Pátria

Guerra Junqueiro · Capítulo 61 de 79

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Pátria

O Rei:

Asas carnívoras em bando

Poisam nas vêrgas crucitando…

Que levas, dize, no porão?…

Teu cavername exala miasmas,

Teus marinheiros são fantasmas…

Que levas, dize, no porão?…

Teu pendão negro vai a rastros,

São cruzes negras os teus mastros…

Que levas, dize, no porão?…

—Dentro do esquife, amortalhada,

Levo uma pátria assassinada,

No meu porão!…

 

O REI:

Êste ladrão do doido irrita-me! é demais!

Não se cala, caramba! é demais! é demais! Já não posso… Marquês, se o diabo me enfernisa, Outra noite co'a lenga-lenga; uma camisa De fôrças, bom vergalho, e, sem dó nem piedade, Enxòvia ou masmorra onde grite à vontade.

 

Abre um relâmpago o horizonte. As carcassas nuas dos

enforcados baloiçam ao vento nas árvores despidas. Nem viv'alma. No cêrro dum monte erguem os piratas uma cruz descomunal, manchada de sangue. Uivam os cães.