Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 57 de 79

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Pátria

O Rei:

Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as

profundidades cavas do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta, crucitando.

 

O REI:

Pavoroso!

 

OPIPARUS:

Ora adeus! nada mais natural:

A fome trás a morte, os mortos cheiram mal, E o cheirete dum morto, assim dependurado, Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.

 

O DOIDO, na escuridão:

Olha as macieiras que maçãs que dão:

Gangrena por fora, dentro podridão!

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,

As maçãs escusam de ir ao madureiro…

Oh, que estranhos figos que há nos figueirais: Mordidos d'abutres!… Figos que dão ais!…

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,

Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro…