Pátria
O Rei:
Rosnam os cães, fusilando os olhos ao cronista.
ASTROLOGUS, embaraçado e perplexo:
Quem foi?… Mistério obscuro… enigma que se esconde… Já li sôbre isso, não sei quando, nem sei onde, Uma lenda qualquer…
Os cães enfurecem-se.
O REI:
Iago! Judas!… caluda!
ASTROLOGUS:
Mas nesse ponto, meu Senhor, a história…
Os cães ameaçam, desvairados.
é muda!…
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Envenenaram-no, eis o facto, eis a verdade. E às escuras, extinta a imortal claridade,
Louco autómato errante, alma cega e funérea, Veio andando através do tempo e da miséria, Mendigo como um cão e mártir como um Cristo, Até chegar, meu Deus, vergonha eterna! a isto!!… Vêde-o bem, vêde-o bem, o rude herói d'outrora: Teve o mundo nas mãos, nos olhos d'águia a aurora. E hoje, oh destino atroz! sem amparo e sem lar, Tem andrajos no corpo e escuridões no olhar!… Não no mandeis prender, eu vo-lo peço e requeiro! É inofensivo… é manso e bom como um cordeiro… Causam-vos mêdo, porventura, umas baladas Que anda à noite a cantar, canções d'almas penadas?… É a doudice, hórrida e má, que tumultua
Ou nas voltas do tempo ou nas fases da lua… Não afronta ninguêm… Deixem-no ir, coitado! Deixem-no com seu mal e seu negro cuidado, A trovar pelo escuro e a viver pelos montes De luz do sol, d'erva do campo e água das fontes… …………………………………………….
Trás um livro na mão, reparai bem, Senhor: Um livro usado, um livro gasto e sem valor… Sem valor?!… Um tesoiro, uma história de encanto, Que êle escreveu com sangue e hoje rega com pranto… Não a larga da mão, anda-lhe tão afeito,
Que até dorme com ela escondida no peito… Mas que miséria a sua e que destino o seu! Quer ler… e não soletra o livro que escreveu! Muitas vezes de tarde encontro-o a meditar Sôbre rocha escarpada e nua à beira-mar… Pega no livro então, abre-o sôfregamente, E fica olhando, olhando, atónito e demente, A epopeia d'outrora, a bíblia do passado, Que lágrimas de fogo em sec'los tem queimado…