Pátria
Opiparus:
A fome e a Dor escaveiradas
Ululam roucas nas estradas,
Irmãs sinistras de mãos dadas…
Misericórdia! Misericórdia!
Na escuridão, entre lufadas,
Que pavorosas debandadas
De multidões desordenadas…
Misericórdia! Misericórdia!
Turbas gemendo esfarrapadas,
Por ventanias e nevadas,
Filhos ao colo, ao ombro enxadas,
Sem luz, sem pão e sem moradas!…
Misericórdia! Misericórdia!
E em salas d'oiro, iluminadas,
Há beijos, risos, gargalhadas…
Misericórdia! Misericórdia!
E, por outeiros e quebradas,
Tombam choupanas arruìnadas…
Mortas… desfeitas em ossadas…
Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!
OPIPARUS:
Que bela voz! Dava um barítono estrondoso O diabo do maluco!…
O REI:
A mim faz-me nervoso,
Não sei porque… Faz-me nervoso… Embirro, é doença… Mas quanto poviléu! que turbamulta imensa De esfaimados, de miseráveis no abandôno, Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono! Vejam isto…