Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 72 de 79

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Pátria

Scena Xx

 

O ESPECTRO DE D. MARIA II:

Inclina um rei perante um rei (somos iguais) A realeza. Perante um vassalo, jàmais!

O monarca ao monarca (é irmão com irmão) Dobra o orgulho sem infâmia; o rei ao povo, não! Assina, e já! Príncipe vil, que se amedronte, Usa, mas sem direito, um diadema na fronte. Povo em rebelião, não é povo, é canalha. Beija-te os pés?—indulto. Ergue o braço?—metralha. Faltam soldados e clavinas? Pouco importa: El-Rei de Espanha os mandará; tem-los à porta

 

Desaparece.

 

O DOIDO, na escuridão:

Tremia a raínha de me ouvir cantar…

Oh, loucura minha, desventura minha!

Cantigas são asas, fazem-nos voar…

Mandou-me prender, mandou-me espancar.

E eu desatei a rir, eu desatei a rir,

E três dias cantei com mais três noites a seguir!…

Não dormia a raínha de me ouvir cantar… Oh, loucura minha, desventura minha!

Cantigas são graças para não chorar…

Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,

Zás! desbaratei-as com o meu cajado!

E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!

Tremendo, a raínha disse então ao rei:

«Emquanto o não matem não descansarei. Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar,

Traz-mo aqui de rastros para o degolar.»

Veio o rei à frente dum grande estadão,

Zás! desbaratei-o com o meu bordão!

É de temer, é de temer

Um doido varrido com um pau na mão!…

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

Então a raínha, vileza traiçoeira!

Chamou inimigos d'alêm da fronteira…

E tantos! e tantos!… Que havia de eu fazer?… Quebrei de raiva o meu bordão e deixei-me prender…

Levado de rastros aos pés da raínha,

Cuspiu-me na cara!

Oh, vergonha minha! por fortuna minha,

Melhor me matara!… melhor me matara!… O gôsto que teve durou-lhe bem pouco… Foi ela que morreu!… foi ela que morreu!… Vi-a passar já no caixão, ia a enterrar…

E sabeis o que eu fiz? (o que é ser louco!… o que é ser louco!…) Desatei a chorar!…