Pátria
Scena Vii
Opiparus vai em procura do cronista. O doido, sonâmbulo, vagueia em tôrno do salão, contemplando os retratos. O rei ao lume, junto dos cães, segue-o com os olhos.
CIGANUS, meditando:
Bem complicado êste cronista!… Quem o fez Teve artes de engendrar singular criatura, Contraditória, ondeante, incerta, ambígua, obscura… Há duas almas no mostrengo: a que arquitecta Quimeras vãs e sonhos vãos, a do poeta Lunático, imbecil, místico, iluminado,
Essa deixá-la andar, que me não dá cuidado!, Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha, A refalsada, (a verdadeira!) a igual à minha, Essa mais devagar, Saltamontes… cautela!… Ôlho nela… ôlho nela…
O rei é tudo, o rei fraco… êste cronista
Discursa bem… convem não o perder de vista… Inútil. Afinal as duas almas ao cabo Destroem-se uma à outra, é como Deus e o Diabo. E emquanto que ambas a ferver, drogas contrárias, Em mil combinações, imprevistas e várias, Se desagregam, eu, tranqùilo e resoluto,
Como tenho uma só, imagino e executo.
Ah, o cronista ambíguo e magro e macilento Não pasmarei de o ver ainda num convento… Bem capaz de morrer, jejuando, ermitão… A loucura subtil envolve-o…
Que trovão!
Que relâmpago!… Brada o vento… ulula o mar… E êste doido esquisito e singular, a olhar… A olhar… Que leve o demo a noite e a ventania…
O REI, seguindo o doido com os olhos:
Pois agora embirrou! não larga a dinastia…
O DOIDO, absorto:
Fantasmas de mortos
São enganos mortos…
Não lhes tenham mêdo… deixem-nos sonhar…