Pátria
Scena Iii
*O rei, só*
O temporal aumenta. Relâmpagos e trovões.
O REI:
Não me lembra de ver uma tormenta assim!… Que demónio de noite!… Ando fora de mim, Desvairado… Um veneno oculto me afogueia, Que há três dias que trago uma cabeça alheia Nestes ombros… Que inferno!… É esquisito… é esquisito!… Foi beberagem má… droga horrenda… acredito! Uns vágados de louco, um frenesim medonho… Sonharei, porventura, e será tudo um sonho?!… Acordado ando eu, acordado a valer,
Que há três noites não pude ainda adormecer!… Peçonha?… não!… A causa disto… a causa é o doido O raio do fantasma, êsse maldito doido
Que me persegue!… tenho mêdo… e vergonha em dizê-lo!… E depois o cronista-mór, um pesadelo Ambulante, um maluco agoireiro e scismático, Com aquelas visões estranhas de lunático, Faz-me mal… faz-me mal… Que o leve o diabo… O certo É que há dentro de mim desarranjo encoberto… Uma insónia danada… um nervoso… um fastio… Misantropia tal que não bebo, nem rio,