Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 58 de 79

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Pátria

O Rei:

Se é fruta de embarque, vai pelo caminho Desfazer-se toda nos caixões de pinho…

Fruta de tal raça, cavador lunar,

Só a quer a Morte para o seu jantar!…

 

O REI:

Dou às vezes razão ao tonto do cronista… Que lhe querem! não é agradável à vista, Por noite negra uma bandada de milhafres, Grasnando e devorando, à maneira de cafres, Uma ceia de carne podre…

 

CIGANUS:

Que limpeza!

Deixe-os comer… deixe-os comer… Varrem a mesa. Mortos e mortos na floresta à dependura, Um açougue… Não há còveiro, nem há cura, Nem tochas, nem latim para tanta carcassa… Os corvos, meu senhor, enterram-nas de graça. Admiráveis glutões, em bambocha funérea Liquidam numa noite a questão da miséria. Jantam-na. Devorado o problema. Afinal

Restam ossos; convêm: tem fosfato de cal, Bom adubo…

E no entanto o país, meu Senhor,

É uma beleza! uma beleza! encantador!

Trinta portos ideais, um céu azul marinho, A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho, Balsâmicos vergeis, serranias frondosas, Clima primaveral de mandriões e rosas,

Uma beleza! Que lhe falta? Únicamente

Oiro, vida, alegria, outro povo, outra gente. Raça estúpida e má, que por fortuna agora Torna habitável êste encanto… indo-se embora! Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar: Dois boqueirões de esgôto,—o cemitério e o mar. Que precisamos nós? Libras! libras, dinheiro! Libras d'oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro? Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto: Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto. Impérios d'alêm-mar, alquilam-se, ou então Sorteados,—em rifa, ou à praça,—em leilão. E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu, Para um casino monstro e um bordel europeu. Fazer desta cloaca, onde a miséria habita, Um paraíso por acções,—cosmopolita.

Dar jôgo ao mundo, ao globo! uma banca tremenda! Calculo eu daí uns mil milhões de renda.

O comércio, dez mil… O trânsito, sem conta… Cifras, Senhor, de pôr uma cabeça tonta! De minuto a minuto, expressos e vapores, Sempre a golfar carregações de jogadores, Montões de malas, sacos d'oiro, (libras, luíses!) Nuvens de cortesãs, dançarinas e actrizes, Equipagens, Barnoums, touristes, saltimbancos, Vinte raças,—mongóis, negros, mestiços, brancos, Um ruidoso vaivêm humano que circula, Todo fausto, esplendor, alta luxúria e gula, O mylord, o nababo, a Rússia, a Índia, a América, Numa promiscuìdade esplêndida e quimérica! E todo êste país, éden de regabofe,