Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 54 de 79

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Pátria

Ciganus:

A miséria é lama, é sangue, e é pranto, A fermentar em crime e em veneno. Portanto Precisa esgôto; quer-se um esgôto e despejá-la Contínuamente num porão ou numa vala. Emigrar ou morrer; degrêdo ou cemitério. O hálito da pobreza imunda é deletério.

De trapos de mendigo e lençóis de vilão

Faz a anarquia flamejante o seu pendão. Curta distância vai da indigência à rapina, Da mão que implora à que estrangula e que assassina. Dorme em cada esfaimado um tigre. Há que evitar Na rua aglomerações de ventres sem jantar. A miséria despeja-a Deus, a Providência, Do seu vaso nocturno ao saguão da existência. Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino? Arredar para longe o excremente divino,

Para bem longe, de maneira que a infecção Não nos perturbe a nós, Senhor, a digestão…

 

O REI:

É triste, mas emfim que remédio lhe dar?!