Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 77 de 79

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Pátria

Fim

a quem êle tantas vezes, benignamente, dera agasalho e dera pão. Quem o crucificou?!… Porque seria?!… Mete mêdo e respeito… Que estatura de homem!… que gigante!… Morto, semelha um Deus!… E, fronte descoberta,—Avé-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bemdita sois vós entre as mulheres…—E os olhos da criança devoram a cruz, estrêlas inocentes, cheias de angústia e cheias de alma… Há naquele olhar uma inconsciência misteriosa, que adivinha… Luz enigmática, vem de longe, do fundo do passado, morrendo ao longe, em sonho, nas obscuridades do porvir… Esse vélho fantasma, com êsse menino ao colo, lembra a derradeira árvore dum bosque, árvore núa e carcomida, com uma florinha última no tronco. Flor de morte!… flor d'esp'rança!… Nasceu dum cadáver, e dela se hão-de gerar, talvez, os rumorosos bosques de àmanhã!… O aldeão, assombrado, meio louco, procura o castelo do rei… evaporou-se… já o não avista. Em frente, na montanha, só lavaredas e ruínas. Vai descendo, descendo, descendo, e lá ao fundo estaca de improviso, inclina-se, e vê no chão, abandonada, uma arma guerreira. É o montante de Nunalvares. Empolga-o a custo. Os braços da criancinha estendem-se com avidez, numa alegria doida… Nobre montante, qual o teu destino? Sulcarás, relha de arado, a gleba deserta dêsse camponês? Nas mãos dessa criança, um dia homem, brilharás acaso, espada de fogo e de justiça? Mistério… mistério… Invisivelmente, saùdando a luz, as cotovias gorgeiam…

 

FIM