Prazeres Violentos

Chloe Gong · Capítulo 22 de 40

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Prazeres Violentos

Vinte

— …dois estamos mortos se descobrirem — finalizou Roma. — Eu sei. Até o nascer do sol, então.

Juliette o viu passar as pernas novamente por cima do parapeito da sacada, pendurando-se nos ornamentos de metal como se fosse outra parte da peça. Sob a luz baixa da lua, Roma era um estudo em preto e branco da tristeza.

Roma parou.

— Boa noite, Juliette.

E então se foi, sua sombra ágil descendo rapidamente pela parede externa e disparando pelos jardins. Em um pulo, passou o portão, saindo do solo Escarlate e trilhando o caminho de volta para seu próprio mundo.

Juliette fechou bem as cortinas, ajeitando o tecido até que por ele não passasse nem um feixe da luz prateada.

Somente então permitiu a si mesma soltar o ar extensivamente, afastando a luz da lua de seu quarto e as facetas inconstantes de seu coração.

Vinte

Ao nascer do sol, era tão cedo que os portos estavam silenciosos enquanto as ondas quebravam contra as docas flutuantes. Era tão cedo que o cheiro do vento ainda era doce, intocado pela poluição matinal das fábricas, vazio dos aromas de comida frita e sopas mal cozidas que subiam dos carrinhos que eram empurrados pelas ruas.

Infelizmente, ainda não era cedo o bastante para que se evitasse um comício Nacionalista.

Juliette freou, ficando imóvel na calçada sob uma árvore que balançava.

— Tā mā de — xingou, baixinho. — O que é…

— Kuomintang — respondeu Roma antes que Juliette pudesse terminar a pergunta.

Juliette o fitou, incomodada, quando o rapaz parou em sua frente. Roma realmente achava que ela não saberia reconhecer os pequenos sóis em seus chapéus? Não era exatamente um logo desconhecido. O partido Kuomintang

— e seus Nacionalistas — estava ficando incrivelmente popular.

— Eu sei — disse Juliette, revirando os olhos. — Eu ia perguntar o que é que eles estão fazendo. Essa é a minha cidade. Não preciso de você me ensinando.

Roma lhe lançou um olhar torto.

— Será que é mesmo?

Ele nem sequer tinha uma entonação venenosa, mas mesmo assim aquelas poucas palavras eram como uma

adaga arremessada diretamente no coração de Juliette. Será que é mesmo? Quantas vezes ela se perguntara isso em Manhattan? Quantas vezes subira na cobertura de seu prédio e fitara o horizonte de Nova York, se recusando a amá-lo, porque amar a um significava perder o outro, e perder Xangai significava perder tudo?

— O que você quer dizer com isso? — indagou ela, rispidamente.

Roma pareceu quase se divertir com a pergunta. Fez um gesto vago em direção a ela, a seu vestido, a seus sapatos.

— Qual é, Juliette. Estou aqui há muito mais tempo que você. Você é uma mulher norte-americana de coração.

E o que estava implícito nas palavras não ditas era claro: faça um favor a todos nós e volte para lá.

— Ah, sim — resmungou ela. O buraco em seu peito apenas ficou mais fundo. — Eu e minha democracia norte-americana, como consigo aguentar um clima político desses?

Antes que Roma pudesse contestá-la com algo mais, Juliette começou a andar novamente, desviando da rota inicial. Em vez de passar pelo comício reunido na larga rua, se apressou para um beco próximo, mal pausando para que Roma a seguisse. Ele captou rapidamente o desvio. Logo os dois estavam passando por sacos de lixo e carrinhos de comida virados, torcendo o nariz para animais de rua e fazendo caretas quando viam as frequentes poças de sangue. Enquanto andavam pelas ruas de trás da cidade, estavam satisfeitos com o silêncio entre eles, satisfeitos ao fingir que o outro não estava ali.

E então Roma girou tão rápido para ver o que acontecia atrás deles que Juliette imediatamente presumiu que

estavam sob ataque.

— O que foi? — disparou ela, também dando meia-volta.

Sacou a pistola e apontou-a ferozmente, esperando que algo surgisse. — O que é?

Mas Roma se mantinha desarmado. Simplesmente vasculhava a rua atrás deles, com as sobrancelhas franzidas.

— Pensei ter ouvido alguma coisa — disse. Eles esperaram. Um pássaro mergulhou em uma lata de lixo. Um cano exposto jorrava água suja nas ruas.

— Não vejo nada — disse Juliette, em voz baixa, guardando a arma.

Roma franziu o cenho. Aguardou mais um segundo, mas a cena manteve-se inalterada.

— Erro meu. Peço desculpas — endireitou as mangas da camisa. — Vamos em frente.

Hesitante, Juliette virou-se e começou a andar novamente.

Não estavam longe do endereço que Kathleen lhe dera.

Aquela era uma parte conhecida da cidade.

O arrepio, contudo, permanecia em seus braços.

Ele só está sendo paranoico, Juliette tentou assegurar a si mesma. O medo de serem vistos juntos já os mantinha em estado de alerta. Juliette havia puxado a gola de seu casaco para ocultar a face. Roma usava seu chapéu bem abaixado sobre a testa, o que foi uma boa decisão, tendo em vista que ele estava tão acabado que qualquer passante que o visse na rua acabaria fugindo para a direção oposta. Na ofuscante luz do dia, os cortes em seu rosto se destacavam contra sua pele pálida. A julgar por suas olheiras sombrias, Juliette não ficaria surpresa se ele não tivesse dormido à

noite, provavelmente se revirando na cama, preocupado com Alisa.

Juliette balançou a cabeça negativamente. Ela precisava limpar a mente de suposições. Até onde sabia, ele também poderia ter passado a noite matando Escarlates.

— É um desses prédios — disse Juliette quando chegaram à rua certa. As casas ali eram amontoadas e deterioradas; no espaço entre elas uma criança mal poderia passar se espremendo. Aquela área não era muito afastada da Concessão Francesa; ainda assim, uma linha tangível podia ser traçada como uma divisa entre os dois distritos, e estava claro em que lado ficava aquela rua. Uma estrutura longa e retangular jazia meio desabada sob os pés de Juliette. Talvez um grandioso pórtico tenha existido aqui, mas agora se foi, destruído pela paisagem urbana e pela degeneração.

— Tem certeza de que aqui é o lugar certo? — indagou Roma. — Com certeza um emprego em um jornal paga mais do que o suficiente para mudar de bairro.

— Dentre todas as pessoas, Roma Montagov — disse Juliette —, você deveria entender a importância da imagem.

— Um e o mesmo, com o povo, em meio ao povo. Os Comunistas nunca pararam de pregar tais ideais. Se o proletariado comum tinha que sofrer, então Zhang Gutai também tinha. Qual outra base ele teria para conquistar-lhes o respeito?

Juliette começou a caminhar em direção ao edifício que o endereço apontava. Então, a dois passos da entrada principal, ela freou bruscamente e apontou:

— Veja.

Roma prendeu a respiração. Insetos. Uma coleção de carcaças murchas na entrada do bloco de apartamentos. Se aquilo não era uma confissão de culpa, Juliette não sabia o que mais poderia ser.

Com a pulsação a mil, ela empurrou a porta de entrada do edifício residencial. A fechadura enferrujada cedeu e a porta abriu.

Juliette sinalizou para que Roma fosse mais ágil. Eles subiram as escadas, fechando a cara para a falta de espaço do local. As escadas subiam por uma parede do prédio e então escoavam direto em um corredor paralelo com quatro portas não muito distantes entre si. Norte, depois sul, norte, depois sul — eles trilhavam as escadas, continuando o processo em um padrão vertiginoso. Roma estava mais acostumado àquilo; Juliette não. Ela não vivera nos limites da cidade por anos a fio, nem sentira o piso instável sob os pés, como se a estrutura inteira estivesse arfando.

— Qual é o apartamento? — perguntou Roma. Ele fungou quando passaram por um parapeito de janela no terceiro andar, dando uma olhada nos vasos de flores postos bem na borda, a um empurrão de se espatifarem na calçada abaixo.

Juliette apenas apontou o indicador para o céu. Eles continuaram subindo, subindo, até o topo, chegando a um andar com uma única porta à espera, bem onde acabavam as escadas.

Eles pararam. Trocaram um olhar.

— Ele não está em casa — Juliette assegurou a Roma antes que ele perguntasse. Ela apoiou um joelho no chão, puxando sua adaga, fina como uma agulha, das dobras do

vestido. — Examinei o calendário no escritório. Ele tem reuniões com gente importante o dia todo hoje.

Só que, assim que Juliette inseriu a adaga na fechadura, com a ponta da língua ligeiramente para fora da boca devido à concentração, ela ouviu o eco distinto e inegável de passos dentro do apartamento em direção à porta da frente.

— Juliette! — sibilou Roma, que avançou apressado.

Juliette ficou de pé em um salto, escondendo a faca na manga do vestido. Ela estendeu o braço para impedir o movimento de Roma, se ajeitando bem na hora, antes que a porta se abrisse e um senhor de idade estivesse piscando os olhos opacos para eles. Ele certamente estava chegando nos 60, em frangalhos e com aparência cansada, como se não tivesse tido uma boa noite de sono desde que saiu do ventre da mãe.

— Olá — disse o senhor, confuso.

Juliette pensou rápido. Eles podiam dar um jeito nisso.

Nem tudo estava perdido.

— Bom dia. Somos da universidade — exclamou, entrando em outro dialeto, o wenzhounês, tão rápido que Roma deu um pulinho de susto, incapaz de esconder seu espanto com a rápida troca. — Como está o senhor nessa bela manhã?

O velho aproximou o ouvido, fazendo uma careta. Em xangainês, ele respondeu:

— Poderia falar běndì huà, minha jovem? Eu não entendi.

Wenzhou era uma cidade que ficava a apenas alguns dias de viagem, ao sul de Xangai, mas seu dialeto local era tão incompreensível para forasteiros que Juliette nunca o teria aprendido se Ama não a tivesse ensinado. Ama costumava dizer que o som mais próximo do wenzhounês não era uma

língua vizinha, como o xangainês, mas o gorjeio de pássaros canoros. Em uma cidade que não apenas era repleta de estrangeiros, mas também de chineses nativos de todos os cantos do país, a maior parte dos cidadãos compartilhava uma língua, mas não compartilhavam a mesma maneira de usá-la. Dois comerciantes chineses podiam levar um diálogo inteiro com cada um falando seu próprio dialeto. Eles não precisavam de um meio-termo. Precisavam apenas se entender.

Juliette, todavia, não queria mesmo que o velho a entendesse; ela tinha apenas um objetivo. Antes que ele pudesse inspecionar mais de perto o seu rosto e a reconhecesse como a herdeira da Sociedade Escarlate, tinha de fazê-lo pensar que era uma imigrante descuidada.

— Perdão — Juliette voltou ao xangainês, com a missão cumprida. — Como eu dizia, somos da Universidade de Xangai e estamos extremamente animados por vê-lo hoje.

Queremos fundar o primeiro coletivo sindical estudantil e precisamos de alguns conselhos. O Sr. Zhang se encontra?

O velho ajeitou a postura, passando as mãos em seu cardigã de crochê. Juliette esperava que ele os mandasse embora, dizendo para voltarem em outra hora, de modo que pudessem sair de sua vista e considerar aquilo um fracasso temporário. Contanto que não levantassem suspeitas, podiam voltar depois; contanto que aquele homem não prestasse muita atenção a seus rostos e pensasse que eram universitários comuns, indignos de lembrança.

Ela não esperava que o homem pigarreasse com altivez e dissesse:

— Eu sou o Sr. Zhang.

— Hum… não é, não.

A postura do homem murchou. Ele suspirou e abandonou o ar empertigado.

— Tudo bem. Eu sou Qi Ren, assistente pessoal do Sr.

Zhang. Podem entrar.

Juliette piscou rapidamente — a princípio, confusa pela esquisitice daquele homem, e depois surpresa por ele tê-los convidado a entrar em vez de mandá-los embora. Enquanto estava ali parada, sentiu um empurrãozinho de Roma, como se perguntasse por que ela não se mexeu quando o Sr. Qi se virou, arrastando-se com seus chinelos de sola dura.

Aquele não era seu plano original, mas Juliette não seria nada se não tivesse jogo de cintura.

— Vamos — murmurou para Roma. Eles entraram rapidamente atrás do Sr. Qi.

— Qual é a sua graça? — perguntou Sr. Qi, olhando para trás.

Juliette não titubeou.

— Zhu Liye. E este é o Sr. Montague. Que sofás adoráveis vocês têm aqui — disse, sentando-se antes que ele lhe desse permissão. Franzindo o cenho, o Sr. Qi empurrou para o lado várias pastas em uma mesa a seu lado, virando-as para baixo para que seu nome de dois caracteres e a marca d’água do Diário do Proletariado não ficassem visíveis.

— Isto vai demorar?

— Se não for muito incômodo — respondeu Juliette, jovial.

O Sr. Qi suspirou.

— Vou fazer um pouco de chá.

Assim que o Sr. Qi estava longe o bastante na cozinha contígua, ocupado com a fervura da água, Roma voltou-se para Juliette e sibilou:

— Montague? Sério?

— Cale-se — Juliette sibilou de volta. — Não consegui pensar em nada além disso e não queria fazer uma pausa suspeita.

— Você é fluente em russo e isso é o melhor que conseguiu inventar? — indagou Roma, atônito. — O que é um Montague? Parece italiano.

— Existem Comunistas italianos!

— Não em Xangai!

Juliette foi impedida de responder quando o Sr. Qi colocou a cabeça para fora da cozinha e perguntou que tipo de chá desejavam. Quando ele se enfiou de novo na cozinha, satisfeito com a resposta educada dos jovens, qualquer um está ótimo, Juliette abaixou a cabeça e disse:

— Certo, ainda podemos finalizar o que viemos fazer aqui.

Você precisa distraí-lo.

— Como é? — perguntou Roma. — Você vai me deixar aqui fazendo sala?

— Isso é um problema?

— Sim, é um problema — Roma voltou a se recostar no sofá, descansando as mãos sobre o colo. — Como vou saber que você vai compartilhar qualquer informação que encontrar se isso não for de seu proveito?

Ele tinha toda razão para suspeitar dela, mas isso não significava que Juliette deveria gostar da insinuação de que ela sabotaria a operação.

— Pare de discutir comigo — retrucou. — A descrição comum de nosso trabalho é intimidação e tiros. Se conseguirmos dar um jeito nisso, devemos nos considerar sortudos.

— Francamente, isso é…

— Você quer salvar Alisa ou não?

Roma emudeceu. Cerrou os punhos com força e Juliette não conseguia dizer se fora uma reação a seu comentário sobre Alisa ou se ele tentava resistir ao impulso de estrangulá-la. O Sr. Qi voltou bem naquela hora, com uma chaleira e três xícaras redondas equilibradas em seus frágeis braços. Sem perder tempo, Juliette ficou de pé e perguntou onde ficava o banheiro. O Sr. Qi apontou distraído para o corredor enquanto punha as xícaras na mesa, e Juliette se foi, saltitante, deixando que Roma a seguisse com olhos afiados enquanto criava no improviso uma história sobre a fundação do Coletivo Sindical Comunista da Universidade de Xangai, que nenhum dos dois sabia ao certo se existia ou não. Agora isso era problema dele.

Juliette tinha um dragão maior para matar.

Com ouvidos atentos para se certificar de que Roma ainda tagarelava sobre a solidariedade socialista, Juliette parou no fim do corredor deteriorado. Havia quatro portas: uma escancarada, que dava no banheiro, duas entreabertas, que davam nos quartos, e a quarta trancada, que não cedeu quando Juliette girou de leve a maçaneta. Se Zhang Gutai tinha algo a esconder, estaria atrás daquela porta.

Juliette prendeu a respiração e bateu a palma da mão com tanta força na maçaneta que a fechadura simples foi vencida em um clique. Imóvel por um segundo, Juliette aguardou para ver se o Sr. Qi viria correndo. Quando não houve interrupção no falatório de Roma, ela virou a maçaneta e passou pela porta.

Juliette olhou em volta.

Esticada em uma das paredes, havia uma bandeira vermelha com a foice e o martelo amarelos. Abaixo dela,

uma grande escrivaninha estava abarrotada de pastas e cartilhas, mas Juliette não perdeu tempo inspecionando-as quando se aproximou. Ajoelhou-se e puxou a gaveta de baixo na lateral da escrivaninha. Imediatamente, a primeira coisa que viu foi seu próprio rosto e, embora o papel fosse fino, a tinta tortuosa e a reprodução de seus traços completamente errada e mal calculada, ainda era indubitavelmente ela, sob um título que proclamava RESISTA À SOCIEDADE ESCARLATE.

— Interessante — murmurou Juliette —, mas não é o que eu estou procurando.

Ela empurrou os cartazes para o lado e continuou fuçando.

Tudo o que encontrou foram panfletos e mais panfletos de propaganda que não lhe eram relevantes, escritos em tinta manchada cuja intenção era incitar o terror.

Na segunda gaveta, no entanto, ela achou envelopes, todos ornamentados com rubricas feitas por grossas canetas tinteiros que indicavam poder e riqueza. Juliette verificou-as rapidamente, deixando de lado convites de políticos do Kuomintang e ameaças sutilmente veladas de banqueiros e executivos, deixando de lado qualquer coisa que parecesse vagamente um desperdício de tempo. Sua atenção foi cativada apenas quando viu um quadradinho branco, um envelope bem menor que os outros.

Diferentemente do resto, não tinha remetente.

Em vez disso, continha uma florzinha púrpura no canto, estampada por um carimbo de borracha personalizado.

— Uma esporeira — sussurrou Juliette, reconhecendo a gravura da flor. Em inglês, a chamam de larkspur. Ela se apressou a pegar o papel contido no envelope. Era apenas

um bilhetinho, datilografado e recortado para caber ali dentro.

Foi um prazer reunirmo-nos e tratarmos de negócios.

Se mudar de ideia, avise-me.

—Larkspur

Por um longo período, Juliette apenas fitou o bilhete, com pulsação acelerada. O que significava? O que seriam todos aqueles fragmentos, partes de um quebra-cabeça maior, flutuando separados uns dos outros, mas claramente feitos para se unirem?

Juliette enfiou o envelope de volta na gaveta e a fechou com uma batida. Ajeitou o vestido e, antes que passasse mais tempo ali e sua ausência acabasse levantando suspeitas, saiu do escritório, fechando a porta atrás de si com um leve clique.

Ela respirou fundo duas vezes. As batidas de seu coração voltaram ao ritmo normal.

— …e, na verdade, nossas metas se estendem para muito além da revolução — dizia Roma quando ela voltou casualmente à sala de estar. — Há planos a fazer, oponentes a eliminar.

— E tudo isso demanda recursos muito maiores que nós mesmos, claro — Juliette interpôs, sentando-se no sofá novamente. Ela sorriu tanto que seus caninos ficaram à mostra, por cima do lábio inferior. — Agora, onde estávamos?

— Zhu Liye.

Juliette voltou-lhe a atenção, estreitando os olhos enquanto fitava Roma. Teve de apertá-los bem, porque o sol

estava com um brilho muito forte por trás da cabeça do rapaz, raios ofuscantes que o iluminavam com claridade exagerada enquanto desciam pela calçada.

— Você ainda está pensando nos nomes?

— Não, eu… — Roma emitiu um ruído que poderia ter sido uma risada, não fosse a hostilidade. — …eu apenas entendi.

Você traduziu Juliette para o chinês. Ju-li-ette. Zhu Liye.

Roma obviamente ficara matutando sobre aquele enigma específico desde o instante em que saíram do apartamento de Zhang Gutai. Depois de contar rapidamente a ele o que encontrou no escritório, Juliette estava satisfeita em andar sem conversar enquanto tomavam o rumo de volta às ruas.

Roma parecia acompanhar o exemplo que Juliette estabelecera, até aquele momento.

— Ora ora, temos um detetive aqui — entoou Juliette. Ela saltou da calçada para desviar de uma poça, fazendo seus saltos clicarem sobre a rua. Roma a seguia de perto.

— Na verdade, eu… — Roma inclinou a cabeça para o lado, quase como um pássaro; rápido, curioso e vazio de motivos maiores. — Eu não sei seu nome chinês.

Os olhos de Juliette se estreitaram ainda mais.

— E isso importa?

— Só estou sendo civilizado.

— Não seja.

Outro momento de silêncio. Desta vez, Roma não se apressou para preenchê-lo. Desta vez, apenas esperou.

Sabia que Juliette detestava o silêncio. Ela o detestava com tanta intensidade que, quando ele a seguia como um espectro, quando se instalava entre ela e qualquer interlocutor, aliado ou inimigo, Juliette faria de tudo para encontrar uma arma que o combatesse.

Roma permaneceu em silêncio. E Juliette cedeu.

— Cai Junli — disse ela, com um tom monótono. — Mude a pronúncia um pouquinho e Junli vira Juliette.

Seu nome não era segredo; apenas caiu no esquecimento.

Ela era simplesmente Juliette, a herdeira que veio do Ocidente, com o vestido norte-americano e o nome norte-americano. Se as pessoas de Xangai cavassem fundo nas alcovas da memória, encontrariam o nome chinês de Juliette escondido em algum lugar entre a idade do avô e o endereço da casa da terceira tia favorita. Mas ele nunca viria à ponta da língua por instinto. O que proferiam era aquela palavra cuja velocidade Juliette havia reduzido e distorcido agora há pouco em um nome completo: Zhūlìyè.

— Você nunca me contou — disse Roma. Ele olhava para a frente. — No passado.

— Há um monte de coisas que eu não te contei — replicou Juliette. Tão casualmente quanto ele, complementou. — No passado.

Há quatro anos, a cidade não era como hoje. Muitos homens ainda tinham cabelos longos, presos naquilo que chamavam de fila, uma trança descendo pelas costas com a frente do couro cabeludo raspada. As mulheres usavam roupas largas e calças retas.

Então, aonde quer que Juliette fosse, usava vestidos cintilantes. Desdenhava das roupas feias que outras garotas usavam e, quando sua mãe tentava fazê-la aderir à moda comum, ela rasgava em pedaços as blusas sem graça de seu closet, deixando os retalhos descerem pela descarga no encanamento recém-reformado. Ela destruía todos os qipao e deixava de lado todo lenço de seda que Lady Cai tentava fazê-la usar. Para evitar ser reconhecida quando estava de

conluio com Roma, ela jogava casacos por cima de sua indumentária chamativa, claro, mas sempre andava pela corda bamba da inconsequência. Juliette quase preferia a ideia de ser pega em traição a usar as mesmas roupas que todo mundo. Ela preferia se tornar uma pária a admitir que o sangue em suas veias era um produto do Oriente.

Juliette gostava de pensar que havia descido um pouco do pedestal desde então. Na segunda vez que voltou para Nova York, viu a escuridão por trás do glamour do Ocidente.

Não era mais tão legal ser uma criança construída com peças ocidentais.

— Eu mesma o escolhi.

Roma se assustou visivelmente com as palavras. Ele não esperava que ela dissesse mais nada.

— Seu nome? — perguntou, tentando entender melhor.

Juliette anuiu. Não olhou para ele, nem mesmo piscou.

Disse:

— As crianças em Nova York zombavam de mim.

Perguntavam como eu me chamava e riam quando eu respondia, repetindo aquelas sílabas estrangeiras várias vezes, como se recitá-las como uma música fosse engraçado.

Ela tinha 5 anos de idade. A ferida da zombaria agora estava fechada, coberta por pele grossa e calos ásperos, mas ainda doía em dias ruins, assim como todas as feridas antigas.

— Meu nome era muito chinês para o Ocidente —

prosseguiu Juliette, com um sorriso sarcástico nos lábios. Ela não sabia por que seu rosto se metamorfoseara em alegria.

Ela estava tudo, menos alegre. — Você sabe como é. Ou talvez não. Uma coisa temporária para um lugar temporário,

mas agora a coisa temporária está entranhada tão fundo que não pode ser removida.

Assim que aquelas palavras saíram, Juliette sentiu uma pontada de náusea subir pela garganta — uma imediata e visceral percepção de que falara demais. Juliette, a tola melindrosa, que deveria auxiliá-la a sobreviver no Ocidente, havia cravado as garras tão profundamente que a Juliette real não sabia onde terminava a fachada e onde começava seu eu verdadeiro — se é que restava algo de seu eu verdadeiro, ou mesmo qualquer coisa dentro dela. Todos os seus primos — Rosalind, Kathleen, Tyler — tinham nomes em inglês para se acomodarem à enxurrada de estrangeiros que controlavam Xangai, mas seus nomes chineses ainda eram parte de suas identidades; seus parentes ainda se dirigiam a eles por esses nomes quando a ocasião pedia.

Juliette era sempre Juliette.

O ar estava pegajoso. Eles andaram por tempo suficiente para entrarem na Concessão Francesa, caminhando ao lado de uma fileira de casas idênticas com paredes vibrantes e trechos generosos de vegetação. Juliette ergueu mais a gola, fechando a cara quando Roma abriu e fechou a boca.

— Juliette…

Seria o limite entre inimigo e aliado horizontal ou vertical?

Era uma grande planície a ser cruzada ou um muro alto, muito alto, que deveria ser escalado ou derrubado em uma grande explosão?

— Acabamos por aqui, correto? — indagou Juliette. — Faça o que quiser com essa informação. Tenho certeza de que a ligação entre Zhang Gutai e o Larkspur lhe dará muito material para trabalhar.

Juliette virou à esquerda, pegando um atalho por um terreno que daria na rua seguinte. A grama ali crescia até seus tornozelos. Quando ela pôs os pés ali, parecia que o chão a engoliria, ficando mais mole e envolvendo-a simplesmente por pisar nele. Parecia dizer-lhe um “bem-vinda” , um “ande logo” , um “venha” .

Até que Roma pôs a mão em seu ombro, freando-a forçadamente.

— Você precisa — Juliette girou, afastando a mão dele com um tapa — parar de fazer isso.

— Não terminamos — disse Roma.

— Sim, terminamos.

As sombras da casa ali perto eram pesadas. Roma e Juliette ficaram bem onde elas terminavam, bem na divisa entre luz e trevas.

Roma a olhou de cima a baixo.

— Você ainda acha que é uma armação dos Comunistas, não? — perguntou ele, subitamente. Sua voz abaixou em uma oitava, como se percebesse que eles precisavam minimizar o volume da discussão enquanto estivessem em uma rua como aquela. Sob a luz da manhã, era difícil lembrar-se do sabor do perigo. Mas um passo em falso, uma pessoa espiando pela janela na hora exata, e ambos estariam em apuros.

— Roma — disse Juliette, friamente —, nossa colaboração acabou…

— Não, não acabou — insistiu Roma. — Porque isso não é uma coisa que você conseguirá investigar sozinha. Posso ver o que você está tramando só de te olhar. Você acha que pode simplesmente se infiltrar nos círculos Comunistas com seus recursos Escarlates…

Juliette deu um passo na direção dele. Ela não sabia se era o brilho intenso da luz do sol refletida por uma janela próxima, ou se ela estava com raiva o bastante para estar com a visão ofuscada de branco.

— Você — disse, fervendo por dentro — não sabe de nada.

— Sei o bastante para ver um padrão nesse caso do Larkspur — Roma estalou os dedos na frente do rosto de Juliette — Acorde, Juliette! Você só está ignorando essa pista porque quer pular fora da nossa colaboração e começar a investigar outros Comunistas! Não vai adiantar de nada!

Você está na trilha errada e sabe disso.

As palavras dele tinham uma força física — múltiplos golpes que acertavam sua pele. Juliette mal conseguia respirar, quanto mais reunir a energia para falar, para prosseguir com os sussurros que na verdade eram gritaria contida. Ela o odiava tanto. O odiava por estar certo. O

odiava por estar provocando aquela reação nela. E, acima de tudo, odiava ter que odiá-lo, porque, se não o fizesse, o ódio se voltaria contra ela e não haveria nada mais a odiar senão sua própria fraqueza.

— Você não pode fazer isso — disse Juliette. Agora, soava mais triste do que irada. E ela odiava aquilo. — Você não tem o direito de fazer isso.

Se ela se inclinasse um pouco mais para a frente, poderia contar os pontinhos de pólen que haviam pousado na ponte do nariz de Roma. A atmosfera ali era muito inebriante, estranha e bucólica. Quanto mais permaneciam ali —

ladeados por paredes branco-pérola, de pé sobre a grama ondulante — mais Juliette sentia-se pronta para trocar uma camada inteira de pele. Por que ela nunca conseguia se

reconstruir? Por que sempre estaria fadada a acabar naquela situação?

Roma piscou repetidamente. Ele também acalmara os ânimos e seu sussurro se suavizou.

— Fazer o quê?

Me ver.

Juliette virou de costas, abraçando a própria cintura.

— O que você está sugerindo? — perguntou, ao invés de responder. — Por que você está tão fixo nessa ideia de Larkspur?

— Pense nisso — disse Roma. Ele igualou o tom constante e baixo de Juliette. — Zhang Gutai é supostamente o criador dos surtos. O Larkspur é quem supostamente cura os surtos. Como pode não haver uma relação? Como pode não ter acontecido algo entre eles na reunião em que estiveram?

Juliette balançou a cabeça negativamente.

— Ligados ou não, se quisermos cortar esse mal pela raiz, temos que ir a quem cria, não a quem cura…

— Eu não estou dizendo que o Larkspur tem todas as respostas — Roma se apressou em corrigir. — Estou dizendo que o Larkspur pode nos levar a arrancar mais coisas de Zhang Gutai. Estou dizendo que é outro meio de chegar à verdade se Zhang Gutai não falar.

A lógica dele faz algum sentido, pensou Juliette. Ele não está… errado.

Mesmo assim, Juliette não deu o braço a torcer. Sua mãe uma vez lhe disse que ela quase veio ao mundo invertida —

pés primeiro — porque Juliette sempre recusava a saída mais simples.

— Por que você insiste tanto em me convencer? —

indagou. — Por que não vai confrontar o Larkspur sozinho e me manda “passar bem”?

Roma olhou para baixo. Seus dedos tremiam na direção dela; podia estar resistindo a vontade de tocá-la, mas Juliette afugentou aquela ideia a pontapés assim que surgiu em sua mente. Ternura e desejo eram sentimentos do passado. Se Roma tentasse algum dia acariciar suas costas outra vez, seria para contar suas vértebras e medir onde poderia cravar sua faca.

— Ouça, Juliette — disse ele, arquejando. — Nós temos as metades da cidade. Se eu agir sozinho, estou barrado do território Escarlate. Eu não vou arriscar perder uma cura para minha irmã apenas por causa de nossa disputa. Ela já levou muita gente embora. Eu não vou deixá-la levar Alisa.

Seus olhos retornaram a ela. Naquele olhar estavam tanto a tristeza como a raiva, transbordando até que cercassem o espaço entre eles. Juliette também estava no coração daquele conflito, devastada por ter que lutar contra essa insanidade junto ao homem que a despedaçara, e mesmo assim sentia dor por aquela cidade, pelo que descera sobre ela.

Roma estendeu a mão, hesitante.

— Até que os surtos parem, é só o que peço. Apenas entre nós dois, abaixamos as facas, as armas e as ameaças pelo tempo que for preciso para impedir que nossa cidade caia.

Você aceita?

Ela não deveria. Mas ele disse as palavras certas. Para Roma, salvar Alisa era tudo. Independentemente de monstros ou curas milagrosas de charlatões, tudo o que queria era que ela acordasse novamente. Para Juliette, a

cidade vinha em primeiro lugar. Ela precisava que seu povo parasse de morrer. Por um acaso, os objetivos de ambos convergiam.

Juliette estendeu a mão e apertou a de Roma. Houve uma centelha entre eles, uma terrível e quente faísca enquanto ambos pareceram se dar conta de que, pela primeira vez em quatro anos, tocavam-se sem sentimentos ruins. Juliette sentia-se como se tivesse engolido uma brasa de carvão.

— Até que os surtos parem — sussurrou.

Balançaram as mãos duas vezes, e então Roma as virou, de forma que a dele estivesse por baixo e a de Juliette, por cima. Se não podia haver nada entre eles, então pelo menos teriam aquilo — um segundo, um capricho, uma fantasia —

antes que Juliette voltasse a si e puxasse a mão de volta, retornando-a à lateral do corpo com punho cerrado.