Pátria
O Rei:
Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as
profundidades cavas do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta, crucitando.
O REI:
Pavoroso!
OPIPARUS:
Ora adeus! nada mais natural:
A fome trás a morte, os mortos cheiram mal, E o cheirete dum morto, assim dependurado, Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.
O DOIDO, na escuridão:
Olha as macieiras que maçãs que dão:
Gangrena por fora, dentro podridão!
Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
As maçãs escusam de ir ao madureiro…
Oh, que estranhos figos que há nos figueirais: Mordidos d'abutres!… Figos que dão ais!…
Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro…