Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 51 de 79

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Pátria

Scena Xi

 

 

O REI:

Ouvi!

 

OPIPARUS:

O mar.

 

CIGANUS:

Não é o mar; a ventania.

 

O REI:

Tambêm não… Escutai… escutai…

 

OPIPARUS:

Dir-se-ia

O confuso estridor, desordenado e vário Dum exército louco, em tropel tumultuário…

 

O rei com os validos assoma-se ao balcão. Hordas

inúmeras de esfarrapados, multidões de mendigos, turbas espectrais, homens e mulheres, vélhos e crianças, ululando, gritando, praguejando, baixam a montanha em direcção à praia, numa torrente caudalosa, numa levada contínua de sofrimento e de miséria. E o porão tenebroso do navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando, alastrando, cada vez mais tumultuária e bramidora. Dir-se-ia um povo de malditos, debandando a um cataclismo inexorável! Povo imenso, não tem fim, mas o navio não tem fundo. Cabe tudo lá dentro. Os cães, na varanda, rosnam, sombrios e provocantes.

 

O REI:

Que quer isto dizer?! que chinfrineira é esta?!… Que balbúrdia!… que multidões sombrias!… temos festa!… Oh, com mil raios! temos festa… Há banzé novo… Que 'stardalhaço… Um mar de gente!… um mar de povo, A correr, a crescer… Gritos, uivos, bramidos… Era uma vez, marquês!… Pronto! estamos perdidos!…

 

CIGANUS, fleumático, acendendo um charuto:

Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, miséria…