Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 73 de 79

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Pátria

Scena Xxi

 

 

O ESPECTRO DE D. LUIS

Que remédio, meu filho! assina tudo… assina tudo… Glória, Pátria, Dever,

Bom de dizer!

Assina tudo e vai andando… vai andando… Do mister de reinar, que Deus te deu em sorte, Faz, como eu fiz, modo de vida e não de morte. E a vida é boa!

A alegria do sangue, os regalos da C'roa, A mulher, o charuto, o livro, o leito, a mesa, Lista civil, paz e descanso… Com franqueza, A vida é boa, e vale a pena de a gozar,

Como néctar precioso e raro,—devagar!

Com um pouco de astúcia, um pouco de bondade, Covardia risonha e indolência de frade,

Conseguirás viver alegríssimamente

Até ser posto de escabeche em S. Vicente. E, se o destino te arrancar o scetro, vai-te embora Filosóficamente, sem demora, Dedicando no exílio uns ócios eruditos

A traduzir em português os meus escritos…

 

Vae a saír e retrocede.

 

É verdade, Pedro faltou… faltou… não veio… Pedro! meu pobre irmão! Acordei-o, chamei-o, Quis levantar-se, ergueu a fronte, abriu o olhar, Exalou um suspiro… e tombou a chorar!…

 

Desaparece.

 

O DOIDO, na escuridão:

O reino é podre… o rei é podre…

Oh, que fedor! oh, que fedor!

Quando a planta apodrece, a podridão

Germina em margaridas pelo chão…

Quando apodrece a carne, a sepultura

Touca-se de verdura…

Lepras e pus, chagas e cancros

Dão jasmineiros, dão lírios brancos…

Mas do reino e do rei apodrecido,

Oh, que fedor! oh, que fedor!… que tem nascido? Mais podridões a fermentar,

Envenenando a terra, envenenando o ar. A gente morreu toda envenenada…

É côr de sangue a lua, é de crepe a alvorada!… Desfolharam-se os bosques pelos montes, Há nas rochas gangrena, há peçonha nas fontes! Destruíram-se os ninhos

E emigraram, chorando, os passarinhos!

Vivo, só eu fiquei neste monturo

De lôdo escuro!

O reino é podre… o rei é podre… tudo é podre… Oh, que fedor! oh, que fedor!…

 

O REI, volvendo a si, atónito e desordenado:

Olho e custa-me a crer!… tonto!… a cabeça vária, À roda… Já nem sei… Que noite extraordinária!… Que noite!… aparições, visões, trovões, um pandemónio De inferneiras, de bruxarias do demónio!… Eu 'starei doido ou 'stou sonhando?!… Que aventura! oh que aventura

Monstruosa!… Perco a razão… foge-me a vista… O ladrão do maluco e o diabo do cronista Deram-me volta à cachimónia, esfutricada Já de tanto banzé e de tanta noitada!…

Quem pudesse dormir!…

 

Vendo o pergaminho:

 

Assinemos de vez

Esta léria…

 

Assinando e chamando: