Pátria
Opiparus:
Oh, nunca abismo algum tolheu el-rei, meu amo De aldravar uma pêta ou de caçar um gamo.
CIGANUS:
E depois o cronista-mór, tonto e velhaco, A insinuar-lhe, a embeber-lhe endróminas no caco, Telepatias, bruxarias, judiarias
Do Livro das Visões, Sonhos e Profecias. O que vale é que el-rei, um gordo hereditário, Pesa de mais para profeta ou visionário.
Não me assusta…
MAGNUS, confidencial:
Marquês… dum amigo a um amigo!
Entre nós… fale franco: a ordem corre p'rigo?… O mal-estar… desassocêgo… uma aventura… Os quarteis… Diga lá: julga a C'roa segura?…
CIGANUS:
Segura e bem segura. Equivocar-me hei, No entretanto, parada feita: jógo ao rei!
Neste lance… No outro… A inspiração é vária, E bem posso mudar para a carta contrária.
OPIPARUS:
De maneira que apenas eu, sublime idiota, Guardo fidelidade ao rei nesta batota!
Alapardou-se em mim o dever e a virtude! Quando o trono de Afonso Henriques se desgrude, Eu cá vou com el-rei… Isto da pátria e lar É boa fêmea, bom humor e bom jantar,
O ditoso torrão da pátria!… que imbecis!
No globo não há mais que uma pátria: Paris. A nossa então, que choldra! Infecta mercearia, Guimarães, Policarpo, Antunes, Braga & C.^a! Um horror! um horror! Não temam que proteste, Se emigrando me vejo livre de tal peste.
Fico por lá… não torno mais… fico de vez… O que é preciso é bago… Ora, você, marquês, Adorável canalha e salteador galante,
Não me deixa embarcar el-rei como um tunante, El-rei que vai viver por côrtes estrangeiras, Sem duas dúzias de milhões nas algibeiras… Eu sou trinchante-mór, e conservo o lugar, Havendo, claro está, faisões para trinchar!…
MAGNUS, imponente:
Incrível! No momento grave em que a Nação Dorme (ou finge dormir!) à beira dum vulcão, Nesta hora tremenda, hora talvez fatal,
Há quem graceje como em pleno carnaval! E assim vamos alegremente, que loucura! Cavando a todo o instante a própria sepultura… No dia d'àmanhã ninguêm pensa, ninguêm!