Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 11 de 40

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Prazeres Violentos

Nove

Já esperavam uma tragédia, mas, de alguma forma, o que encontraram conseguia ser pior.

O piso estava tomado de vermelho, escorregadio. O ar, pesado.

Para onde quer que olhassem, havia Escarlates morrendo, sangue jorrando de suas gargantas e berros de agonia.

Devia haver uns vinte, trinta, quarenta, prestes a morrer ou

já mortos, imóveis ou tentando naquele mesmo instante cravar as unhas nas próprias veias.

— Meu Deus — sussurrou Roma. — Começou.

Nove

Quando dei uma espiada no quarto, ele estava dormindo tão tranquilamente que fiquei com um pouco de medo de que estivesse morto — disse Marshall, cutucando o cadáver com o pé. — Acho que ele estava fingindo.

Benedikt revirou os olhos e então afastou o pé de Marshall para longe do morto com um tapa.

— Você não devia acreditar em Roma?

— Eu acho que Roma é um mentiroso patológico —

respondeu Marshall, dando de ombros. — Ele simplesmente não quis vir conosco para ver os defuntos.

A luz do dia eclodira há apenas uma hora, mas as ruas já estavam vibrando com o movimento. Quase não se ouvia naquele beco o som das ondas quebrando nas docas ali perto, não com o falatório que jorrava da cidade. O brilho da manhã encapsulava as ruas frias como uma aura. O vapor nos portos e a fumaça das fábricas lançavam-se para cima, espessos, poluídos e pesados.

— Ah, cale a boca — disse Benedikt. — Você está tirando minha atenção da inspeção dos defuntos. — Franzindo profundamente o cenho, ele estava ajoelhado próximo ao corpo que Marshall empurrara até a parede. Novamente, Benedikt e Marshall foram escalados para a limpeza, que não apenas exigia dar um jeito nos cadáveres ensanguentados, mas também nos policiais municipais envolvidos, molhando a mão de todo e qualquer órgão legal

que tentasse exercer suas atribuições sobre os gangsteres mortos.

— Tirando sua atenção? — Marshall se agachou para ficar na mesma altura que Benedikt. — Se é assim, você devia me agradecer por aliviar a morbidez.

— Eu agradeceria se você me ajudasse — resmungou Benedikt. — Precisamos identificar estes homens antes do meio-dia. Nessa velocidade, a única coisa que teremos identificado é o número de corpos aqui — ele revirou os olhos quando Marshall olhou em volta e começou a contar.

— Seis, Mars.

— Seis — repetiu Marshall. — Seis defuntos. Contratos de seis dígitos. Seis luas dando a volta ao mundo — Marshall adorava o som da própria voz. Em qualquer ocasião em que pairasse o silêncio, ele fazia questão de preenchê-lo, como se fizesse um favor ao mundo.

— Não comece…

A reclamação de Benedikt foi ignorada.

— Devo compará-lo a uma noite de inverno? — recitou Marshall. — Mais esplendoroso e mais bruto: o vento tempestuoso é, deveras, mais terno…

— Você viu um estranho por dois segundos na rua — interrompeu Benedikt, secamente. — Menos, por favor.

— Olhos de beladona, lábios como fresco fruto. Uma sarda acima da face esquerda tal qual — pausou Marshall, apontando subitamente para seus pés — tal qual esse pontinho esquisito aí no chão.

Benedikt parou de repente, fazendo uma careta. Também estava de pé, observando a evidência no chão. Era muito mais que um simples pontinho irregular.

— É outro inseto.

Marshall ergueu a perna para um tijolo mal colocado na parede.

— Ah, por favor, não.

Entre as rachaduras no pavimento, uma mancha preta pontilhava o cimento, nada que chamasse a atenção de um olhar breve. Mas, assim como um artista é capaz de perceber um movimento acidental do pincel em meio a uma miríade de pinceladas intencionais, no momento em que o olhar de Benedikt caiu sobre a mancha, um calafrio percorreu sua espinha e lhe avisou de que havia um erro na tela do mundo. Aquela criatura não deveria estar ali.

— É o mesmo — disse, pinçando-o cautelosamente com os dedos. — É o mesmo tipo de inseto que encontramos no porto e levamos ao laboratório.

Quando Benedikt pegou a coisinha morta e a mostrou para o imprevisível amigo, esperava que Marshall fizesse algum comentário tosco ou compusesse uma canção sobre a fragilidade da vida. Em vez disso, Marshall franziu as sobrancelhas.

— Você se lembra da Tsarina? — ele perguntou, de repente.

Mesmo com as costumeiras enrolações e com as histórias cheias de voltas de Marshall, aquela mudança abrupta de assunto era incomum. Mesmo assim, Benedikt não o contrariou e respondeu:

— É claro.

A golden retriever falecera fazia apenas um ano. Foi um dia estranho, de luto, tanto em respeito pela companheira peluda quanto pela peculiaridade de uma morte que, pelo menos uma vez, não ocorrera com o apertar de um gatilho e o jorro de sangue.

— Você se lembra de quando Lorde Montagov a pegou? —

prosseguiu Marshall. — Lembra-se dela correndo pelas ruas, esfregando o focinho em todo e qualquer animal que encontrava, fosse um gato ou um rato selvagem?

Marshall estava tentando chegar a algum lugar, mas Benedikt ainda não conseguia dizer aonde. Ele nunca entenderia o jeito de falar de pessoas como Marshall, dando voltas e voltas até que seu discurso fosse o próprio oroboro engolindo a própria cauda.

— Sim, claro — respondeu Benedikt, com a cara fechada.

— Ela pegou tantas pulgas que elas viviam saltando do pelo…

O oroboro finalmente cuspiu sua cauda.

— Faca — Benedikt gesticulou na direção de Marshall para que ele vasculhasse os bolsos. — Me dê sua faca.

Sem pensar duas vezes, Marshall sacou uma faca e a jogou. O cabo planou perfeitamente até a mão de Benedikt e ele a levou até o morto, cortando fora uma mecha de seu cabelo, o mais rente que conseguiu. Quando o cabelo foi ao chão, Benedikt e Marshall se inclinaram de uma vez para examinar o couro cabeludo do defunto.

Nesse momento Benedikt quase vomitou.

— Isso — constatou Marshall, paralisado — é nojento.

Havia apenas alguns centímetros de pele à mostra, centímetros de branco-acinzentado entre dois tufos de cabelo preto e grosso. Mas, naquele espaço, uma dúzia de caroços do tamanho de unhas do dedo mínimo se projetavam para fora, lares pontilhados para insetos mortos que fizeram morada logo abaixo da primeira camada de pele. Benedikt começou a sentir uma coceira na cabeça com aquela visão, diante dos exoesqueletos encolhidos

translucidamente visíveis sob a membrana, com as patas, antenas e tórax enclausurados e congelados no tempo.

Benedikt apertou a faca com mais força. Maldizendo a si mesmo por sua curiosidade, lentamente afastou os tufos de cabelo do morto, de modo que não o impedissem de ver a pele exposta. Em seguida, rangendo os dentes e com um tremor na ponta da língua, ele enfiou a ponta da lâmina em um dos caroços.

Não houve nenhum ruído de abertura ou jorro de fluidos sequer, como Benedikt esperava diante de uma visão tão asquerosa. Na tensão de um silêncio intercalado apenas pelo ronco ocasional de um carro passando pela rua adjacente, Benedikt usou a faca para cortar a pele fina sobre um dos insetos mortos.

— Vamos — disse Benedikt quando um inseto lá dentro ficou semiexposto. — Puxe.

Marshall olhou para ele como se o amigo tivesse sugerido que matassem um bebê e o devorassem.

— Você só pode estar brincando.

— Minhas duas mãos estão ocupadas, Mars.

— Eu te odeio.

Marshall respirou fundo. Cuidadosamente, ele pôs dois dedos na incisão e puxou o inseto morto.