O Papa e Mussolini
Notas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Tardini appunti, 23 ottobre 1938, seguido por suas minutas do
encontro com a mesma data: 41r-45r. Sobre a aprovação do papa ao
plano, ver ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 49r-50r, Tardini
appunti, 24 ottobre 1938.
14. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, f. 53r, Tardini appunti, 25
ottobre 1938.
15. Ibid., ff. 56r-59r, Tacchi Venturi a Mussolini, 26 ottobre 1938.
16. Ibid., ff. 61r-64r, Adunanza presso l’E.mo Sig. Cardinale Jorio, 27
ottobre 1938. Em sua audiência como papa no dia seguinte, Tardini
levou consigo dados para mostrar como estavam falando de
pouquíssimos casos. No ano anterior, informou ele ao pontífice, em
mais de 377 mil casamento na Itália, apenas 61 precisaram da
aprovação da Igreja para um casamento entre um católico e um não
católico. Também não ocorreram muitos casamentos envolvendo
judeus convertidos. Ibid., f. 72r, Tardini appunti, 28 ottobre 1938.
17. Antes, o nazistas tinham se preocupado com o impacto negativo
que um anúncio como esse poderia ter nos Estados Unidos, mas agora
o ministro das Relações Exteriores alemão estava menos preocupado:
a recente crise na Sudetolândia revelara quão fortes eram os
isolacionistas nos Estados Unidos. Sua única preocupação era que o
anúncio provocasse ira entre os judeus americanos, “mas a propaganda
judaica na América contra a Alemanha e a Itália era forte apenas na
parte leste, enquanto na parte oeste do país ia minguando cada vez
mais. Era precisamente essa parte oriental dos Estados Unidos da
América que exercia uma influência dominante na política externa”.
DGFP, série D, vol. 4, n. 400, “Conversation between the Reich
foreign minister, Herr von Ribbentrop, and the Italian foreign
minister, Count Ciano”, Roma, 28 de outubro de 1938.
18. Dos documentos diplomáticos de Ciano: “Conversation between
the Duce and the foreign minister of the Reich, Von Ribbentrop, in
the presence of Count Ciano, Rome, 28th October 1938”, em
Muggeridge, 1948, pp. 242-46.
19. Citado em Ciano, 2002, 148-49.
20. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 71r-83r, Tardini, “Appunto
per l’Ufficio. Letto al Santo Padre,” 29 ottobre 1938.
21. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 76r-76v, Tardini appunti, 29
ottobre 1938.
22. CC, 1938, IV, pp. 371-72; Confalonieri, 1957, p. 379.
23. MAESS, vol. 38, 196-97, Charles-Roux, 27 septembre 1938.
24. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 88r-89v, 30 ottobre 1938.
25. “Acostumado a ver Mussolini com muita frequência”, observou
Tardini naquele dia, Tacchi Venturi “era impressionado por seus bons
atributos e sempre guardara uma profunda afeição por ele”. Mas agora
que Mussolini se recusava a recebê-lo, o jesuíta estava aborrecido.
Embora esteja com a data daquele dia, Tardini na verdade só escreveu
a anotação mais tarde, o que dificulta sua interpretação. Ele
acrescentou: “Apesar das várias tentativas [de encontrar o Duce],
Mussolini demonstrava que não confiava mais no P.T.V. Ele o recebia
de vez em quando, mas quase nunca e com muita frieza. No fim, ele
não o encontraria mais de forma alguma.” ASV, AESI, pos. 1063, fasc.
755, ff. 129r-129v, 31 ottobre 1938.
26. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 130r-131r, 31 ottobre 1938.
O bilhete de Tacchi Venturi sobre o encontro encontra-se em ARSI,
TV, b. 28, fasc. 2159, “Promemoria da me letto a S.E. Buffarini il 31
ottobre 1938”. Em meio ao afastamento de Mussolini do Vaticano,
uma nota nos arquivos diplomáticos alemães relata um episódio
dissonante. Em 1º de novembro, enquanto Mussolini e Ribbentrop
viajavam de trem para Verona, o Duce fez um pedido especial.
Poderia o ministro das Relações Exteriores fazer algo para melhorar a
relação com a Igreja Católica na Alemanha? Sua própria relação com o
Vaticano, confidenciou, tinha se tornado hostil por conta de sua
recém-anunciada política racial, e ele estava ansioso para ver uma
melhora nas relações das forças do Eixo com a Igreja Católica. Ele
bateu tanto nessa tecla que Ribbentrop ordenou que o Ministério das
Relações Exteriores preparasse um relatório sobre o que poderia ser
feito para melhorar as relações com o Vaticano. O pedido de
Mussolini produziu outro efeito: Ribbentrop decidiu deixar Bergen
em Roma como embaixador da Santa Sé. Pacelli, durante meses, ficou
preocupado com o fato de que Bergen seria substituído por um nazista
radical. DGFP, series D, vol. 4, n. 468, “Memorandum by the
Director of the Political Department”, Woermann, Vienna, 3 de
novembro de 1938.
27. ASV, ANI, pos. 9, fasc. 5, ff. 139r-141r, “Provvedimenti per la
tutela della razza italiana”.
28. Tacchi Venturi também lhes disse sobre a necessidade de rascunhar
um novo texto para as instruções de casamento que a Congregação
para a Disciplina dos Sacramentos dera à Igreja Católica na Itália. A
nova redação que ele havia proposto proibia padres de realizarem
casamentos religiosos se a nova lei racial não permitisse, exceto nos
casos que envolviam “sentimentos conscienciosos muito sérios”.
Exatamente o que se queria dizer com essa última frase ficou sem
definição. Todos os presentes manifestaram sua aprovação. ASV,
AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 139r-141r, “Adunanza presso l’E.mo
sig. Card. Jorio”, 2 novembre 1938.
29. “É óbvio que com um acréscimo desse”, observou Tardini, “o
governo teria aceitado plenamente o princípio da Santa Sé, isto é, de
que o conceito de religião prevalece sobre o da raça.” ASV, AESI,
pos. 1.063, fasc. 755, ff. 149r-150v, Tardini appunti, 3 novembre
1938, ênfase no original.
30. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 162r-164r, “Relazione del
colloquio avuto con S.E. Buffarini il 3 novembre 1938”, Tacchi
Venturi; ibid., f. 171r, Tardini appunti, 4 novembre 1938.
CAPÍTULO 26: FÉ NO REI
1.ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 177r-178r, Pio XI a Mussolini,
4 novembre 1938.
2. Ibid., ff. 180r-181r, Tacchi Venturi a Mussolini, 4 novembre 1938.
Na tentativa de tornar o papa benquisto pelo Duce, Tacchi Venturi
acrescentou que o pontífice pensou a princípio em escrever
diretamente para o rei, como manda o protocolo, mas, reconhecendo
o tanto que o Duce fizera pela Igreja, decidira lhe dar a chance de
ajustar as coisas primeiro.
3. A pedido do papa, Pacelli rascunhou as duas cartas, uma para o rei e
outra para Mussolini. Um versão publicada da carta para o rei está
disponível em DDI, série 8, vol. 10, n. 360, “Sua Santità Pio XI a Re
Vittorio Emanuele III”, 5 novembre 1938; o rascunho original escrito
à mão de Pacelli, com correções, encontra-se em ASV, AESI, pos.
1.063, fasc. 755, ff. 184r-84v.
4. Poucos dias depois, Dino Grandi, que fora ministro das Relações
Exteriores de Mussolini e depois seu embaixador na Grã-Bretanha, fez
uma reflexão sobre a relação do rei com o Duce. “Por vinte anos”,
observou, “o rei e Mussolini encararam-se como dois esgrimistas sobre
a esteira, com suas espadas erguidas.” Enquanto Grandi captura a
prudência mútua dos dois homens, sua descrição é falha ao não
observar que a luta é desigual — o rei estava sempre com medo de
desagradar o Duce. Mas, apesar de seus temperamentos e vidas
radicalmente diferentes e do servilismo do rei, eles compartilhavam
uma profunda solidão, uma improvável química e uma visão turva de
seus camaradas seres humanos. De Felice, 1981, pp. 14-15.
5. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, f. 186r.
6. Mussolini comunicou sua resposta por meio de Buffarini. ASV,
ANI, pos. 9, fasc. 5, f. 141r, Buffarini a Tacchi Venturi, 7 novembre
1938.
7. Ciano, 2002, pp. 151-52.
8. Fogarty, 1996, p. 562. Roosevelt ordenou que a nau capitânia da
frota naval americana nas águas francesas fosse para Nápoles para
comparecer às cerimônias em homenagem a Mundelein, e Phillips
participou de um almoço a bordo oferecido pelo contra-almirante
americano. “Nesse momento específico, quando a perseguição
religiosa está crescendo, até na Itália”, Roosevelt disse a Phillips, “a
importância do que eu quero fazer não será ignorada pelos italianos, e
acho que esse efeito não pode ser saudável.” Phillips, 1952, pp. 222-
23.
9. Antes de terminarem sua conversa, seu convidado de honra uniu-se
a eles. O cardeal Mundelein disse a Ciano que estava certo de que
falava em nome de todos os católicos americanos — “e muitos não
católicos nos Estados Unidos” — no que dizia respeito a instigar o
governo a manter seus compromissos com a Santa Sé. ASV, AESI,
pos. 1.063, fasc. 755, ff. 200r-202v, Borgongini a Pacelli, 9 novembre
1938.
10. ASMAE, APG, b. 46, R. Ambasciata, Berlino, a Regio Ministero
degli affari esteri, “Reazioni anti-Semite in Germania”, 26 novembre
1938. O núncio papal, Cesare Orsenigo, também enviou um relatório
detalhado sobre a perseguição para o Vaticano, mas não há registro de
qualquer palavra emitida pela Santa Sé em protesto. Wolf, 2010, pp.
205-6. A violência foi relatada também em CC, 1938, IV, pp. 476-78.
11. Perin, 2011, p. 207.
12. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 203r-204r, Tacchi Venturi a
Mussolini, 10 novembre 1938.
13. Fornari, 1971, pp. 185-86; Il Regime Fascista, 8 novembre 1938, p.
3
14. “La chiesa e gli ebrei in un discorso dell’on. Farinacci”, Il Giornale
d’Italia , 9 novembre 1938.
15. DDI, série 8, vol. 10, n. 390, Pignatti a Ciano, 12 novembre
1938.
16. O documento, possivelmente preparado por Tardini, tem o título
“Action Taken by the Holy See on the Question of Racism” [Ação
tomada pela Santa Sé na questão do racismo]. ASV, AESI, pos. 1.054,
fasc. 738, ff. 34r-39r. Não possui data, mas refere-se aos eventos do
dia 21 de setembro. No entanto, o arquivo é encontrado nos arquivos
do Vaticano logo depois de um com a data de 4 de novembro de
1938, o que sugere uma data na primeira quinzena de novembro.
17. ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 212r-213r, Pacelli,
telegramma per Parigi, San Sabastiano, Londres, 11 novembre 1938.
18. ASV, ANI, pos. 9, fasc. 5, ff. 162r-166r, Pacelli a Pignatti, 13
novembre 1938. No dia seguinte, Pacelli enviou um memorando para
os cardeais da Cúria para deixá-los a par da situação, anexando
diversos documentos para sua informação, incluindo duas das cartas
obsequiosas de Tacchi Venturi para Mussolini, o texto da nova lei, as
cartas do papa para Mussolini e para o rei com suas mudanças sugeridas
na redação do artigo 7 da nova lei proposta, a resposta do rei e a carta
de protesto de Pacelli para Pignatti em 13 de novembro. ASV, ANI,
pos. 9, fasc. 5, ff. 143r-161r.
19. Reproduzido em Sale, 2009, p. 286.
20. “A proposito di un nuovo Decreto Legge”, OR, 14-15 novembre
1938, p. 1. Em 16 de novembro, o embaixador britânico na Itália,
D’Arcy Osborne, enviou sua análise sobre os protestos do papa para o
visconde Halifax em Londres. Depois de resumir o artigo de
L’Osservatore Romano e seu protesto sobre a violação da concordata, ele
observou: “Será interessante ver se alguma coisa sai desse protesto, pois
vai mostrar se Mussolini atribui uma importância maior às visões e
influências dos fascistas mais extremos e seus confederados nazistas ou
às dos católicos italianos. Suspeito que os protestos do Vaticano vão
pesar, não por seus próprios méritos, mas por pura conveniência. E eu
ficarei agradavelmente surpreso se as considerações de conformidade
com o princípio fascista e a prática nazista não forem as vencedoras.”
FCRSE, pt. 16, outubro a dezembro de 1938, n. 58.
21. No dia seguinte, falando com Tardini, Pio XI narrou sua conversa
com o velho jesuíta: “Ontem, o padre Tacchi Venturi veio aqui
apenas para me dizer que o artigo causou uma boa impressão no
governo. Mais ainda lhe disse umas poucas e boas!”
22. Se Pacelli evitou a situação esperando até que o papa se esquecesse
do assunto, por conta de sua memória titubeante, ou convencendo o
pontífice de que aquilo não era uma boa ideia, não fica claro ao
lermos o relatório de Tardini, que é nosso único vislumbre com
relação a essa conversa. Tardini apenas escreveu que Pacelli foi “bem-
sucedido em evitar o problema”. O relato escrito à mão de Tardini,
datado de 15 de novembro de 1938, mas escrito algum tempos depois,
encontra-se ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 321r-321v, 329r.
23. Charles-Roux, 27 février 1937, citado em LaCroix-Riz, 1994, p.
55.
24. ASMAE, AISS, b. 5, fasc. 1, sf. 5, “Lettera aperta a S. E. il
Cardinale Schuster Arcivescovo di Milano”, marzo 1930. Mais
detalhes sobre o episódio são fornecidos em ACS, MI, FP “Schuster”.
25. ASMAE, APSS, n. 314.682, Ministero degli Affari Esteri,
“Appunto per la Dir. Gen. A.E.M. Uff. V”, 1 settembre 1937.
26. Ferrari 1982, p. 590. ACS, MI, FP “Schuster”, informatore n.
553, 27 novembre 1938. Como contou um informante da polícia, o
choque em Milão provocado pelo ataque de Schuster veio “da
convicção geral de que esse cardeal (...) era completamente ligado ao
PNF e como tal também estava disposto a seguir a política racial”.
Ibid., 30 novembre 1938. Ver também ibid., informatore n. 37, 2
dicembre 1938.
27. ASV, ANI, pos. 9, fasc. 5, ff. 168r-169r, Pacelli a Pignatti, 22
novembre 1938.
28. Ibid., ff. 170r-171r, Pignatti a Pacelli, 29 novembre 1938.
29. O jornal em questão era Il Popolo d’Italia. No mesmo dia, o
respeitado Corriere della Sera alegou que Roosevelt estava perdendo
apoio popular nos Estados Unidos e previu que ele “em breve pudesse
ser confrontado por uma reação violenta a favor do princípio da
neutralidade americana e contra a influência traiçoeira judaica agora
dominando a Casa Branca”. Os artigos do jornal são todos citados por
Reed em M1423, rolo 1, Edward L. Reed, encarregado de negócios
interino, Roma, ao secretário de Estado, Washington, n. 1.184, 2 de
dezembro de 1938.
30. Confalonieri 1957, p. 379.
31. DDI, série 8, vol. 10, n. 510, Pignatti a Ciano, 6 dicembre 1938.
32. ACS, MI, DAGR, b. B7-G, #81980-3, Milano, 4 dicembre 1938.
33. ACS, MI, DAGR, b. B7-G, #81984-5, Milano, 5 dicembre 1938;
Israel, 2011, p. 62; Matard-Bonucci, 2008, p. 293.
CAPÍTULO 27: UMA MORTE CONVENIENTE
1.DDI, série 8, vol. 10, n. 539, Pignatti a Ciano, 12 dicembre 1938.
Essas últimas palavras, também, estão sublinhadas no original.
2. Ciano, 2002, pp. 165-66.
3. Baudrillart, 1996, pp. 902-3.
4. “Parole di Padre”, OR, 25 dicembre 1938, p. 1.
5. Pacelli recrutou Montini para ajudá-lo a tentar convencer o papa.
ASV, AESI, pos. 1.063, fasc. 755, ff. 479r-479v, Tardini appunti, 24
dicembre 1938.
6. Em uma reunião na qual Ciano informou sobre a raiva do Duce,
Borgongini defendeu o papa. Ele culpou as recentes tensões pelo
apoio total de Mussolini aos nazistas, incluindo o inexplicável
empenho do governo em minar a concordata ao banir os casamentos
mistos. O papa, com suas generosas observações sobre o Duce em seus
discursos para os cardeais, disse ele, estava fazendo sua parte para
restaurar as relações harmoniosas que todos eles queriam tanto. Agora,
cabia a Mussolini encontrá-lo no meio do caminho. ASV, ANI, pos.
24, fasc. 5, ff. 2r-6r, Borgongini a Pacelli, 28 dicembre 1938.
7. o Ciano, 2002, p. 171 (1 de janeiro de 1939).
8. François-Bonnet, 31 de dezembro de 1938, citado em De Felice,
1981, pp. 571-72.
9. Petacci, 2010, pp. 445-46.
10. Petacci, 2011, pp. 21-35.
11. Ciano, 2002, p. 172 (2 de janeiro de 1939).
12. DDI, série 8, vol. 11, n. 6, Pignatti a Ciano, 3 gennaio 1939. Em
janeiro também, Ciano e Mussolini encontraram com o embaixador
americano para receber uma proposta do presidente Roosevelt. Em
uma carta datada de 7 de setembro, Roosevelt pediu ao Duce que
ajudasse a lidar com a crise humanitária gerada pelo grande número de
judeus forçados a deixar seus lares da Europa, mas não tinham para
onde ir. Roosevelt propôs que a Itália designasse uma região da
Etiópia para criar um refúgio para os judeus. Foreign Relations of the
United States , vol. 1, pp. 858-59, “President Roosevelt to the Chief of
the Italian Government (Mussolini)”, 7 de dezembro de 1938; e ibid.,
pp. 859-60, “Memorandum Elaborating the Points Referred to in
President Roosevelt’s Letter to the Chief of the Italian Government, 7
de dezembro de 1938”. Mussolini respondeu que o governo italiano,
dada sua posição em relação aos judeus, não poderia desempenhar tal
papel, mas disse ao embaixador Phillips, de forma um tanto jocosa,
que os Estados Unidos possuíam um vasto território e perguntou se
não poderiam alocar uma região deles mesmos para os refugiados
judeus da Europa. DGFP, série D, vol. 4, n. 424, embaixador na Itália
para ministro das Relações Exteriores, 4 de janeiro de 1939; NARA,
M1423, rolo 1, Edward Reed, Roma, para o secretário de Estado, 6
de janeiro de 1939, n. 1.238; DDI, série 8, vol. 11, n. 47, Vitetti ai
Direttori Generali degli Affari Transoceanici, Roma, 11 gennaio
1939.
13. DDI, série 8, vol. 11, n. 26, Pignatti a Ciano, 7 gennaio 1939;
ASMAE, AISS, b. 95, fasc. 1, sf. 1, Pignatti, 7 gennaio 1939.
14. Renato Moro (2005, pp. 51-55) oferece uma análise perspicaz de
como até mesmo o cardeal Schuster, dos cardeais e bispos italianos o
mais notável crítico da adoção das leis raciais por parte do regime
fascista, manteve sua crença na benevolência do regime fascista italiano
como tal. O problema foi o movimento de algumas correntes fascistas
de transformar o fascismo italiano ao importar o que ele via como a
ideologia pagã dos nazistas.
15. Charles-Roux, em seu relatório para o ministro das Relações
Exteriores francês de 31 de dezembro de 1938, fez uma citação da
edição do dia anterior. MAEI, vol. 267, 152-53.
16. O sermão do bispo sobre os judeus foi publicado em duas partes
no jornal do Vaticano: “Un’Omelia del vescovo di Cremona, La
Chiesa e gli Ebrei”, OR, 15 gennaio 1939, p. 2; “L’Omelia del
vescovo di Cremona, Perchè si accusa la Chiesa”, 16-17 gennaio
1939, p. 2. A versão do sermão do bispo Lenten publicado em
L’Osservatore Romano parece ter sido atenuada com a exclusão da frase
do bispo: “A Igreja nada disse e nada fez para defender os judeus e o
judaísmo.” Para uma discussão sobre essas mudanças, ver Binchy,
1970, pp. 622-23, e Bocchini Camaiani, 1989, pp. 62-63. Gallina
(1979, pp. 523-24) reproduz uma parte do relatório do prefeito de
Cremona, de 8 de janeiro, do sermão a Buffarini, descrevendo-o
como um apoio forte à campanha antissemita fascista.
17. Bocci, 2003, pp. 501-5. Não era surpresa alguma que Farinacci
pensaria em recorrer ao influente Gemelli para a tarefa de demonstrar
forte apoio à Igreja pela campanha antissemita. A essência do que
Gemelli dissera em Bolonha foi retirada do seu recente e muito
divulgado discurso de abertura para o ano acadêmico de 1938-39 da
Universidade Católica de Milão. Ele não apenas criticou ferozmente
os “conluios judaico-maçônicos” com o inimigo, mas seu panegírico a
Mussolini quase não poderia ser mais entusiástico: “Devemos formar a
nova Itália, a Itália da era de Mussolini, essa ‘juventude de Mussolini’,
como eles têm sido chamados, capazes de largar o livro e pegar um
rifle para servir à pátria como soldados.” Publicado na revista de
Gemelli, Vita e Pensiero 15, n. 1, pp. 5-12, 1939, discutido em
Bocchini Camaiani 1989, p. 48n14. As opiniões de Gemelli sobre os
judeus estavam muito alinhadas com as do superior-geral jesuíta e La
Civiltà Cattolica. Desde a época em que fundara a Universidade
Católica, de tempos em tempos ele bradava raivosamente contra os
judeus. Apenas poucos meses antes de seu discurso em Bolonha, ele
escreveu a um amigo que a democracia ocidental era uma cortina de
fumaça manipulada por uma conspiração “judaico-maçônica”. Bocci,
2003, p. 523n14.
Gemelli era um santo terror, como foi o primeiro a admitir. Ele havia
criado a Universidade Católica, lutara por ela e a considerara seu
próprio feudo. Nesse processo, contara com o apoio forte do papa e
das autoridades fascistas. “Tenho muitos defeitos”, disse ele a uma
plateia em 1931. “Reconheço todos eles. Sou violento, intimidador,
confuso.” Mas Deus, prosseguiu, sabia como usar os defeitos das
pessoas para Seus próprios fins. “Para fazer uma universidade é preciso
um homem como eu. Até mesmo um tirano.” Cosmacini 1985, p.
203.
O discurso inflamado antissemita de Gemelli, ao apoiar de forma
oportuna os esforços de Farinacci para mostrar que as leis antissemitas
do regime condiziam com os ensinamentos da Igreja, pode ter sido
ainda mais esquálido. Há evidência de que, ao realizar os desejos de
Farinacci, ele esperava ser nomeado para a Academia Italiana, a mais
respeitada sociedade acadêmica honorária. No caso, Farinacci cumpriu
com sua parte do acordo. Em 19 de março, ele recomendou a
Mussolini com insistência que nomeasse Gemelli para a Academia.
Farinacci estava convencido de Gemelli logo seria apontado como
cardeal, e ter alguém como “verdadeiramente nosso homem” tão
perto do pontífice seria, disse ele ao Duce, da maior utilidade. MAEI,
vol. 267, 158-59, Charles-Roux à Georges Bonnet, 19 janvier 1939.
Mussolini disse que “não é a hora certa” e não fez a nomeação. Nem
Gemelli foi apontado como cardeal. Para uma discussão a respeito
desse episódio, ver Bocci, 2003, pp. 506-8.
18. MAEI, vol. 267, 158-59, Charles-Roux à Georges Bonnet, 19
janvier 1939.
19. ACS, MI, FP “Gemelli”, informatore n. 390 (= Arrigo Pozzi),
“Gli umori del nuovo papaverso padre Gemelli. Una scena pietosa
con Pio XI”, Milano, 10 marzo 1939.
20. Nas primeiras semanas de 1939, La Civiltà Cattolica publicou um
artigo refazendo a acusação de que os maçons era o maior inimigo da
civilização cristã, aliados com o “judaísmo cosmopolita, que não era
leal a nenhum país”. Antonio Messineo, “L’internazionalismo
cosmopolita e l’essere nazionale”, CC, 1939, I, pp. 7-20, citado em
Vian, 2011, pp. 131-32.
21. Venini, 2004, p. 251. Venini não faz menção a qualquer atrito
entre o papa e Gemlli.
22. Riccardi, 1996, p. 536. A Itália possuía 274 dioceses, cada uma
conduzida por um bispo ou arcebispo.
23. Pignatti, que ficou sabendo dessa troca por meio de Pacelli, de
pronto informou a Ciano e pediu que os dois se encontrassem para
discuti-la. ASMAE, AISS, b. 101, fasc. 1, Pignatti a Ciano, 11 gennaio
1939.
24. O monsenhor Montini, sabendo como Mussolini ficava sensível
com os relatórios da insatisfação do papa com o governo italiano,
enviou a Pignatti uma cópia do jornal do Vaticano. Mas Pignatti não
ficou contente e lhe disse que o assunto não era do tipo que deveria
ser tratado com comicidade. O Vaticano deveria ter emitido uma
negação formal em vez disso. ASMAE, APSS, b. 44, fasc. 2, Pignatti a
Ciano, 11 gennaio 1939. De 11 a 14 de janeiro, Ciano e Mussolini
tiveram sua atenção desviada pela visita a Roma do primeiro-ministro
e do ministro das Relações Exteriores britânicos. DBFP, 1919-1939,
série 3, vol. 3, n. 500, pp. 517-30, R 431/1/22, “Conversations
between British and Italian Ministers, Rome, January 11-14, 1939”, e
n. 502, pp. 531-40, R 546/1/22, “The Earl of Perth (Rome) to
Viscount Halifax (Received January 23)”, 19 de janeiro de 1939. Os
dois visitantes britânicos participaram de uma breve audiência com o
papa em 13 de janeiro. Chamberlain descreve o papa como se ele
estivesse gozando de “razoável boa saúde”. “British Statesmen Confer
with Pope”, NYT, 14 de janeiro de 1939, p. 5.
25. Na edição de Natal do The New York Times, a manchete da
primeira página dizia: “Pius XI Deplores Fascist Hostility, Reveals
Incidents”, (25 de dezembro de 1938, p. 1). O artigo não é de todo
preciso, já que a maioria dos jornais nos Estados Unidos, França e
Grã-Bretanha estavam ávidos para retratar o papa como um inimigo
implacável das leis raciais e do regime fascista, omitindo as distinções
que de fato eram feitas nos protestos papais.
26. DDI, série 8, vol. 11, n. 56, Pignatti a Ciano, 14 gennaio 1939.
27. No dia 19, Borgongini perguntou a Buffarini, subsecretário de
Assuntos Internos de Mussolini, como o governo planejava celebrar o
décimo aniversário. O líder fascista respondeu com rispidez: “Como
vamos celebrar dadas as circunstâncias?” Mas, quando o núncio
indicou todo o contentamento que a Conciliação gerara entre os
italianos uma década antes e como estavam certos de esperar uma
celebração principal, Buffarini admitiu: “Sim, sim, você tem razão,
precisamos fazer algo.” ASV, ANI, pos. 24, fasc. 14, ff. 174r-177r,
Borgongini a Pacelli, 19 gennaio 1939.
28. Esses eventos estão registrados no relato de Tardini: ASV, AESS,
pos. 576, fasc. 607, ff. 15r-15v, 17r.
29. Sale, 2009, p. 45.
30. Como o rascunho original, junto com o trabalho que Rosa fizera
nele várias semanas antes, voltou para Ledóchowski, não sabemos. O
padre Rosa pode ter contado o segredo a seu sucessor a editor do
jornal, e nesse caso ele sem dúvida teria reunido o material
imediatamente para enviar a Ledóchowski. Se não, o superior geral
jesuíta, ao saber da morte de Rosa, pode ter enviado uma mensagem
para levarem-no para ele.
31. Sale, 2009, pp. 45-47. O padre Sale, o primeiro a informar sobre a
existência dessa correspondência em seu livro, em 2009, defende
Ledóchowski e Rosa da acusação de tentarem impedir o papa de
publicar uma encíclica denunciando o racismo e o antissemitismo. Ele
argumenta (Sale, 2009, p. 47) que a questão deles com o rascunho era
que LaFarge, por não ser familiarizado com o estilo peculiar das
encíclicas papais, não tinha seguido o padrão apropriado. É muito
difícil acreditar que essa tenha sido a principal preocupação deles.
32. “Un’Omelia dell’E.mo Patriarca di Venezia”, OR, 19 gennaio
1939, p. 2.
33. ASMAE, AISS, b. 102, “Notizia fiduciaria”, Roma, 19 gennaio
1939.
34. DDI, série 8, vol. 11, n. 102, Pignatti a Bastianini, 24 gennaio
1939.
35. ASV, AESS, pos. 576, fasc. 607, ff. 22r-23v, Tardini appunti, 22
gennaio e 1 febbraio 1939.
36. o Ciano, 2002, p. 184 (1 de fevereiro de 1939).
37. Mussolini fez esse comunicado por meio de Pignatti. ASMAE,
AISS, b. 101, Pignatti a Ciano, n. 414/133, 3 febbraio 1939. O relato
de Pacelli sobre o encontro é encontrado em ASV, AESS, pos. 576,
fasc. 607, f. 19r, 3 febbraio 1939.
38. ASV, AESS, pos. 576, fasc. 607, f. 20r, 4 febbraio 1939.
39. “Se, apesar de sua presença na Basílica de São Pedro”, Pignatti
alertou Ciano, “o papa ainda der vazão a seu mau humor, o mundo
católico e as pessoas de bem sem dúvida vão perceber a justeza do
governo real, mesmo que o papa responda de forma rude.” ASMAE,
AISS, b. 101, Pignatti a Ciano, n. 439/144, 4 febbraio 1939.
40. Bottai, 2001, p. 141.
41. ASV, AESS, pos. 576, fasc. 607, f. 21r, 6 febbraio 1939. Charles-
Roux forneceu suas reflexões sobre a decisão de enviar Ciano em seu
relatório de 8 de fevereiro para Paris. MAEI, vol. 267, pp. 165-66.
42. Papin, 1977, p. 49.
43. Confalonieri, 1957, pp. 385-386.
44. Tardini registrou as palavras do papa. ASV, AESS, pos. 576, fasc.
607, f. 102r.
45. Ibid.
46. Fattorini, 2007, p. 213.
47. Venini, 2004, p. 254.
48. Ciano, 2002, p. 187 (9 de janeiro de 1939).
49. Camille Cianfarra, “Pope Pius Is Dead at the Age of 81; Cardinals
at Bedside in the Vatican”, NYT, 10 de fevereiro de 1939, p. 1. Tais
relatos de segunda mão sobre as últimas palavras do papa são, é claro,
notoriamente duvidosos.
50. “Death of the Pope”, The Times (Londres), 11 de fevereiro de
1939, p. 12.
51. Chiron (2006, 463-64) descreve as últimas horas do papa.
CAPÍTULO 28: UMA NUVEM NEGRA SE DISSIPA
1.Charles-Roux, 1947, pp. 243-44.
2. Ciano, 2002, p. 188 (10 de fevereiro de 1939). O momento
dramático da morte do papa, na véspera do dia em que ele faria o
discurso para todos os bispos da Itália, o mesmo discurso que
Mussolini temia que o denunciasse, serviu de inspiração para uma
variedade de teorias da conspiração. A figura central dessas
especulações era o pai de Clara Petacci, Francesco, um médico
experiente no departamento médico do Vaticano. Por diversas razões,
ligadas não apenas a Clara, mas a seu irmão — ele estava envolvido em
vários incidentes financeiros duvidosos, aproveitando-se dos vínculos
da família com Mussolini —, é possível que Francesco fosse vítima de
chantagem. Observando que nos últimos dias do papa, seu médico
particular, Aminta Milani, estava doente e acamado, os proponentes
dessa teoria argumentam que, de alguma forma, Petacci pai tirou
proveito de sua posição a fim de mandar o papa enfermo para a outra
vida antes que ele pudesse fazer seu temido discurso no décimo
aniversário do Tratado de Latrão. Em uma matéria de primeira página
de 1972, o The Times de Londres noticiou que o cardeal Tisserant
dissera a seus colegas mais íntimos que acreditava que o papa tivesse
sido assassinado e suspeitava de Petacci. Como evidência a mais, foi
alegado que Petacci ficara encarregado de preparar o corpo do papa
para o funeral e, assim, poderia ter removido qualquer sinal de
envenenamento. “Support for Theory of 1939 Killing of Pope”,
Times, 23 de junho de 1972, p. 1. Em 2005, o historiador Piero
Melograni ressuscitou a teoria. Antonio Carioti, “La morte sospetta di
Pio XI. Stava per condannare il Duce”, Corriere della Sera, 11 luglio
2005, p. 25. Embora o momento da morte do papa assuma um caráter
duvidoso, não há, de fato, nenhuma evidência válida para sugerir que
ele tenha morrido de outra causa que não uma natural. Mas a história
é tão sensacional que continua reaparecendo, mais recentemente em
Mauro Suttora, “Pio XI fu assassinato dal padre di Claretta?”, Corriere
della Sera, 17 maggio 2012.
3. Caviglia, 2009, p. 227 (10 febbraio 1939).
4. Durante as semanas anteriores, Pignatti aconselhou o regime a não
fazer nada para fortalecer a influência das forças antifascistas entre os
cardeais. Mas mesmo com o papa moribundo, Achille Starace, líder do
PNF, exigia que o governo apresentasse um novo protesto: certos
grupos da Ação Católica estavam envolvendo-se em atividades
políticas. No dia seguinte à morte do papa, Pignatti escreveu para
Starace, dizendo-lhe que não estava ansioso para levar essa questão ao
Vaticano no momento. Na ausência de um papa, ela precisaria ser
encaminhada ao Sacro Colégio, para os mesmos homens que votariam
no sucessor do papa. Aparentemente, até mesmo o superfascista
Starace valorizou a lógica do embaixador e, naquela noite, enviou um
telegrama dizendo que compreendia. ASMAE, APSS, b. 42, Pignatti a
Starace, 11 febbraio 1939, n. 545; ibid., Pignatti a Ciano, 12 febbraio
1939, n. 553.
5. Ciano, 2002, p. 189 (12 de fevereiro de 1939).
6. Petacci, 2011, pp. 52-53 (12 febbraio 1939).
7. ASV, ANI, pos. 1, fasc. 7, ff. 7r-9r, Borgongini a Monsignor
Vincenzo Santoro, segretario del Sacro Collegio, 13 febbraio 1939.
Santoro respondeu dois dias depois, confirmando que os bispos não
tinham recebido nenhum documento secreto. Ibid., f. 10r, Santoro a
Borgongini, 15 febbraio 1939. Pignatti também perguntou a Pacelli
sobre o boato e recebeu a mesma negativa. ASMAE, AISS, b. 101,
Pignatti a Ciano, 13 febbraio 1939, n. 557.
8. Fattorini (2011, pp. 210-15) oferece uma versão em inglês do texto
completo, publicando a versão original em italiano em Fattorini
(2007, pp. 240-44). Para a análise da decisão de Pacelli de ocultar o
discurso, ver pp. 187-93 da edição em inglês. O documento encontra-
se em ASV, AESS, pos. 576, fasc. 606, ff. 147r-153r.
9. ASV, AESS, pos. 576, fasc. 607, f. 165r, appunto Tardini,
“Materiale preparato da S.S. Pio XI per l’adunanza del 12 febbraio
1939”, 12 gennaio 1941.
10. ASMAE, AISS, b. 101, Pignatti a Esteri-Gabinetto, 22 febbraio
1939, n. 23.
11. “Mentioned to Succeed Pius”, BG, 11 de fevereiro de 1939, p. 3.
A especulação do Los Angeles Times concentrava-se em Pacelli e
Schuster como os dois principais candidatos ao papado na época da
morte de Pio XI. “Italian Seen as Successor”, LAT, 11 de fevereiro de
1939, p. 1.
12. “Nine Leading Candidates”, NYT, 12 de fevereiro de 1939, p.
43. No dia seguinte, The New York Times (“5 Cardinals Lead in Vatican
Contest”, 13 de fevereiro de 1939, p. 1) ampliou o tema,
argumentando que “as chances de a Cúria apresentar um candidato
bem-sucedido ao papado eram pequenas”. E acrescentou: “Se, por
alguma coincidência, o próximo papa for um de seus candidatos, os
cardeais Massimi e Tedeschini são os mais prováveis.” De sua parte,
The Times de Londres achou que o novo papa seria provavelmente
italiano, mas escolhido entre aqueles considerados “não políticos”.
Além do mais, o papa seria escolhido não entre a Cúria do Vaticano,
mas entre os arcebispos residentes. “Choosing a Pope”, Times, 1o de
março de 1939, p. 15.
13. ACS, MCPG, b. 169, Roma, 16 febbraio 1937.
14. ACS, MCPG, b. 170, Roma, 24 febbraio 1938. Sobre os poderes
de Dalla Costa de operar milagres, ver os comentários do cardeal
Verdier em Papin, 1977, pp. 53-54.
15. ASV, ANI, pos. 1, fasc. 7, Borgongini a Santoro, 16 febbraio
1939; ibid., f. 15r, Cardinal Belmonte a Borgongini, 18 febbraio 1939.
16. Fattorini (2007, pp. 221-22) também chama atenção para esse fato.
17. A seguir, em quantidade, embora distante, estavam os seis cardeais
franceses. A Alemanha tinha quatro; Espanha e Estados Unidos
possuíam três, cada. Mais nenhum país tinha mais de um cardeal e,
desses, apenas quatro vinham de fora da Europa: um canadense, um
argentino, um brasileiro e um sírio. O poder do Sacro Colégio estava
concentrado em Roma: vinte e quatro dos cardeais viviam lá, todos
com exceção de um — Eugène Tisserant — eram italianos, a maioria
com posições na Cúria, no centro do poder do Vaticano. ASMAE,
AISS, b. 95, 10 febbraio 1939; Annuario Pontificio 1940, pp. 71-72. Pio
XI nomeara setenta e sete cardeais, dos quais quatorze tinham vindo
do serviço diplomático do Vaticano, e outros vinte eram da Cúria. De
resto, a maioria eram arcebispos residentes cujas arquidioceses eram
dignas de ter um cardeal como arcebispo. Nem todos estavam vivos na
época do conclave. Agostino (1991, pp. 29-30) escreve que vinte e
sete residiam em Roma, mas aqui usei o número (vinte e quatro)
encontrado depois de examinar os endereços listados no Annuario
1940.
18. O monsenhor Montini, insatisfeito com vários artigos ofensivos na
imprensa nazista, planejava publicar uma história no L’Osservatore
Romano criticando-os. Mas quando Pignatti reclamou com o cardeal
Pacelli sobre o assunto, ele interveio para impedir a publicação.
Bergen seguiu o conselho de Pignatti, e isso pode ser visto no
telegrama que ele enviou para o ministro das Relações Exteriores
alemão em Berlim, mais tarde no mesmo dia, contando sobre sua
conversa e recomendando com insistência que a imprensa alemã
diminuísse o tom das críticas ao falecido papa e a qualquer cardeal de
cuja boa-vontade eles precisavam. DGFP, série D, vol. 4, n. 470,
Bergen ao ministro das Relações Exteriores, 18 de fevereiro de 1939.
19. Uma razão para o otimismo de Bergen era que, desde a morte de
Pio XI, ele notara uma atmosfera muito mais harmoniosa no Vaticano.
Vários cardeais haviam deixado claro que esperavam chegar a um
acordo com o Reich. ASMAE, AISS, b. 95, Pignatti a Ciano, 18
febbraio 1939; também publicado em DDI, série 8, vol. 11, n. 197. O
relatório de Pignatti a Ciano sobre essa conversa foi enviado a
Mussolini.
20. ASMAE, AISS, b. 95, Pignatti, 21 febbraio 1939.
21. Ibid., Pignatti a Ciano, 25 febbraio 1939.
22. Ibid., Pignatti a Ciano, 26 febbraio 1939. Em 27 de fevereiro,
Pignatti encontrou-se com o embaixador alemão para comparar
observações. Dois dos cardeais alemães, tinham recentemente
garantido a Bergen que adotariam uma “atitude conciliatória” no
conclave. Pacelli, ao falar pouco tempo antes com um dos cardeais
alemães, manifestara “intenções claras a favor da conciliação” entre os
governos alemão e italiano. Pignatti pediu outra vez a opinião do
governo nazista sobre a candidatura de Pacelli. Bergen respondeu que
tinha informado ao Ministério das Relações Exteriores alemão de sua
forte preferência por Pacelli e “não recebi nenhuma instrução
contrária”. Por isso ele concluiu que seu governo tinha uma opinião
favorável do ex-secretário de Estado. De sua parte, o embaixador
italiano compartilhou sua preocupação sobre o que os cardeais
italianos fariam no conclave. Ele se reunira com vários deles, disse, e
eles não eram muito afeiçoados a Pacelli. ASMAE, AISS, b. 95,
Pignatti a Ciano, 27 febbraio 1939.
23. Baudrillart, 1996, pp. 963-65, 968 (20 février, 22 février, 24
février 1939).
24. Esse é o relato de Verdier sobre a conversa, em Papin, 1977, pp.
56-57.
25. Dois dos cardeais estavam muito doentes para comparecerem à
Capela Sistina, então votaram de seus aposentos no Vaticano. Sobre a
chegada dos cardeais norte e sul-americanos, ver “Liner to Be Held”,
NYT, 11 de fevereiro de 1939, p. 1; Camille Cianfarra, “Vatican
Door Shut on 62 Cardinals as Conclave Opens to Elect Pope”, NYT,
2 de março de 1939, p. 1.
26. Ventresca, 2013, p. 136.
27. Várias pessoas próximas do papa testemunharam que Pio XI queria
que Pacelli fosse seu sucessor. Entre eles, o próprio Pacelli, que, logo
após sua eleição, confidenciou ao cardeal Verdier: “Por duas vezes,
Pio XI me disse: ‘Você será meu sucessor.’ Eu achava que deveria
protestar, mas o Santo Padre acrescentou secamente: ‘Sabemos do que
estamos falando.’” O novo papa prosseguiu dizendo a Verdier que
acreditava que Pio XI o enviara em suas missões ao exterior para
melhorar suas chances de ser eleito. Papin, 1977, p. 62.
28. Baudrillart, 1996, pp. 973-76 (1 mars, 2 mars 1939); NARA,
M1.423, rolo 2, Phillips ao secretário de Estado, relatório n. 1.316, 3
de março de1939.
29. DDI, série 8, vol. 11, n. 240, Pignatti a Ciano, 2 marzo 1939.
30. Ciano. 2002, pp. 195-96 (2 e 3 de março de 1939); Tranfaglia,
2005, p. 159.
31. Pio XII lembrou a Bergen de algumas observações que ele fizera
no ano anterior na Congregação Eucarística em Budapeste: “Não é
função da Igreja Católica”, disse Pacelli (em alemão), “tomar partido
em assuntos puramente temporários e em acomodações entre
diferentes sistemas e métodos que podem surgir para superar os
problemas urgentes do presente.” DGFP, série D, vol. 4, n. 472,
Bergen ao ministro das Relações Exteriores, 5 de março de 1939.
32. DGFP, série D, vol. 4, n. 473, Bergen ao ministro das Relações
Exteriores, 8 de março de 1939.
33. Morgan, 1944, pp. 159-60.
34. ACS, MI, PS, Polizia Politica, b. 210, informatore n. 52, Roma,
15 de agosto de 1938. Em um relatório seis meses depois, o
informante n. 571 acrescentou outra acusação: “Quanto aos círculos
do Vaticano, os pederastas mais conhecidos seriam os cardeais Pizzardo
e Caccia Dominioni. Dizem que Pizzardo tinha reações íntimas com
jovens rapazes de Trastevere.” ACS, MI, FP, FP “Pizzardo”, 20
febbraio 1939. Como esse é o único informante (de que estou ciente)
que fez essa acusação contra o cardeal Pizzardo, deve ser considerada
como não provada.
35. NARA, M1423, rolo 2, Joseph Kennedy, Londres, para o
secretário de Estado americano [Cordell Hull], 17 de março de 1939.
Willian Phillips, embaixador americano na Itália, recorda-se em suas
memórias que todo inverno ele dava um grande jantar dançante em
homenagem a Ciano e sua esposa, Edda Mussolini. Apesar da presença
dos diplomatas do exterior mais importantes em Roma, lembra-se
Phillips (1952, p. 218), Ciano devotava toda a sua atenção a jovens
mulheres atraentes que tinham sido convidadas, “dando pouca ou
nenhuma atenção aos embaixadores e suas esposas ou aos italianos
ilustres presentes”.
36. “De todos os ‘fatos’ que ocorreram nesses anos fatais”, escreveu
Dino Grandi (1985, p. 459), “esse foi o mais crucial.”
37. Ciano, 2002, pp. 203-4 (18 de março de 1939); Chenaux, 2005,
p. 273; De Cesaris, 2010, pp. 251-53; Casella, 2010, p. 290. No mês
seguinte, ao relatar a decisão do novo papa de retirar Pizzardo de sua
posição e criar a comissão de arcebispos, Charles-Roux observou que
a impressão em Roma era de que o papa fizera isso para cair “nas
graças do regime fascista”. MAEI, vol. 267, 172-73, Charles-Roux à
Bonnet, 13 avril 1939. Os relatórios dos bispos sobre as relações entre
as autoridades fascistas e os grupos locais da Ação Católica são
encontrados em ASV, AESS, pos. 576, fasc. 607, ff. 179r-190v.
Í
CAPÍTULO 29: RUMO AO DESASTRE
1.Emmanuel Mounier, citado em Ventresca, 2013, p. 149.
2. ASMAE, APSS, b. 42, Pignatti a Ciano, 21 aprile 1939.
3. Morgan, 1941, pp. 241-42; Chadwick, 1986, p. 56.
4. Fattorini, 2007, p. ix.
5. ASMAE, APSS, b. 43, Ministero degli Affari Esteri a Pignatti, 26
aprile 1939. Na mesma época, o gabinete de Ciano recebeu um
relatório do consulado italiano em Munique, contando sobre a
dramática mudança de atitude da imprensa local em relação ao novo
papa. Antes, informou o cônsul, a imprensa alemã estava desconfiada
de Pacelli, que julgavam ser muito próximo da antiga liderança do
Partido Central de seu tempo e nostálgico quanto à época em que a
Igreja era a influência política dominante na Baviera. Mas agora,
diante de suas primeiras atitudes como papa, ele era encarado por um
viés positivo. ASMAE, APSS, b. 43, “Atteggiamento nazionalsocialista
nei confronti del nuovo Pontefice”, Munich, 27 aprile 1939.
6. Bottai, 2001, p. 148 (19 maggio 1939).
7. Há uma vasta literatura sobre a ação papal contra a Action
Française. Prévotat (2001) oferece um exame completo. Spadolini
(1972, pp. 291-96) publicou o relato de Gasparri sobre a batalha.
8. ASMAE, APSS, b. 44, Pignatti a Ciano, 17 luglio 1939.
9. Pio XII também contou ao núncio que, como secretário de Estado,
ele fizera tudo a seu alcance para impedir Pio XI de protestar contra a
aparição da suástica durante a visita de Hitler, mas sem sucesso.
ASMAE, APSS, b. 43, Tamaro, R. Legazione d’Italia, Berna, al R.
Ministero degli Esteri, telespresso n. 3.461/1.236, 21 luglio 1939.
10. Papin, 1977, p. 67.
11. Parsons, 2008, p. 92.
12. Ventresca, 2013, pp. 153-54, 166.
13. ACS, MI, DAGRA, b. 1.320, Roma, 11 novembre 1940.
14. Salvatore Costanza, “Gli eterni nemici di Roma”, La Difesa della
Razza 2:16 (20 giugno 1939), p. 30; Mario de Bagni, “Cristo e i
cristiani nel talmud”, La Difesa della Razza 2:14 (20 maggio 1939), pp.
8-9; Carlo Barduzzi, “Cattolici e giudei in Francia”, La Difesa della
Razza 2:14 (20 maggio 1939), pp. 26-27; Cassata, 2008, p. 127.
15. o Em 1 de abril, quatro dias depois de Mussolini fazer seu pedido, o
papa Pio XII enviou um telegrama de congratulações para o general
Franco. “Elevando nossos corações a Deus, nos regozijamos em Sua
Excelência pela imensamente desejada vitória da Espanha católica.” O
novo papa concluiu oferecendo sua bênção a Franco e ao povo
espanhol. Franzinelli, 1998, p. 173. Duas semanas depois, o papa
voltou-se para o povo espanhol em um programa de rádio: “Com
imensa alegria, dirigimo-Nos a vocês, filhos amados da Espanha
católica, para expressar nossas congratulações paternais pelo presente
de paz e pela vitória concedida por Deus para coroar o heroísmo
cristão de sua fé e caridade, demonstrados diante de um grande e
nobre sofrimento.” Fattorini, 2007, p. 104.
16. ARSI, TV, b. 28, fasc. 2.228, Tacchi Venturi a Luigi Maglione,
28 marzo 1939. O embaixador italiano manifestou sua satisfação com
o novo pontífice depois de seu encontro com ele em meados de
novembro. O papa, disse ele a Ciano, “falou que nosso país lhe dá
uma grande satisfação. Ele elogiou o espírito de religiosidade,
moralidade e trabalho árduo dos italianos, insistindo em declarar-se
satisfeito com tudo”. Casella, 2010, p. 343.
17. Antonio Messineo, em CC, 1940, IV, pp. 216-19. A carta com as
queixas, de Giorgio Del Vecchio, e a resposta de Tardini são
discutidas por Sale (2009, p. 149), com base em correspondências
encontradas nos arquivos da revista.
18. ADSS, vol. 9, 1974, n. 289, Tacchi Venturi au Cardinal
Maglione, 10 août 1943.
19. ADSS, vol. 9, 1974, n. 296, Cardinal Maglione au Père Tacchi
Venturi, 18 août 1943.
20. ARSI, TV, 36, n. 2660, Tacchi Venturi a Umberto Ricci, 24
agosto 1943. Essa carta também está publicada em ADSS, vol. 9, anexa
a n. 317.
21. ADSS, vol. 9, 1975, n. 317, Tacchi Venturi au Cardinal
Maglione, 29 août 1943.
22. Caretti, 2010, pp. 148-49.
23. ADSS, vol. 9, n. 368, cardeal Maglione, anotações, Vaticano, 16
octobre 1943.
24. Gilbert, 1985, pp. 622-23;
http://www.ushmm.org/wlc/en/article.php?ModuleId=10005189.
Os judeus na Itália durante a guerra abrangiam aproximadamente 35
mil judeus naturais da Itália e dez mil refugiados recentes das áreas
controladas pelos nazistas. A estimativa de conversões na Itália no
período de 1938-1943 é de “Jews in Italy 04: Holocaust Period 1938-
1945”, Encyclopaedia Judiaca on-line,
http://www.geschichteinchronologie.ch/eu/it/EncJud_juden-in-
Italien04-holocaust1938-1945-ENGL.html.
EPÍLOGO
1.Santarelli, 1991; Romersa, 1983, pp. 269-73.
2. Ciano passara os últimos meses como o embaixador de Mussolini na
Santa Sé.
3. Moseley, 1999, pp. 176-247.
4. Uma imensa literatura foi produzida em relação aos últimos dias de
Mussolini. Meu relato aqui se baseia amplamente em Milza (2000, pp.
935-47) e Bosworth (2002, pp. 410-12). Parece que a carta que
Mussolini teria escrito de Como para sua esposa pode ter sido uma
invenção posterior de Rachele. Sobre isso, ver Luzzato, 1998.
5. Innocenti, 1992, pp. 116-17.
6. Pardini, 2007, pp. 439, 455-59; Festorazzi, 2004, pp. 260-61.
7. Innocenti, 1992, pp. 169-70.
8. NYT, 19 de março de 1956, p. 31. The Washington Post (19 de
março de 1956, p. 26) noticiou que, enquanto o jesuíta morria como
um homem sem importância, fora ele que “projetara o Tratado de
Latrão” em 1929.
9. O panegírico de Gemelli para o papa, publicado em sua revista, Vita
e Pensiero, fornece a interpretação mais fascista possível da solidariedade
de Pio XI. O obituário termina, um tanto dissonante, com um peã
não ao homem que em tese deveria estar sendo elogiado, mas a
Mussolini, recordando “a gratidão que os católicos italianos deviam ao
incomparável Homem, a quem Pio XI chamou de Homem que a
Providência o fizera encontrar”. Ranfagni, 1975, p. 216. O padre
Coughlin, por sua vez, engajou-se em uma tentativa parecida de dar a
Pio XI a imagem mais pró-fascista possível depois de sua morte. “Pius
XI Saved Western Civilization from Reds, Declares Fr. Coughlin”,
BG, 12 de fevereiro de 1939, p. 8; “Coughlin Says Pope Was
Europe’s Savior”, NYT, 13 de fevereiro de 1939, p. 2. Com as tropas
dos Aliados afugentando os alemães de Roma em junho de 1944 e
seguindo com sua marcha para o norte, o padre Gemelli — e muitos
como ele — tentou desesperadamente convencer os vitoriosos de que
nunca tinha sido um fascista. Em julho, em uma conversa com Dom
Domenico Rigoni, um velho conhecido da época anterior a ascensão
de Mussolini ao poder, ele mostrou argumentos que em breve seriam
usados com qualquer um que o ouvisse: se ele tinha feito qualquer
coisa para agradar Mussolini e os outros líderes fascistas, era apenas
porque ele era forçado a agir assim para proteger a Universidade
Católica; ele era de fato antifascista, um democrata cristão. Dom
Rigoni o interrompeu: “Não, meu amigo. Você era um fascista e é
inútil negar.” CS, MI, FP “Gemelli”, Milano, 10 luglio 1944.
10. Bocci, 2003, p. 505.
11. De modo misterioso, os documentos da comissão referentes a
Gemelli logo em seguida desapareceram. Sobre o empenho de
Gemelli para manter sua posição depois da guerra e o apoio que
recebeu do Vaticano, ver Parola, 2003.
12. Phillips, 1952, pp. 231-33.
13. Ventresca, 2013.
14. Cornwell, 1999.