Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 74 de 79

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Pátria

O Rei:

Marquês!

 

Aterrado, em altos gritos:

 

Marquês! marquês! marquês!

Raios os partam! ninguêm ouve… tudo dorme!… Sòzinho!!…

 

O DOIDO, na escuridão:

Oh, que fedor!… oh, que fedor!…

 

O REI:

Ah, o mostrengo enorme,

Eu lhe darei a cantilena!… Para agoiros,

Quatro estoiros à queima-roupa! quatro estoiros!

 

Surge o espectro de Nunalvares, vestido de monge

carmelita. O rei desfalece de novo. Os cães investem, mas, diante do olhar sôbre-humano do condestável, recuam trémulos, como obedecendo a um fluído mágico.

 

O ESPECTRO DE NUNALVARES:

Por teus avós chamaste. Um falta ainda,

Falta a raíz da árvore de morte,

Que em ti, vergôntea exausta, expira e finda.

Oh, miseranda, lastimosa sorte,

A dêste coração desbaratado,

Que outrora se julgou tão puro e forte!

Deu com êle a gangrêna do pecado,

Qual um bicho escondido que apodrece

Um deleitoso fruto embalsamado.

Nada valem tenções, nem vale a prece:

É das obras que vem à criatura

O galardão e a pena que merece.

Não acuso de ingrata a sorte dura;

Volvo-me contra mim únicamente

Em meu desassossêgo e má ventura.

Tamanino inda eu era, inda inocente,

Alma cândida e pura, como a rosa

Aberta junto d'água ao sol nascente

Quando uma noite uma visão fermosa

Me aparece e me diz com voz divina,

Ao mesmo tempo clara e misteriosa:

«Li numa estrêla d'oiro a vária sina

Que a esforçadas, magnânimas empresas E a feitos não obrados te destina.

Mas que valem altíssimas grandezas,

Mas que valem as pompas e as vitórias,

Se a mundano desejo andarem presas?!

Só da fé, só do bem quedam memórias;

Tudo o mais é poeira, um vão ruído,

Uns tumultos de sombras ilusórias…

Cavaleiroso coração ardido

A grande termo levará seus feitos,

Quando ponha em Jesus alma e sentido.

Melhor que duro arnez, defendem peitos

Virtude adamantina e graça clara,

Com que Deus abroquela os seus eleitos.

Sê casto como a luz beijando a seara,

Firme qual entre as ondas o rochedo,

Manso como ovelhinha em pedra d'ara.

E, como o sol d'Abril veste o arvoredo,

D'armas resplandecentes vestirás

O teu corpo d'herói, viçoso e ledo.

Só pela Pátria e Deus batalharás.

De tua larga mão caiam na terra,

Num gesto grande a beatitude e a paz.

Seja neve dos píncaros da serra

Teu limpo coração, bondoso e humano,

Quer na tranqùilidade, quer na guerra.

A tirania ao fim pune o tirano.

Contra o injusto volta-se a injustiça,

E a maldade é aos maus que faz o dano.

Arreda para longe ódio e cubiça;

Contra fero inimigo um bravo alento,

Contra amargura e dor alma submissa.

Viva dentro da carne o pensamento,

Na pureza da virgem confinada

Dentro da cela branca dum convento.

E a carne exultará transfigurada,

Qual a nuvem escura em céu ligeiro,

Em lhe batendo a luz da madrugada.

De tal guisa, vencendo-te primeiro,

A todos vencerás como um leão,

Formidável e nobre cavaleiro.

E de Cristo e da Pátria em defensão

Brilhará tua lança como um raio,

Mandará tua voz como um trovão!»

Assim falou (se me abalou julgai-o!)

A graciosa visão, que se desfez

Pouco a pouco em suavíssimo desmaio.

Donzel eu era já, quando outra vez

As mesmas falas ela, de improviso,

Me repete co'a mesma candidez.

Todo cheio de lágrimas e riso,

Num enlevo quedei, numa ansiedade,

Mais que da terra já, do paraíso.

E à celeste, benéfica deidade

Jurei suas razões maravilhosas

Puramente cumprir e de vontade.

Jurei que nunca minhas mãos culposas

Mulher manceba haviam de tocar,

Feita que fôra de luar e rosas.

Jurei, unido em Cristo à luz do altar,

Pôr batalha de morte a meus desejos

E meus vícios da carne assossegar.

Anos do mundo, breves ou sobejos,

Fadigações da vida tão mesquinha,

Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,

Tudo votei sem pena e bem asinha

À cruz do Redentor e à cruz da espada,

Ao meu Deus verdadeiro e à pátria minha,

Jurando guardar sempre, e bem guardada, [~U]a alma pura em natureza pura,

Qual em âmbula d'oiro hóstia sagrada.

Ai, de mim! ai, de mim! faltei à jura!

Ai, de mim! ai, de mim! porque uma peste Logo te não queimou, língua perjura?!

Ah, donosa visão, visão celeste,

Bem devera de ter descortinado

Naquelas altas falas que me deste,

Que eu, em vício d'amor sendo gerado,

Remiria na carne aborrecida

Pela grã penitência o grã pecado.

Madre senhora! ó madre estremecida!

Antes ficaras tu noiva e donzela,

E eu não abrisse o olhar à luz e à vida!

Ó padre carinhoso! ó madre bela!

Vossa culpa caíu no vosso fruto,

E, com a culpa amarga, o nojo dela!

Queixa não hei de vós; a mim imputo

Lástima e dano, que me só provêm

Dêste bichoso coração corrupto.

Por vós criado fui, como ninguêm;

Vós me guiastes com suave geito,

Desde menino a alma para o bem.

Remidor dum pecado eu fôra eleito;

Assim mo disse a cândida visão,

E mo escreveu com lágrimas no peito.

Quando tu, padre meu, alto varão,

Mulher me cometeste, logo ansioso

Se me agastou, nublado, o coração.

E toda a noite o arcanjo luminoso

Repetindo: Não deixes, filho meu,

Glória celestial por triste gôzo!

E a miséria da carne me venceu!

Ó padres! perdoai, chorai comigo,

Que o vosso algoz tirânico fui eu!

Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo;

Por mim no purgatório estais sofrendo,

E eu sofro, alêm do meu, vosso castigo.

Oh, destino cruel! oh, caso horrendo!

A livrar-vos da falta me hei proposto,

E sou o Judas negro que vos vendo!

Nem pára aqui meu transe e meu desgôsto. Como de olhar-me, ó sol deslumbrador,

Não se te muda em noite a côr do rosto?

Como não gelas, dize, de pavor,

Vendo que em fraco peito miserável

Cabe tromenta assim de nojo e dôr?!

Ó terra triste! ó céu inexorável!

Que ventre de mulher pariu um dia

Desaventura a esta assemilhável?!

Nobres guerras armei, como cumpria,

D'ânimo afoito a rudes castelhanos,

Desbaratando-os Deus por minha via.

Contra seu vão furor, contra seus danos,

Batalhei desde a alva alegradora,

Ao derribado ocaso de meus anos.

Sangue de irmãos verti… Vertido fôra

Novamente mil vezes, sem piedade,

Que alma não é de irmão alma traidora.

Pátria minha gostosa, quem não há-de,

Em risonho sabor, vida e fortuna

Dar por teu livramento e majestade!

Como a de fogo altíssima coluna

Vai do povo de Deus na dianteira,

Afim que se não perca ou se desuna,

Tal na frente das hostes, sobranceira,

Contra duro inimigo acovardado,

Tremeu sempre no ar minha bandeira.

É que nela Jesus ia pregado,

Jesus, rei das estrêlas, rei do mundo,

Meu capitão fermoso e sublimado.

Ordenara, porêm, o céu profundo,

Que em tal cometimento era mister

Carne sem nódoa e coração jucundo.

E estas mãos (ai do feito em que as puser!) Tocado haviam já, tornadas lama,

Com vil desejo, em corpo de mulher.

Fôsse a Virgem celeste a minha dama,

Se, como Galaaz, herói invito,

Alcançar me propunha honrada fama.

Deus castigou-me o coração maldito:

Pois que sôbre êle ainda vem pesando

O carrêgo mortal do meu delito.

Ó cidadela da pureza, quando

Um vício te faz brecha, sem tardança,

Prestes os mais acodem galopando.

Em minha carne, um dia honesta e mansa, Por onde entrou luxúria malfazeja,

Entrou ira e soberba, entrou vingança.

Inda me sangue o peito lagrimeja da boa e má tenção, que, desvairadas, Armaram nele horrífica peleja.

Oh, pelejas da alma encarniçadas!

São as outras uns jogos inocentes,

Com o furor das tuas comparadas.

Anjos d'asas de luz resplandecentes,

Séculos dia e noite a batalhar

Com demónios, com tigres, com serpentes!

Ah, nem ouso de espanto relembrar

Essa guerra feroz, que já não arde,

Entre meu crime duro e meu pezar…

Tão animoso, nela fui covarde;

Tão vencedor, a miúdo fui vencido,

E a vitória, se a hei, me chegou tarde.

Uma noite em que mais me vi perdido,

Com afincada raiva e crua sanha Dos demónios ardentes combatido.

A visão me ressurge em forma estranha,

E em tão grande e mortal melancolia,

Que nunca em mim a houve assim tamanha.

Um longo véu de dó ela vestia,

Numa tal soledade e desconfôrto,

Que a disséreis a Virgem na Agonia.

Meiga, sem me falar, o olhar absorto

Pousou em mim então, como se fôsse

[~U]a madre encarando um filho morto.

No seio me verteu, divina e doce,

Lagrima d'oiro, e, com suspiro etéreo,

Silenciosa esmaiando, evaporou-se.

Ó lágrima de dôr, por que mistério

Súbitamente ao ânimo torvado

Me deste paz, clareza e refrigério?…

Todo eu me senti purificado:

Num ditoso sofrer o meu tromento,

Numa pena bemvinda o meu cuidado…

Tal o mísero rei, que vai sangrento

De perdida batalha, alfim se lança

Em ditoso e profundo acostamento.

Descobrira que a dôr é irmã da esp'rança; E que ao alto perdão, no azul divino,

Só a humildade, a rastros, se abalança.

Já liberto de espírito malino,

Com as veras palavras de Jesus

Assentei de acordar o meu destino.

De mundanários bens fácil dispuz;

Que só virtude é oiro, e a mór grandeza

Da terra são três pregos numa cruz.

Dentro de mim, numa fogueira acesa,

Queimei glória e valor: não ficou nada

Mais que melancolia e que tristeza.

Parti a lança; pendurei a espada;

Com bordão de pastor ou de ceguinho,

Bem andamos de noite esta jornada.

Fama grande do mundo tão mesquinho,

Dando às trombetas com ardor, não vôa, Onde vôa, cantando, um passarinho.

E onde há, ó meu Jesus, se a dor te crôa, Se é teu vestido sangue e o vinho fel,

Pena digna de nós, que bem nos dôa?!

Sem escudo, sem cota, sem laudel,

Minha triste nudez arrecolhida

Numa samarra triste de burel,

Determinei findar miséria e vida

Lá em partes inóspitas, distantes,

Entre gente comum desconhecida.

Êstes olhos, que arderam relumbrantes,

Verteriam de dor sangue coalhado,

Qual os olhos de Job verteram d'antes.

Êstes pés, que no vício hão caminhado,

Manariam gangrêna, já desfeitos,

Como os pés de Jesus Crucificado.

Êstes braços, altivos de seus feitos,

De logar em logar, côdeas de pão

Buscariam, rendidos e sujeitos.

E esta abatida alma de cristão,

No cárcere da carne prisioneira,

À mingoa mór, à mór tribulação,

Gostosa sorriria e prazenteira,

Qual o bom lavrador, em vélha idade,

Sorri festivalmente ao pão na eira.

E, já em Deus o espírito e a vontade,

Me acolheria às solidões dum ermo,

Na derradeira angústia e pouquidade.

Lá houvera afinal benigno termo,

Se, em tão grande, humildosa desventura, Prouvera a meu Jesus de conceder-mo.

D'El-Rei me veio o embargo; e na clausura D'A que, chorando estrêlas, nos conforta, Em silêncio, escondi minha amargura.

Vida do mundo, junto dessa porta,

Com o rouco fragor que tudo abala,

Aos pés, em sombra vã, me caíu morta.

Dir-se-ia que o mar perdera a fala,

E a terra se volvera em nuvemsinha,

Bastando um ai de dor a evaporá-la.

Já diversa era ali a pátria minha;

Que o trono do meu rei era uma cruz,

E o chão, banhado em sangue, o da raínha.

Ó Raínha da Angústia! ó Rei Jesus!

Venha a nós êsse império onde reinais,

Todo amor, todo esp'rança e todo luz!

Venham a nosso peito os vossos ais!

A nossas mãos, ó Cristo, os vossos cravos! Maria, à nossa alma os teus punhais!

Venham a nós as chagas, que são favos! Venham tua agonia e teu madeiro,

A nós, ó Rei do Céu, a teus escravos!

Dias de soledade e de mosteiro

Eu os vivi, na temerosa esp'rança

Da alva do meu dia derradeiro.

Esta dôr, que abrandou, que se fez mansa, Ali chorou aos ais, como perdida

Num deserto, de noite, uma criança.

E oh, alívio da alma arrependida!

Quanto mais afincado era o tromento,

Mais nos ombros ligeira a cruz da vida!

Como no ar o vento sôbre o vento,

Como no mar a vaga sôbre a vaga,

Só na dôr tem a dôr sossegamento.

E com a fôlha nua duma adaga

Todo eu me prazia em revolvê-la

Dentro do coração a hedionda chaga!

Qual as tuas, Jesus, quisera eu vê-la,

De purpurina abrir-se numa rosa,

De inflamada acender-se numa estrêla.

Toda imunda, porêm, toda verdosa,

Só matéria escorria peçonhenta,

Só gangrêna letal, cadaverosa.

E eu a escarnava com a mão cruenta,

E eu lhe metia, para não sarar,

Carvões a arder na bôca pestilenta.

Mas a Virgem tristíssima, a chorar,

Lhe derramava, bálsamo divino,

O lumioso perdão daquele olhar.

Era assim, irmãmente cristalino,

O da visão angélica e suave,

Que amistosa me foi desde menino.

E, a tão cândida luz, meu pezar grave

Ia alvorando, como rocha bruta,

Que pouco a pouco se fizesse em ave.

Já da úlcera ardente, quási enxuta,

Manava um soro apenas, filho ainda,

De podridão tão negra e tão corrupta.

Hora do livramento, hora bemvinda,

Uma noite, em um sonho d'esplendor,

Ma predizeu, chorando, a Virgem linda.

E, abraçando e beijando o Redentor,

Sem angústia enfadosa, sem quexume,

Dei a alma nas mãos do Criador.

Esbulhada de vício e de azedume,

Às regiões celestes foi voando,

Como pálida luz solta do lume.

Numa névoa, a boiar, quedou sonhando:

Sonho de dôr feliz, dôr sem memória,

Névoa d'ante-manhã que vem raiando.

Não era ainda ali perpétua glória;

Mas falecera já da vida ausente

A remembrança amarga e merencórea.

Sono d'alma levíssimo, inocente,

Em músicas de estrêlas embalado,

Quem o dormir pudera eternamente!

E um véu de lua cheia, engrinaldado,

A Virgem desdobrou, em ar divino,

Sôbre a encantada paz do meu cuidado.

Era uma graça, um bem que eu não defino… Jucundo enlêvo… candidez airosa…

Num presepe, a sonhar, feito menino…

E uma luzinha ao longe, misteriosa,

Cantando-me as canções que me cantava Minha madre no berço, em Frol da Rosa…

Oh, descuidado alívio!… não cuidava

Que das culpas do mundo temeroso

Esta essência revel jazia escrava.

Deus a espertou do sono deleitoso,

E, por mais a punir, inda um momento

A banhou, ao de leve, em claro gôzo.

Só as estrêlas, só o firmamento

Recontar poderiam, se quisessem,

Meu desvairo, meu nojo e meu tromento!

Convinháveis palavras me falecem,

As que as bôcas dos homens deitam fóra Tribulações daquelas não conhecem.

Lá d'alta estância donde venho agora,

Lá donde o Eterno me elegeu pousada,

Duzentos anos grandes, hora a hora,

Vi eu, alma em tromento, alma calada,

Minha pátria, a meu sangue redimida,

Por meu sangue afinal desbaratada!

Por sangue do meu sangue foi traída;

Eu que alentos lhe dei, lhe dei nobreza

Ao cabo lhe arranquei nobreza e vida!

Os filhos dos meus filhos, oh, tristeza!

A danaram com raiva tão medonha,

Que nem lôbos a hão contra uma presa.

Descendentes da míngua e da vergonha, Réprobos eram, pois é justa a lei

Que do câncaro mau cria a peçonha.

Feze-os a sina herdeiros do meu rei,

Por que um a um no trono dessem conta Dêste perdido reino, que eu livrei.

E eu lá daquela altura que amedronta,

Sem poder abalar, correr asinha,

Vingar com mão sanhosa a dura afronta!

Em vão, oh, dôr cruel! oh, dôr mesquinha! Alevantava súplicas piedosas,

À dos anjos tristíssima Raínha!

Ela vertia lágrimas fermosas…

E nasciam estrêlas como flores,

Canteiros de boninas e de rosas…

Porêm, Deus era surdo a meus clamores! Mais pesavam meus crimes na balança,

Que os teus olhos de luz, ó Mãe das Dores!

Tal um peito rasgado duma lança,

Que em torvação eterna agonizara,

Sem alívio, sem morte e sem esp'rança!

Ó filha! ó anjo pulcro! ó alva clara!

Antes em leda e tenra meninice

Uma víbora má te envenenara!

Antes bôca de monstro te engulisse,

E daquele êrro o fruto miserando

Teu ventre criador nunca o parisse!

Vozes tais eu gemia, senão quando

Oiço como o ruir d'[~u]a montanha,

Como um trovão de súbito estoirando!

Deus arrasara a nobre flor da Espanha!

Nem a Virgem do Carmo em seu mosteiro O defendeu de cólera tamanha!

Virgem do Carmo! vê-la num braseiro,

Misturada com pedras e destroços,

Vê-la eu! seu algoz, e seu còveiro!!…

A igreja, que por môr dos olhos vossos

Alevantei, ó Virgem da Piedade,

Minha infâmia a ruíu contra os meus ossos!

Grito d'alma naquela imensidade

Tão agudo expedi súpitamente,

Que fez branca de dôr a Eternidade!

Assim horrenda, assim direitamente,

Em quejanda e cruel desaventura

Não foi posto no orbe um ser vivente!

Já dois séculos idos de amargura,

Acreditei que emfim o Criador

Houvera dó da triste criatura:

Do meu sangue de lástima e de horror

Cavaleiroso príncipe foi nado,

Qual nasce duma campa ebúrnea flor.

Ah, o nobre donzel, d'olhar fadado,

A imagem de mim mesmo era talvez,

Quando isento do vício e do pecado.

Risonha aurora em noite se desfez…

Breve expirou, qual expiraram breve

Dentro em mim a virtude e a candidez.

Não perdôa o Eterno a quem lhe deve:

De culpa grande a ofensa lhe devia,

E o castigo aturado, o julgou leve.

Minha dôr empenosa acabaria

Com teu acabamento e sorte infanda,

Último rei de infanda dinastia.

Criatura nojenta e miseranda!

Ó vítima final! já na procela

Descubro o raio, a arder, que Deus te manda!

E a pátria! o meu amor! a pátria bela!…

Em que míngua eu a vejo!… Quem a abraça, Quem vai lidar até morrer por ela?!…

Já o mundo a meus olhos se adelgaça!… Montes, fraguedos, tudo se evapora…

São nuvens… sonho… sombra vã que passa…

Quási liberto já!… não tarda a hora…

Sorri-me a Virgem!… como vem brilhante!… Deus! quanta luz!… que mar de luz! que aurora!…

 

Queda enlevado, extático, sôbre-humano. Irradia oiro.

Descortina, súbito, numa panóplia, a vélha espada de Aljubarrota. O gládio heróico entre cutelos de verdugos! Como eximi-lo à afronta, se já mãos de eleito não devem tocar em ferros homicidas! Embora! Arranca-o, beija-o, ergue-o na dextra, e, da varanda, olhando a noite, em voz soturna de trovão:

 

Cavaleirosa espada relumbrante!

Se nesse lôdo amargo um braço existe

De profeta e de herói, que te alevante!

Inda bem que na lâmina persiste,

Em crua remembrança e galardão,

Do sangue fraternal a nódoa triste.

Descobre o gládio a quem o houver na mão, Que ante a justiça recta e verdadeira,

Não há padre, nem madre, nem irmão!

Porêm, se a pátria, já na derradeira

Angústia e míngua onde a lançou meu dano, Terra d'escravos é, terra estrangeira,

Rútila espada, que brandi ufano!

Antes um vélho lavrador mendigo

Te erga a custo do chão, piadoso e humano!

Volte à bigorna o duro aço antigo;

E acabes, afinal, relha de arado,

Pelos campos de Deus, a lavrar trigo.

 

Arrojando a espada ao abismo da noite:

 

Deus te acompanhe! Seja Deus louvado!

 

Desaparece. O rei fica no chão, imóvel e sem acôrdo.