Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 42 de 79

Páginas do PDF

Pátria

O Rei:

A lua morta bóia nas nuvens toda amarela… Corvos marinhos, corvos daninhos poisam sôbre ela…

Tiram-lhe os olhos, comem-lhe a bôca, já com grangrena… Astros errantes, agonizantes, choram de pena…

Choram de pena, tremem de mágoa, morrem de dôr… Na noite escura canta a Loucura, grita o Pavor…

Lôbas tinhosas d'olhos d'enxofre saltam valados… Pobres dos gados!… pobres dos gados pelos montados!…

 

O REI:

Olha o doido!… Lá torna o doido… Eu logo vi… Canta p'raí até 'stoirar… canta p'raí!…

Bom telhudo! em pelote e com êste nordeste, A ladrar cantochões à lua!… Que lhe preste!

 

CIGANUS:

Deixe lá! faz-lhe bem… faz-lhe bem… P'rá mania Não há nada melhor do que o vento e água fria.

 

Rebenta, fora, um grande tumulto. O rei e os validos

assomam-se ao balcão. Vem debandando, clamorosa, a revolta vencida. Soldados, prisioneiros, feridos, moribundos em macas. Ais de estertor, pragas, vivas avinhados, gritos de mulheres, choros de crianças. Os cães, truculentos, ululam na varanda.