Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 11 de 79

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Pátria

Opiparus:

Oh, nunca abismo algum tolheu el-rei, meu amo De aldravar uma pêta ou de caçar um gamo.

 

CIGANUS:

E depois o cronista-mór, tonto e velhaco, A insinuar-lhe, a embeber-lhe endróminas no caco, Telepatias, bruxarias, judiarias

Do Livro das Visões, Sonhos e Profecias. O que vale é que el-rei, um gordo hereditário, Pesa de mais para profeta ou visionário.

Não me assusta…

 

MAGNUS, confidencial:

Marquês… dum amigo a um amigo!

Entre nós… fale franco: a ordem corre p'rigo?… O mal-estar… desassocêgo… uma aventura… Os quarteis… Diga lá: julga a C'roa segura?…

 

CIGANUS:

Segura e bem segura. Equivocar-me hei, No entretanto, parada feita: jógo ao rei!

Neste lance… No outro… A inspiração é vária, E bem posso mudar para a carta contrária.

 

OPIPARUS:

De maneira que apenas eu, sublime idiota, Guardo fidelidade ao rei nesta batota!

Alapardou-se em mim o dever e a virtude! Quando o trono de Afonso Henriques se desgrude, Eu cá vou com el-rei… Isto da pátria e lar É boa fêmea, bom humor e bom jantar,

O ditoso torrão da pátria!… que imbecis!

No globo não há mais que uma pátria: Paris. A nossa então, que choldra! Infecta mercearia, Guimarães, Policarpo, Antunes, Braga & C.^a! Um horror! um horror! Não temam que proteste, Se emigrando me vejo livre de tal peste.

Fico por lá… não torno mais… fico de vez… O que é preciso é bago… Ora, você, marquês, Adorável canalha e salteador galante,

Não me deixa embarcar el-rei como um tunante, El-rei que vai viver por côrtes estrangeiras, Sem duas dúzias de milhões nas algibeiras… Eu sou trinchante-mór, e conservo o lugar, Havendo, claro está, faisões para trinchar!…

 

MAGNUS, imponente:

Incrível! No momento grave em que a Nação Dorme (ou finge dormir!) à beira dum vulcão, Nesta hora tremenda, hora talvez fatal,

Há quem graceje como em pleno carnaval! E assim vamos alegremente, que loucura! Cavando a todo o instante a própria sepultura… No dia d'àmanhã ninguêm pensa, ninguêm!