Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 44 de 79

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Pátria

O Rei:

Entra um cavaleiro, portador duma mensagem.

 

CIGANUS, depois de a ler:

Montaria real! Foi covil por covil:

Feras mortas oitenta e prisioneiras mil.

 

O REI:

Dois gajões duma cana! Obra de lei!… Entrego Nas vossas mãos o meu destino, como um cego. Marquês, faço-te duque; e ao ducado acrescento Quinze milhões… Encaixa a história no orçamento… Opiparus, a ti, reinadio e marau,

Pago-te os cães: trezentos contos…

 

OPIPARUS:

Não é mau;

Recebendo eu o bôlo e fazendo a partilha; O meu grande credor sou eu. Quanto à matilha, Que se esfalfe a ganir… Não me incomoda nada…

 

O REI, voltando-se para os cães:

Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada! Faço-te embaixador! hãn, que empanzinadelas!… Que vidinha!… Um sultão num harem de cadelas!… A êste Judas circunspecto que hei-de eu dar? O Conselho d'Estado; é próprio e é bom logar. Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno, Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno! Um catita!

 

Acendendo um charuto e indo à varanda:

 

Perfeitamente! Ora Deus queira

Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira! Um dia alegre! O tempo muda… ronda ao norte… Magnífico! hão-de ver dôze toiros de morte, Desembolados! Inauguro emfim a minha praça: Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaça.

 

O DOIDO, na escuridão:

Ao luzir d'alva semeei de flores

Uma encosta deserta ao pé do mar

Cravos, lírios, jasmins, goivos, amores,

Açucenas e rosas de toucar.

Ao redor vinha verde e trepadeiras,

Medronheiros, figueiras, romanzeiras…

Lindo jardim! Lindo pomar!

Como no monte não havia fonte,

Desatei a chorar para o regar…

Depois, oh meus feitiços!

Enchi de abelhas d'ouro cem cortiços

E dez pombais com pombas de luar…

Olha o lindo jardim!… olha o lindo pomar!… E enxada ao ombro, já raiava a aurora, Abalei a cantar!…

Foi há mil anos… Venho mesmo agora

De ver a linda encosta à beira mar…

Lindo jardim! lindo pomar!

As açucenas deram-me gangrenas

E os jasmins podridões a fermentar!…

Os cravos deram cravos… mas de cruzes! E as roseiras espinhos de toucar…

Sôbre as ervas no chão crepitam luzes,

Fogos fátuos de larvas a bailar…

Só dos goivos, Senhor, brotaram goivos,

Destilando loucura e rosalgar…

Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!

Os figos das figueiras são caveiras

E os medronhos são balas de matar…

Oh, que lindas romãs nas romanzeiras!

Corações fusilados a sangrar!…

Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras Há rosários de dor para eu rezar…

Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!

De dentro dos cortiços, que feitiços!

Voam corvos e c'rujas pelo ar…

E dos pombais, aos centos,

Nuvens de abutres agoirentos,

Que sôbre as romanzeiras vão poisar!…

Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!

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É de encantar a natureza!… ai que beleza! Quantas florinhas para a minha mesa!… Deus, quanta fruta para o meu jantar!…

Lindo jardim… lindo pomar!…