Pátria
Ciganus:
Nem sei como exprimir a Vossa Majestade A alegria que sinto!… É de mais! que bondade! A grã-cruz do Pavão!… Nunca o julguei… Em suma, Feliz!… morro feliz… Já não há mais nenhuma!
O REI, a Ciganus:
E agora?
CIGANUS:
Meu Senhor, é dormir sem cuidados!
Os mortos cemitério e os vivos…
OPIPARUS:
Enforcados.
CIGANUS:
Talvez que sim, talvez que não…
É conforme: o rigor, a clemência, o perdão, Tudo às vezes convêm, tudo tem seu logar… Enforco-os, claro está, se os puder enforcar. Não podendo, enxovia; e, se a nação revôlta Clama contra a prisão… deixá-los hei à solta. Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste, Quero em vez de canhões a guardá-la um cipreste. Mas, se matando arrisco a própria vida, não: Converto-me, de algoz furioso em bom cristão… Reinar, eis o importante; o modo é secundário. É conforme se pode; é dia a dia; vário.
Fica melhor um rei num corcel de batalha, O chicote na mão, contemplando a canalha. Inspira assim terror, incute mêdo e fé.
Não há, porêm, cavalo? É governar a pé. E, se ainda precisa atitudes mais chatas, É governar de toda a forma,—até de gatas! O caso é governar, seja lá como fôr:
Com manhas de toupeira ou vôos de condor, Por caminho sinuoso ou caminho direito… Eu, para governar, a tudo me sujeito,
Indo de cara alegre até ao sacrifício
De ser exemplarmente honesto… por ofício!
Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os cães ladrando sempre.
MAGNUS, sentencioso:
Nas vistas do marquês há pontos em que abundo, Pontos em que discordo. O mal é mais profundo! Talhemos com firmeza o mal pela raíz!
Nas circunstâncias desastrosas do país,
Quando um vento de insánia brava nos arrasta, Quando abusos de toda a ordem, toda a casta, Andam impunes; quando a moral e o direito Já não levam sequer à noção de respeito, Á noção do dever, urge com brevidade
Dar fôrça à C'roa e dar prestígio à autoridade!
Eu com rude franqueza o digo: o caso é sério! Nós vivemos (se isto é viver!) num baixo império! Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo! Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo,
Nem o sacrário da família se venera,
Não há reputação, ainda a mais austera,
Que a não manchem… um lodaçal, um tremedal de escombros, E nós a vermos isto e a encolhermos os ombros! É de mais! é de mais! Vamos todos a pique! É necessário um termo! é necessário um dique! Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho! E inda há gente… inda há gente! inda há homens de cunho! Inda há muita aptidão, muita capacidade
E muita honra!… O que é mister é uma vontade! Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora! Qual o cancro que dia a dia nos devora?
Toda a gente que vê, toda a gente que pensa Põe o dedo na chaga e conclue: a descrença! Se o mal vem da descrença, ataque-se a questão! Religião, Senhor e mais religião!
Deus e mais Deus! tendo nós Deus e a fôrça armada, Não há receio algum; dormirá descansada A monarquia. Deus, embora neste meio,
Queiram ou não, é sempre Deus!… é ainda um freio!
OPIPARUS, galhofeiro:
E o profeta, que nos censura e nos fulmina, Tem palácio, grande estadão, mesa divina, É joisseur como dez banqueiros elegantes, E, facto escandaloso! a respeito de amantes Cultiva sobretudo (às vezes com seus p'rigos…) Esta especialidade: a mulher dos amigos!