receber seu chapéu cardinalício e em outra

ocasião. Mundelein era bem conhecido do papa, que estava satisfeito

com o suporte financeiro que continuava a vir com ele de Chicago.

Mundelein também possuía uma relação próxima com Franklin

Roosevelt, a quem tinha apoiada publicamente na época em que ele

se tornara presidente, em 1933. Em 1934, a caminho de Roma,

Mundelein visitou o presidente no Hyde Park. Ele continuou a visitar

Roosevelt com regularidade durante os anos seguintes. O presidente

via em Mundelein — o único cardeal americano fora do nordeste —

alguém importante para seu empenho em angariar apoio católico.

Kantowicz, 1983, pp. 220-36.

21. Essa é a versão das anotações de Mundelein comunicada pelo

ministro das Relações Exteriores alemão para a embaixada alemã da

Santa Sé. DGFP, série D, vol. 1c, n. 652, 21 maggio 1937. Pacelli

pediu uma explicação sobre seu discurso. Mundelein respondeu

escrevendo para o representante do Vaticano em Washington: “Dessa

vez, sendo provocado pelas repetições diárias da imprensa dos assim

chamados julgamentos da moralidade na Alemanha (...) Eu só me

apressei a escrever o que se passava na minha cabeça e dei aos padres

exatamente como escrevi.” Citado em Trisco, 2012, p. 159. Os

julgamentos começaram em 1935, mas foram suspensos pelos Jogos

Olímpicos de Berlim em 1936; Hitler ordenou que fossem retomados

em 7 de abril de 1937, e pela época em que Mundelein fez seu

discurso, ganhando muita publicidade na Alemanha. Centenas de

padres católicos e membros de ordens religiosas foram a julgamento,

acusados de ter “relações sexuais anormais” ou atraindo crianças para

atos sexuais. As manchetes das primeiras páginas dos jornais alertavam

para a “degeneração moral” no clero católico e para “corruptores da

juventude vestidos com batinas”. Os padres e monges eram difamados

por explorarem sua relação sacerdotal com as crianças com o intuito

de participar de uma “fornicação anormal”. Tendo em vista o

empenho do governo alemão para acabar com o controle da Igreja

Católica sobre a educação e as atividades para os jovens nas áreas

católicas, a campanha era uma propaganda próspera para os nazistas.

Ministro das Relações Exteriores alemão para a embaixada alemã da

Santa Sé, DGFP, série D, vol. 1b, n. 642, 7 aprile 1937; Trisco, 2012,

p. 153; Micheler, 2005, pp. 113-14. Os historiadores apresentaram

quase de forma invariável esses julgamentos como evidência da

perseguição do regime nazista à Igreja Católica e da homofobia

nazista. Micheler, 2005, p. 113. Ambas sem dúvida eram verdade, mas

a extensão de que o suposto comportamento tem alguma base de fato

não foi examinado de forma sistemática.

22. DGFP, série D, vol. 1c, n. 655, Bergen para o ministro das

Relações Exteriores alemão, Vaticano, 25 de maio de 1937; ibid., n.

657, Bergen para o ministro das Relações Exteriores alemão,

Vaticano, 26 de maio de 1937; ibid., n. 658, Neurath para a

embaixada alemã na Santa Sé, 27 de maio de 1937.

Duas semanas depois do discurso do cardeal Mundelein, o cônsul-

geral italiano de Chicago o visitou. Em conversa amigável, o arcebispo

expressou “sua admiração pelo Duce e pelo fascismo, afirmando que a

Itália hoje é um país com o qual a Igreja pode contar de verdade”. Em

resposta à pergunta do cônsul, Mundelein admitiu que alguns padres

católicos americanos tinham sucumbido à propaganda antifascista, mas

garantiu-lhe que não eram muitos. ASMAE, APSS, b. 35, “Visita del

R. Console Generale in Chicago al Cardinale Mundelein”, telespresso

215.383, 8 maggio 1937.

23. Pacelli dividiu esses pensamentos com o cardeal francês

Bauldrillart. Bauldrillart, 1996, p. 476 (7 avril 1937).

24. “Pope’s Voice Fails As Health Wanes”, NYT, 19 de maio de

1937, p. 9; “Pope Has Setback On 80th Birthday”, NYT, 1o de junho

de 1937, p. 25. Um informante, referindo-se ao persistente estado de

saúde ruim do papa, retratou-o como “mais irritável e intratável do

que nunca”. ACS, MCPG, b. 172, fasc. 23, informatore, 15 maggio

1937.

25. Baudrillart, 1996 p. 536 (21 juin 1937).

26. As observações de Mussolini são feitas a Tacchi Venturi. ARSI,

TV, b. 25, fasc. 1950, Tacchi Venturi a Pizzardo, 31 maggio 1937.

27. Fattorini, 2007, p. 95. Em dezembro anterior, Pacelli enviara o

apoio do Vaticano a Franco, manifestando sua esperança para a vitória

“rápida e total” do Generalissimo. Ibid., p. 96.

28. Nello, o irmão de Carlo Rosselli, também foi morto no ataque,

por ter tido a infelicidade de visitar seu irmão na mesma hora em que

os assassinos atacaram. Mussolini muito provavelmente sabia do plano

de assassinado e o aprovava, embora nenhuma prova ainda tenha sido

encontrada. Ao discutir o caso, ainda que admita que o Duce

provavelmente tenha dado sua aprovação, De Felice (1981, pp. 420-

21) aventa a possibilidade de que ele tenha ficado sabendo do plano só

depois do ocorrido. Parece improvável. Sobre os três assassinos, ver

Mack Smith, 1983, p. 8.

29. “Em Roma, as pessoas estão convencidas de que o papel um tanto

predominante [de Pizzardo] terá um fim com a morte do papa. Ele é

um trabalhador prodigioso, mas não está à altura, dizem, de seu papel

nem pela inteligência, nem pela perspectiva.” Com o papa enfermo

no Castelo Gandolfo, Pizzardo “permanece o verdadeiro padrone” no

Vaticano, relatou um informante da polícia. ACS, MCPG, b. 172.

30. Ele particularmente queria reforçar a última frase. Pizzardo queria

reforçar as palavras digno de nota para descrever a ausência de atrito

durante vários anos antes entre o Vaticano e o regime fascista: não

houve caso algum de fricção, digno de nota ou não. A segunda

mudança que ele queria era substituir “tem ocorrido com frequência

uma cooperação proveitosa entre ambos [o Vaticano e Mussolini]” por

“tem sido comum para as duas autoridades procederem sob as bases de

uma cooperação proveitosa”.

31. A revista era The Tablet, e seu autor, padre Hilary Carpenter, era o

prior dominicano do Mosteiro Blackfriars em Oxford. ASV, AESS,

pos. 555, fasc. 588, 3r, ff. 5r, 23r-43r. Esse arquivo inclui uma carta de

Carpenter reverenciando a solicitação eclesiástica superior e dizendo

que mandaria uma retratação por suas visões antifascistas. A edição de

7 de agosto de The Tablet trouxe uma retratação do abade: “Fui

informado autoritariamente de que estive enganado ao colocar

fascismo e nazismo na mesma situação em relação à Igreja, como se

ambos merecessem a mesma condenação (...) desde a Concordata de

1931 [sic] não apenas não houve casos de atrito entre a autoridade

eclesiástica e o governo italiano, como também as autoridades

procederam na maior parte do tempo seguindo juntas em uma

cooperação proveitosa (...) Peço permissão para declarar minha

aceitação total da informação acima.” Citado em Chadwick, 1986, 12-

13.

32. A fogosa e não muito estável Fontanges seguiu Charles de

Chambrun, o embaixador francês na Itália, até o Gare du Nord, em

Paris. Lá, puxou um revóvel e atirou nele duas vezes. Por sorte, sua

perícia como assassina era inferior a seus outros talentos, e ela o feriu

apenas de leve. Tronel, 2007; De Felice, 1974, p. 303n1.

33. Magda Fontanges, “My Love Affair with Mussolini”, Liberty, 17

de agosto de 1940, parte 2, p. 40. Refere-se a abril de 1936.

34. Citado em De Felice, 1981, p. 276n41. Em 1927, escrevendo à

irmã, Mussolini lhe contou que estava em uma dieta praticamente só

de líquidos, devido a seus problemas estomacais, mas acrescentou:

“Como nunca tive uma queda pelo pecado da gula, a abstinência me é

indiferente.” E. Mussolini, 1957, p. 121. O quanto de sua carne

Mussolini deu ao diabo é questão de debate entre seus biógrafos mais

recentes, ou pelo menos entre aqueles que especulam sobre um

assunto que os menos lascivos talvez ignorem. Em outro extremo,

Nicholas Farrell, em sua biografia em 2000, Mussolini: A new life (citado

por Baima Bollone, 2007, pp. 118-19), estimava que o Duce tivera

relações sexuais com cinco mil mulheres, o que parece de fato muita

coisa até para um garanhão ou alguém que só fizesse isso da vida.

Outras estimativas parecem suspeitamente precisas, uma por Duilio

Susmel (como informado por Cannistraro e Sullivan, 1993, p. 602n)

somando 169 amantes.

35. O pároco local, ao ouvir sobre a chegada do ilustre visitante,

correu para o cenário à beira-mar. O primeiro pensamento de

Mussolini foi de que o clérigo desaprovaria o que tinha encontrado e

apressou-se a assegurá-lo de que a dança era inofensiva. Mas o padre

tinha outra coisa em mente: convidou o Duce para visitar sua igreja,

onde ele mostraria a pobre estado em que se encontrava o órgão. O

padre ficou radiante quando o generoso ditador lhe passou um maço

de dinheiro para pagar pelos reparos muito necessários. Bottai, 2001,

pp. 119-20 (4 settembre 1937).

 

CAPÍTULO 20: VIVA IL DUCE!

 

1.“Ninguém chega a Roma sem ou contra Berlim, ou a Berlim contra

Roma!”, proclamou o Duce (Rauscher, 2004, p. 224). O próprio

Mussolini citou esses comentários durante sua viagem à Alemanha.

DGFP, série C, vol. 6b, n. 568, Hassell a Weizsäcker, 7 de outubro de

1937.

2. Os comentários de Hitler para Ciano foram feitos em 24 de

outubro. Kershaw, 2000, p. 25.

3. Milza, 2000, p. 754.

4. Caviglia, 2009, pp. 204-5.

5. Rauscher, 2004, p. 226.

6. Em 17 de setembro, Pignatti encontrou-se com o cardeal Pacelli,

que pediu-lhe que instigasse Mussolini a tentar persuadir Hitler a

melhorar as relações do governo alemão com a Igreja Católica.

ASMAE, APG, b. 47, Pignatti a Ciano, “S. Sede e Reich”, 17

settembre 1937. Uma parte do que caiu no conhecimento geral pode

ser visto na manchete da matéria da segunda página no CDT em 23

de setembro, “Duce to Be Pope’s Envoy to Hitler on Church Strife”

[O Duce é o enviado do papa a Hitler sobre o embate com a Igreja].

7. “Se a Santa Sé tinha esperança em algum resultado da viagem de

Mussolini a Alemanha que lhe seria também favorável, o Vaticano

poderia enterrá-la, pois Mussolini evitou abordar o assunto de nossas

relações com o Vaticano de toda forma.” DGFP, série D, vol. 1d, n.

682.

8. Baudrillart. 1996, pp. 624-5 (1 octobre 1937).

9. ASMAE, APSS, b. 34, Pignatti a regio ministero degli affari esteri,

telespresso, 4 ottobre 1937. Pignatti cita o artigo de M. Barbera em

CC, quaderno 2.095. A própria relação do papa com o Duce

continuou boa. Um dos sinais de sua cooperação foi o início de um

enorme projeto de construção fora da praça de São Pedro. Anunciado

por Mussolini no ano anterior como uma forma de comemoração

pelo Tratado de Latrão, a obra demoliria os edifícios densamente

povoados, becos e igrejas que tinham sido apinhadas entre duas ruas

estreitas que iam do Tibre até a praça de São Pedro. Seriam

substituídos por um amplo bulevar, chamado via della Conciliazione.

A obra da construção começou só depois que o papa deu sua

aprovação, e o pontífice foi fazer a inspeção do trabalho logo depois

que Mussolini voltou da Alemanha. Insolera, 1976, pp. 130-31;

Painter, 2005, pp. 68-70.

10. Pizzardo entregou a mensagem do papa ao encarregado de

negócios italiano, que, ao repassá-la para Ciano, acrescentou outra

preocupação: “A Itália corre o risco de ver o papa eleito ter

sentimentos muito diferentes daqueles que tinha o papa Ratti.” DDI,

série 8, vol. 7, n. 424, Venturini a Ciano, 12 ottobre 1937. Ciano

enviou o texto desse memorando para o embaixador italiano na

Alemanha. ASMAE, APG, “S. Sede, Reich e Fascismo”, 14 ottobre

1937.

11. No final de dezembro, Pignatti, enquanto aguardava com Charles-

Roux do lado de fora da biblioteca do pontífice para sua audiência de

Ano-Novo anual com o papa, contou-lhe que o papa ainda estava

“furioso” com o Mussolini por sua visita a Berlim. DDF, série 2, vol.

7, n. 393, Charles-Roux à Delbos, 29 décembre 1937.

12. Tisserant fez os comentários para o embaixador francês. DDF,

série 2, vol. 7, n. 393, Charles-Roux à Delbos, ministre des Affaires

Étrangères, 29 décembre 1937.

13. Isso foi noticiado na imprensa italiana também. Os arquivos do

núncio italiano possuem um artigo recortado de um jornal, “Un

discorso di Pio XI al Sacro Collegio”, da edição de 25 de dezembro

de 1937 do Il Popolo di Roma, ASV, ANI, b. 24, fasc. 14, f. 20r. Poucos

dias depois, num encontro com o embaixador italiano, o papa, que

parecia ter perdido mais peso, mas estava mais perspicaz do que nunca,

encontrou um tempo nos cinco minutos de troca de felicitações de

Natal para lhe dizer que “não se poderia esperar nada de bom da

Alemanha”. ASMAE, AISS, b. 115, Pignatti a Ciano, 28 dicembre

1937.

14. DDF, série 2, vol. 7, n. 374, Charles-Roux à Delbos, 20

décembre 1937; Baudrillart, 1996, p. 703 (28 décembre 1937).

15. Baudrillart, 1996, p. 731 (17 janvier 1938). O embaixador

espanhol compartilhou a opinião de Ernst von Weizsäcker, chefe do

gabinete de Relações Exteriores alemão: “Pacelli não apresenta uma

verdadeira contrapartida a Pio XI, porque ele é totalmente desprovido

de determinação e caráter.” Rhodes, 1974, pp. 222-23.

16. De Felice, 1974, p. 299; De Felice, 1981, p. 280; Deakin, 2000;

Innocenti, 1992, p. 169.

17. “Estamos às vésperas da guerra contra França e Inglaterra”, disse-

lhe Bufarini. “O regime precisa garantir que a nação esteja unida.

Portanto não pode ficar parado enquanto jovens católicos dizem que a

aliança com os alemães é anormal”. ASV, ANI, pos. 24, fasc.14, ff. 6r-

11r. Borgongini a Pacelli, 31 dicembre 1937.

18. Ciano acrescentou que Mussolini também estava chateado com os

sinais de aproximação nas relações entre o Vaticano e o governo

francês, que estava sob o controle de uma fronte popular de socialistas

e comunistas desde 1936; a Alemanha nazista e a Itália fascista o

encaravam como um inimigo implacável; Ciano disse ao núncio que

na Espanha aviões e homens alemães lutavam ao lado dos italianos

“pela causa da religião católica contra a da Espanha vermelha”, a qual,

disse ele, estava recebendo armamento do governo francês.

Borgongini retorquiu lembrando a Ciano que a Conciliação de 1929

do governo italiano com a Igreja tinha beneficiado o governo

“bastante, em especial na guerra na Etiópia, e acima de tudo ao

contribuir com o prestígio italiano no exterior”. Ciano não o

contestou e concordou em falar com o Duce no dia seguinte e ver o

que podia ser feito. Borgongini ofereceu-se para se encontrar com o

Duce se fosse útil, mas Ciano rejeitou a ideia. Mussolini achou mais

proveitoso lidar com Tacchi Venturi, algo que Ciano e Borgongini

sabiam, mas nada disseram. ASV, ANI, pos. 24, fasc. 14, ff. 53r-58r.,

Borgongini a Pacelli, 4 gennaio 1938.

19. Uma carta subsequente, enviada uma semana depois, avisava aos

padres que, caso não comparecessem, sua ausência seria “mal

interpretada”. Os dois convites por escrito, na parte de artigos de

papelaria da “Competição Nacional de Grão e Granjas entre Padres”,

encontram-se nos arquivos do Vaticano em ASV, AESI, pos. 1.044,

fasc. 722, ff. 60r-61r e 48r-48v.

20. ASV, AESI, pos. 1.044, fasc. 722, f. 45r, Francesco Niccoli,

vescovo di Colle, a Mons. Domenico Tardini, Sostituito per gli Affari

Ordinari, Segreteria di Stato, 16 dicembre 1937.

21. Antes de tomar uma decisão definitiva, o papa queria checar com

o arcebispo de Údine, descrito como o principal orador do evento; o

papa queria descobrir como ele tinha concordado em desempenhar

um papel com tanto destaque. Pacelli repassou o pedido do papa a

Rossi, acrescentando que, nos anos anteriores, bispos tinham

participado dessas demonstrações patrióticas sem qualquer problema. A

correspondência entre o cardeal Rossi e Pacelli é encontrada em ASV,

AESI, pos. 1.044, fasc. 722, ff. 52r, 56r, 57r, 63r-64r. “As notícias são

verdadeiras”, respondeu o arcebispo Nogara. Mas “antes de concordar

em participar e discursar, entrei em contato com o monsenhor

Pizzardo (agora cardeal)” — Pizzardo fora nomeado cardeal no mês

anterior — “que falou sobre isso com o Santo Padre (...) Ele obteve

seu consentimento”. Nogara acrescentou, com uma nota de

preocupação: “Espero que isso não cause nenhuma complicação.”

Ibid., p. 70r. Presumivelmente Pizzardo pediu a aprovação do papa, o

pontífice deu-a e então, por conta do estado em que sua mente se

encontrava em alguns dias, ele esqueceu-se do assunto.

22. Em 30 de dezembro, em resposta a uma nova onda de dúvidas de

cardeais nervosos, o papa informou ao cardeal Rossi que os bispos que

recebessem o convite de um jornalista “não foram obrigados a aceitá-

lo”. ASV, AESI, pos. 1.044, fasc. 723, f. 4r.

23. Ibid., ff. 16r-17r, “Appunto”, 30 dicembre 1937, com um

comentário escrito a lápis: “preparado para o embaixador italiano, mas

não entregue a ele”. O embaixador italiano estava convencido de que

o papa desaprovava o cardeal Rossi, ao saber que ele se opunha à

participação dos bispos no rito fascista. No mesmo relatório a Ciano,

Pignatti reiterou sua crença de que Pio XI fora o mais “italiano” entre

todos no Vaticano. Para os fascistas e os que estavam no governo, ser

“italiano” equivalia a dar apoio a Mussolini. O papa não apenas não

tentou impedir que o clero participasse da celebração, como também

aqueles que receberam convites de seus prefeitos locais, como ocorreu

com alguns, foram instruídos a não recusar. Um bispo — da Sicília —

alegou ter recebido um convite apesar de não ter nada a ver com a

batalha do grão, acrescentando, com pesar, “porque não tenho nem

um metro de terra para plantar”. No entanto, escreveu ele, “por conta

dos convites recorrentes, acredito que é meu dever aceitar e ir a

Roma”. Ibid., p. 31r., vescovo di Agrigento, 30 dicembre 1937.

24. De Rossi dell’Arno, 1954, pp. 138-43. “Mussolini teve a

oportunidade de pregar a bandeira católica no mastro da bandeira

fascista”, observou o enviado britânico na Santa Sé. FCRSE, part

XIII, p. 11, Osborne a Eden, 12 de janeiro de 1938, R 495/495/2.

Três dias antes da reunião no Palazzio Venezia, o papa recebeu bispos

e padres que tinham ido a Roma por causa do evento. O papa ficara

numa posição constrangedora. O convite original aos padres e bispos

afirmava que providências estavam sendo tomadas para que eles fossem

recebidos pelo papa, embora na verdade nenhuma dessas providências

tivesse sido tomada na época. O pontífice consultou a Congregação

Consistorial, que, por meio de seu secretário, o cardeal Rossi, o

aconselhou a não fazer uma recepção papal para o grupo, receando a

impressão que poderia passar para o resto do mundo ao apoiar

abertamente uma celebração de Mussolini. Mas o papa ignorou o

conselho e, em vez disso, resolveu mostrar-se solidário ao clero, algo

que ele sabia que agradaria Mussolini. ASMAE, AISS, b. 115, Pignatti

al Ministero degli Affari Esteri, 15 gennaio 1938. Ele abençoou os

padres, elogiou-os pelo bom trabalho com seus paroquianos rurais e

louvando todo o bem que resultara da Conciliação. CC, 1938, I, pp.

277-79.

25. Essa citação, de Völkischer Beobachter, é encontrada nos arquivos do

Vaticano, ASV, AESI, pos. 1.044, fasc. 723, f. 56r; a mesma citação foi

enviada pelo embaixador italiano em Berlim para os ministros italianos

das Relações Exteriores e da Cultura Popular. ASMAE, APG, b. 47,

11 gennaio 1938. A citação de La Stampa é reproduzida na p. 53r.

26. O termo é de Innocenti (1992, p. 93). Dino Grandi (1985, p.

360), ex-ministro das Relações Exteriores e uma figura importante do

regime fascista, retratou bem Starace: “Desprovido de inteligência e

absolutamente inculto, incapaz de distinguir o que era importante do

que era supérfluo ou, pior ainda, prejudicial, ele nutria uma adoração

fanática por Mussolini e ouvia com arrebatada atenção os monólogos

em que o Duce se lançava em suas instruções matinais.”

27. De Felice, 1974, pp. 216-17; Innocenti, 1992, pp. 94-95; Petacci,

2011, p. 37.

28. Conway, 1968, pp. 158-59; Johnson, 1999, pp. 212-14.

29. Três telegramas de Pignatti a Ciano, encaminhados ao embaixador

italiano em Berlim, narram esse episódio. ASMAE, APG, b. 46,

Ciano, “Questione religiosa Germania-Vaticano”, telespresso n.

210.989, 26 marzo 1938.

30. DDI, série 8, vol. 8, n. 130, Pignatti a Ciano, 10 febbraio 1938.

 

CAPÍTULO 21: HITLER EM ROMA

 

1.DDF, série 2, vol. 8, n. 422, Puaux, ministre de France à Vienne, à

Paul-Boncour, ministre des Affaires Étrangères, 14 mars 1938.

2. NYT, 16 de março de 1938, p. 8; “Austria disappears”, NYT, 14

de março de 1938, p. 14; Times, 15 de março de 1938, p. 14.

3. Charles-Roux 1947, p. 122; Passelecq e Suchecky 1997, pp. 50-51.

Chiron, 2006, p. 448.

4. CC, 1938, II, p. 189.

5. A princípio, Mussolini colocou seu ministro para instruir a imprensa

italiana a fazer a menor cobertura possível da invasão. “Não façam

drama”, foi dito aos editores. Mas, no dia seguinte, 12 de março,

diante da nova realidade, Mussolini decidiu tirar proveito dela e

tentou preparar a população italiana para a nova situação. E assim as

instruções do dia 12 de março eram: “As notícias devem ser objetivas,

mas solidárias com relação ao novo estado das coisas.” Tranfaglia,

2005, p. 248.

6. Como foi relatado por Mussolini para o rei em seu retorno de sua

visita à Alemanha. DDI, série 8, vol. 7, n. 393, 4 ottobre 1937. Em

1937, tanto Pacelli quanto Pizzardo garantiram ao embaixador francês

que Mussolini nunca permitiria de bom grado que Hitler tomasse a

Áustria, mas o embaixador não estava tão certo disso. DDF, série 2,

vol. 5, n. 232, Charles-Roux à Delbos, 8 avril 1937, e ibid., n. 297,

Charles-Roux à Delbos, 17 avril 1937.

7. Lamb, 1997, pp. 206-7.

8. Baudrillart relatou sua conversa com o papa a Charles-Roux. DDF,

série 2, vol. 9, n. 209, Charles-Roux à Georges Bonnet, ministre des

Affaires Étrangères, 20 avril 1938. Ver também Charles-Roux 1947,

p. 121.

9. DDI, série 8, vol. 8, n. 437, Pignatti a Ciano, 2 aprile 1938.

10. “Escutai, Ó, céus, as coisas que eu digo”, proclamou o papa na

primeira transmissão da rádio do Vaticano. “Que a terra dê ouvidos às

palavras que saem de minha boca. Escutai essas coisas, todas vós,

nações; dai ouvidos, todos os habitantes do mundo.” Confalonieri,

1957, pp. 147-49; Agostino, 1991, pp. 66-67.

11. DGFP, série D, vol. 1d, n. 700, Bergen ao ministro das Relações

Exteriores alemão, 4 de abril de 1938.

12. O papa relatou ao cardeal Baudrillart que o motivo da pressa de

Innitzer para voltar à Viena era seu encontro com Hitler. DDF, série

2, vol. 9, n. 209, Charles-Roux à Georges Bonnet, ministre des

Affaires Étrangères, 20 avril 1938.

13. Enquanto aguardavam a chegada do cardeal, o papa disse a Pacelli

que, se o arcebispo entregasse sua demissão, ele a aceitaria. Durand,

2010.

14. “Nessa questão também”, concluiu Bergen, “o papa permitiu-se

ser influenciado por sua irritação mórbida com a Alemanha.” DGFP,

série D, vol. 1d, n. 702, Bergen ao ministro das Relações Exteriores

alemão, April 6, 1938. A declaração foi publicada em L’Osservatore

Romano em 7 de abril no original alemão; uma tradução para o italiano

foi publicada no dia seguinte: “La dichiarazione dell’Episcopato

Austriaco”, OR, 8 aprile 1938, p. 1.

15. DDF, série 2, vol. 9, n. 125, Rivière, chargé d’affaires de France à

Rome Saint-Siège, à Paul-Boncour, 6 avril 1938.

16. Baudrillart, 1996, p. 809 (3 avril 1938). O arcebispo de Viena,

logo depois de sua desagradável viagem a Roma, correu para casa a

tempo do plebiscito de 10 de abril. Obstinado e sem arrependimentos,

ele caminhou até o local da votação, erguendo o braço na saudação

nazista ao depositar seu voto a favor da anexação da Áustria ao Reich

alemão. Qualquer que fosse o controle que o papa enfermo ainda

tivesse sob seus altos prelados em território nazista parecia estar

escapando de suas mãos. ASMAE, APSS, b. 39, ministero degli affari

esteri a R. Ambasciata S. Sede, “Il plebiscito del 10 aprile”, telespresso

n. 217.705, 23 maggio 1938. No fim do mês, o novo regime —

defendido com tanto entusiasmo pelo cardeal e seus bispos — ordenou

que os professores e estudantes judeus austríacos fossem expulsos das

escolas, médicos judeus dispensados dos hospitais, advogados judeus

retirados da lista dos que tinham permissão para advogar, diretores de

jornais judeus demitidos, proprietários de fábricas judeus expulsos e

diretores e atores de teatro judeus dispensados. Placas nas quais se lia

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