Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 15 de 40

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Prazeres Violentos

Treze

Quando os gritos cessam, a dançarina rasteja para fora do beco, receosa com uma possível calamidade.

Em vez disso, o que ela vê são insetos.

Milhares deles — coisinhas asquerosas andando pelo chão.

Eles esbarram uns nos outros e perambulam em aparente aleatoriedade, mas, em massa, estão todos se movendo com um destino: a água.

Pela primeira vez, esta cidade pode, afinal, acabar temendo o cano da arma pressionado contra sua têmpora como uma carícia envenenada.

Porque, à beira do Rio Huangpu, a segunda onda dos surtos se descortina, começando com os sete mortos que jazem no convés superior de um navio russo.

Treze

Juliette alisou a malha de seu qipao, pressionando as partes amarrotadas que se acumulavam por baixo de seu casaco. Ela engoliu o mal-estar com dificuldade, como se não fosse nada além de uma pílula amarga. Parecia dissimulação, de certa forma, vestir um tipo de roupa que ela não usava há anos. Era como mentir — para si mesma, para a imagem que vinha cultivando antes de pôr os pés de volta na cidade.

Entretanto, se ela quisesse se misturar no local de trabalho diurno de Zhang Gutai, precisava parecer uma jovem comum de 18 anos da classe alta, andando por aquelas ruas com o salto dos sapatos ecoando no chão e brincos de pérola pendendo próximos aos cabelos soltos sem gel.

Juliette respirou fundo, segurou as mangas do casaco com força e marchou para o prédio.

Zhang Gutai — como um figurão em um partido político relativamente novo e frágil — era um homem reservado.

Mas também era o editor-chefe de um jornal chamado Diário do Proletariado, e o endereço da empresa era informação pública. Embora Juliette não esperasse encontrar muita coisa além de um precário complexo de escritórios quando foi até os limites industriais da parte chinesa da cidade, a jovem foi recebida com uma absoluta explosão de atividades nos escritórios do Diário do Proletariado: pessoas correndo com pacotes de papel e

máquinas de escrever debaixo dos braços enquanto berravam para saber das últimas notícias de um lote que havia saído para impressão.

Torcendo o nariz, Juliette passou direto pela recepção com o queixo erguido. Essas pessoas são Comunistas, não são?

Acreditam em igualdade, afinal de contas. Juliette tinha certeza de que também acreditariam que ela não precisava de ajuda para dar uma olhada pelo lugar até encontrar o escritório de Zhang Gutai.

Juliette sorriu para si mesma.

O grosso da atividade parecia vir de um pequeno lance de escadas que dava em um porão, então Juliette foi até lá, surrupiando uma prancheta de uma mesa para tentar parecer ocupada. Não havia luz natural quando ela entrou no porão. Ela passou pelo que podia ser uma porta dos fundos, então virou à esquerda, entrando no espaço principal e examinando a cena diante de si. O piso e as paredes eram de cimento. A única iluminação vinha de poucas lâmpadas afixadas nas paredes, o que parecia terrivelmente inconveniente para todas aquelas pessoas nas mesas, forçando os olhos para enxergar na penumbra.

Isso a fez pensar em como seriam os blocos de celas durante a Grande Guerra. Juliette supôs que não se surpreenderia se esse prédio fosse um centro de detenção transformado.

Ela seguiu em frente, indo mais fundo no escritório com cara de prisão, espiando cada cantinho. O ruído de seus saltos era alto, mas havia caos o bastante lá para, no momento, ninguém ligar muito para sua presença.

Escritores atarefados — velhos e jovens — estavam ocupados fazendo rascunhos, trabalhando velozmente em

suas máquinas de escrever ou atendendo a telefonemas. Os fios que levavam sinais ao nível subterrâneo estavam todos embolados em um grande volume nos fundos do amplo espaço. Enquanto Juliette examinava as mesas pelas quais passava, procurando por algo relevante, sua atenção foi capturada por uma escrivaninha que parecia desocupada.

Tal visão era bastante peculiar naquela pequena bolha de atividade. Ela ficou ainda mais intrigada quando esticou o pescoço para ler o que estava escrito sobre as pastas ao lado do telefone e viu, em chinês, MEMORANDO PARA ZHANG GUTAI.

Rapidamente, ela foi até a escrivaninha, com a prancheta debaixo do braço para que pudesse olhar os arquivos. Não havia nada de importante nos relatórios políticos, mas, quando ela se agachou e olhou para o piso sob a mesa, encontrou desenhos.

Se todo mundo aqui está tão atarefado, por que esta mesa está desocupada? — Pensou Juliette. E quem a usava?

Certamente não era Zhang Gutai, que decerto possuía sala própria. Balançando a cabeça negativamente, ela alcançou a pilha de desenhos e puxou alguns, sem dar preferência a nenhum.

Mas, quando fitou o primeiro desenho, começou a suar frio, do colarinho alto até a barra do qipao que lhe acariciava os tornozelos. Um desenho era de olhos reptilianos arregalados. Outro era de cinco garras segurando uma tábua e escamas que de alguma forma brilhavam, apesar das manchas de tinta dispersas ao longo da página. Os dedos de Juliette congelaram, atordoados, enquanto ela assimilava as imagens — dezenas delas, todas retratando a mesma coisa.

— Guài wù — sussurrou Juliette. — Monstro.

Antes que mudasse de ideia, Juliette afanou um dos desenhos da pilha — o que retratava a silhueta borrada de uma criatura em pé — e o dobrou, enfiando o quadradinho de papel no bolso do casaco. A gravura se juntou ao convite para o baile de máscaras que ela guardara mais cedo e esquecera ali. Com um olhar de relance em volta para se certificar de que não levantara suspeitas, Juliette levantou-se, secou o suor das mãos e andou em direção ao pequeno lance de escadas para sair do porão, com os punhos cerrados.

Juliette parou subitamente, com o pé pairando sobre o primeiro degrau. À sua esquerda estava, novamente, a porta dos fundos.

E ela tremia.

De repente, ela só conseguia pensar no desenho em seu bolso. Imaginava um monstro logo atrás daquela porta, respirando profundamente, aguardando o momento exato para se libertar e lançar o caos sobre inocentes.

Juliette foi em direção à porta, hesitante. Ela descansou a mão sobre a maçaneta redonda.

— Olá? — chamou ela, com a voz áspera. — Tem alguém…

— O que você está fazendo aí?

Juliette deu um salto, tirando a mão da maçaneta. O batente havia parado de tremer. Ela se virou.

— Ah, eu?

O homem que estava parado diante dela usava um chapéu fedora e um terno mais ocidental do que qualquer roupa usada pelas pessoas ali embaixo. Ele devia ser alguém importante nas fileiras de Zhang Gutai, não um mero assistente que atendia a telefonemas.

— Estou aqui para ver seu editor-chefe, discutir negócios importantes — prosseguiu Juliette. — Acabei me perdendo um pouco.

— A saída é por ali — disse o homem, apontando.

O sorriso de Juliette esfriou.

— Discutir negócios oficiais Escarlates — corrigiu ela. —

Meu pai, Lorde Cai, me enviou.

Houve um momento de pausa enquanto o homem digeria as palavras dela, desconfiado. Juliette aperfeiçoara a arte de dissimular; ela ocultava sua identidade quando necessário, e então a brandia como arma quando chegava a hora. Só que aquele homem parecia estar se divertindo também, para desgosto de Juliette. Ainda assim, ele anuiu e gesticulou para que ela a seguisse.

Havia ainda mais um andar acima do primeiro, e o homem não demonstrou paciência alguma enquanto apressava Juliette. Ele subia três degraus de uma vez na escadaria simples marrom enquanto ela seguia em seu passo lento, olhando em volta. Aquela escadaria, com corrimões espessos e janelas grandes e polidas, tinha potencial para ser majestosa e decadentes, se ao menos os Comunistas não tivessem tanta vontade de transmitir a aparência de que estavam no mesmo nível das pessoas simples. Tudo naquele prédio podia ser glorioso. Mas glória não importava mais, não é? Juliette se debruçou no parapeito do segundo andar com um suspiro, encarando o frenesi de papéis e máquinas de escrever abaixo. Quando o homem gesticulou com impaciência mais à frente, ela fez uma careta e continuou andando.

O homem virou uma curva e a conduziu até uma espaçosa sala de espera. Ali havia duas fileiras de cadeiras, ambas encostadas em paredes opostas, de frente para uma porta de escritório fechada. Juliette finalmente entendeu porque o homem parecia se divertir. Já havia alguém sentado em uma das cadeiras amarelas, com as pernas esticadas.

Roma empertigou-se na hora.

— O que você está fazendo aqui?! — ambos indagaram, em uníssono.

O homem de chapéu fedora saiu silenciosamente dali.

Assim que saiu de vista, Roma agarrou o braço de Juliette.

Ela se sentiu tão insultada por sua ousadia ao tocá-la que não reagiu por um longo instante, não até que Roma já a tivesse conduzido para um canto da sala de espera, colocando as costas de Juliette contra a parede fria.

— Me solte — sibilou ela, sacudindo o braço para sair das mãos dele. Roma deve ter obtido a mesma informação que ela. Queria saber do envolvimento de Zhang Gutai nos surtos.

Juliette segurou um palavrão. Se os Rosas Brancas conseguissem respostas antes dela, lidariam com os achados da mesma forma que lidavam com o mercado clandestino. Fariam qualquer coisa possível para garantir o monopólio da informação, subornando e matando fontes até que os Escarlates não pudessem mais ter acesso ao que eles sabiam. Daquela forma, apenas os Rosas Brancas estariam a salvo, presumindo que havia um jeito de impedir os surtos. Daquela forma, a cidade apenas empilharia corpos de inimigos deles. Então, as pessoas começariam a virar a casaca.

Então os Rosas Brancas sairiam vitoriosos. E os Escarlates pereceriam.

— Escute — disparou Roma —, você precisa sair daqui.

Perplexa, Juliette retrucou, inclinando a cabeça para trás:

— Eu preciso sair daqui?!

— Sim — respondeu Roma, com uma expressão repleta de deboche, tocando rapidamente um dos brincos de Juliette. A pérola balançou e tocou a pele da jovem, raspando levemente em seu maxilar. Juliette mal conseguiu suprimir a lufada de ar que ameaçou se libertar, mal conseguiu suprimir a onda de chamas que desejava expelir.

— Vá desfilar vestidinhos em outro lugar — prosseguiu Roma. — Eu cheguei aqui primeiro.

— Aqui é território Escarlate.

— Estas pessoas são Comunistas. Você não tem autoridade sobre elas.

Juliette rangeu os dentes com força. De fato, a Sociedade Escarlate não detinha controle algum ali. Seu único consolo era que Roma também não aparentava estar muito contente, o que significava que os Rosas Brancas, da mesma forma, não detinham controle sobre os Comunistas.

Por enquanto, aquela neutralidade era uma coisa boa. O

homem de fedora calara-se imediatamente ao saber quem era Juliette, justamente para evitar qualquer rusga desnecessária com a Sociedade Escarlate. Mas pisar em ovos não funcionaria para sempre. O próprio ideal de progresso dos Comunistas estava tomando Xangai do jeito que ela era — do jeito que fazia gangsteres prosperarem: pecaminoso, lucrativo. Se lhes fossem dadas as opções de matar todos os capitalistas ou todos os gangsteres, eles escolheriam ambas.

— Nossa relação com os Comunistas, como sempre, não é da sua conta — disse Juliette. — Agora, por gentileza, saia da minha frente.

Roma estreitou os olhos. Ele interpretou a ordem como uma ameaça. Talvez essa tenha sido a intenção dela.

— Eu não vou a lugar algum.

Meu

Deus,

que

atrevimento.

Juliette

ajeitou

completamente a postura. Eles não tinham alturas muito discrepantes — Roma era poucos centímetros mais alto que ela de salto alto.

— Eu não vou repetir — sibilou Juliette. — Saia da minha frente. Agora.

Os lábios dele se contraíram. Com rancor, e lentamente, Roma submeteu-se à ameaça. Deu um passo firme para trás, fitando Juliette enquanto esfregava os olhos com uma das mãos. Se Juliette não o conhecesse, pensaria que o gesto era um ato de nervosismo. Mas não — era estafa; suas olheiras pareciam esfumadas, como se os cílios inferiores estivessem delineados por fuligem.

— Há quanto tempo você não dorme? — Juliette se viu perguntando, de repente. Havia uma correlação direta entre sua vontade de ser civilizada e a distância entre eles. Com o rapaz a vários passos de distância, o desejo de assassiná-lo diminuía.

Roma abaixou as mãos para os flancos.

— Pois saiba — respondeu ele — que estou muito bem, obrigado.

— Não perguntei como você está.

— Ah, me poupe, Juliette.

Juliette cruzou os braços, reflexiva. Noite passada ela ouvira as notícias sobre o pico repentino nas mortes Rosas

Brancas devido aos surtos. Foi o maior número de vítimas em massa até então, o que significava que Roma não deixaria o local apenas porque ela fez alguns comentários ásperos — ele estava ali justamente porque aquela estranha insanidade chegara bem perto de casa.

Ela apontou para a porta fechada com o queixo.

— É o escritório dele?

Roma não precisava perguntar a quem ela se referia.

Concordou.

— Zhang Gutai não receberá ninguém antes da hora marcada. Nem tente.

Tentar o quê? pensou Juliette, contrariada. Não é como se ela pudesse afugentar Roma sem fazer um escândalo e ofender os Comunistas, e ela certamente se recusava a sair antes de falar com Zhang Gutai. Para obter respostas, era aquilo ou nada.

Juliette marchou até uma cadeira e sentou-se. Ergueu a cabeça e ficou olhando para o teto, decidida a não olhar para nenhum outro ponto. Levando a mente para outro lugar, pôs a mão no bolso do casaco e tateou o desenho que estava lá. Era incerto que os rascunhos assustadores confirmavam um problema com os Comunistas, mas confirmavam algo. Ela teria que investigar posteriormente, pois pensava ter reconhecido o fundo do desenho como o Bund. Nada além de alguns traços grosseiros, mas, para um lugar tão notório quanto aquele, traços grosseiros eram o bastante.

Enquanto isso, Roma voltou ao seu assento, na outra fileira de cadeiras, e seus dedos tamborilavam ao tique-taque do relógio na parede. Ele mantinha os olhos fixos em Juliette, o que a irritava. Ela conseguia sentir seu olhar como se fosse

algo físico, como se ele estivesse a centímetros, em vez de estar no outro lado da sala. Cada varredura de seus olhos a fazia sentir como se ele a estivesse dissecando, parte por parte, até que suas entranhas estivessem expostas para análise. Juliette podia sentir um calor subindo do peito, colorindo seu pescoço com o desconforto, e então se espalhando até que as bochechas estivessem ardendo em chamas.

Ela estava a ponto de esfolar a si mesma com sua maldita faca. Suas células a traíam a nível molecular. Ele estava apenas olhando, céus. Aquilo não podia ser considerado um ataque. Juliette não morderia a isca. Ela ficaria ali, sentada, até que Zhang Gutai estivesse pronto para encontrá-la, e então…

— O que é? — disparou Juliette, incapaz de suportar aquilo por mais tempo. Ela lhe devolveu a encarada, finalmente trazendo sua própria munição contra o olhar armado de Roma.

Roma emitiu um ruído inquisitivo. Abriu a boca lentamente, apontando-lhe o queixo.

— O que a deixou tão possessa?

Juliette seguiu com o olhar a direção do gesto de Roma.

Rapidamente, tirou a mão do bolso.

— Novamente, não é da sua conta.

— Se tem a ver com os surt…

— Por que você acha isso?

Roma ficou enfurecido.

— Posso terminar minha frase…

A porta do escritório se abriu, interrompendo-o. Uma assistente agitada surgiu e chamou Roma para entrar, saindo em seguida, apressada. Bufando, Roma encarou

Juliette como quem diz isso não acaba aqui, antes de entrar no escritório.

Juliette aguardava com impaciência, batendo os dedos dos pés aleatoriamente contra o piso duro e contorcendo os dedos das mãos. Por dez minutos ela ficou apreensiva, imaginando Roma fazendo tudo o que estava a seu alcance para convencer Zhang Gutai a lhe dar todas as respostas e desconsiderar Juliette. Roma era um completo mentiroso —

suas táticas de persuasão não conheciam limites.

Quando Roma saiu, no entanto, ficou imediatamente claro, com seu ar de derrota, que não conseguira o que desejava.

— Não fique tão animada —sussurrou quando Juliette passou por ele.

— Esta é só a minha cara — ela sibilou de volta.

Com o queixo bem erguido, Juliette adentrou o escritório de Zhang Gutai.

— Bem, deve ser o meu dia de sorte — declarou o Sr.

Zhang quando ela entrou, repousando sua caneta tinteiro.

Apesar do tom de adulação, ele franzia o cenho enquanto falava. — Primeiro, o herdeiro dos Rosas Brancas, agora, a princesa Escarlate. O que posso fazer por você, Senhorita Cai?

Juliette se jogou em uma das duas grandes cadeiras situadas de frente para a pesada mesa de mogno do Sr.

Zhang. Em questão de segundos, ela assimilou tudo o que estava diante de si: as fotografias em preto e branco emolduradas de seus pais, a bandeira da foice e do martelo pendurada ao lado do arquivo e o calendário vermelho festivo na parede, marcado com as reuniões diárias.

Voltando os olhos ao Comunista à sua frente, Juliette relaxou

e o fez ver o que ela queria que visse, soltando uma risadinha despreocupada e tão vazia quanto possível.

— O senhor sabe como os boatos funcionam nesta cidade, Sr. Zhang — disse. Ela exibia as unhas, fitando um pequeno arranhão que lhe marcava o dedo mínimo. — Eles vêm até mim e eu os sigo. Sabe o que chegou aos meus ouvidos outro dia?

Zhang Gutai parecia levemente entretido.

— Diga-me.

— Dizem — Juliette inclinou-se para frente — que o senhor sabe por que há surtos varrendo Xangai.

Por um longo período o Sr. Zhang não disse nada. Então piscou rapidamente e retrucou:

— Senhorita Cai, eu não consigo imaginar um motivo para a senhorita pensar isso.

— Não? — disse Juliette, com leveza. — O senhor não arquitetou a proliferação de uma insanidade pela cidade?

Não teve plano algum de causar mortes suficientes para que os gangsteres se enfraquecessem e os trabalhadores ficassem assustados, até que as fábricas atingissem as condições ideais para os Comunistas entrarem em cena e incitarem a revolução?

Ela degustou a surpresa e o atordoamento do homem ao ser confrontado. Roma não deve ter perguntado diretamente sobre os surtos — deve tê-lo abordado pelas tangentes, cuidando para reunir suas conclusões em vez de dizê-las diretamente. Isso era esperado. Juliette era mais afeita à arena da abordagem direta.

— Senhorita Cai — disse Zhang Gutai, com rigidez. — Isso é absurdo.

Juliette não chegaria a lugar algum daquela maneira. Ela ajeitou a postura na cadeira e fechou a cara, segurando firmemente os braços do móvel. Agora, a melindrosa gentil se fora. Em seu lugar estava a herdeira da organização mais brutal de Xangai.

— Eu vou descobrir a verdade, de um jeito ou de outro —

disse Juliette. — Então fale agora se quiser que sejamos misericordiosos. Se não, vou arrancar as respostas de você, membro por membro…

— Senhorita Cai, eu realmente não faço ideia do que está falando — interrompeu o Sr. Zhang. — Por favor, retire-se agora. Este é um local de trabalho, e não perderei meu tempo com suas acusações ridículas.

Juliette ponderou suas opções. As palavras de Zhang Gutai eram convincentes, mas ele estava apreensivo. A menos que fosse um ator muito, muito bom, ele não estava mentindo, mas estava sempre lançando olhares furtivos para a porta, tamborilando no tampo da mesa. Por quê? O

que ele sabia e ela não? Mesmo que não tenha arquitetado os surtos, qual era seu envolvimento?

Juliette recostou-se no assento, relaxando a coluna novamente, fingindo tranquilidade.

— E se eu tiver dúvidas sobre o Partido Comunista? —

indagou. — O senhor é o Secretário-Geral, não é?

— A senhorita é bem-vinda a nossas reuniões se quiser saber mais sobre o Partido — respondeu o Sr. Zhang, firmemente. — Se era só isso, Senhorita Cai, por favor, retire-se.

Juliette levantou-se, aproveitando o momento para se alongar e estalar o pescoço. Então, se curvando em uma profunda e exagerada mesura, sorriu afetadamente:

— Obrigada pelo seu precioso tempo — disse, e saiu do escritório.

E agora? Ela pensou, fechando a porta com um quieto clique. Começou a andar. Se ele não…

— Uuf! — Juliette cambaleou para trás, com a cabeça rodando ao trombar com força em alguém enquanto virava o corredor. Na hora em que parou para ver quem raios estava em seu caminho, sua visão ficou vermelha de ira.

Roma agarrou seu pulso antes que a mão de Juliette fosse de encontro a ele. O jovem a segurou no meio do movimento e os braços de ambos se cruzaram, como se fossem espadas em combate.

— Cuidado — disse Roma, em voz baixa. Sua voz era demasiadamente mansa para a violência que borbulhava sob a pele de Juliette. Era um truque. Ele tentava desviar a atenção dela para seus lábios, sua respiração e sua calma, em vez de seja o que for que estivesse ocorrendo ali, com seu aperto forte cravando sulcos no pulso da moça, e estava funcionando. Aquilo, por si só, já fazia Juliette querer matá-lo.

Roma deu um sorriso zombeteiro, como se soubesse o que ela estava pensando.

— Você não faria uma cena na fortaleza Comunista, faria?

Juliette tentou recolher o braço, mas Roma o segurava firme. Se ele não a soltasse em três segundos, ela sacaria a arma. Um, dois…

Roma soltou.

Juliette esfregou o pulso, passando a palma da mão sobre a pulsação enfurecida e resmungando algo inaudível.

Quando Roma simplesmente ficou parado ali, ela indagou, exigente:

— Por que você ainda está aqui?

Inocentemente, Roma apontou para as cadeiras.

— Esqueci meu chapéu.

— Você nem estava usando um — mas, de fato, na cadeira em que ele estava sentado, havia um chapéu. Dando de ombros, Roma simplesmente foi pegá-lo. Juliette se virou e saiu o mais rápido que pôde, apressando-se para fora do prédio.

Só parou quando já estava lá, no meio da estrada, apertando bem o casaco em volta de si, xingando.

— É melhor ele não ter… — ela enfiou a mão no bolso e puxou apenas um pedaço de papel. Contudo, quando o desdobrou, ela viu que o monstro ainda a encarava, em traços apagados por dobras e redobras.

Juliette fungou. Roma pegou o convite do baile por engano.

— Tolo — murmurou ela.

Quando Juliette voltou para casa, encontrou Kathleen na sala de estar, deitada sobre um dos sofás. Foi até a prima, reclamando baixinho.

— Algo errado? — perguntou Kathleen, distraída, folheando sua revista.

— Muitas coisas — resmungou Juliette. — Descobriu o endereço?

Kathleen fez um movimento com a cabeça que sinalizava uma afirmação parcial.

— Quase. Eu o terei em alguns dias.

— Serve — murmurou Juliette. — Então, até lá eu só preciso me preocupar com o baile.

Ela começava a sentir uma dor de cabeça no espaço atrás das orelhas. Juliette tentava planejar o próximo movimento,

mas era difícil saber onde procurar. Deveria haver um motivo para Madame ter ouvido o que ouvira. Deveria haver um motivo para os Comunistas terem dito o que disseram.

E, se não fosse nada além de boato, então Juliette apenas conseguiria aliviar suas suspeitas quando tivesse exaurido cada uma das possibilidades com Zhang Gutai.

Juliette ficou ligeiramente mais animada. Sua mão foi ao bolso de novo, tocando o desenho. Ela precisava exaurir tudo.

Um assovio veio da porta da frente, interrompendo o maquinar silencioso de Juliette. Ela voltou a atenção para lá e viu um mensageiro Escarlate pairando na varanda, gesticulando em direção a ela com uma das mãos e ajeitando o sapato com a outra.

— Passe-me o pacote que está ao seu lado.

Juliette olhou e, de fato, um pacote estava em cima da mesa circular adjacente ao sofá em que ela escolhera se jogar, mas o que esse mensageiro pensava que estava fazendo ao pedir para ela pegar algo que ele mesmo poderia ter pegado…

A ficha caiu. O qipao. Os gangsteres Escarlate se acostumaram a vê-la com vestidos cintilantes de contas e o cabelo cheio de laquê, ondulado com as mãos. Como ela usava indumentária chinesa, eles não a reconheceram.

Juliette puxou o ar e percebeu que seus pulmões estavam horrivelmente apertados. Será que ela nunca poderia ser as duas coisas? Estava condenada a escolher entre um país ou outro? Ser uma mulher norte-americana ou nada?

O mensageiro assoviou novamente.

— Oi…

Juliette sacou a faca presa em sua coxa, bem acima de onde acabava a fenda de seu qipao, e a arremessou. Com um ruído vibrante, a lâmina cravou-se perfeitamente na porta da frente. Ela tirou uma única gota de sangue da orelha do mensageiro, onde havia deixado um talho.

— Não assovie para mim — disse Juliette, friamente. — Eu assovio para você. Entendeu?

O mensageiro a fitou — agora de verdade. Levantou a mão e tocou sua orelha. O sangramento já havia parado. Mas seus olhos estavam arregalados quando anuiu com a cabeça.

Juliette pegou o pacote e se levantou. Ela foi diretamente até o mensageiro e entregou o embrulho inusitadamente, como se entregasse uma marmita a um amigo.

— Já que você está aqui — disse —, preciso que faça uma coisa para mim. Vá ao Bund e interrogue os banqueiros que trabalham na rua principal. Pergunte se viram algo diferente por aí.

O mensageiro abriu e fechou a boca.

— Todos eles?

— Todos. Eles.

— Mas…

— Juliette, espere — chamou Kathleen, também se levantando do sofá. — Deixe comigo.

Juliette ergueu uma sobrancelha. Kathleen enxotou o mensageiro com um aceno, e ele aproveitou a oportunidade para fugir dali, fechando a porta da frente, que ainda estava com a faca cravada.

— Você quer perder seu tempo com isso? — perguntou Juliette.

— Não é perder tempo se é uma informação útil para você

— Kathleen esticou o braço para o cabideiro próximo à porta. — Por que você está atrás disso?

— Eu posso mandar qualquer outro mensageiro —

prosseguiu Juliette, franzindo a sobrancelha. Dar ordens para a própria prima não era de seu feitio. Uma tarefa específica, com objetivos específicos, era uma coisa, especialmente se Kathleen tinha contatos que facilitavam a missão. Mandá-la em uma busca sem sentido era outra, completamente diferente.

— Juliette…

— Eu estava mais tentando assustar o mensageiro. Está tudo certo, de verdade…

Kathleen agarrou o pulso da prima e o apertou, não o bastante para machucar, mas o bastante para que Juliette soubesse que ela falava sério.

— Não estou fazendo isso por causa de meu coração gentil

— disse ela, com firmeza. — Em alguns anos, esta organização estará ou nas suas mãos, ou nas mãos de outra pessoa. E conhecendo os outros competidores…

Kathleen interrompeu a si mesma. As mentes de ambas se dirigiram às mesmas pessoas: Tyler, primeiramente, e então os outros primos que poderiam ter uma chance, apenas se Tyler desaparecesse misteriosamente. Todos eram terríveis, impiedosos e cruéis, mas Juliette também era. A diferença, ínfima, era que Juliette também era cuidadosa, controlando intensamente a quantidade de ódio que deixava escapar a fim de guiar sua mão.

— Poderia estar nas suas mãos também — disse Juliette, com leveza. — Não sabemos o que vai acontecer em alguns anos.

Kathleen revirou os olhos.

— Eu não sou uma Cai, Juliette. Isso está completamente fora de cogitação.

Não havia muitos argumentos contra aquilo. Kathleen vinha do lado da família de Lady Cai. Como Lorde Cai era a face da Sociedade Escarlate, não era surpresa que apenas aqueles que compartilhavam seu nome fossem vistos como legítimos. Bastava ver como era fácil para seus primos entrarem no círculo interno, enquanto o Sr. Lang, irmão de Lady Cai, ainda não ganhara nenhum favorecimento nas duas décadas em que esteve ali.

— Tem de ser você — disse Kathleen. Seu tom não permitia discordância. — Todos os que forem atrás de sua coroa são perigosos. Você também é, mas — ela levou um momento escolhendo as palavras — mas pelo menos você não traria o perigo para dentro da Sociedade Escarlate apenas para satisfazer seu orgulho. Você é a única pessoa em que confio para manter esta organização unida como uma estrutura de aço, estável, em vez de uma hierarquia belicosa de caprichos. Se você falhar em ser uma boa herdeira, se você cair, então esse modo de vida cai junto.

Permita-me fazer o trabalho.

Juliette abriu e fechou a boca. Quando tudo o que conseguiu balbuciar foi um fraco “Ok”, a prima fungou.

O feitiço austero quebrou-se. Kathleen vestiu o casaco, ajeitando-o com os ombros.

— Então, o que você precisa saber sobre os banqueiros no Bund?

Juliette ainda matutava sobre as palavras da prima. Ela sempre pensara em si mesma como a herdeira da

Sociedade Escarlate, mas não era só isso. Ela era herdeira da versão de seu pai da Sociedade Escarlate.

E aquilo era bom? A Sociedade Escarlate estava se desmanchando. Talvez uma pessoa diferente teria vencido a guerra de sangue com os Rosas Brancas há gerações. Talvez uma pessoa diferente já tivesse contido os surtos.

— Boatos sobre um monstro — respondeu Juliette, alto, se afastando de sua mente. Havia muitas peças soltas flutuando pelo ar: um monstro, surtos, os Comunistas; ela precisava se concentrar para organizá-las, sem duvidar de si mesma. — Tenho motivos para acreditar que eles viram alguma coisa. Minhas expectativas não estão altas, mas pelo menos um pouquinho delas resiste.

Kathleen anuiu.

— Eu relatarei o que encontrar — com isso, a prima disse adeus, fechando a porta depois de sair, e o som ecoou pela sala de estar. A faca parecia um tanto cômica, movendo-se com a porta daquele jeito. Juliette suspirou e a puxou, guardando a lâmina no vestido enquanto subia com dificuldade as escadas. Seus pais ficariam horrorizados ao ver um buraco na porta. Ela sorriu com a imagem e continuou se divertindo com ela, até que entrou em seu quarto e viu uma figura solitária na cama.

Juliette quase deu um salto de mais de meio metro no ar.

— Ah, céus, você me assustou — disse, arquejando, um momento depois. As irmãs dificilmente entravam separadas no quarto, então ela não identificou Rosalind de imediato, especialmente quando a prima tinha a face inclinada na direção dos raios do sol da tarde que entravam pela janela.

— Você e sua irmã resolveram tirar o dia para me surpreender?

Rosalind parecia um pouco ofendida quando se virou para Juliette.

— Você estava com a Kathleen? Eu estava te esperando aqui há horas.

Juliette piscou, surpresa. Não sabia ao certo o que dizer.

— Sinto muito — foi o que decidiu falar, mas suas desculpas saíram confusas e, por consequência, insinceras.

— Eu não sabia.

Rosalind balançou a cabeça e resmungou:

— Não importa.

Este era um dos detalhes do qual se lembrava da infância delas, antes de terem partido em direção ao mundo ocidental. Rosalind guardava rancor como se competisse por eles. Era intensa, cabeça-dura e tinha nervos de aço, mas por baixo da superfície de palavras bem escolhidas e belas, ela nutria sentimentos que já haviam há muito perdido sua relevância.

— Não me venha com esse mau humor — repreendeu Juliette. Ela tinha de resolver aquilo naquele momento, ou temeria uma explosão em um futuro distante. Ela conhecia a prima, fora testemunha do ódio, lentamente construído, que Rosalind tinha de pessoas que a chateavam — de suas tias por parte de mãe que tentaram tomar o lugar da mãe falecida; de seu pai, que valorizava mais a força de seu guānxì na Sociedade Escarlate do que o cuidado com suas filhas; e mesmo das dançarinas do cabaré, que estavam com tanto ciúme da ascensão ao estrelato de Rosalind que tentaram excluí-la de seus círculos sociais.

Às vezes Juliette se perguntava como Rosalind conseguira lidar com tanta ausência em sua vida. E, ao pensar nisso, sentia-se mal por não ver a prima com mais frequência,

embora ela mesma não houvesse voltado à cidade há tanto tempo assim. Todo mundo tinha coisas mais importantes a fazer na família Cai. Kathleen, pelo menos, tendia para o otimismo. Rosalind, não. Mas cuidado constante e contato com os primos não eram prioridades altas quando pessoas estavam dilacerando as próprias gargantas nas ruas.

— O que foi? — perguntou Juliette mesmo assim. Ela podia, ao menos, dar-lhe um minuto, já que Rosalind esperara por horas.

Rosalind não respondeu. Por um instante, Juliette quase teve receio de que a prima não havia acabado com o rancor que cultivara. Então, de repente, Rosalind levou a face às mãos.

Havia algo assustador naquele movimento, que golpeou a essência de Juliette, algo infantil e perdido.

— Insetos — sussurrou Rosalind, com as palavras abafadas pelas mãos. Agora, uma frieza se estabelecia no quarto.

Juliette sentiu todos os pelos da nuca se arrepiarem, ficando retos como varetas, de modo que sua pele se tornara quase sensível, a ponto de doer ao toque.

— Tantos — prosseguiu Rosalind. Cada quebranto na voz da prima causava um novo calafrio na espinha de Juliette. —

Tantos, todos vindos do mar, todos voltando para o mar.

Lentamente, Juliette ficou de joelhos no carpete. Ela inclinou a cabeça para fitar o olhar aterrorizado e murcho da prima.

— O que você está dizendo? — perguntou Juliette, com calma. — Que insetos?

Rosalind sacudiu a cabeça.

— Eu acho que vi. Na água.

Ainda não respondia à pergunta.

— Viu o quê? — Juliette tentou entender, novamente.

Diante do silêncio de Rosalind, Juliette a segurou pelos braços, ordenando — Rosalind, o que você viu?

Rosalind respirou fundo. Naquele único movimento, foi como se ela tivesse sugado todo o oxigênio do quarto, sugado toda a possibilidade de que o que ela vira pudesse ser explicado como algo comum. Uma segunda palpitação começava dentro da cabeça de Juliette, uma pressão que vinha de dentro para ouvir, se precaver, se preparar. De algum modo, ela sabia que o que estava prestes a ouvir mudaria tudo.

— Rosalind — chamou, uma última vez.

— Olhos de prata — disse Rosalind, sufocada, sentindo calafrios. Agora que havia começado a falar, as palavras saíam aos tropeços. Sua respiração ficava cada vez mais rasa e Juliette a apertava com mais força, com os dedos ainda agarrados aos braços da prima. Rosalind mal parecia perceber. — Olhos de prata. E coluna arqueada. E espinhos pontiagudos. E escamas e garras e… eu… eu não sei, Juliette. Eu não sei o que era. Guài wù, talvez. Um monstro. Um rugido começou a ribombar nos ouvidos de Juliette.