Pátria
O Rei:
Uma cruz negra alêm!…
CIGANUS:
Onde?… Não vejo nada…
O REI:
Uma cruz toda negra e toda ensangùentada!…
CIGANUS:
Foi decerto ilusão…
Rindo:
É calvário feroz
Que espera alguêm…
OPIPARUS:
Nenhum de nós… nenhum de nós…
Poderemos dormir tranqùilos, sem receio Dum calvário onde apenas haja a cruz do meio…
Uivam os cães sinistramente.
O DOIDO, na escuridão:
Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos, Mundos pelo mar…
O vento sopra, o vento sopra…
Quanta areia negra faz turbilhonar!
—Mundos a voar… mundos a voar…
Por manhã doirada, galeão doirado vinha cheio d'oiro!… Rubins scintilantes,
Pérolas, diamantes…
Vinha cheio d'oiro…
O vento sopra, o vento sopra…
Que cinza de campas se alevanta ao ar… —Meu oiro a voar… meu oiro a voar…
Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alêm-mar!… O vento sopra, o vento sopra…
Que bandos de nuvens!… vão-se a desmanchar!… Castelos… galeras… reinos d'alêm-mar…
Foi um sonho lindo… foi um sonho lindo… Como é bom sonhar!…
Acordei sem alma… quem me encontra a alma… Quem ma torna a dar!
Queimou-se o casebre… só tições escuros, só carvões escuros, Inda a fumegar…
(Quem ma torna a dar!)
Que bem dormiria debaixo dos muros…
Tão quente!… debaixo das pedras do lar! Oh, que inverneira! oh, que inverneira!
Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar!