Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 33 de 79

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Pátria

Opiparus:

Pronto! endoideceu tambêm!

 

ASTROLOGUS:

A mil não chega ainda; oitocentos…

 

CIGANUS:

Coitado!

Endoideceu! doido varrido e confirmado!

 

O REI:

Gracejas?

 

ASTROLOGUS:

Não perdi a razão, nem gracejo…

Acaso, meu Senhor, não vedes, como eu vejo, Neste gigante, em seu aspecto e seu fadário, O quer que seja de extra-humano e de lendário? Maior que nós, simples mortais, êste gigante Foi da glória dum povo o semideus radiante. Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,

Seu torrão dilatou, inóspito montado,

Numa pátria… E que pátria! a mais formosa e linda Que ondas do mar e luz do luar viram ainda! Campos claros de milho moço e trigo loiro, Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro, Trilos de rouxinóis, revoadas de andorinhas, Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas, Gados nédios, colinas brancas, olorosas, Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas, Selvas fundas, nevados píncaros, outeiros D'olivais, por nogais frautas de pegureiros, Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas, Eiras de sonho, grutas de génios e de fadas, Riso, abundância, amor, concórdia, juventude, E entre a harmonia virgiliana um povo rude, Um povo montanhês e heróico à beira-mar, Sob a graça de Deus, a cantar e a lavrar! Pátria feita lavrando e batalhando: Aldeias Conchegadinhas sempre ao torreão de ameias. Cada vila um castelo. As cidades defesas Por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas. E a dar a fé, a dar vigor, a dar o alento,

Grimpas de catedrais, zimbórios de convento, Campanários de igreja humilde, erguendo à luz, Num abraço infinito, os dois braços da cruz! E êle, o herói imortal duma empresa tamanha, Em seu tuguriosinho alegre na montanha Simples vivia,—paz grandiosa, augusta e mansa, Sob o burel o arnês, junto do arado a lança. Ao pálido esplendor do ocaso na arribana, Di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,

Ermitão misterioso, extático vidente,

Olhos no mar, a olhar sonambólicamente… —«Águas sem fim! ondas sem fim!… Que mundos novos De estranhas plantas e animais, de estranhos povos, Ilhas verdes alêm… para alêm dessa bruma, Diademadas de aurora, embaladas de espuma!… Oh, quem fôra, através de ventos e procelas, Numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas, A demandar as ilhas d'oiro fulgurantes,

Onde sonham anões, onde vivem gigantes, Onde há topázios e esmeraldas a granel, Noites de Olimpo e beijos d'âmbar e de mel!» E scismava e scismava… As nuvens eram frotas Navegando em silêncio a paragens ignotas… —«Ir com elas… fugir… fugir!…»—[~U]a manhã, Louco, machado em punho, a golpes de titã Abateu impiedoso o roble familiar,

Há mil anos guardando o colmo do seu lar. Fez do tronco num dia uma barca veleira, Um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira… Manhã d'heróis… levantou ferro… e, visionário, Sôbre as águas de Deus foi cumprir seu fadário. Multidões acudindo ululavam de espanto. Vélhos de barbas centenárias, rosto em pranto, Braços hirtos de dor, chamavam-no… Jàmais! Não voltaria mais!… oh, jàmais… nunca mais!… E a barquinha, galgando a vastidão imensa, Ia como encantada e levada suspensa

Para a quimera astral, a músicas de Orfeus… O seu rumo era a luz, seu piloto era Deus! Anos depois volvia à mesma praia emfim Uma galera d'oiro e ébano e marfim,

Atulhando, a estoirar, o profundo porão Diamantes de Golconda e rubins de Ceilão. Naiades e tritões e ninfas, ao de leve,

Moviam-na a cantar sôbre espáduas de neve. No estandarte uma cruz esquartelando a esfera; E Vénus, voluptuosa, à proa da galera

Com o anjo cristão, virgem risonha e nua, A mamar alvorada em seus peitos de lua!… O argonauta imortal, quimérico gigante,

Voltava dos confins da epopeia radiante,

Estasiados ainda os olhos vagabundos

D'astros de novos céus, floras de novos mundos!

Epopeia inaudita! Herói, êle a viveu,

Sonhador, a cantou: Éschilo e Prometeu! Inda em hinos de bronze, em estrofes marmóreas Vibra eterno o clangor dessas passadas glórias… Mas a glória entontece e mata… Deslumbrado, Trocou por armas d'oiro as armas de soldado, Vestiu veludo e sêda e lhamas rutilantes, Estrelou de rubins, aljófares, diamantes

Sua espada de côrte e seu gibão de gala, E, em vez do catre duro e pão negro de rala, As molesas do Oriente e as orgias faustosas, Com baixelas d'Olimpo e emanações de rosas… Perdida a antiga fé, morta a virtude antiga, Seu ânimo d'herói, caldeado na fadiga

De mil empresas, mil combates de titãs,

Domaram-no por fim braços de cortesãs. Com o ferro vencera o oiro; em desagravo, O oiro, que é mau, venceu-o a êle, tornando-o escravo. Ingrato abandonara o teto paternal,

Em cuja mesa à ceia aldeã, herói frugal,

Eram de sua estreme e rústica lavoira

O pão moreno, o vinho claro e a fruta loira. Deixou morrer o armento; e campos e vinhedos Cobriram-se de tojo, ortigas e silvedos.

Em seus castelos e palácios rendilhados, Sôbre leitos de arminho e veludo e brocados, Entre beijos de harem e pompas de rajá,

Desfalecera o velho herói, caduco já.

Mas era bravo ainda, e por vezes nas veias, Acordava-lhe o sangue, alvorando epopeias… Num ímpeto de febre, aceso, arrebatado

Na visão deslumbrante e fulva do passado, Ergueu-se um dia, louco e triste, alma quimerica, Olhos em brasa a arder na face cadavérica… Aparelhou galeões, velas brancas arfantes, Cavaleiros aos mil, juvenis e brilhantes,

Galopando a cantar, descuidados e ledos Lanças na mão, a pluma ao vento, aneis nos dedos, Cada bôca uma flor, cada arma um tesoiro, Rodelas d'oiro, arnezes d'oiro, espadas d'oiro, Pedrarias astrais em setins e em veludos, Drapejar de pendões, reverberos de escudos, E as trombetas varando o céu leve de anil Co'o estridente clangor do seu furor febril! E, olhos em brasa a arder na face cadavérica, Lá partiu, lá partiu, alma errante e quimérica, À epopeia da glória, ao sonho aventureiro, Ao sonho lindo… oh, sonho triste o derradeiro!…

Num mar d'areia, fogo em pó turbilhonando, Sob o vitríolo da luz redardejando,

Entre as carnagens do combate desvairado, Já trucidado, espostejado, aniquilado

Seu exército louco,—oh sonho louco e vão!— O calmo herói, noite no olhar, gládio na mão, Negro de fumo e pó, rubro de chama e sangue, Os ilhais estoirando ao seu corcel exangue, Arrojou-se, como um destino, erecto e forte, À sangrenta hecatombe, à paz de Deus, à morte! E a morte não no quis: exânime e desfeito, De lançadas crivado o arnez, crivado o peito, Sob o corcel tombou, por milagre inda vivo! Levaram-no depois sem acôrdo e cativo.

Meio século preso e débil… De repente,

Num assomo de fúria e de cólera ardente, Partiu grilhões, abriu o ergástulo fatal

E voltou livre, livre! ao seu torrão natal!… Mas então, oh tristeza, oh desonra, oh desgraça! Feras do mesmo sangue, homens da mesma raça Envenenaram-no!…

 

Iago atira-se furioso ao cronista.

 

O REI, dando-lhe um pontapé:

Silêncio! deixa ouvir…

Tem cada uma êste cronista!…

Iago não obedece. Outro pontapé.

 

Deixa ouvir!

E quem foi?… e quem foi?…