Pátria
O Rei:
«Esta é a ditosa pátria minha amada… …………………………………. Alguns traidores houve algumas vezes… …………………………………. Porque essas honras vãs, êsse oiro puro Verdadeiro valor não dão… …………………………………. A que novos desastres determinas De levar êstes reinos, esta gente?… …………………………………. …………..apagada e vil triteza…»
O REI:
Parece verso…
CIGANUS, restituindo o livro:
Um alfarrábio fedorento,
Coisa de prègador, talvez… cheira a convento…
CIGANUS:
Quem sabe se algum vélho ermitão alienado, Dêsses que vivem sós, longe do povoado, Em ermos alcantis ou cavernas de fera…
OPIPARUS:
Onde dormes?
O DOIDO:
Dormir!… dormir!… Oh, quem me dera
Dormir!… Oh, quem me dera esta cabeça vaga, Esta cabeça tonta, arrimá-la a uma fraga, E quedar-me p'ra sempre esquecido no chão!… E os mortos dormem… e eu morri… então… então Porque não durmo?!…
Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de
Bragança, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum
escuro passado, abolido e longínquo:
Olha os bandidos… os traidores!…
Bem nos conheço!… fôram êles… subtilmente
Rosnam os cães, enfurecidos.
Com drogas más e com venenos de serpente, Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco, Me levaram a alma e me tornaram louco… Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!… A minha alma!… a minha alma!… Ouço gemidos… São talvez dela… tem-na aqui encarcerada… Onde estás, onde estás, alma desamparada?!… Grita por mim!… onde é que estás?!… Ai, quero emfim Ver-te comigo… Onde é que estás?!…