Prazeres Violentos
Vinte e Um
— Amanhã, então — decidiu Roma. Sua voz estava áspera.
— Amanhã caçamos o Larkspur.
Vinte e um
Forçando uma expressão neutra, Kathleen entrou de fininho na plenária Comunista, de manhã cedo, passando direto pelas pessoas que vigiavam a porta, um pé após o outro.
Ela era muito boa nisso: ver sem ser vista. Kathleen atingia o equilíbrio entre confiança e timidez como se fosse um reflexo natural. Ela aprendera a juntar os pedacinhos que montavam as outras pessoas, extraindo seus atributos e os moldando em uma amálgama própria de si mesma. Ela adotara o jeito como Juliette erguia o queixo quando falava, exigindo respeito, mesmo em seus piores dias. Ela aprendera a imitar a maneira como Rosalind abaixava os ombros quando o pai começava seus sermões infinitos, ficando intencionalmente pequena, para que ele percebesse que estava amuada e parasse, mesmo que, em seus lábios, brincasse um sorriso imperceptível.
Às vezes era difícil para Kathleen lembrar-se de que ainda era ela mesma, não cacos de um espelho que refletiam milhares de personalidades diferentes de acordo com a situação.
— Com licença — disse Kathleen, distraída, estendendo a mão para afastar e passar por dois Comunistas que conversavam intensamente. Eles abriram caminho sem dar muita atenção a ela, permitindo que Kathleen continuasse avançando pelo espaço lotado. Ela não sabia para que direção estava indo. Apenas sabia que precisava continuar
se movendo até que a plenária começasse, ou então pareceria deslocada.
A plenária estava sendo realizada em um grande salão, com teto côncavo e alto, curvando-se para cima para encontrar-se com a inclinação do telhado. Em outro país, talvez o local tivesse sido uma igreja, com vitrais e espessas vigas de madeira. Aqui, era simplesmente um espaço para casamentos de estrangeiros e eventos organizados por gente rica.
Por ironia, agora quem estava alugando o local eram os Comunistas.
— Entre, saia — Kathleen murmurou para si mesma, ecoando as palavras que Juliette lhe dissera naquela manhã mais cedo. Quando Juliette foi até ela e Rosalind pedir ajuda, estava agitada e frenética, com metade do braço já enfiado no casaco.
— Deve haver um motivo, não é? — indagou Juliette. — Os Comunistas não estariam murmurando sobre um gênio no Partido idealizando isso tudo se não tivessem alguma prova.
Se Zhang Gutai é inocente, então a prova também evidenciará isso e apontará outra direção. Por isso precisamos chegar até ela.
Rosalind já havia sido requisitada em outro lugar, na boate, para uma reunião importante que Lorde Cai teria com estrangeiros que precisavam ser impressionados, que precisavam ver Xangai em toda a sua extravagante e resplandecente glória. Pela expressão de desagrado de Rosalind, ela parecia não estar muito ansiosa para ser enviada aos Comunistas. Kathleen, por outro lado, não se importava. Por mais que tentasse desprezar aquela atmosfera, havia um certo prazer em estar enfiada até o
pescoço no caos, no movimento e na tensão fervilhante e crescente. Isso a fazia sentir como se fosse parte de algo, mesmo que fosse apenas uma pulguinha presa em um guepardo em disparada atrás de uma presa. Se ela entendesse de política, entenderia a sociedade. E, se entendesse a sociedade, então estaria bem equipada para sobreviver a ela, para manipular o campo à sua volta até que pudesse ter uma chance de viver sua vida em paz.
Por mais que amasse a irmã, Kathleen não queria viver da mesma maneira que Rosalind, entre as luzes e o jazz. Ela não queria entrar em um figurino e empoar o rosto até que estivesse tão branca quanto uma folha de papel, como Rosalind fazia todos os dias, com uma expressão de desdém. Juliette não sabia o quanto tinha sorte por ter nascido com sua pele, com maçãs do rosto alvas, lisa como porcelana. Era preciso ter muita sorte na loteria genética; bastava um código diferente para que fosse necessária uma vida inteira de adaptação forçada.
Tudo o que Kathleen podia fazer para sobreviver era traçar seu próprio caminho. Não havia alternativa.
— Sou uma caloura da universidade — murmurou Kathleen, ensaiando sua resposta caso alguém perguntasse quem ela era — trabalhando como repórter para o jornal do campus. Espero aprender mais sobre as animadoras oportunidades para os operários de Xangai. Cresci pobre.
Minha mãe faleceu. Meu pai está morto para mim— uuf.
Kathleen ficou imóvel. A pessoa em que esbarrou fez uma mesura, se desculpando.
— Por favor, me perdoe. Eu não vi para onde estava indo
— o sorriso de Marshall Seo era radiante e forçado, mesmo
enquanto Kathleen o encarava longamente. Ele não a reconheceu? Por que razão estava ali?
Provavelmente pela mesma que você.
— Não há o que perdoar — respondeu Kathleen, rapidamente, inclinando a cabeça. Ela se virou para seguir em frente, mas Marshall deu um passo para o lado, mais rápido do que um piscar de olhos da moça, colocando-se bem em frente a ela, que por pouco não bateu o nariz contra o peito dele.
— Para que a pressa? — perguntou Marshall. — A plenária não vai começar agora.
Ele definitivamente a reconheceu.
— Quero achar um assento — respondeu Kathleen. Seu coração começou a pular no peito. — A acústica aqui engana. É melhor ficar o mais perto possível do palco.
Não importava que nenhum deles estivesse usando as cores de suas organizações, que estivessem comparecendo a uma plenária de um grupo que rejeitava a ambos.
Estavam de lados opostos — e um embate era um embate.
— Ah, mas fique um pouco aqui, minha cara! — insistiu Marshall. — Veja, ali — Marshall pôs a mão no cotovelo dela.
A mão de Kathleen imediatamente foi para a cintura e seus dedos envolveram a pistola que repousava por baixo de seu casaco.
O ar ficou estático.
— Não faça isso — sussurrou Marshall, quase com tristeza.
— Você sabe que não é uma boa ideia.
Um embate era um embate — então por que ele não a expulsava dali? Aquele território era Rosa Branca. Seria uma decisão péssima se ela resolvesse atirar nele, mas ele podia
atirar nela — podia matá-la e os Escarlates não poderiam fazer coisa alguma.
Lentamente, Kathleen foi tirando os dedos da arma.
— Você nem sabe o que eu estava para fazer.
Marshall sorriu de orelha a orelha. A expressão veio em um lampejo — séria por um segundo, exultante no seguinte.
— Será que não?
Ela não sabia como responder àquilo. Não sabia como responder a toda a conversa em si — como responder àquele tipo de flerte que mais parecia um traço de personalidade do que algo feito com um objetivo em mente.
Como responder ao simples fato de ele não estar apontando uma arma para ela.
Um truque. Os Rosas Brancas sabiam como jogar.
Marshall continuava ali, parado. Seu olhar movia-se para a testa, para o nariz e para o pingente no pescoço dela e, embora Kathleen instintivamente quisesse se encolher diante da inspeção, percebeu que os ombros dele estavam relaxados, quase como se o desafiassem a dizer mais alguma coisa.
Ele não disse. Marshall sorriu, como se simplesmente estivesse se divertindo com aquele duelo de quem encarava mais.
— Bem, o papo estava bom — Kathleen deu um passo para trás —, mas eu quero achar meu assento agora. Adeus.
Ela se afastou, apressada, bufando e sentando-se na primeira cadeira que encontrou perto da frente. Ela nem mesmo queria se sentar. Estava tentando falar com os Comunistas. Por que ela era tão ruim em manter-se na missão?
Kathleen olhou em volta. À sua esquerda, uma mulher idosa roncava. À sua direita, dois jovens universitários — de verdade, não como ela, a julgar por seus cadernos —
estavam intensamente focados em discutir seus planos para depois da plenária.
Kathleen esticou o pescoço, e depois mais um pouco, tamborilando os dedos freneticamente no espaldar da cadeira. Um tique-taque começou em sua mente, no ritmo em que piscava os olhos, como se o tempo que passava ali fosse uma coisa finita e estivesse acabando.
O olhar de Kathleen fixou-se em três homens calvos, duas fileiras atrás de si. Quando ela aguçou os ouvidos e se concentrou, percebeu que falavam em xangainês, balbuciando sobre a situação da Expedição do Norte, batendo os dedos nos joelhos e movendo as línguas tão rápido que lançavam perdigotos em todas as direções. O
modo como gesticulavam a fez pensar que eles não eram apenas meros participantes. Eram membros do Partido.
Perfeito.
Kathleen foi até eles, arrastando a cadeira até que pudesse se sentar bem ao lado deles.
— Os senhores têm um segundo? — disse ela, interrompendo a conversa. — Sou da universidade —
Kathleen puxou um gravador de seu bolso e o segurou diante de si. A coisa estava, na verdade, quebrada, e fora desenterrada, inusitadamente, de uma pilha de balas não utilizadas no arsenal da mansão Cai.
— Nós sempre temos tempo para nossos estudantes —
respondeu um dos homens. Ele inflou o peito, se preparando.
Estou gravando sua voz, não tirando uma foto sua, pensou Kathleen.
— Gostaria de publicar um artigo sobre o Secretário-Geral do Partido — disse ela, em voz alta. — Zhang Gutai? — ela olhou o palco de relance. Havia pessoas se reunindo no tablado agora, mas estavam falando entre si, folheando anotações. Ela tinha alguns minutos antes que o lugar caísse no silêncio. Não havia tempo para amaciar aqueles homens com perguntas. Ela precisava extrair a informação que queria o mais rápido possível, moldando-os à forma adequada.
— O que tem ele?
Kathleen pigarreou.
— A revolução precisa de um líder. Os senhores acreditam que sua natureza competente será um recurso?
Silêncio. Por um momento, ela receou ter começado muito incisiva, pisando com o pé descalço em um ninho de víboras e as fazendo voltar às suas tocas, assustadas.
Então os homens começaram a gargalhar.
— Natureza competente? — repetiu um deles, ofegando. —
Não me faça rir.
Kathleen piscou, confusa. Ela esperava que suas principais perguntas os induziriam a pensar que ela sabia mais do que realmente sabia. A competência de Zhang Gutai parecia ser um bom chute, não? Havia poucos outros traços de personalidade que poderiam servir ao gênio que idealizou uma epidemia. Em vez disso, seu tiro no escuro acertou uma coisa diferente.
— Os senhores não acham que o Sr. Zhang é competente?
— perguntou, com a perplexidade encharcando a voz.
— O que faz a senhorita pensar que ele é? — rebateu um dos três homens, retribuindo o espanto genuíno.
No palco, um palestrante deu tapinhas no microfone. Um retorno agudo soou por todo o espaço, ricocheteando nos cantinhos das alcovas no teto.
— É um palpite plausível.
— É mesmo?
Kathleen sentiu um tique surgindo em seu maxilar. Ela não conseguiria se manter naquele jogo. Era destreinada na arte de falar inverdades.
— Correm boatos de que ele criou a insanidade que está assolando a cidade.
Os três homens ficaram paralisados. Enquanto isso, o primeiro palestrante começava a dar boas-vindas aos presentes, agradecendo-os por estarem ali e chamando quem estava nos fundos para mais perto do palco.
— Que tipo de artigo você está escrevendo? — o sussurro flutuou até Kathleen, vindo do homem que estava sentado mais distante dela. Ele falava de um jeito que o fazia mover apenas metade da boca, empurrando as palavras pelas brechas entre os dentes e a fina abertura dos lábios.
O gravador ficou mais pesado nas mãos de Kathleen.
Cuidadosamente, ela o segurou firme e o guardou, determinando que ele servira a seu propósito.
— Um estudo sobre o poder — respondeu ela — e sobre a insanidade que vem com ele. Um estudo sobre o poderoso e sobre aqueles que o temem — não permitindo erros no significado de suas palavras, Kathleen sussurrou. — O
desvendar da insanidade.
Aplausos soaram pelo salão. De algum lugar distante, Kathleen pensou ter ouvido um breve som de sirenes se
mesclando ao ruído, mas, quando os aplausos cessaram, tudo o que ouviu foi o próximo palestrante — um Bolchevique real que viera de Moscou — enaltecendo os benefícios da sindicalização.
— Não se engane — o homem mais próximo a ela olhou-a nos olhos rapidamente antes que voltasse a fitar o palco. Se ele não estivesse contemplando aquela palestra, Kathleen jamais pensaria que ele era um Comunista. O que tornava aquele homem diferente dos outros na rua? Em que ponto o egocentrismo político virava fanatismo suficiente para morrer por uma causa? — Se quiser desvendar o papel de Zhang Gutai nesses surtos, não é o poder que o eleva.
— Então o que é? — indagou Kathleen.
Nenhum dos homens respondeu. Talvez o discurso do Bolchevique no palco fosse muito cativante. Talvez eles estivessem apenas com medo.
— Vocês se autoproclamam arautos da igualdade —
Kathleen pisou em um panfleto que fora descartado no chão. O grande texto em destaque sangrava tinta, manchado de gotas de chá que alguém derramara. —
Façam jus a isso. Permitam-me expor Zhang Gutai como o canalha falso que é. Ninguém precisa saber que vocês são a fonte. Eu nem sequer sei seus nomes. Os senhores são soldados anônimos da justiça.
Um instante se passou. Os homens estavam se coçando para falar. Kathleen podia ver no brilho de seus olhos, no êxtase que se sente quando se pensa estar fazendo o bem no mundo. O Bolchevique no palco fez uma mesura. O salão irrompeu em uma onda de aplausos. Kathleen esperou.
— Você quer escrever um estudo sobre o poder dele? — o homem mais perto dela se inclinou. — Entenda isso: Zhang Gutai não é poderoso. Ele tem um monstro sob seu comando.
Um vento frio passou pelo salão. Com os aplausos morrendo, o público se aquietava novamente.
— O quê?
— Nós o vimos — disse o segundo homem, convicto. —
Nós o vimos saindo de seu apartamento. Ele o manda matar aqueles que se opõem a ele, como um demônio na coleira.
— Todo o Partido sabe — complementou o terceiro homem
—, mas ninguém fala contra essa desonra quando a maré segue na direção que desejamos. Quem ousaria?
Sob as sombras coloridas das janelas manchadas, todo o público pareceu se virar para frente, aguardando o próximo palestrante enquanto o palco permanecia vazio. Kathleen era provavelmente a única pessoa virada para outra direção.
Esses homens pensam que ver o monstro causa o surto, percebeu. Eles pensam que o monstro é um assassino sob as ordens de Zhang Gutai, matando quem o olhasse. Mas, então, como os insetos entram na equação? Por que Juliette falou tanto de criaturas como piolhos espalhando os surtos?
— A mim, isso parece poder — comentou Kathleen.
— Poder é algo alcançável por poucos — disse o homem, dando de ombros. — Qualquer um pode ser mestre de um monstro caso o coração seja suficientemente perverso.
O salão de repente virou um caos: cadeiras se batiam e sons estridentes ecoavam no espaço acústico. Subitamente, Kathleen lembrou-se de ouvir as sirenes à distância e de não ter lhes dado importância, mas, de fato, eram sirenes,
trazendo consigo o cumprimento da lei que não cumpria lei alguma, apenas mantinha as coisas como estavam. Aquele era um território Rosa Branca. Eles pagavam uma quantia vultosa à garde municipale para manter seus gangsteres no controle, o que incluía atacar as plenárias dos Comunistas, atacar qualquer tentativa do partido em começar a revolução e erradicar o jugo da máfia.
— Parem imediatamente e ponham as mãos para cima —
berrou um dos guardas.
O movimento apenas se intensificou enquanto pessoas jorravam pelas portas e mergulhavam para debaixo de mesas. Vagamente, Kathleen pensou em fazer o mesmo, mas um guarda já marchava na direção dela, com uma expressão assediadora.
— Venez avec moi — ordenou o guarda. — Ne bougez pas.
Kathleen emitiu um ruído pensativo.
— Non, monsieur, j’ai un rendezvous avec quelqu’un.
O guarda deu um pulo de surpresa. Não esperava o sotaque parisiense. Ele mesmo não tinha as características dos franceses brancos normalmente vistos na Concessão.
Assim como muitos membros da garde municipale, ele era apenas um produto da colonização francesa, enviado a trabalho de Aname ou de qualquer um dentre os vários países ao sul da China que não conseguiram manter os estrangeiros fora de seu governo.
— Maintenant, s’il vous plaît — vociferou o guarda, com os pelos visivelmente eriçados pela insolência de Kathleen. Ao redor deles, Comunistas eram jogados ao chão e rendidos.
Aqueles que não correram rápido o bastante seriam processados e inseridos em uma lista, nomes que seriam
monitorados caso o Partido crescesse mais e precisasse ser abatido.
— Ah, deixe ela em paz.
Kathleen se virou rapidamente, com a cara muito fechada.
Marshall estava mandando o guarda embora com um aceno, e em sua mão estava um anel que claramente pertencia à coleção de heranças Montagov. O anel cintilava à luz e a expressão de ira do guarda ficou mansa. Ele pigarreou e saiu para abordar uma vítima diferente que estivesse por perto.
— Por que você fez isso? — indagou Kathleen. — Por que ofereceu ajuda quando não foi solicitada?
Marshall deu de ombros. Ele pareceu ter conjurado do nada uma maçã vermelha e brilhante.
— Eles pisam na gente o tempo todo. Eu quero ajudar — e deu uma mordida na maçã.
Kathleen puxou a jaqueta. Se ela puxasse mais, o tecido ganharia um amarrotado permanente.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou ela, com frieza. — A garde municipale está do seu lado. Eles nunca pisarão em vocês.
— Claro que pisarão — sorriu Marshall. Mas, dessa vez, o sorriso não chegou a seus olhos. — Todos eles pisam. Mal podem esperar para engraxar os sapatos e nos esmagar de vez com eles. Pessoas como nós morrem todos os dias.
Kathleen não se moveu.