Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 71 de 79

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Pátria

Scena Xix

 

O ESPECTRO DE D. JOAO VI:

Toca a sentar! deixa sentar esta carcassa, Já roída do bicho e comida da traça!

Um corpo que pesou talvez seus dois quintais, Ou mais,

Hoje é isto! olha lá, mira-me bem em tôrno: Uns vinte arráteis d'osso e outros tantos de corno! P'ra que diabo é que Deus fez a alma imortal, Não me dirão?! O corpo, acho eu natural Que engordasse e medrasse em paz na eterna glória; Mas a alma! ora cebo! Uma alma incorpórea, Sem bôca, sem nariz, sem barriga, sem nada, Que não come um leitão, nem funga uma pitada, Deus me perdôe a asneira, uma indrómina assim, Inda que êle a engenhou, não me convêm a mim! A morrer por morrer, antes a alma; em suma, O desgôsto era leve, a perda era nenhuma. E o corpo desalmado, escorreito e perfeito, Êsse é que Deus com todo o geito

O devia levar, dando-lhe a eternidade, P'ra comer como um porco e roncar como um frade. Neste mundo em que'stou, nesta vida infinita, Grande falta me faz a barriga, acredita!

Os miolos, já não… E, caso estranho, agora Penso muito melhor do que pensava outrora… Dão-me ideias! que espiga!… Atribuo tais factos A andar-me na caveira uma porção de ratos. Ideias!… Qual a ideia humana, por sublime, Que se compare ou se aproxime

Dum peru com arroz, bem gordo e bem tostado?! Que é a vida? jantar! E a morte? ser jantado! Comer ou não comer, eis a eterna questão. Mas comer com descanso e com satisfação. Comer em paz; sem um remorso e sem fadigas. Nada de inquietações mortais, nada de brigas! Temor a Deus, mesa de abade, cama quente E rir a gente!

Eu fui um infeliz como não há segundo,

Um malaventurado aos tombos pelo mundo! A mulher uma cabra; os filhos um veneno; Sustos; o hemorroidal, vê lá, desde pequeno! E não parar! sempre em bolandas, sempre à tôa… Que vida! E como a vida, apesar disso, é boa! Oh, cantochões em Mafra!… oh, merendas no Alfeite!… Oh, séstas de Queluz em Junho!… Que deleite!… Manda ao demónio a guerra, a mulher e os cuidados! Enfardela-me aí cem milhões de cruzados Em peças d'oiro, assina o que tens de assinar, Veste o capote, leva a c'roa e põe-te a andar! Deixa os ingleses… Fracas bêstas!… raça vil!…

Muda-te p'ró Brasil… Muda-te p'ró Brasil! Fruta maravilhosa e súbditos leais…

Eu, no teu caso, até não voltava cá mais. E o povo, adeus!… que se governe… emfim, paciência… E cá lhe fica, que mais quer? a Providência!… ………………………………………………… Boas noites… É tarde… o sepulcro me chama… Vou-me deitar… Que fria e triste a minha cama! Gêlo e chumbo!… Os lençóis, farrapos com matéria, Nem me tapam sequer os ossos, que miséria! E depois sôbre mim, em cardumes, aos centos, Pulgas da eternidade, os vermes fedorentos! Ai, no jazigo escuro, a esfarelar-me em pó, Consola-me uma ideia única, uma só:

Não tornar a sofrer (oh podridão calada!) Nem de hemorróidas, nem de gases, nem de nada!…

 

Desaparece.

 

O DOIDO, na escuridão:

Que noite escura! Que noite escura!

Bramem as ondas cavernosas…

A grande armada vai largar…

Oh, a armada do rei!… oh, as naus pavorosas Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!… São esquifes mortuários,

São féretros com velas de sudários,

Tumbas negras nas ondas a boiar!…

Ai que gemidos, que alaridos De multidões na praia, olhando o mar!…

Lá vem o rei… lá vem a côrte… e luzes, luzes De brandões, de tocheiros a sangrar…

Vai a embarcar?… vai a enterrar?… Não trazem cruzes, Nem há sinos por mortos a dobrar…

Oh, a lúgubre, estranha comitiva

A bandada de espectros singular!…

É gente morta?… é gente viva?…

Procissões de defuntos a marchar!…

Cortesãos, cavaleiros e soldados,

Tudo esqueletos descarnados,

Olhos de treva e crânios de luar!…

Ladeiam côches fúnebres doirados…

São os côches d'El-Rei… vai a enterrar?… Lá se apeiam as damas das liteiras…

Gestos de manequins, rir de caveiras…

Fitas e plumas sôltas pelo ar…

Olha a raínha, vem em braços, morta e doida. Morta e doida a clamar que a vão matar!… E o rei!… olhem o rei!… que rei de entrudo!… Um porco em pé, com manto de veludo

E c'roa na cabeça, a andar, a andar!

Mas reparem… tem cornos! é cornudo!

Dois chavelhos de boi no seu logar!

Um rei, que é porco e tem chavelhos!

Um rei, que é porco e tem chavelhos!

Que fantasia! enlouqueci… ando a sonhar!… Mas bem no vejo! eu bem no vejo,

C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!… ………………………………………….

Cái de rastros, chorando, o povo inteiro,

Beija-lhe a côrte as patas e o trazeiro…

E êle a grunhir! e êle a roncar!…

………………………………………….

Lá vão as naus… lá vai o rei com seus tesoiros… E lá ficam na praia, como agoiros,

As multidões soturnas a ulular!…

………………………………………….

………………………………………….

Olha uma águia rubra, uma águia bifronte, Incendiando o horizonte,

A voar, a voar, a voar!…

Ai dos rebanhos!… ai dos rebanhos!…

Águia de extermínios, onde irás poisar?!