Pátria
O Rei:
Nem de toiros me lembro emfim, nem de ir à caça! Mau sangue… Árvore má… Podre… podre… É de raça!…
UMA VOZ TRAGICA, na escuridão:
Ai, na batalha destroçado,
Ai, na batalha destroçado,
Rôta a armadura, ensangùentado,
Debaixo duma árvore funesta
Fui-me deitar, fui-me deitar… dormir a sésta… Fui-me deitar… dormi… dormi…
Endoudeci, enlouqueci
Debaixo duma árvore funesta!…
Uivam os cães, espavoridos e furiosos.
O REI:
O doido! o doido! o doido!… Há três noites a fio Que êste vélho alienado, horroroso e sombrio, À volta do palácio, ave negra d'azar,
Anda a cantar!… anda a cantar!… anda a cantar!…
Indo ao balcão:
Ei-lo!
(Ao clarão dum relâmpago, destaca-se, de súbito, fronteiro
ào castelo o vulto trágico do doido. Um gigante. Rôto, cadavérico, longa barba esquálida, olhos profundos de alucinado, agitando no ar um bordão em círculos de agoiro, cabalísticos. O manto esvoaça-lhe tumultuoso, restos duma bandeira vélha ou dum sudário).
Morro de mêdo!… Há não sei que de extravagante, De inquietador, na voz, nas feições, no semblante Dêste doido… Será um doido porventura?… Mal a sua voz acorda, rouca, a noite escura, Logo os cães a ladrar, a ladrar e a gemer, Como se entrasse a morte aqui sem eu a ver!… Que raio de fantasma!… É coisa de bruxedo… Não ando em mim… não ando bom, tremo de mêdo… Esquisito!…
Sentando-se ao fogão:
Ora adeus! É do tempo… é da lua…
Nervoso… Passa… Mas, se o diabo continua Com as trovas de agoiro, eu forneço-lhe o mote, Mandando-o escorraçar a cacete e a chicote.
Vendo o pergaminho sôbre a mesa:
O tratado… Uma léria… Enfastia-me já… Mais preto menos preto, a mim que se me dá?! Por via agora duma horrenda pretalhada
Mil barafundas e alvorotos… Que massada! Que massada!… Fazem-me doido, não resisto…
Desenrolando o pergaminho:
É assiná-lo, e pronto! acabemos com isto!
Lendo alto:
«Eu, rei de Portugal, súbdito inglês, declaro Que à nobre imperatriz das Índias e ao preclaro Lord Salisbury entrego os restos duma herança Que dum povo ficou à casa de Bragança, Dando-me, em volta, a mim e ao príncipe da Beira A desonra, a abjecção, o trono… e a Jarreteira.» Cáspite! um pouco forte… Ora adeus!… uma história… Chalaças… Devo a c'roa à raínha Vitória!
O DOIDO, na escuridão:
Tive castelos, fortalezas pelo mundo…
Não tenho casa, não tenho pão!…
Tive navios… milhões de frotas… Mar profundo, Onde é que estão?… onde é que estão?!… Tive uma espada… Ah, como um raio, ardia, ardia Na minha mão!…
Quem ma levou? quem ma trocou, quando eu dormia, Por um bordão?!…
E tive um nome… um nome grande… e clamo e clamo, Que expiação!
A perguntar, a perguntar como me chamo!… Como me chamo? Como me chamo?…
Ai! não me lembro!… perdi o nome na escuridão!…
O REI, desvairado, erguendo-se:
O doido!… Aquela voz de fantasma titânico Gela-me o sangue e petrifica-me de pânico! Porque?… Ignoro… O mesmo instinto singular, Que faz ladrar os cães, mal o ouvem cantar… Parece-me um algoz, um carrasco sangrento D'alêm campa, a marchar no escuro a passo lento, Direito a mim!… Lá vem!… lá vem vindo… não tarda!… Quem me defende?… a minha côrte? a minha guarda? A minha guarda!… a minha côrte!… Ah, bons amigos, Como hei-de crer em saltimbancos e em mendigos,
Sentando-se ao fogão, junto dos cães:
Se nem mesmo nos cães tenho confiança já!…
Os três cães, agachando-se-lhe aos pés, acariciam-no e lambem-no.
O REI, enxotando Iago bruscamente:
Iago… Iago!… Então… basta de festas, vá!… Safado! cachorro imundo!… Olhem o odre De gordura, já meio leso e meio podre!
Biltre! À fôrça de comesainas e de enchentes Emprenhou-te a barriga e caíram-te os dentes! As unhas foi meu pai quem tas cortou de vez… Já nem és cão… és porco; e inda em porco és má rês! E lembrar-me eu de o ver, canzarrão duro e bruto, O ventre magro, o olhar em sangue, o pêlo hirsuto, Capaz de trincar ferro e mastigar cascalho!… E ei-lo agora: poltrão! ventrudo-mór! bandalho!
Iago redobra de festas. O rei dá-lhe um pontapé.
O bandalho! o bandalho!…
E êste Judas esperto,
Êste Judas, filho de lôba e cão incerto!… Um chacal remeloso e sarnento e pelado, Todo carcunda, esguio e vêsgo, a olhar de lado!… E acredita, o pandilha sorna, o safardana, Sempre a beijar-me os pés, sempre a tossir de esgana, Que me ilude!… Cachorro!… Ora diz lá, meu traste: Por quanto hás-de vender El-rei? já calculaste?… E um Veneno, que é tão pequeno e que é tão mau! Fraldiqueiro e feroz, pulgasita e lacrau!
Com ganas de trincar a humanidade inteira, Vai trincando pasteis e barrigas de freira…
Erguendo-se:
E são três cães, três cães! Iago, Judas, Veneno, Um odre imundo, um chacal torto e um rato obsceno, O meu amparo! Que vergonha!… Ao que eu cheguei!… Três podengos de esquina a tutelar um rei! Mas, que demónio! sou injusto… a verdade, a verdade É que guardam o prédio e fazem-me a vontade… Por amor à ração e não amor ao dono?
Inda bem…. inda bem… tem de salvar o trono, Se quiserem jantar… perdida a monarquia, Adeus o regabofe e adeus a conesia!
Por isso estão, como dragões, de sentinela Junto do rei, junto da copa e da gamela.
Defendem-me. E eu ainda os insulto!… coitados! Mandriões e glutões, gostam de bons bocados… Tambêm eu… Porque os hei-de, afinal, descompor? É da bílis, da inquietação, do mau humor Em que eu ando… Nem sei… que demónio! foi praga… Raios partam o doido e essa abantesma aziaga Do cronista!… Não há que ver, fazem-me tonto!…
Vendo o pergaminho:
Mais esta geringonça inda por cima!
Indo a assinar:
Pronto!
O DOIDO, na escuridão
Ai, a minh'alma anda perdida, anda perdida Ou pela terra, ou pelo ar ou pelo mar…
Ai não sei dela… ai não sei dela… anda perdida, E eu há mil anos correndo o mundo sem na encontrar!… Pergunto às ondas, dizem-me as ondas:
—Pergunta ao luar…—
E a lua triste, branca e gelada,
Não me diz nada… não me diz nada…
Põe-se a chorar!
Pergunto aos lôbos, pergunto aos ninhos, E nem as feras, nem os passarinhos
Me dizem onde habita, em que logar!…
Sangram-me os pés das fragas dos caminhos… Não tenho alma, não tenho pátria, não tenho lar!… Ai, quanta vez! ai, quanta vez!
Não passará talvez
A minh'alma por mim sem me falar!
Quem reconhece o cavaleiro antigo
Neste mendigo
Rôto e doido… quem há-de adivinhar?!… Adivinhava ela… adivinhava!…
O cão no escuro, pela serra brava,
Não vai direito ao dono a farejar?
Adivinhava… É que está presa… é que está presa! Ontem sonhei… (lembro-me agora!) que está presa Naquela bruta fortaleza, Numa cova sem luz, num buraco sem ar, E que os carrascos esta noite, de surpresa, A vão matar! a vão matar! a vão matar!… …………………………………..
Por isso o mar anda a rezar!…
Por isso a lua desmaiada,
Sem dizer nada… sem dizer nada…
A olhar p'ra mim, branca de dor, fica a chorar!…
Ribombam trovões, fusilam relâmpagos. Os cães, espavoridos, ululam
sinistramente.
O REI, alucinado, clamando:
É demais! é demais!… Põe-me o caco do avesso!… Um frenesim… Que fúria!… irrita-me… endoideço… E anda às soltas êste ladrão dêste espantalho!… Eu já o ensino, já o arranjo… um bom vergalho… Marquês! marquês! marquês!