Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 53 de 79

Páginas do PDF

Pátria

Opiparus:

A fome e a Dor escaveiradas

Ululam roucas nas estradas,

Irmãs sinistras de mãos dadas…

Misericórdia! Misericórdia!

Na escuridão, entre lufadas,

Que pavorosas debandadas

De multidões desordenadas…

Misericórdia! Misericórdia!

Turbas gemendo esfarrapadas,

Por ventanias e nevadas,

Filhos ao colo, ao ombro enxadas,

Sem luz, sem pão e sem moradas!…

Misericórdia! Misericórdia!

E em salas d'oiro, iluminadas,

Há beijos, risos, gargalhadas…

Misericórdia! Misericórdia!

E, por outeiros e quebradas,

Tombam choupanas arruìnadas…

Mortas… desfeitas em ossadas…

Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!

 

OPIPARUS:

Que bela voz! Dava um barítono estrondoso O diabo do maluco!…

 

O REI:

A mim faz-me nervoso,

Não sei porque… Faz-me nervoso… Embirro, é doença… Mas quanto poviléu! que turbamulta imensa De esfaimados, de miseráveis no abandôno, Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono! Vejam isto…