Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 36 de 79

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Pátria

O Rei:

E no entanto calcula e discorre direito,

Se lhe cheira a questão de ganância ou proveito…

 

O REI:

Tantas magicações, tanto grego e latim

Turvaram-lhe a razão, deram com êle assim. Pobre cronista! anda na lua… As trapalhadas, As pandangas que êle arquitecta!… E bem armadas! Bem armadas!… com certo dedo… Francamente, Às vezes o ladrão quási embarrila a gente! Põe-se-me a fantasiar uns casos de mistério, Com tamanho palavriado e tanto a sério,

Que fico bêsta!… Ora o ratão! ora a inzonice! Vejam lá, vejam lá, tudo que p'raí disse!

Os maranhões, a lenga-lenga, a choradeira Sôbre um doido, coitado, a caír de lazeira!

 

Designando o doido:

 

Coitado! meio nu, faminto, vagabundo,

De charneca em charneca, aos tombos pelo mundo, Sem ninguêm… vê-se bem que esta doida alimária É de família pobre, é de gente ordinária.

E eu com receios e com mêdo! Visto ao longe, Tão alto, um vozeirão, as barbaças de monge, Era um horror! coitado! um maluco, afinal…

 

Aos guardas:

Deixem-no em liberdade e não lhe façam mal. Não o espanquem… Ninguêm lhe bata… ordens severas! Ninguêm bate num doido; os doidos não são feras. Tratem-no bem… com caridade… Para a ceia Uma côdea de pão e a gamela bem cheia. Desgraçado! E dormir… dorme perfeitamente Na estrebaria ao pé dos cães: é limpo e é quente. Roupa grossa… Avisai lá em baixo a canalha… Duas mantas de lã e três feixes de palha. Não se esqueçam! cumpram as ordens que lhes dei!

 

ASTROLOGUS, curvando-se humildemente:

Ó alma generosa! Oh magnánimo rei!

Que agradável não é ser o cronista obscuro De espírito tão alto e coração tão puro!

 

O doido sai acompanhado dos guardas. Os cães

perseguem-no, ladrando, até à porta. Desencadeia-se a tormenta. Raios, trovões, aguaceiros, ventanias lúgubres. O rei e os validos dirigem-se ao balcão. O cronista acaricia os cães, galhofeiramente, sorrindo amável.

 

O CRONISTA, afagando Iago:

Iago, meu bom amor! faz'as pazes comigo! Sabes quanto te quero e sei que és meu amigo… Não te zangues… perdão… congracemo-nos, vá! O doido foi-se embora e não torna a vir cá… Havia de eu perder afeições como a tua, Por causa dum maluco a divagar na lua?!… Anda, não sejas mau… faz'as pazes comigo… Meu protector… meu defensor… meu vélho amigo!…

 

Ameigando Judas:

 

E êste Judas!… tão bom… tão leal… tão sincero!… Como eu gosto de ti, Judas! como eu te quero!…

 

Pegando no Veneno ao colo:

 

E o meu Veneno! o meu bijou! a rica prenda!… Que amor de cão!… que perfeição!… Nem de encomenda!… É de apetite o meu Veneno, o meu tesoiro… Uma beijoca, vá, no focinhito loiro!…

 

Afagando os três cães simultaneamente:

 

E, para liquidar agravos duma vez,

Disponho-me esta noite a cear com vocês!

 

O REI, despedindo o cronista:

Cronista, vai dormir… boa noite… Deus queira Que o sono te refresque um pouco a maluqueira…

 

O CRONISTA sai, pensando:

Na batalha da vida evidente se torna

Que ou havemos de ser martelo ou ser bigorna. Conclusão natural do dilema singelo:

Evitar a bigorna triste… e ser martelo.

Monstruoso, feroz, horrível, mas em suma Ponderemos que a vida é curta,—e que há só uma!