Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 62 de 79

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Pátria

O Rei:

Uma cruz negra alêm!…

 

CIGANUS:

Onde?… Não vejo nada…

 

O REI:

Uma cruz toda negra e toda ensangùentada!…

 

CIGANUS:

Foi decerto ilusão…

 

Rindo:

 

É calvário feroz

Que espera alguêm…

 

OPIPARUS:

Nenhum de nós… nenhum de nós…

Poderemos dormir tranqùilos, sem receio Dum calvário onde apenas haja a cruz do meio…

 

Uivam os cães sinistramente.

O DOIDO, na escuridão:

Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos, Mundos pelo mar…

O vento sopra, o vento sopra…

Quanta areia negra faz turbilhonar!

—Mundos a voar… mundos a voar…

Por manhã doirada, galeão doirado vinha cheio d'oiro!… Rubins scintilantes,

Pérolas, diamantes…

Vinha cheio d'oiro…

O vento sopra, o vento sopra…

Que cinza de campas se alevanta ao ar… —Meu oiro a voar… meu oiro a voar…

Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alêm-mar!… O vento sopra, o vento sopra…

Que bandos de nuvens!… vão-se a desmanchar!… Castelos… galeras… reinos d'alêm-mar…

Foi um sonho lindo… foi um sonho lindo… Como é bom sonhar!…

Acordei sem alma… quem me encontra a alma… Quem ma torna a dar!

Queimou-se o casebre… só tições escuros, só carvões escuros, Inda a fumegar…

(Quem ma torna a dar!)

Que bem dormiria debaixo dos muros…

Tão quente!… debaixo das pedras do lar! Oh, que inverneira! oh, que inverneira!

Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar!