Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 10 de 40

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Prazeres Violentos

Oito

— Como se você se importasse — disse suavemente, se recusando a piscar, para o caso de seus olhos estarem ficando marejados — com a morte de inocentes.

Cada músculo da mandíbula de Roma se contraiu.

— Tudo bem — disse com rispidez. — Meu pessoal.

Juliette desviou o olhar. Dois longos segundos passaram-se. Então ela se virou e começou a andar.

— Apresse-se — disse ela, sem olhar para trás. Juliette o ajudaria apenas desta vez e nunca mais. Apenas porque ela também precisava saber as respostas que ele buscava. — O

necrotério vai fechar em breve.

Oito

Eles caminhavam sob um silêncio tenso, palpável.

Não que fosse desconfortável — honestamente, seria melhor que fosse. Aquela proximidade, com Juliette indo à frente e Roma três passos atrás para não serem vistos juntos, era horrivelmente familiar e, francamente, a última coisa que Juliette queria sentir por Roma Montagov era nostalgia.

Juliette ousou dar uma olhadela para trás enquanto seguiam pelas longas e tortuosas ruas da Concessão Francesa. Como havia muitos estrangeiros ali em seu alpinismo pessoal por um pedaço da cidade, as estradas da Concessão Francesa refletiam sua ganância, suas escaladas.

As casas dentro de cada setor eram voltadas para dentro de tal maneira que, se vistas do céu, quase pareciam formar um círculo, amontoando-se em si mesmas para protegerem seu ponto fraco.

As ruas ali eram tão movimentadas quanto nas partes chinesas da cidade, mas tudo era um tanto mais ordenado.

Barbeiros exerciam seu ofício na rua, como de costume, mas a toda hora abaixavam e varriam cuidadosamente os tufos de cabelo cortado para mais perto dos bueiros.

Vendedores ofertavam seus produtos em um tom de voz moderado, em vez da gritaria que Juliette costumava ouvir nas partes ocidentais de Xangai. Não era apenas a mudança nas pessoas que tornava a Concessão Francesa peculiar —

os prédios pareciam um pouco mais retos, a água parecia

mais cristalina e os pássaros pareciam cantar um pouco mais alto.

Talvez todos eles tenham sentido a presença de Roma Montagov e ficaram ariscos.

E Roma também estava, enquanto inspecionava as casas com os olhos estreitos no crepúsculo.

Doía vê-lo assim: alheio, curioso.

— Cuidado para não tropeçar — disse Roma.

Juliette fixou o olhar nele, embora o rapaz ainda estivesse olhando para as casas. Então forçou a visão a voltar para a calçada adiante. Ela deveria saber que qualquer sinal de desatenção vinda de Roma Montagov era meramente atuação. No passado, ela o conhecera melhor que a si mesma. Costumava ser capaz de prever todos os seus movimentos… exceto na única vez em que isso realmente fora necessário.

Roma e Juliette se encontraram em uma noite como aquela há quatro anos, logo antes da cidade implodir com o alvoroço de sua nova reputação.

O ano era 1922 e nada era impossível. Aviões mergulhavam e precipitavam-se no céu e os últimos resquícios da Grande Guerra estavam sendo apagados. A humanidade parecia estar dando uma guinada para longe dos conflitos, do ódio e da guerra que uma vez transbordaram, permitindo que as coisas boas no fundo emergissem lentamente. Mesmo a disputa de sangue em Xangai chegou a uma espécie de equilíbrio não dito, no qual, em vez de lutarem, um Escarlate e um Rosa Branca poderiam apenas acenar friamente com a cabeça um para o outro ao se cruzarem nas ruas.

Era uma atmosfera de esperança que havia acolhido Juliette quando ela saltou do barco a vapor, as pernas bambas após um mês no mar. Era meados de outubro, os ventos quentes ficando mais velozes, e trabalhadores fazendo graça à beira do porto enquanto carregavam pacotes para dentro de barcos ancorados.

Aos quinze, Juliette retornara com sonhos. Ela faria algo memorável, se tornaria alguém digna de celebração, acenderia vidas pelas quais valia a pena lutar. Era uma sensação que ela não conhecia quando partiu, aos cinco anos de idade, enviada com pouco mais que algumas roupas, uma rebuscada caneta tinteiro e uma fotografia, para não esquecer a aparência de seus pais.

Fora o auge daquela sensação o que a enviara atrás de Roma Montagov.

O peito de Juliette tremeu por inteiro enquanto ela exalava o ar à noite. Seus olhos ardiam e, rangendo os dentes, ela rapidamente limpou a lágrima órfã que escorrera pela bochecha.

— Já estamos chegando?

— Relaxe — disse Juliette, sem se virar. Ela não ousaria, pois seus olhos estavam marejados sob a meia-luz das lâmpadas a gás da rua. — Não estou tentando te enganar.

Naquela época, ela não sabia quem era ele, mas Roma sabia quem era ela. Ele revelaria meses depois ter jogado aquela bolinha de gude nela de propósito, para ver como ela reagiria enquanto esperava nos portos. A bola de gude parou perto do sapato de Juliette — sapatos norte-americanos, que não combinavam com o tecido e solas pesadas que pisavam com força ao redor dela.

— É minha.

Ela se lembrou de erguer a cabeça assim que pegou a bolinha, pensando que a voz pertencia a um rude comerciante chinês. Em vez disso, viu uma face jovem e pálida, com características estrangeiras — uma miríade de linhas retas e olhos arregalados e preocupados. O sotaque com o qual falara o dialeto local era ainda melhor que o dela, mesmo que o tutor de Juliette se recusasse a falar qualquer idioma exceto xangainês caso ela esquecesse.

Juliette rolou a bolinha de gude para a palma da mão, fechando os dedos em volta dela com força.

— É minha agora.

Agora, a cena era quase cômica; Roma levara um susto quando a ouviu falar em russo — impecável, talvez um pouco afetado por falta de prática. Ele franziu as sobrancelhas.

— Não é justo — disse, continuando no dialeto de Xangai.

— Achado não é roubado — Juliette se recusava a sair do russo.

— Tudo bem — disse Roma, finalmente voltando à sua língua nativa para que falassem o mesmo idioma. — Jogue uma partida comigo. Se vencer, você fica com a bolinha. Se eu vencer, a pego de volta.

Juliette perdeu e, com má vontade, devolveu a bolinha.

Mas Roma não quis começar a partida apenas por diversão e não a deixaria escapar tão facilmente. Quando ela se virou para sair, ele segurou sua mão.

— Eu venho aqui toda semana — disse com sinceridade. —

Podemos jogar de novo.

Juliette estava rindo quando deslizou os dedos para fora da mão do rapaz.

— Você vai ver — respondeu. — Vou ganhar todas as suas bolinhas.

Ela descobriria posteriormente que o garoto era Roma Montagov, o filho de seu maior inimigo. Mas mesmo assim voltaria lá para encontrá-lo, achando que era astuta, que era esperta. Por meses eles flertaram, encenaram e se equilibraram sobre a linha entre amigo e inimigo, um sabendo quem era o outro, mas omitindo o fato, tentando tirar algum proveito daquela amizade, mas sendo descuidados, caindo no abismo sem perceber.

Quando estavam jogando bolinhas de gude no chão irregular eram apenas Roma e Juliette, não Roma Montagov e Juliette Cai, herdeiros de facções rivais. Ali, eram apenas crianças risonhas que encontraram um confidente, um amigo que entendia a necessidade de ser outra pessoa, ainda que fosse por um curto período do dia.

Eles se apaixonaram.

Pelo menos Juliette pensou que se apaixonaram.

— Juliette!

Ela arfou de susto, parando rapidamente. Por causa de seu transe, ficou a centímetros de trombar em um riquixá estacionado. Roma a puxou para si e, instintivamente, ela o olhou e viu sua segurança, seu cuidado e seus olhos claros e frios.

— Me solte — sibilou Juliette, soltando o braço com força.

— Estamos quase chegando ao hospital. Me acompanhe.

Ela aumentou o ritmo, sentindo o cotovelo doer na área que ele tocara. Roma a seguiu rapidamente, como sempre foi, como sempre soube fazer, no encalço dela de uma forma que parecia natural ao olho destreinado, de forma que qualquer um que os observasse pensaria ser uma

coincidência Roma Montagov e Juliette Cai andarem próximos, isso se o olho curioso os reconhecesse.

O prédio grandioso à frente surgiu à vista. Rodovia Arsenal, número 17.

— Aqui estamos — anunciou Juliette com frieza.

O mesmo hospital para o qual trouxeram todos os corpos após a explosão.

— Mantenha a cabeça baixa.

Apenas para desafiá-la, Roma deu uma espiada no hospital. Fez uma careta, como se pudesse sentir que Juliette conhecia bem aquele local apenas pelo tremor na voz dela. Mas é claro que ele não podia — não conseguia.

Ela o viu parado ali, tranquilo, e as palmas de suas mãos queimaram de fúria. Ela supunha que ele sabia exatamente o quão profundamente a cidade sentiu o peso do que ele havia feito. A disputa de sangue nunca fora tão sangrenta quanto naqueles primeiros meses após o ataque de Roma.

Se ela tivesse sentido o cheiro das cartas que Rosalind e Kathleen enviaram pelo Oceano Pacífico, inalado a tinta que elas rabiscaram com desleixo no papel branco e espesso para relatar as vítimas, imaginava que teria sido capaz de sentir o cheiro do sangue derramado e da violência que pintou as ruas de vermelho.

Ela acreditara que Roma estava do mesmo lado que ela.

Que eles poderiam forjar seu próprio mundo, livre da guerra sangrenta.

Nada além de mentiras. A explosão na casa dos criados foi o ataque mais sério que os Rosas Brancas conseguiram executar sem serem pegos. Eles teriam sido vistos tentando explodir a mansão principal, mas a casa dos criados não era vigiada, mas negligenciada, posta em segundo plano.

Tantas vidas Escarlates perdidas em um instante. Fora uma declaração de guerra.

E não teria acontecido sem a ajuda de Roma. O método de infiltração dos homens, o portão que havia sido deixado aberto — eram informações que somente Roma possuiria, devido às semanas e semanas que passara com Juliette.

Juliette fora traída, e aqui estava ela, ainda presa naqueles quatro anos. Ali estava ela, remoendo o caroço de ódio que pulsava em seu estômago, cada vez mais quente com o passar dos anos em que lhe foi negado um confronto, uma explicação, e ainda assim ela não teve coragem de cravar a faca bem no coração de Roma, obtendo vingança da única forma que conhecia.

Eu sou fraca, pensou. Mesmo que esse ódio a consumisse, não era o bastante para queimar por completo todo instinto que tinha de se aproximar de Roma, de mantê-lo a salvo do perigo.

Talvez a força para destruí-lo viria com o tempo. Juliette simplesmente precisava aguardar.

— Abaixe a cabeça — exigiu novamente, empurrando as portas duplas para entrar no saguão do hospital.

— Senhorita Cai — um médico a cumprimentou assim que Juliette aproximou-se da mesa da recepção. — Posso ajudá-la em algo?

— Pode, fazendo isto — com uma das mãos, Juliette passou um zíper invisível nos lábios. Com a outra, apoiou-se na mesa e pegou a chave do necrotério. O médico arregalou os olhos, mas fez vista grossa. Em posse da chave, fria na palma da mão, Juliette continuou a se mover pelo hospital, tentando respirar o mais superficialmente possível. O cheiro do lugar era sempre de decomposição.

Em pouco tempo, alcançaram os fundos do hospital, e Juliette parou na frente da porta do necrotério ofegando uma vez. Virou-se para encarar Roma, que manteve o olhar fixo em seus sapatos, como ordenado. Mesmo com o melhor dos esforços, sua atuação tímida não era convincente. Má postura não combinava com ele. O orgulho vinha de berço, costurado em suas vértebras.

— Aqui? — indagou. Ele soara hesitante, como se Juliette o guiasse a uma armadilha.

Sem dizer palavra, Juliette enfiou a chave, destrancou a porta e ligou o interruptor, revelando o único cadáver lá dentro. Jazia em uma mesa de metal que ocupava metade do piso. Sob a luz branco-azulada, o morto já definhava, oculto em grande parte por um lençol.

Roma entrou depois dela e deu uma olhada no pequeno necrotério. Ele caminhou em direção ao cadáver, erguendo as mangas. Apenas no instante em que ia levantar o lençol pausou, relutante.

— Este é um hospital pequeno e provavelmente alguém vai morrer na próxima hora — Juliette alertou. — Ande logo antes que decidam transferir este homem para uma funerária.

Roma olhou de relance para Juliette, prestando atenção na postura impaciente que ela adotara.

— Você tem um lugar mais interessante para ir?

—Sim — respondeu Juliette, sem pestanejar. — Ande logo com isso.

Visivelmente incomodado, Roma tirou o lençol com um puxão. Ele parecia surpreso quando viu pés descalços.

Juliette se desencostou da parede.

— Pelo amor de Deus — ela marchou para a frente e agachou-se perto das gavetas abaixo da mesa metálica, retirando de lá uma grande caixa de itens ensacados e jogando seu conteúdo no chão. Após separar a aliança ligeiramente

suja

de

sangue,

o

colar

bastante

ensanguentado e a peruca, Juliette encontrou o par de sapatos trocados que estava nos pés do morto naquele dia.

Ela abriu a sacola e a sacudiu para retirar o sapato mais bonito.

— É esse?

Os lábios de Roma estavam contraídos, e sua mandíbula, retesada.

— É esse.

— Então concordamos que este homem estava no local?

Roma consentiu.

Era isso. Eles não trocaram palavra enquanto Juliette punha tudo de volta na caixa com dedos ágeis. Roma estava taciturno, olhos fixos em um ponto aleatório da parede. Ela imaginava que ele não podia esperar para dar o fora dali, para aumentar a distância entre seus corpos o máximo possível e fingir que ela não existia — pelo menos até que o próximo cadáver da disputa de sangue fosse desovado por cima de seus limites territoriais.

Juliette empurrou a caixa de volta a seu lugar e viu que suas mãos tremiam. Ela as cerrou em punhos, apertando o máximo que podia quando se deparou com o olhar de Roma.

— Depois de você — disse ele, gesticulando em direção à porta.

Quatro anos. Deveria ter sido suficiente. Com a mudança das estações e o passar do tempo, ele deveria ter se

tornado um estranho. Deveria ter amadurecido um sorriso diferente, como Rosalind, ou andar de um modo diferente, como Kathleen. Deveria ter se tornado mais impetuoso, como Tyler, ou assumido uma aura de cansaço, como a mãe de Juliette. Mas agora que ele a fitava, ela via que Roma apenas ficara… mais velho. Ele a fitava e Juliette via os mesmos olhos, vestidos com o mesmo olhar — ilegível, a menos que ele a deixasse ler; impassível, a menos que ele se permitisse relaxar.

Roma Montagov não mudara. O Roma que a amara. O

Roma que a traíra.

Juliette se esforçou para relaxar os punhos. Seus dedos doíam devido à força do aperto. Com a mais breve anuência de cabeça na direção de Roma, lhe permitindo segui-la para fora, ela esticou a mão para a porta e o deixou passar, trancando o necrotério com um baque pesado e abrindo a boca para dar um frio e firme adeus a Roma.

Mas antes que ela tivesse a chance de falar, foi interrompida por um pandemônio apocalíptico e absoluto que se iniciara dentro do hospital. No fim do corredor, enfermeiras e médicos arrastavam macas às pressas, exigindo uns dos outros, aos gritos, atualizações e informações sobre quartos vazios. Roma e Juliette dispararam imediatamente, voltando ao saguão do hospital.